sexta-feira, 10 de maio de 2013

Pesadelo ( Por Walter Casagrande)



Lembram-se do SONHO?

Entre o dia 26 de Março e o dia de hoje passou-se isto:

Capítulo 1

Fomos jogar a Coimbra e corremos atrás. A vitória era fundamental e a única saída.
Entretanto a super-equipa goleia o Rio Ave, derrota o Newcastle mostrando estofo europeu e passa sem dificuldades em Olhão.

Capítulo 2

8 de Abril e estamos a 7 pontos.
O Braga faz 1-0 no Dragão e o Porto parece estar em vias de dizer adeus ao campeonato com uma primeira parte lenta e sem ideias. Ainda fazemos o 1-1 na primeira parte mas o andamento do jogo não indicia nada de bom.
Encostado às cordas o FCP lança-se para uma 2ª parte plena de carácter em busca do objectivo fundamental. Ficar a 4 pontos.




A 10 minutos do fim as garrafas de champagne são tiradas do congelador.
The end of story is near…..
Só que, a 7 minutos do fim, um puto saca dois coelhos da cartola, o estádio explode de alegria e o mundo portista festeja como nas grandes vitórias.



Sou gozado por benfiquistas que não percebem o porquê da euforia.
Basta ganharmos na Madeira e está RESERVADO!

Engulo em seco.
Se eles não percebem eu não explico. Ainda bem que eles não percebem.

 Capítulo 3

Campeonato é interrompido. Estamos a 4 pontos.
Taça Lucilio para o Braga. Siga para o que interessa. Moreira de Cónegos.
Vitória sem espinhas e vamos ver se é amanhã.
Só que o Amanhã foi dia de Capela e o foguetório benfiquista ganha asas com golos com nota artística e uma limpeza de fazer inveja.
E agora? Vítor Pereira percebe que isto não se resolve dentro de campo e põe a boca no mundo denunciando o escândalo à Capela.

Capítulo 4

Porto - Setúbal. 0-0 ao Intervalo e James a falhar um penalty. A meio da 2ª parte vem o alívio. A forma como se festeja no relvado e no banco deixa mais uns conhecidos benfiquistas incrédulos.
O que é que esta malta festeja com tanta sofreguidão?
O Vice-campeonato já estará matematicamente garantido?

Engulo em seco.
Eles não percebem e eu não explico. Ainda bem que não percebem.

Conquistado o direito a sofrer o mundo portista estaciona na Madeira na 2ª feira.
Um estranho penalty e um estouro físico na 2ª parte do Marítimo permitem que o Benfica vença e festeje de forma efusiva a vitória.

Agora, é a minha vez de não perceber.
Respondem-me que se nós, portistas, festejamos o 2.º lugar já eles só se abraçam desta forma quando ganham títulos. Carrega Benfica.

Engulo em seco.
Continuo sem perceber e não explico porque não percebo.

 Capítulo 5

Dia 2 de Maio, ao início da tarde, Vítor Pereira lança um derradeiro e desesperado ataque.
Estou genuinamente convencido que o Sujinho, sujinho, sujinho pode ficar na história das CI tal como a do murro da mesa de Mourinho.

Eu vi aquela postura como a de alguém que, depois de ter gasto todas as balas e atirado a granada, vai ao bolso e em desespero saca de uma ponta e mola. Está por tudo.

Se está tudo praticamente perdido deixa-me ir ao fundo do poço. “Foi Sujo, está ganho e o Estoril não tem hipótese.”
Pressão sobre os arbitro, desvalorização do Estoril e bandeira branca para o Benfica.
Mensagem para o Benfica: Descansem que já ganharam. Podem continuar os festejos da Madeira.
Mensagem para o Arbitro: Já sabemos que se a coisa estiver apertada tu vais ajudar.
Mensagem para o Estoril: Vocês não têm hipótese com o Benfica.
Mensagem para o Mundo: Este campeonato foi sujinho, sujinho, sujinho.
Mensagem para os jogadores do Porto: Vale tudo.

