sábado, 2 de fevereiro de 2013

V. Guimarães 0 - 4 FC Porto: Até lhes partir os dentes.


Até lhes partir os dentes.






Pode parecer excessivamente agressivo, mas é a expressão que me veio à cabeça no final do jogo. Não no sentido literal da expressão e muito menos em jeito de resposta aos impropérios que mais uma vez se ouviram ao FC Porto no D. Afonso Henriques. Isso já nem vale a pena. A estupidez não precisa de descrição, muito menos de publicidade.





É que este Vitória de Guimarães entrou contra o FC Porto com o dorso arqueado, pêlo eriçado, pupilas dilatadas, espumando da boca, mostrando os dentes e com uma vontade raivosa de ferrar. Direi até, com uma vontade incontrolada de parar o FC Porto. Parece que esse desiderato dá acesso a algum prémio que vai para lá do sucesso desportivo, tal a quantidade de equipas que entram nos jogos contra o FC Porto desta forma. Uma voracidade por canelas bem superior à voracidade pela bola.

Mas ontem, o FC Porto vestiu a farda número um. Abordou o jogo de forma perfeita. Tacticamente sublime, tecnicamente inatingível para este Vitória de Guimarães e emocionalmente focado na vitória e não no Vitória. A cada lance de perigo eminente e, sobretudo, a cada golo, era mais um dente que se partia na boca espumante do adversário. Quatro golos, quatro caninos a voar. Partidos não ao soco, mas com uma demonstração de alto gabarito de ciência dentária aplicada ao mundo da bola. Sempre sem anestesia e sempre sem sangramento. Talento demasiado.

A vontade de ferrar persistiu até ao fim, sublinhado pelas palmas finais do público caseiro, mas uma boca desdentada já não serve para ferrar. É este o mérito enorme do FC Porto de ontem. Não se perdeu na agressividade alheia, meteu muito futebol em campo e vergou o adversário à impotência. Impotentes em parar o FC Porto e incapazes de morder.

Vítor Pereira introduz uma única alteração no onze inicial. A lesão de Defour abre a porta da titularidade a Izmaylov. É uma alteração que dá ao FC Porto maior capacidade de controlo de jogo a meio campo. O futebol escorregadio de Izmaylov, naquele jeito de jogador que está ali e nem parece que vá fazer grande coisa, mas depois faz, ajudou a rendilhar ainda mais o futebol a meio campo do FC Porto. A incerteza dos movimentos interiores e exteriores de Izmaylov, juntamente com um meio campo portista em plena produtividade, fizeram com que o meio campo do Vitória de Guimarães levasse o jogo inteiro sem perceber o que raio se passava, que nem a bola viam. Corriam que nem doidos e entravam duro, mas a bola seguia, de pé para pé, sempre uns bons decímetros à frente dos esforços raivosos do meio campo do Vitória. E quando, finalmente, o Vitória de Guimarães encontrava a bola, Fernando ganhava 5 metros de altura e outros tantos de largura. Sem espaço e com pressão alta do meio campo portista, o Vitória de Guimarães era forçado a jogar directo para o pinheiro Guineense que tinha plantado lá na frente.

O FC Porto volta a ter uma entrada poderosa no jogo, varrendo logo o Vitória de Guimarães do meio campo e não dando hipóteses ao adversário de ousar construir o ataque. É um bom hábito que se vem revelando nos últimos jogos.

Logo aos três minutos, fica o primeiro aviso. Livre muito bem cobrado por Moutinho no flanco direito, com um cruzamento tenso, mas Mangala e Lucho, isolados e sem marcação, ao segundo poste, ficam a milímetros de desviar para golo. Ao minuto 7, grande jogada do meio campo do FC Porto e desmarcação perfeita de Lucho, mas o lance é interrompido pela marcação de fora de jogo. Erro crasso do auxiliar, que na primeira parte assinalou, erradamente, mais dois fora de jogo. Um hábito que também se perpétua nos últimos jogos.




Ao minuto 11, Jackson é lançado no flanco esquerdo, entra na área, mas o ângulo de remate é reduzido e o perigo passa. Começa aqui a avalancha que leva ao primeiro golo. Dois minutos depois, Varela é lançado na direita, tabela com Lucho e remata forte e colocado para defesa apertada de Douglas para canto. A ameaça adensa-se e do canto, cobrado por Moutinho, surge o golo. Cruzamento tenso de Moutinho para o coração da área e Mangala, qual guindaste (isso mesmo!), totalmente suspenso no ar e vários palmos acima do seu adversário, roda no ar para cabecear ao ângulo contrário! É um golo que não cansa ver. É uma brutidade pelo desempenho atlético e técnico.



