domingo, 2 de setembro de 2012

Olhanense 2 - 3 FC Porto ( Crónica e apreciações individuais)




Até a relva vencemos!







Este é um jogo que deve galvanizar o FC Porto. Foi uma vitória com muitos obstáculos superados e que deve ser assumida como um grande passo nas ambições do FC Porto para esta época. Desde logo, foi o primeiro jogo após o rescaldo do mercado (bem que rolaram parangonas de vendas e saídas, mesmo até à último segundo) e pela ausência forçada de Fernando. 






Também nos calhou pela frente um adversário empertigado, como sempre e ainda bem, com muita vontade de correr a meio campo e de bater na defesa. A ferocidade do ancião Maurício já é conhecida, mas ontem estava em ponto de rebuçado. Pelo João do apito podia ser, claro! Nem amarelo lhe mostrou! Maurício, que já pouco corre e muito bate, compensa, assim, a sua calvície futebolística com a ajuda do inestimável João.

Não se ficam por aqui os adversários a vencer. Numa região onde abundam os “greens” minuciosamente impecáveis para inglês ver e jogar de taco, o bicampeão Europeu tem que vencer um relvado que teimava em fintar, rasteirar e atrapalhar quem queria ganhar. É sina! Finalmente, como se já não bastasse, cabe ao FC Porto ganhar de virada, como dizem os brasileiros, pois a Olhanense ganha uma vantagem imerecida no marcador. Mas é esta a fibra do campeão. Não há adamastor que não nos faça dobrar o cabo! O FC Porto vira o jogo com classe e talento e quando parecia já poder descansar, ergue-se uma nova contrariedade. Defour lesiona-se e já não há mais nenhum 6 para inventar. A Olhenense cresce, encurta distância, mas não supera a nossa fibra! Grande vitória! À campeão!

O FC Porto inicia o jogo com o mesmo onze inical que arrasou o Vitória de Guimarães, com uma excepção. Face à ausência forçada de Fernando por lesão, entrou Defour para o seu lugar. Vítor Pereira manteve a estrutura da equipa e confiou em Defour para fazer a posição de Fernando. Muito bem!

O FC Porto toma conta do jogo logo de início, empurrando a Olhanense para o seu meio campo. A equipa de Olhão fica limitada a ténues contra-ataques e a defender a sua área. Neste último capítulo, tudo valia, tudo podia ser, menos arrancar olhos (achamos nós!).







É do FC Porto o primeiro sinal de perigo, logo ao terceiro minuto de jogo. Hulk e Moutinho combinam e libertam para Lucho, que ganha espaço na área, mas remata fraco. Aos 11 minutos de jogo, Lucho cruza com classe para Jackson, mas Ricardo antecipa-se. É uma boa entrada do bicampeão. 







Dois minutos depois, o resultado carrega-se de injustiça. Alex Sandro perde a bola em transição ofensiva e a Olhanense aproveita para atacar. Aproveitando a subida de Alex Sandro, a Olhanense explora o seu flanco direito para carregar. Defour não tem a mesma abrangência de Fernando e a Olhanense consegue vencer essa primeira linha de defesa. Os dois centrais do FC Porto acorrem ao flanco esquerdo para tentar travar a progressão e ambos são vencidos da mesma forma. Entram um pouco à queima, em vez de aguentarem e são fintados pelo relvado. Duas escorregadelas depois, já a Olhanense está na linha de fundo e só sobrava Danilo a segurar as pontas no centro da defesa. Defour e Moutinho tentavam recuperar terreno e posicionamento, quando a bola é metida em Abdi. Ainda assim, é Otamendi o primeiro a chegar à ajuda a Danilo, mas repete o mesmo erro que cometeu no início da jogada. Otamendia aposta no carrinho, Abdi limitou-se a deixá-lo passar e aproveita a clareira que Otamendi abrira para rematar para golo. Injusto. Um golo conseguido contra a corrente do jogo e a meias com o relvado!

Após o golo da Olhanense o FC Porto entra num período de menor produção ofensiva. Atsu não carrilava jogo pelo seu flanco e Lucho afasta-se das zonas de perigo. A criatividade na zona central esmorece. A primeira resposta à desvantagem vem de Defour. Grande abertura, em chapéu, para Jakcson cabecear ao lado já só com Ricardo pela frente. Cinco minutos depois, Moutinho dá de calcanhar para a desmarcação de Hulk. O brasileiro arranca pela direita e mete uma bola tensa para Atsu, na pequena área. Atsu falha o remate e o perigo passa. Seguem-se 10 minutos onde o FC Porto revela crescentes dificuldades em perigar a Olhanense, até que, Vítor Pereira saca o seu trunfo do banco.