Para quem tinha dúvidas que tipo de mensagem foi passada para os jogadores a resposta dada na meia hora da Choupana é elucidativa.
Melhor entrada do campeonato e parecia que estávamos na 30ª jornada, a precisar de uma vitória para ser campeões.

Cruzo-me com mais um benfiquista na 2ª feira que, desta vez, não me viu sofrer nem festejar.
Ri-se e afirma:

“Agora é tarde. A vossa sorte é que estamos em Amesterdão e temos que rodar a equipa no Dragão. Pode ser que consigam adiar a coisa para a última jornada!”

Engulo em seco. Já nada passa na garganta e não os posso ouvir.
Como também me custa ver esta euforia fecho os olhos e dou por mim a sonhar.

Sonho e acordo. É dia 6 de Maio e são 22.00 da noite.

Vejo o Miguel Prates a começar um programa de debate desportivo com voz de funeral e 4 cadeiras vazias. É só ele hoje?
Passam imagens de gente em estado de pânico. Um homem com farta cabeleira acocorado no relvado.
Um jogador de futebol, com equipamento vermelho, estendido no relvado em estado de desespero.
Queres ver que o Dortmund ganhou a Champions e os jogadores do Bayern estão devastados? Pudera! Duas finais consecutivas.



Espera lá….eu não dormi assim tanto e mesmo sem ver ninguém a saltitar como na Madeira este vermelho é de papoilas.

Caio em mim. Chegou a hora. 2 Pontos.

JORNADA 29, AMIGO!

JORNADA 29!!!

Ligo a rádio e ouço um adepto das papoilas revoltado:

“ A diferença não está no jogo do Estoril em que só por manifesto azar o campeonato não ficou resolvido. O mal, é que se isto fosse ao contrário o Benfica jamais perseguiria o Porto com 4 pontos de atraso sem perder a crença.
Tínhamos levantado o pé para rodar jogadores para a Liga Europa e já íamos a 8 ou 9. Como no ano passado”

Tarde piaste.

O Porto, o Mangala, o Vítor Pereira, o Lucho, o Kelvin e todos os portistas que correram atrás de um sonho tão modesto conquistaram o direito de acreditar no milagre dos 2 pontos.
Aquela reacção de equipa com carácter na 2ª parte do Dragão contra o Braga, aqueles festejos plenos de raiva contra o Setúbal e aquela entrada a 200 Km/h na Choupana foram o sinal de que esta gente que nos representa sabe que neste clube só pode ser assim.
Aqui não se salta NUNCA da desilusão de Março para a silly season de Julho e Agosto.

Este era o nosso Sonho. Por isso, agora está nas nossas mãos.
Não foi só porque o Estoril nos deu uma ajuda. Foi também, e sobretudo, porque soubemos correr atrás dela.

Acabou o tempo de fechar os olhos e sonhar.
É hora de cerrar os dentes, arregalar os olhos, afiar as chuteiras e treinar as goelas.
Se às 22.00 do dia de 6 Maio acaba o nosso sonho às 22.01 começa outro sono mais a sul, cheio de sobressaltos.

Desde essa altura até ao dia 19 poderá estar em marcha o mais tenebroso pesadelo que tenho memória para as papoilas saltitantes.
Festas em discoteca, revistas de campeão do DN, faixas de reservado por todo o mundo lusófono, entrevistas de Luís Filipe Vieira à Benfica TV e o sonho do TRI Benfica pode redundar no Pesadelo do Tricampeão.



Qual é o caminho para o pesadelo?

Falamos de um Porto-Benfica.
Pouco interessa a táctica, o modelo, as transições, a posse e a qualidade.
O onze já toda a gente sabe qual deve ser. O estádio já toda a gente sabe como vai estar.

Aqui ninguém vai para uma festa Reservada.
Aqui ninguém vai com o desejo de assistir a um bom jogo de futebol.
Aqui ninguém pensa que somos avassaladoramente superiores e que é utópico imaginar que podemos perder o campeonato.

Sabemos que pode ser a maior tristeza desportiva que o Estádio do Dragão já viveu.
Sabemos todos o que se passará se acontecer o pior.
Quanto maior é a noção das consequências de um desastre maior é a focalização e o comprometimento.

