terça-feira, 26 de março de 2013

Sonho (Por Walter Casagrande)



Há uns meses, aquando da análise das contas da SAD (Ler Aqui), fiz uma tentativa de colar algo objectivo e material com a palavra felicidade.

A gestão das contas é em prol da minha felicidade? Se sim tem o meu apoio.

Vou insistir na felicidade. Ligando-a ao sonho.

Vamos percorrendo a vida a sonhar. Desde sonhar ter aquele brinquedo, comer aquele doce ou petisco, viver com aquela mulher, conhecer aquele país, conseguir aquele emprego, comprar aquela casa, ver o Porto ganhar aquela taça.

Se a palavra sonho vos parece muito distante e algo infantil poderão substitui-la pela palavra projecto, vontade ou pela palavra objectivo. Desta última fujo a sete pés desde que o Paulo Bento a matou por exaustão com o 1.º, 2.º, 3.º, 4.º, 5.º e……………. 50.º objectivo.







Um sonho é um sonho e cada um sonha à medida da sua dimensão e do contexto em que está inserido.
Mesmo que implique dar um passo maior que a perna sonhar é sempre bom. Bom, porque nos mantém vivos e felizes. É difícil ver alguém infeliz quando procura incessantemente um sonho ainda que o mesmo pareça impossível de alcançar.





A queda no abismo da infelicidade pode ser brutal quando, após transformar o sonho em realidade, se perde a vontade de continuar a sonhar, a desejar algo, a lutar por qualquer coisa.

Há inúmeras histórias de doentes em fase terminal que prolongam a vida para além do tempo cientificamente expectável porque sonham resolver aquele problema ou rever pela última vez aquele familiar.

Quando ouvi, pela primeira vez, da boca de uma enfermeira do IPO, as expressões “Não estava preparado para morrer” e “Já podia morrer” não percebi o significado da coisa.

O quê?! Ninguém está preparado para morrer. Ninguém decide quando pode morrer.

Anos mais tarde percebi. Quando se sonha e se luta por algo nunca se está pronto para a morte, para a infelicidade ou para a derrota. Se não se está pronto, adia-se.

Quando se preenchem todos os cromos da caderneta dos sonhos duma vida está-se pronto para morrer.
Se em vez de vida falarmos de empresa é porque está próxima de falir.

Se substituirmos empresa por clube é porque está pronto para perder. Pensamos na ausência de sonhos do Sporting do Roquette e seus discípulos e percebemos o estado a que chegou. 


Sonhar não é demagógico. Sonhar não é coisa de optimistas aluados.

Consigo persistir num pessimismo militante e fazê-lo conviver com a importância vital de sonhar.
Suportado nessa militância ouvi há meses o seguinte:

“Vencer a Champions? Temos de ter esse sonho. Quando o FC Porto venceu a Champions, havia favoritos como o Barcelona, Bayern Munique ou Inter. Portanto, não é irrealista ter a esperança de ver o Porto a vencer a Champions outra vez”

Esta frase foi proferida pelo nosso inspirador capitão e líder. Na altura, quando a li, a minha primeira sensação foi: “Tá maluco! Ganhar a Champions?”

Depois reli a entrevista e foquei-me no “Temos de ter esse sonho”. Reparem na imperiosidade. Temos que ter. É obrigatório sonhar.

Pensei em começar a crónica com esta frase. Para chocar, para confrontá-la com o que depois se passou e como se passou.

Receei que quem a lesse hoje passasse ao lado do “Temos que ter esse sonho.” Por isso, entendi deambular por outros caminhos, menos futebolísticos.

Até aqui.

O sonho do Lucho acabou. Agora vamos ver o Subotic a correr atrás do Saviola e vamos engolir em seco. Era o Jackson que devia ser perseguido.

O Campeonato sempre foi visto como uma obrigação que é uma das derivações menos simpáticas da palavra sonho. Uma obrigação é uma responsabilidade. Um sonho é um desejo.

Eu não sou um irresponsável se não conseguir aquele emprego, visitar aquele país ou viver com aquela mulher.

Aí sigo o Lucho. O Porto não é obrigado a ganhar. Está obrigado a querer, ou sonhar, ganhar.
Seja obrigação, objectivo ou sonho o campeonato está, desde a última jornada, muito mais distante.

A partir daqui temos 2 caminhos que partem da resposta à pergunta:

“Há mais cromos para preencher na caderneta dos sonhos?”

