sábado, 28 de janeiro de 2012

LUCHO GONZALEZ


Tribuna Portista. É de desporto e de portismo que se fala aqui.


Hoje vou mudar um bocadinho a agulha. Começar por escrever sobre a nossa vida.
A vida de um país que está em crise. A vida de um país que, numa Europa em crise, escolhe um determinado caminho tendo a certeza que, quando chegar ao fim desse trajecto, estará pior do que hoje.

O meu vizinho grego precisava de pagar a prestação da casa e não tinha dinheiro para o fazer. Ia perder a casa. Foram lá três senhores do banco e disseram que lhe emprestavam dinheiro para pagar as contas se ele eliminasse 2 refeições diárias por dia (pequeno almoço e jantar), tirasse o filho da escola para poupar custos, trabalhasse à noite para conseguir um 2.º salário e evitasse idas ao médico e à farmácia para diminuir a despesa.



Viviam todos acima das possibilidades.



Já passaram 2 anos e já vimos que apesar de manter a casa, a família do meu vizinho está de rastos, envelheceu 20 anos em 2 e com as doenças que se acumulam lá por casa a esperança de vida não será grande. Dizem que os senhores do banco lá voltarão para os ajudar com novo empréstimo se preciso for. Presumo que a refeição diária chamada almoço será eliminada para angariar mais dinheiro para pagar os juros de nova ajuda.
E o meu vizinho terá que trabalhar de madrugada para arranjar um 3.º salário que pague os empréstimos que o ajudam a pagar a casa.

Na história do meu vizinho e na nossa história há diversos regimes de organização de poder e diversas teorias económicas que escolhem caminhos para sair da crise.
Eu também tenho teorias. A teoria que quero passar não é económica nem centra a resolução da crise em mais, menos ou melhores impostos.
Tudo pode ser feito para um lado ou para o outro mas o que é preciso em todos os grupos, em todas as famílias e em todos os países é que a mobilização seja feita e que se acredite. Acredite que quem gere a mudança o faz imbuído de um espírito genuíno.


 O pior do que hoje vivemos é sabermos que os sacrifícios são para o buraco. Hoje o meu vizinho trabalha mais 20 horas por semana mas a família empobrece de dia para dia. Ao lado vemos que quem nos manda vai para ali e para acolá e que quando se desvia o dinheiro X ou Y é o meu vizinho que tem que abdicar do lanche para pagar esses despautérios. E que os senhores do banco, que nunca viveram acima das suas possibilidades, vão acumulando riqueza. Mais camarão numa mesa nenhum pão na outra. Tem que ser, dizem-nos.

Não há uma crença colectiva de que o caminho que se faz é genuíno. Hoje em dia todos duvidam de todos, todos tem inveja de todos e todos pensam que estamos numa era de cada um por si e ninguém por todos. Vemos líderes do nosso país dizer que vivemos (todos) acima das possibilidades mas que eles, por causa disso, não conseguem pagar despesas com 10.000€ por mês.



É mesmo cada um por si. Ninguém por todos.


Precisamos de alguém por todos. Todos precisam de um Deus genuíno que restaure uma moral colectiva e que seja qual for o modelo a adoptar isso seja feito de uma forma integra, genuína e autêntica.


Onde é que isto liga com o Porto? Em tudo.



Não é de Deus que precisamos. Não há um Rei-Sol que resolva por varinha de condão os nossos problemas. O que acontece no Porto que eu não vislumbro na casa do meu vizinho nem no país é que há um sinal que, não resolvendo o problema, nos poderá unificar e voltar a acreditar que a genuinidade, a integridade e a autenticidade são, mais do que quaisquer outras medidas, caminhos indispensáveis para o sucesso.


Esse sinal tem um nome: Lucho. O nosso comandante.




André Villas-Boas


O ano passado vivemos um ano de sonho. Não se vivem anos de sonho sem competência e só com portismo, integridade e mais bla bla bla. Não sou ingénuo.

Sei é perceber que a competência sempre tivemos mas só quando o plus de crença e de união a ela se associou é que fomos verdadeiramente grandes.

O grande mérito de André Villas Boas e da cadeira de sonho foi esse. O Porto voltava a ser um desígnio e não um instrumento. Fez-nos acreditar que o Porto para ele era a Estação de S.Bento da sua carreira desportiva e não um qualquer apeadeiro.







Nós portistas pensamos, outra vez, que era possível repetir 2003. E depois 2004.
Nós portistas, incluindo o Presidente, pensamos, outra vez, que o dinheiro era um pormenor que seria varrido para debaixo do tapete por esta força motriz de crença, de autenticidade, de portismo.

Vivemos o sonho e começamos esta época sonhando com as nuvens. As nuvens eram possíveis não porque tivéssemos melhores jogadores que os gigantes espanhóis ou que outros colossos Europeus. É verdade que havia muita competência no plantel mas é também um facto que o espírito que vivíamos é que amplificava tudo isso.

Tínhamos um grande treinador que muito para além da competência técnica associava uma aura de misticismo que conduzia jogadores e adeptos numa espécie de hipnose sonhadora.


André Villas-Boas

Essa aura chamava-se autenticidade, integridade, valores e amor absoluto por uma causa. O meu vizinho, como o Porto, precisava de alguém no seu país que tivesse essa aura.
Se essa aura estivesse presente e se as pessoas acreditassem nas suas lideranças até seria possível abdicar de refeições diárias sem que isso tornasse mais débil a saúde.
Poderiam trabalhar mais por menos sem que esse esforço lhes tirasse o sorriso dos lábios e a esperança na vida.
Há milagres que ultrapassam modelos escritos no papel. Acreditem se quiserem.

