quarta-feira, 10 de abril de 2013

História do FC Porto: Os Guarda-Redes


GUARDA-REDES DO FC Porto
O número um é o começo de quase tudo. Pois bem, no futebol, o número um é propriedade (quase) exclusiva do guarda-redes (embora aos melhores fosse conferida liberdade para escolher o 99!). Foi, então, pela baliza que optamos por começar estas recordações (tanta vezes, aprendizagem) da grandiosa história do FCP.

E, se há lugares onde sempre tivemos qualidade, o “goleiro” é certamente um deles. Alguns tinham mãos-de-ferro, outros marcaram golos imortais de baliza a baliza, tivemos os que se imortalizaram em música, e os que se celebrizaram pela colecção de troféus única no mundo; alguns, estrangeiros, bateram recordes de títulos nacionais, mas todos são reconhecidos no imaginário portista, mesmo que o seu nome se limite a um impronunciável conjunto de consoantes…


O PRIMEIRO

McGeoch. No célebre primeiro jogo contra o F. C. Lisbonense, em Março de 1894, as crónicas referem-no apenas pelo apelido: McGeoch. Apesar de singelas, não deixaram de fazer interessantes referências elogiosas ao seu desempenho, creditando-o com uma exibição entre as melhores da tarde. A explicação viria umas linhas mais à frente, justificando a sua qualidade acima da média, com o seu passado a defender as redes na sua terra natal: Escócia.
A McGeoch não mais se leu qualquer referência, o que não seria estranho, dado que, provavelmente, em 1906, já teria mais de 50 anos.


OS DESCONHECIDOS

Em 1906, o primeiro guarda-redes retratado é Pinheiro.

Entre as primeiras equipas referenciadas (e, sobretudo, fotografadas), o guarda-redes era Carlos Vouga Pinheiro. Aparentemente, Vouga Pinheiro havia estudado em Inglaterra (onde jogava a extremo-direito) e encontrava-se familiarizado com o jogo, ao contrário de muitos dos seus colegas.

Porém, no primeiro jogo internacional – em 1908, contra o Fortuna de Vigo, o guarda-redes fotografado foi já Soares. Provavelmente, Américo Soares, um dos entusiastas pioneiros do futebol.

O PRIMEIRO TITULAR

Por alturas de 1910, a rotatividade na baliza acabou e o guarda-redes começava a ser quase sempre o mesmo: Peter Jansen. Até 1913/14, o nome pelo qual começavam as equipas do FCP era, quase sempre, Jansen. Jansen foi, por exemplo, o guarda-redes da célebre recepção ao Médoc.



As informações sobre ele – a exemplo de quase todos os seus contemporâneos – são muito escassas, porém, existem referências à sua serenidade em campo e à constante excelência das suas exibições. Outros ainda referiam-se a ele como sendo o melhor “keeper a actuar em Portugal”.


O PRIMEIRO PORTUGUÊS TITULAR

Na altura em que Jansen começou a defender as redes da baliza do FCP, um outro guarda-redes começa, igualmente, a ser referido: Manuel Valença. Na época, a principal competição em que o FCP participava, era a Taça Monteiro da Costa que se destinava, exclusivamente, a atletas portugueses; porém, os melhores jogadores eram os estrangeiros. Assim, o FCP possuía 2 equipas: uma – a melhor – com estrangeiros e uma outra, exclusivamente formada por portugueses, para disputar a Taça Monteiro da Costa. Nesta segunda, o guarda-redes era, precisamente, Manuel Valença.



Com o tempo esta distinção deixou de existir e no final da primeira metade desta década, já Manuel Valença era o titular da (única) equipa.

Manuel Valença esteve presente em alguns jogos históricos desse tempo: foi o titular das primeiras conquistas da Taça Monteiro da Costa (excepto em 1913), jogou em Vigo e foi titular na inauguração do Campo da Constituição. A sua presença (embora depois na “sombra” de Lino Moreira) manteve-se até ao início da década de 20, ficando bem patente a sua longevidade atlética.

Manuel Pereira Bastos Valença, na altura capitão de artilharia colocado em Penafiel (mais tarde, tenente-coronel), foi um dos primeiros sócios do FCP e um dos primeiros guarda-redes do FCP. As referências às suas qualidades futebolísticas recordam o seu estilo.


OUTROS DESTAQUES

Na sombra de Manuel Valença, outros guarda-redes aparecem como tendo defendido a baliza do FCP por esta altura.

Desde logo, Alberto Vilaça de Carvalho, engenheiro civil. Guarda-redes inscrito na 3ª categoria (atrás de Manuel Valença e Peter Jansen), primeiro, mas que acabou por defender as redes do FCP na Taça Monteiro da Costa.

Cyril Wright, que esteve entre os primeiros sócios do FCP também defendeu as redes do FCP. Provavelmente, com maior aptidão para outros jogos com maior utilização das mãos (como o rugby), Cyril Wright acabou por ter amplo destaque na vitória do Boavista sobre o FCP na primeira Taça do Porto, onde brilhou no … Boavista, por empréstimo do FCP!

Guilherme Marques era o guarda-redes inscrito, inicialmente na 4ª categoria do FCP (atrás de Vilaça de Carvalho), mas no final da década esteva já inscrito na 2ª categoria imediatamente atrás do primeiro guarda-redes campeão de Portugal: Lino Moreira. Guilherme Marques tinha, igualmente, um curriculum interessante no lawn-tennis do nosso clube.

Outros relatos evidenciam que, também Augusto Aires Pereira foi guarda-redes do FCP, este, na conquista da última Taça Monteiro da Costa.


O PRIMEIRO CAMPEÃO

 António Lino Moreira foi o primeiro guarda-redes campeão de Portugal.



Embora esta seja uma época de poucos registos, ainda antes dos 20 anos já existiam referências suas como capitão do Leça, clube da sua terra natal.

No FCP haveria de ingressar em 1918 e aí ficar até 1924.

Foi titular indiscutível e as suas exibições eram sempre registadas como positivas.

Noutros tempos teria sido certamente internacional, pois estava entre os melhores nacionais, mas o relacionamento complexo entre “a selecção” e o país para além de Lisboa, dificultavam essa possibilidade

De Lino Moreira ficaram as conquistas: campeão regional do Porto todos os anos que esteve ao serviço do FCP e Campeão de Portugal em 1922.



Aliás, ficou, igualmente, ligado ao Campeonato de Portugal de 1923 (embora, subtilmente, omitido, de muitos relatos, incluindo do “suposto” Almanaque do nosso clube), pois na meia-final disputada em Coimbra, lesionou-se, tendo mesmo acabado por sair, ficando o FCP a jogar com menos um jogador (as substituições, então, ainda não eram permitidas)!

Na sua última época no FCP – 1923/24, embora inscrito na 1ª categoria, não existem registos de qualquer jogo que tenha feito nesta época. Deixou o FCP antes dos 30 anos e acabou por abrir a porta a um dos maiores símbolos do FCP: Miguel Siska!


Por: Jorge 
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