Se sim, qual é o sonho que nos vai guiar?

Se não, transformemos o clube num tribunal e renuncie-se a objectivos desportivos em prol da análise de quem esteve bem ou mal, quem deve sair ou ficar, quem deve entrar ou ficar à porta.
Fazer da Taça da Liga um sonho é um insulto aos sonhos. Não se passa a vida a sonhar com tudo.
Eu não sonho com a cor do semáforo que sei que vou apanhar daqui a 30 minutos quando sair daqui. Se está verde ando, se está vermelho paro.

A taça da Liga é um semáforo. Temos que passar por ele e convém que não esteja vermelho não vá atrasar-nos para o encontro com o sonho seja ele uma mulher, um café com um amigo ou um jogo da Champions às 19.45.





Ter um Moutinho e um James desgastados com viagens e lesões a jogar contra o Rio Ave na 4ª feira é cor vermelha no semáforo. Pode prejudicar o sonho.

Qual é o sonho?

Cada um escolhe o seu caminho. Pelo que tenho lido e ouvido muitos portistas sonham com o Vitor Pereira. Mais propriamente, com a sua saída.

Outros entretêm-se a sonhar com o próximo ano.

Como vai ser, com quem vai ser e o que se vai sonhar quando aí se chegar.
Reparem, mais uma vez, na importância do sonho.
Quem não percebe ou não concorda com o “Temos que ter esse sonho” do Lucho salta capítulos.
Como não quer viver o pesadelo de não ter nenhum sonho em Abril e Maio passa automaticamente de Março para Junho. Como é que passa?
Sonhando.

Com o Vitor Pereira na rua ou com o Reyes no Olival. Tudo vale para não passar por Abril e Maio.
Há 2 anos atrás o nosso sonho era gigante. O Benfica está na mesma crista da onda desse sonho. Se perguntarem a algum benfiquista pelo sonho de Junho ou Julho manda-vos passear.
Podem fazer a dobradinha e lutam por a ela juntar a Liga Europa. “Carrega Benfica!”
Qual Junho ou Julho? Isso é para derrotados.
O meu pessimismo faz-me imaginar a concretização desse sonho e o regresso da faixa “Reservado”. Penso no António Costa nos Paços do Concelho, nos repórteres destacados para cobrir esse acontecimento que permitirá que comentadores políticos, económicos e cor-de-rosa passem uma boa temporada de férias.
Passos Coelho, Papa Francisco ou Angela Merkel desaparecerão por milagre da agenda mediática.




Será a hora da benfica TV, da Bola Tv, do Rui Santos, do Miguel Prates, do João Gobern, do Carlos Daniel, do Rui Gomes da Silva a babar-se de alegria, da Leonor Pinhão,das entrevistas de fundo de Luis Filipe Vieira, das histórias de vida do Jorge Jesus desde o Amora até ao benfica.

Será a hora ideal para subir impostos, despedir pessoas, remodelar o governo. Será a hora para tudo isso. Semanas de festejos, entrevistas, reportagens, análises e debates.

Já vejo a Visão e a Sabado com o bigode do Luis Filipe Vieira na capa:
“O Homem que fez acordar o monstro!”

Como tudo isso me passa pela cabeça e como acho que cada um tem que ter um sonho para Abril e Maio deixo aqui o meu. É pequeno e está ao alcance de 90 minutos.
O meu sonho é que o Benfica, entre a jornada 24 e a jornada 28 perca 2 pontos. Só.
Todo o portismo tem que ter esse sonho e lutar por ele. Jornada 29.
Se tiver esse sonho encarará os jogos que tem que fazer em Março e Abril de outra forma. Como instrumento de perseguição ao sonho de Maio.

Sonho com o momento em que um portista poderá olhar para um dos seus pares e dizer:
“Jornada 29 Amigo!” 

Aqui chegados, acreditem que para qualquer benfiquista chegar à jornada 29 com 3 pontos de avanço é um pesadelo.
A parte psicológica do sonho é o Diabo.
Chegar aqui com 3 pontos de avanço sem nunca ter tido 4 é uma coisa.
É a continuação da luta com o Estado de Espirito que lhe está associado.
Chegar aqui com 3 pontos depois de já ter tido 4 é outra.
É um pesadelo. E nós temos que ter esse sonho.


Por: Walter Casagrande
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