Se no país há muito tempo não temos, no Porto a fuga de André Villas Boas para o Chelsea em troca de 3 mãos cheias de milhões arrebentou com a aura.





Pior do que isso.

Fez-nos pensar que não só a aura Villas Boas era treta. Fez com que extrapolássemos que qualquer aura é treta e que só o dinheiro manda.
Ficamos todos mais negros por dentro. Fizemos juras de desconfiança eterna. São todos uns enganadores haja o que houver.
Como uma mulher traída que promete nunca mais acreditar noutro homem.
Como uma mulher que por não querer mais “Acreditar” se vota a um futuro que ande longe da felicidade. O presente a hipotecar o futuro.


Depois da fuga o que vimos:

Fernando com a cabeça a 1000, Rolando a publicitar o seu número de telefone, Álvaro Pereira a sprintar só para a frente, James a dizer que quer dar o salto em plena Gala dos Dragões, o pai de Iturbe, os twits do Guarin, o falem com o meu empresário do Hulk.

Vimos também o Vítor Pereira armado em Professor Pardal no meio de 90 minutos de combate, e as diatribes de Fucile, Sapunaru e Walter.

Vimos também os extraordinários negócios (ou negociatas!!) Falcao e Danilo.

Vemos agora o nosso rival mais directo a caminhar unido com estádios cheios, crença inabalável.
Por aqui se só temos uma solução para o ataque e ela não parece funcionar resolvemos destrui-la psicologicamente. Vivemos o outro lado da aura.
Não acreditamos nos jogadores, no treinador e na forma de fazer negócios de quem nos dirige.
Estamos divididos internamente e julgamos que se juntarmos competência à que já temos (que é muita) resolvemos o problema.
A palavra incorpórea fica ao lado. A palavra acreditar.

Meus amigos: a história está a dar-nos uma oportunidade de enbranquecermos por dentro de novo. De nos unificarmos novamente pela força de um exemplo.

O exemplo Lucho.

El Comandante


Lucho Gonzalez é estranhamente um ídolo da nação portista. Estranhamente porque é discreto fora do relvado sem frases bacocas de amor e porque anda longe dos holofotes.
Estranhamente porque não é daqueles jogadores que finta meio-mundo, marca dezenas de golos e resolve jogos à vista desarmada.
Com o Lucho não tive amor à primeira vista por causa, precisamente, por causa do fenómeno da vista desarmada.
Só quando comecei a analisar as suas performances desportivas com o cérebro como auxiliar dos olhos é que percebi que tínhamos um jogador que não decidindo jogos à vista desarmada decidia campeonatos quando o cérebro armava a vista.





Lucho passou por cá e conseguiu ser o maior ídolo da ultima década de portismo sem ganhar troféus Europeus, sem decidir jogos à vista desarmada lá dentro nem fazer juras de amor cá fora.

Lucho passou por cá e deveria ser, qual fundo de investimento, detentor de x% do passe do Cissokho, y% do fenómeno que ele ajudou a crescer chamado Fernando e z% do médio em que se tornou Raul Meireles.

Lucho é uma luz portadora de sinergias colectivas, seja na valorização de rendimentos desportivos de jogadores seja no reforço de competências atitudinais do plantel.

«Considero-me um jogador de equipa. Os meus treinadores sempre me ensinaram a jogar em um ou dois toques. O futebol mudou mas estou convencido que a bola deve chegar o mais rápido possível ao parceiro»,

Lucho é um jogador argentino que não nasce cá, é capitão, sai contrafeito para ganhar mais do dobro do que cá auferia e que sempre que pode regressa, qual tiffosi, para ir ver um jogo a Aveiro.



Lucho Gonzalez



Lucho, hoje, está disposto a mandar às malvas o milionário salário que aufere para regressar à sua cidade, ao seu clube e à sua família.

Família que está dividida num espírito próprio do país em que vive o meu vizinho. Cada um por si.

Família que está negra por dentro, sem vontade de acreditar em auras e em comportamento genuínos e autênticos. E que tudo é negociável, tudo é um negócio e tudo se decide à volta do modelo de negócio.
Família que julga que pode vencer renegando a palavra “acreditar” e subvalorizando valores de portismo e autenticidade que foram a base da representação do filme de sucesso que vivemos o ano passado.







Se o Lucho regressa, abdicando do que abdica, à sua cidade, à sua casa e à sua família muito dificilmente haverá lata para frases de “chegou a hora de dar o salto” “ele tem o meu telémovel” “o meu sonho é jogar em Itália”.
Ao lado, no balneário, está um tipo argentino que viveu o suposto salto de sonho pejado em Euros mas que descobriu que onde era feliz era no Olival.

Chega o exemplo vivo de que afinal o dinheiro não é tudo. Há valores e há fronteiras que não se ultrapassam por dinheiro. Seja por ter muito ou não ter nenhum.
Como nós precisamos desse exemplo LUCHO. Não só no futebol. Como precisamos.

A restauração da aura dará à família Porto uma força para lá das competências individuais.
Acreditar é fundamental para sair de crises.


Lucho Gonzalez




No nosso modelo que é de sucesso gastar dinheiro num jogador de 31 anos não faz sentido.
O nosso modelo, corpóreo porque gizado no papel, precisa de uma aura colectiva.
O meu vizinho pobre, infeliz e em decadência precisa de acreditar mais nos lideres do que no modelo. Porque o modelo é ZERO quando os seus actores nele não acreditam.




Ouve esta André: “HÁ OFERTAS QUE SE PODEM RECUSAR”





Por: Walter Casagrande
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