Vítor Pereira percebe que o FC Porto não tem capacidade de penetração na esquerda e que Jackson passa demasiado tempo a vir buscar jogo a meio campo. A reacção do treinador é imediata e é premiado por isso. Tira Atsu e coloca James em jogo. O flanco esquerdo não melhora substancialmente e fica entregue às investidas de Alex Sandro, mas o perigo incrementou na zona central com criatividade de James. Jackson passou a ser ponta-de-lança a tempo inteiro e os médios defensivos da Olhanense já pouco conseguiam fazer para travar o caudal ofensivo do FC Porto.




James entra em campo aos 36 minutos e até ao intervalo, o FC Porto alcança 2 oportunidades claras de golo e o empate. Dez minutos endiabrados pela da entrada de James em campo! Primeiro, Hulk arranca da direita ao seu estilo e a meter a bola a roçar a barra. Depois, é o rendilhado de passes entre James e Moutinho, com Moutinho a entrar na área e a ser servido por James. Com tudo para marcar, o relvado volta a atacar. Moutinho remata meio na bola, meio num torrão de relva e a bola vai frouxa para Ricardo. Finalmente, a dois minutos do intervalo a injustiça começa a ser limpa do marcador. Livre para Moutinho colocar na área. Ricardo mostra aquela que sempre foi a sua especialidade (não saber sair!) e James aproveita para marcar com uma chapelada monumental! Golo de bandeira!




Se o FC Porto muito melhorou com a entrada de James, o intervalo fez ainda melhor! O FC Porto entra para a segunda parte com a corda toda. Logo no primeiro minuto da segunda parte, a barra volta a salvar a Olhanense. Hulk cruza na direita e Jackson consegue um grande cabeceamento que Ricardo, a custo, desvia para a barra. Mas quem porfia (quase) sempre alcança! Três minutos depois, a reviravolta! Magistral abertura de James para Jackson a esventrar a defesa algarvia. Jackson, à matador, senta Ricardo e remata para a baliza deserta. O FC Porto continua com o pé no acelerador e aos 57 minutos Hulk arranca da direita remata para defesa apertada de Ricardo.

Após esta entrada demolidora, o FC Porto abranda o ritmo. A Olhanense aproveita para organizar as suas linhas e o jogo cai numa toada mais morna. Vítor Pereira volta a mexer bem. Refaz a largura da frente de ataque ao retirar Lucho e a colocar Varela em campo. Lucho estava cada vez mais distante do jogo e Varela tem melhor desempenho, mas a substituição devolve à equipa a sua estrutura habitual e a sua forma mais cómoda de jogar. Cinco minutos depois e numa jogada só possível com a “reactivação” do flanco esquerdo, o FC Porto chega ao 1-3. Alex Sandro faz “gato sapato” de Abdi e centra para área. Maurício, sem ninguém a quem bater, alivia direitinho para Hulk fuzilar Ricardo. Finalmente! Justiça no marcador!

Até que ao minuto 78 se levanta o último obstáculo. Defour abandona o terreno de jogo lesionado. Castro entra para o seu lugar e não consegue segurar as pontas. Por duas vezes deixa escapar Rui Duarte. Na primeira, o lance perde-se pela linha de fundo, mas, dois minutos depois, o passe de Rui Duarte encontra a desmarcação de Targino e a Olhanense reduz.
Inglório e imerecido. É verdade que após este golo o FC Porto sofreu. Sofreu porque tinha um meio campo defensivo com remendos sobre remendos. Mas soube fechar os caminhos da sua baliza e vencer este último obstáculo.

Foi uma grande vitória.

Daquelas que são servidas com momentos de inspiração e talento, mas também com muito suor e trabalho. Onde um campeão tem que vestir o fato-macaco e virar um resultado que injustamente foi alcançado pelo adversário. Onde um campeão teve que vencer o jogo truculento da defensiva contrária e tudo mais o que podia ser!

Até o relvado saiu derrotado!







Exagero? Não, esta vitória é profunda. Veja-se a reacção final de Sérgio Conceição que se diz o único que não saiu satisfeito. Pudera, ele sabe que em “condições normais”, um ponto estaria ganho. Mas o FC Porto venceu todos os obstáculos, mesmo os não normais. Sérgio Conceição não contava que um médio lhe estragasse os planos e descarregou no médi(c)o!