O Vitória de Guimarães tenta aumentar ainda mais os índices de agressividade, mas é o FC Porto que continua a apertar o ferrolho no aspecto táctico e técnico do jogo. Aos 17 minutos, mais um desmarcação de Jackson e mais um fora de jogo mal assinalado. Dois minutos depois, Izmaylov rebenta a linha defensiva do Vitória de Guimarães com um passe magistral para a diagonal de Jackson (miraculosamente, não foi assinalado fora de jogo!). Jackson avança sobre a área vimaranense descaído para a esquerda do ataque e remata em arco, mas Douglas responde em grande altura e desvia para canto.

Ao minuto 29, Jackson volta a rondar a baliza a baliza de Douglas. É servido por Lucho, mas o remate sai fraco. Ao minuto 37, nova investida de Jackson, mas Douglas torna a desviar o remate para canto. Este “carteiro” tocou três vezes, chegava a hora de distribuir postais. Do canto, sai o primeiro postal ilustrado. Moutinho volta a cobrar tenso e Jackson é avassalador para Freire e Douglas. Embalado, antecipando-se à marcação, cabeceando de baixo para cima e colocando rente ao poste, Jackson fuzila a baliza do Vitória de Guimarães. Mais um golaço e mais uma demonstração de qualidade insuperável para o Vitória de Guimarães.

A primeira parte estava arrumada. Assim como o Vitória de Guimarães, embora ainda houvessem alguns dentes a extrair. Como fez questão de mostrar Barrientos a Moutinho, numa agressão não sancionada com vermelho directo e já para lá da linha de fundo.

A segunda parte é um decalque da primeira, embora mais sórdida por parte do FC Porto. A qualidade de jogo foi ainda mais transbordante, o que permitiu ao FC Porto dar-se ao luxo de testar um novo sistema de jogo nos minutos finais em Guimarães!

O Vitória de Guimarães ainda tenta dar algum sinal de vida no início da segunda parte, mas o pulso estava fraco e nem perigo causou. Aos 51 minutos, o FC Porto revela sua estratégia para a segunda parte: continuar a dominar a meio campo e lançar-se perigo no ataque, sobretudo por jogo flanqueado. O FC Porto recupera a bola a meio campo, Varela serve Danilo, mas o lateral não é incisivo e o lance perde-se.






Ao minuto 56 salta mais um canino ao Vitória de Guimarães. É uma jogada espantosa. Fernando recupera a bola, avança sobre o meio campo do Vitória de Guimarães, vence a linha de meio campo, encosta no meio campo defensivo vimaranense e mete um passe picado vertical para a desmarcação de Jackson (por favor!!! Mostrem isto aos meninos da nossa formação! Como aguentar uma marcação, como rodar e arrancar no momento certo e como abrir a linha de passe! É uma aula sobre futebol em 3 segundos!)





Tamanha é a oferta, que Jackson não podia desperdiçar. Encara Douglas e com toda a calma atira a contar. Há um pormenor delicioso neste golo. A bola picada por Fernando ao bater no chão recua devido ao efeito da rotação que a bola leva. Jackson, num primeiro instante, é surpreendido (até trava ligeiramente o seu movimento), mas depois o seu pé é como uma colher que vai buscar a bola atrás, para a meter perfeita para o remate na próxima passada.


Só este detalhe define a excelência do ponta de lança que temos.



Como o 3-0 o Vitória de Guimarães desespera. Primeiro, os adeptos. Para o banco do FC Porto chovem objectos e Acácio Valentim é atingido perto da vista. Para lá dos petardos e das cadeiras eternamente voadoras em Guimarães, espera-se mão pesada da liga. Haverá coragem?

Depois, na equipa técnica, o desespero é igualmente galopante, sobretudo perante a qualidade transbordante do FC Porto. Rui Vitória, apercebe-se, por fim, que o meio campo do Vitória de Guimarães não tem unhas para este FC Porto, por mais que a equipa corra atrás das canelas portistas. Decide retirar Barrientos do bolso de Fernando e colocar Crivellaro. O destino de Crivellaro foi o mesmo, já se sabia. A segunda substituição é miserável. Retira Alex, recua Ricardo para lateral e coloca André em campo para correr atrás dos criativos do FC Porto. O Vitória de Guimarães abdica de tentar buscar um golo e reforça a táctica mais vista contra o FC Porto: o autocarro.

É chegada a vez de Vítor Pereira mexer no jogo. Com o 3-0 no marcador e perante o abdicar do Vitória de Guimarães de chegar ao golo, mas não às canelas portistas, cabia rodar plantel. Protege Izmaylov e Lucho, dando uma oportunidade a Sebá e Castro. O FC Porto ganha nova ânimo e atira-se ao último canino que restava na boca adversária.