As imagens do Benfica campeão no Dragão já passaram como flashes nas nossas cabeças.
Somos todos amigos do Dr. Emmett Brown e ele emprestou-nos o DeLorean para dar uma voltinha ao dia 12 de Maio.

De lá regressados sabemos qual é o peso de uma derrota e a dor que ela acarreta.
Quando aos 83 minutos o Kelvin faz aquele golo e o Estádio explode já tínhamos conduzido o DeLorean. Tínhamos que dar o couro para fugir daquele futuro.

Quando o James falha o penalty o nosso desespero vinha do futuro. Quando o Lucho marca e o Vítor Pereira rebenta o nosso alívio tinha a mesma proveniência.

Isto não tem explicação. Só andando de DeLorean é que os benfiquistas perceberiam a nossa cultura, a nossa forma de viver as coisas, os nossos medos e a razão de ser da nossa luta.


 Só andando nas nuvens é que um portista se mascararia de papoila para perceber a redenção benfiquista com 3 pontos conquistados à 27ª jornada.

Agora estamos a 10 de Maio.
Aos jogadores que connosco partilharam o DeLorean peço duas coisas:

FOCO.

Não pode haver um milésimo de segundo de distracção. Não olhar para o céu se a bola sai das 4 linhas.
Ninguém pode marcar um livre rápido, um lançamento rápido ou ficar momentaneamente livre de uma marcação por desatenção.

RAZÃO.

Já fomos ao futuro e sabemos qual é o atalho para o insucesso. É para meter o pé sempre, é para colar o nosso bafo ao pescoço deles mas sem nunca dar pretextos.
Fomos eliminados da Taça de Portugal por termos 1 jogador expulso.
Fomos eliminados da Champions por termos 1 jogador expulso.
Perdemos aquela prova do Lucilio por termos 1 jogador expulso.
Entradas como a do Abdoulaye ao Mossoró são ligação directa com o 12 de Maio.

Havendo foco e razão pelo que eu vi desde o dia em que nasceu o Sonho sei que vai ficar sangue, suor, pele e ossos em campo. É mesmo Todos por tudo.

Falta a nossa parte. O que se pede na Alameda, nas ruas, e nas bancadas?

Vocês sabem. Aqui não é preciso andar de DeLorean até ao futuro.

O segredo está no passado.
Os mais velhos viveram os tempos em que estivemos por baixo. Os tempos da ponte.

Os que não viveram a ponte mas acompanharam a década de 80 lembram-se bem como demos a volta por cima. Como, com menos dinheiro e jogadores menos mediáticos, eles aqui não passavam.
O César Brito só está na história do Benfica porque protagonizou o impossível.
E o habitual só se tornou impossível porque dentro e fora de campo sabíamos recebê-los à moda do Porto.
Sabíamos engolir em seco meses e meses de provocações, maquinações e soberba para vomitar, com juros, no dia certo.
Se daqui a 20 anos ainda se falar do Ave César é porque faremos bem o nosso trabalho.  

Os mais recentes também sabem. O apito dourado, o túnel, os capelas, os lucilios, as leonores, os ruis, os schnitzers com os donos da bola.

Engolir, inspirar, engolir, inspirar, engolir, inspirar, engolir, inspirar, engolir, inspirar………………………………………………………………………………………………………………………

É a nossa história.
Que tem uma pequena amostra no período entre o final de Março e o dia 11 de Maio.
Engolir, inspirar, engolir, inspirar.

Chegou a hora meus amigos. Jornada 29. Vomitar TUDO! Com juros!

RAZÃO E FOCO para jogadores e treinador.
EMOÇÃO para nós.

Sempre com os nossos. Do minuto 1 ao 95.
Pressão contínua sobre todos. Uma falta a meio-campo é um penalty sonegado.
Um lançamento de linha lateral é um roubo de igreja.

Para nos derrubarem cá terão que sobreviver ao pesadelo.

Puseram-se a jeito. Agora aguentem!


 Por: Walter Casagrande

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