Análises individuais:

Helton – Sofre dois golos, mas não teve trabalho para mostrar serviço. No primeiro golo, é batido pela cortina formada pelo carrinho de Otamendi e pelo corpo de Yontcha. No segundo golo, não teve hipóteses. De resto, tranquilidade absoluta.

Danilo – Um jogo muito mau. Primeiro, está claramente fora de forma. Não consegue abrir a passada e ser demolidor nas suas subidas. Depois, mal se conseguia manter em pé. Quase não houve jogada que começasse ou acabasse sem ir ao chão. O lance de perigo de Abdi, na segunda parte, é exemplo disso. Escorrega no momento do corte e tenta atrapalhar rebolando pelo chão! Por fim, encheu-se de brio e acaba o jogo por cima com alguns cortes determinantes.

Alex Sandro – Não pode perder uma bola numa transição ofensiva sem ter Fernando em campo. Foi penalizado por um golo que se desenvolveu pelo seu flanco. Redimiu-se no lance do terceiro golo com uma investida de talento e classe. Seguro a defender, faltou-lhe melhor acompanhamento no seu flanco e ressentiu-se disso. Melhorou muito quando Hulk veio para o seu flanco.

Otamendi – Quando perceber que não vai ganhar todos os lances, sobretudo os mais críticos, de carrinho, aí sim, vai ser um grande central. Só tinha que “aguentar” o Abdi até os reforços chegarem (Moutinho e Defour). Só manter-se ali, em frente dele, a atrapalhar e a tapar o caminho. Só isso! Não ganhar a bola num corte espectacular. Arriscou e Abdi aproveitou esse risco. De resto, fez um excelente jogo.

Maicon – Jogo tranquilo com alguns cortes determinantes. No lance do primeiro golo da Olhanense parece traído pelo relvado, embora pudesse fazer melhor. Já há saudades de um livre à Maicon!

Defour – Ponto prévio: não é Fernando! Comparar uma performance de Fernando com a de Defour a 6 é maldade! Não tem nem a abrangência, nem a tenacidade, nem a autoconfiança do Fernando. Mas fez um jogo agradável. Essa é que é a verdade. Deu a cara pela equipa e a sua falta foi sentida quando saiu por lesão. Andou meio perdido no primeiro golo da Olhanense, mas não é um especialista do lugar. Grande passe para Jackson na primeira parte. É este Defour que falta aparecer!

Moutinho – Começou algo discreto, mas depois arranca para uma exibição tremenda. Muito trabalho naquele meio campo, pontuada por detalhes técnicos assombrosos. Faltou-lhe o golo. Aliás, é isso que lhe falta para ser um dos melhores do mundo. Tem que ser mais frio em frente à baliza. Grande jogo!

Lucho – Jogou ao seu nível nos primeiros 20 minutos do jogo. É por ele que passa o primeiro perigo do FC Porto. Mas depois, afunda no meio campo e afasta-se de Jackson. Foi importante no trabalho a meio campo e na sustentação do grande jogo de Moutinho e James. Acaba bem substituído por Vítor Pereira para recolocar a equipa a jogar no seu modelo de jogo.

Atsu – Passou ao lado do jogo. Precisa de assumir mais o jogo, mas ainda está a dar os primeiros passos. Não pode deprimir. O percurso é mesmo difícil! Ontem “perdeu”, amanhã ganhará!

Hulk – Não fez uma exibição de arromba, mas calou o azedume do público! Algumas arrancadas à Hulk, que só não deram em golo por milagre e um fuzilamento a Ricardo para calar as algaraviadas. É garante de perigo e de eminência de golo. Mesmo num relvado que em nada o ajudava.

Jackson – É craque, não há dúvida. Fartou-se de cheirar o golo e alcança um pleno de calma e instinto. Mostrou bom jogo aéreo, bom controlo de bola, capacidade de finta e remate, capacidade de jogar fora e dentro da área. Um ponta-de-lança completo e de talento.


James – Mudou o jogo e sai de campo como o melhor em campo. Derreteu a defensiva da Olhanense com uma capacidade de percepção do jogo que é ímpar no nosso campeonato. Tem uma capacidade de passe e de remate soberba. Junta, ainda, uma finta curta mortífera. Marca um golo de bandeira, de craque. Um chapéu sem deixar cair a bola! A assistência para Jackson é deliciosa. O homem do jogo.