Aos 73 minutos, o FC Porto chega ao quarto golo. Jogada construída no flanco esquerdo, entre Varela e Alex Sandro. O lateral portista a transportar a bola para o ataque e a libertar no momento certo para a entrada de Varela no flanco esquerdo. Em dia de aniversário, Varela dá como prenda um “nó” daqueles a Tiago Rodrigues, corta para dentro e centra na perfeição para cabeça de Jackson. Sobre a arte da fuga de Jackson a Freire, pouco mais há para dizer. É (re)ver o golo. Com a posição ganha, bastou encaminhar a bola para o golo. Prémio mais que merecido, este quarto canino. Castigo mais que justo para quem abdica do jogo.




Já com um Vitória de Guimarães totalmente desdentado, Vítor Pereira coloca Liedson em jogo. Quando se pensava que haveria algum descanso para Jackson, Vítor Pereira retira Moutinho. Uma oportunidade de testar em jogo uma nova abordagem táctica: Liedson e Jackson juntos no ataque.

O FC Porto continuou produtivo e ameaçou a mão cheia por duas vezes. Primeiro, mais um desmarcação de Jackson, com Douglas a aguentar a queda e com o Cha-Cha-Cha a tentar servir Liedson para a sua estreia a marcar. Liedson ainda atira, mas a bola esbarra num defesa do Vitória de Guimarães. Depois, no minuto 80, mais uma desmarcação primorosa de Jackson, com Paulo Oliveira a cortar no último momento. Foi por pouco!






O FC Porto sai de Guimarães com um jogo fabuloso e uma vitória estrondosa. Pode parecer superlativo, mas o jogo que o FC Porto fez em Guimarães foi impressionante e em todos os aspectos do jogo. A atitude mental da equipa foi o mais impressionou. Nem por um instante desviou o olhar da baliza do Vitória de Guimarães. Fosse por tentativa adversária de correr atrás de tudo o que fosse azul ou por mexidas estruturais na equipa, nunca o FC Porto deixou de ameaçar mais um golo.





É interessante ver como estas equipas que entram com tudo frente ao FC Porto, mas frente a outra equipa, rebolam e mostram o ventre, de patas para cima, língua de fora e rabinho a abanar. Porque será?

Por fim, bom trabalho nas bolas paradas ofensivas do FC Porto. Parabéns a Vítor Pereira.


Análises Individuais:

Helton – Volto a perguntar, pelo segundo jogo consecutivo, esteve em campo? Sim, esteve. Vi-o a levar uns encostos valentes. Porrada, portanto.

Danilo – Está bem melhor que no início da época. No plano defensivo esteve excelente, faltou-lhe maior capacidade de romper pelo flanco e mais acerto na hora da decisão.

Alex Sandro – Mais uma jogatana danada. Ricardo não o fez suar e no ataque foi sempre perigoso. Tecnicamente é um jogador soberbo. Falta-lhe um pouco mais de intensidade e é um jogador de nível mundial.

Otamendi – Fora o pequeno lapso no lance sobre Baldé, onde leva amarelo, fez um jogo perfeito. Senhorial.

Mangala – Um muro! Lá atrás era tudo dele. Destaco o corte aos 40 minutos de jogo. Brutal. No ataque, participou no ataque aéreo ao Castelo, com o primeiro golo que é um assombro.

Fernando – É um craque. Jogador raro que tem qualidade em tudo. A assistência que faz para o terceiro golo do FC Porto atesta bem que não é o “mau passador” que muitas vezes o tentam pintar. Engoliu o meio campo vimaranense e ainda lançou o ataque. Um 6 moderno e com capacidade para levar a equipa para a frente.

Moutinho – Mais uma grande exibição. Duas assistências, com duas bolas paradas primorosamente cobradas.  Mas mais que isso, trabalho de formiga naquele meio campo não deixou o Vitória de Guimarães entrar no jogo!

Lucho – Não esteve ao mesmo nível que os seus colegas de sector, mas foi muito dinâmico. Revela um entrosamento cada vez melhor com Jackson e leva a equipa para a frente.

Izmaylov – Tem aquele estilo que parece que não sai dali grande coisa e, de repente, solta aquele passe, ou aquela finta que tudo muda. Fez uma boa primeira parte, ajudando muito a dar fluidez ao jogo a meio campo do FC Porto. Decaiu de produção na segunda parte, o que era expectável pela sua condição física.