Varela – Mais uma entrada sofrível em campo. A única vantagem que trouxe foi colocar a equipa no seu esquema habitual.

Castro – Muita disponibilidade e pouco futebol. Deixa escapar o Rui Duarte, por duas vezes, em dois minutos e o resultado foi o previsível. Não é um 6, mas tem que apresentar mais futebol para ser opção válida!






FICHA DE JOGO:


Olhanense- FC Porto, 2-3
1 de Setembro de 2012
Estádio do Algarve, no Porto
Assistência: 9.498 espectadores

Árbitro: João Ferreira (Setúbal)
Assistentes: Luís Ramos e Pais António

OLHANENSE: Ricardo; Luís Filipe, Vasco Fernandes, Maurício e Babanco; Fernando Alexandre e Jander; Invanildo, Rui Duarte e Abdi; Yontcha
Substituições: Yontcha por Targino (55m), Ivanildo por David Silva (67m)
Não utilizados: Bruno Veríssimo, Nuno Reis, Nuno Piloto, Rui Sampaio, Nuno Silva.
Treinador: Sérgio Conceição

FC PORTO: Helton; Danilo, Maicon, Otamendi e Alex Sandro; Lucho, Defour e João Moutinho; Hulk, Jackson Martinez e Atsu.
Substituições: Atsu por James Rodriguez (36m), Lucho por Varela (68m), Defour por Castro (79m).
Não utilizados: Fabiano, Kleber, Miguel Lopes e Mangala.
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 1-1
Marcadores: Abdi (14m), James Rodriguez (43m), Jackson Martinez (49m), Hulk (73m), Targino (86m)
Cartões amarelos: Alex Sandro (15m) Fernando Alexandre (20m), Abdi (27m)


Palavras dos Protagonistas:

"É nas dificuldades que se vêem os campeões"


Vítor Pereira

“Gostei de praticamente todo o jogo, à excepção dos dois minutos finais. Com o segundo golo, os jogadores do Olhanense acreditaram, cresceram e nós ficamos intranquilos e sentimos dificuldades. Não conseguimos ter a bola, segurar, agir bem, circular, e passamos por algumas dificuldades nos momentos finais. Mas é nas dificuldades que se vêem os campeões e hoje mostramos, mais uma vez, que mesmo a perder, conseguimos dar a volta e vencer.”

“Começámos a perder, mas virámos para 3-1 com muita qualidade e com união, num campo extremamente difícil. Lembro que no ano passado perdemos dois pontos com este Olhanense. Estou satisfeito com o resultado desta noite e, como disse, com a maior parte do tempo de jogo, à excepção dos minutos finais, que temos de rever, reflectir e corrigir.”

“A entrada do James? A partir do momento em que o Olhanense está em vantagem não existe espaço ou profundidade e é preciso um jogador diferente. O Atsu precisa e gosta de espaço para explorar o seu jogo rápido, de velocidade. James é um jogador mais de toque e decisão. Entre linhas, faz a diferença. Entrou muito bem no jogo e trouxe-nos essa qualidade em termos de posse de bola, que, juntamente com os colegas, permitiu virar o resultado.”

“Estamos muito satisfeitos por ter cá Hulk e Moutinho. Se a equipa não estivesse totalmente focada no jogo, de corpo e alma, não conseguia fazer isto, dar a volta ao resultado e garantir a vitória naqueles minutos finais. Fizemos o nosso trajecto e ganhámos com justiça, mas ainda é muito cedo para o 1.º lugar significar alguma coisa.”

Hulk

“Estamos felizes por este resultado positivo. Sabíamos que íamos ter dificuldades aqui, até pelo que aconteceu no ano passado. Tínhamos de entrar concentrados. Entramos a perder, mas a equipa não desistiu e conseguiu dar a volta. Sofremos um pouco no final, mas faz parte. O mister está de fora e vê o jogo de forma diferente; ao intervalo explicou-nos o que estavamos a fazer de errado, nós escutamos os conselhos e conseguimos virar o jogo. Todos os jogos são importantes e para sermos campeões não podemos perder pontos em jogos difíceis como este.”

“Como todos sabem, tenho mais quatro anos de contrato com o FC Porto. Estou bem, sou bicampeão nacional e espero ser tricampeão. Se ficasse desiludido por não ter saído, não tinha vindo para o jogo... Estou feliz, estou num grande clube da Europa e quero ganhar mais títulos com o FC Porto.”





Por: Breogán
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