Varela – Parece que o “bom e velho” Varela está de volta. Aquele Varela que tinha capacidade de decidir um jogo, fazer a cabeça em água a um lateral ou distribuir jogo com preceito. Excelente primeira parte, com muita profundidade dada ao flanco direito e no flanco esquerdo, quando trocava com Izmaylov. Manteve o nível na segunda parte e acaba com chave de ouro, com uma assistência para o quarto golo. O lance em si revela o quanto Varela está melhor.

Jackson – Claro que é o melhor em campo. Só pode. Não é injusto para Fernando, Mangala, Alex Sandro, Moutinho ou Varela. É que os três golos que marca parecem quase um detalhe no jogo que fez. Fernando empurra a equipa para a frente e Jackson puxa a equipa para a frente. Um em cada ponta. É raríssimo ver um ponta de lança com tal omnipresença no jogo da equipa. Quase como se o golo fosse mais um detalhe no seu trabalho. E é um jogador com uma técnica assombrosa!


Castro – Boa entrada em jogo. Manteve a fluidez no jogo. Está mais confiante e isso nota-se no seu jogo.

Sebá – Não teve o mesmo impacto que Castro, mas não destoou da equipa.

LiedsonQuase marcava na estreia. Percebeu ao que vem e foi interessante vê-lo em dupla com Jackson.



Análise dos Intervenientes:

Vítor Pereira: 


«Foram quatro, podiam ter sido mais»


"Uma entrada muito forte no jogo, muita qualidade do princípio ao fim, com uma intensidade altíssima, circulámos a bola a toda a largura, com uma agressividade tremenda em relação à perda. Fizemos mais um bom jogo, num campo difícil, diante de uma adversário dificílimo. Foram quatro, podiam ter sido mais."

O F.C. Porto está no melhor momento?

Atingimos uma maturidade em termos de jogo com uma qualidade alta e, com a qualidade que os jogadores têm, jogam em qualquer campo, de qualquer forma. Não se vê grandes diferenças de qualidade, é uma questão de afinar.

Izmaylov foi titular, gostou do que viu?

- Claro que sim, o Izmaylov acrescenta, tem muita qualidade, trás qualidade técnica, está como peixe na água.

E Liedson?

É ganhar condição física, ligar-se com os colegas, acredito que nos vai ajudar muito.

Vai jogar mais vezes com Jackson?

Acredito que sim.


Jackson:

«Tive uma noite maravilhosa»


«Foi um bom jogo, uma partida muito completa defensiva e ofensivamente. Criámos ocasiões e tivemos sempre controlo da partida. Como avançado, quer-se sempre marcar, ajudar a equipa, a chegar à vitória. Tive uma noite maravilhosa, marcando os meus primeiros três golos num jogo em Portugal. Estou feliz. Buscámos melhorar as coisas. Liedson? Vejo muito bem, tive uma jogada em que podia ter feito o quarto golo, mas podia ter-lhe passado a bola.»

Alex:

«Não foi um bom jogo da nossa parte e foi um grande jogo do FC Porto, que abordou este desafio de forma que não é normal. Sabia que ia ser difícil e deu cem por cento. O FC Porto pressionou muito alto, nós não conseguimos sair. O FC Porto venceu justamente. O Vitória está de parabéns pelo que trabalhou, prova disso é o aplauso final dos adeptos. Como estava a dizer, temos de aprender e ninguém aprende sem bater com a cabeça na parede. Isto não vai mexer com a equipa. O Porto está para o campeonato português como o Barcelona está para o campeonato espanhol.»




Ficha do Jogo:

V. Guimarães-FC Porto, 0-4
Liga, 17.ª jornada
2 de Fevereiro de 2013
Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães
Assistência: 17.244 espectadores

Árbitro: Marco Ferreira (Madeira)
Assistentes: Cristóvão Moniz e Sérgio Serrão
Quarto árbitro: Pedro Campos

V. GUIMARÃES: Douglas; Alex, Freire, Paulo Oliveira e Addy; Tiago Rodrigues e Siaka Bamba; Ricardo, Barrientos e Marco Matias; Amido Baldé
Substituições: Barrientos por Crivellaro (61m), Alex por André (61m) e Ricardo por Machis (80m)
Não utilizados: André Pereira, João Ribeiro, Jona e Josué
Treinador: Rui Vitória

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando, João Moutinho e Lucho (cap.); Varela, Jackson e Izmaylov
Substituições: Lucho por Castro (70m) e Izmaylov por Sebá (70m) e João Moutinho por Liedson (76m)
Não utilizados: Fabiano, Maicon, Abdoulaye e Tozé
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 0-2
Golos: Mangala (14m) e Jackson (36m, 56m e 72m)
Cartão amarelo: Varela (9m), Alex (35m), Barrientos (40m), Otamendi (65m)






Por: Breogán
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