sábado, 9 de março de 2013

FC Porto 2 - 0 Estoril Praia (Crónica de Breogán)


15 minutos de fervura.

Neste cozinhado de 90 minutos, a panela só ferveu 15 minutos. Os primeiros 15 minutos. De resto, ou em lume brando ou com o fogão apagado. É assim que se resume mais uma noite de bocejo no Dragão.








São vésperas de decisão europeia e já se sabe que a tendência de rodar o botão para fogo mínimo (ou até sem chama!) é desmesurada. Ainda assim, num jogo de redenção face ao resultado da jornada anterior, não é entusiasmante tão abrupta paragem na arte do futebol após os primeiros 15 minutos.





Concentremo-nos no melhor deste jogo. Uns míseros 15 minutos. O que teve estes 15 minutos? Um 10, mesmo que em tempo parcial e um extremo a dar amplitude ao jogo ofensivo do FC Porto. Bastou isso e algum fogo no traseiro, após o mau resultado da jornada anterior, para a entrada em jogo do FC Porto ser insustentável para o Estoril. O golo madrugador de Maicon facilita a entrada em jogo do FC Porto, é certo, mas é a pressão ofensiva do FC Porto, sobretudo devido à sua amplitude, que faz com que o recuo do meio campo defensivo do Estoril facilite o aumento de velocidade de circulação de bola do FC Porto. Bastou juntar a essa velocidade um pouco de verticalidade, em particular por Lucho no passe e por Atsu no transporte de bola, para que esses 15 minutos alargassem um fosso de 2-0 no marcador. Após estes 15 minutos, o Estoril sobe a sua linha de meio campo e o FC Porto abranda o ritmo. Daqui e até ao apito final, vai um longo bocejo, sobressaltado por uma ou outra ocasião.

Vítor Pereira introduz duas alterações no onze inicial. Atsu e James assumem o lugar de Varela e Izmaylov, respectivamente. O FC Porto ganha algum repentismo (o que face à produção recente de Varela não é difícil) e um pouco mais de magia, embora James ainda procure o seu melhor momento.

O FC Porto entra no jogo em ebulição. Logo aos 3 minutos, Alex Sandro centra tenso e Otamendi, que ficara na área do Estoril após um livre, falha a emenda para a baliza. Mas o golo não tardaria. Um minuto depois, James bate bem um canto e Maicon cabeceia para golo. Excelente elevação, óptima execução técnica e precisão no remate.

O FC Porto sai na frente do marcador e ganha à vontade. Já o Estoril, ainda mais atordoado, recua. Dois minutos depois, novo canto bem batido por James, mas Otamendi não acerta no alvo.

A pressão do FC Porto mantém-se e o Estoril nem consegue sair para o contra-ataque. Até que, aos 14 minutos, o FC Porto chega ao 2-0. Livre de Defour na direita que atravessa toda a área. No flanco contrário, Atsu tenta cruzar de primeira e Mano, que saíra no seu encalço, desvia a bola com a mão. Penalti evidente e que levaria Jackson, de novo, para a cobrança. O avançado colombiano avança e executa de forma primorosa. Sem hipóteses para Wagner e aplacando fantasmas recentes.

O FC Porto atinge o conforto no marcador, mas trava abruptamente. Parecia um comboio longo de mercadorias a usar todos os freios e a chiar pelos carris abaixo. O futebol portista estanca e o Estoril aproveita para avançar a sua linha média. O FC Porto apaga o fogão e enfrenta 30 minutos sem criar um lance de perigo para o Estoril.





O Estoril, depois de passar pela fervura, aproveita o arrefecimento do jogo para tentar chegar à frente. O primeiro lance surge logo um minuto após o 2-0, embora a origem do lance seja mais demérito portista que mérito estorilista. Otamendi em vez aliviar, decide jogar para dentro e para Helton (!!!). O guarda-redes é pressionado por Licá e sem poder agarrar a bola, gera-se a atrapalhação. O que vale é que Helton é doutorado neste tipo de situações com as bolas no pé e lá salva a situação a dois tempos.




Aos poucos, o Estoril começa a chegar-se mais à frente e vai somando jogadas de ataque, quando passara os primeiros 15 minutos a ter a linha de meio campo como a linha de horizonte, tal era a distância que tinham para ela. Faltava ao Estoril qualidade na frente de ataque e alguém que confrontasse os centrais do FC Porto.

Aos 39 minutos, Carlos Eduardo bate um livre directo com precisão e a bola embate no poste direito de Helton, com este a desviar com os olhos. Um susto evitável. No entanto, teve um benefício:  FC Porto volta a acender o fogão e mesmo em lume baixo, acaba a primeira parte em cima do Estoril.


A segunda parte será sempre em lume brando. Sempre em domínio, mas sem chama que aquecesse a vista.
O FC Porto cria logo perigo, aos 51 minutos. Danilo sobe à área contrária, finta com classe Jefferson e a remata em arco para a baliza. A bola desvia em Lucho e sai ao lado. Cinco minutos depois, James serve Lucho, de calcanhar, na direita. O capitão cruza para Defour que remata ao lado, já no interior da área.







No minuto seguinte, Vítor Pereira começa a gestão do plantel, a pensar no próximo encontro em Málaga. Saem Lucho e James e entram Castro e Varela. O Estoril tenta responder com a entrada de Luís Leal, mas Fernando nunca permitiu que o ataque do Estoril fosse alimentado. A passagem de Carlos Eduardo para o centro do terreno, ajudou Fernando a bloquear a única fonte de criatividade estorilista.





O jogo entra em lume brando, com domínio portista, mas sem oportunidades para ambos os lados. Por volta dos 75 minutos, os treinadores mexem, de novo, nas equipas. Vítor Pereira retira Defour e coloca Izmaylov. Do lado estorilista é a aposta total no ataque. Gerso e Taylor entram para correrem a todas as bolas lá na frente. Mas este jogo já não iria borbulhar. Excepção para um lance, aos 84 minutos, de pura verticalidade. Excelente abertura de Alex Sandro para Varela, com este a galgar metros pelo flanco esquerdo. O cruzamento sai rasteiro, mas tenso. Jefferson antecipa-se e salva no último momento, já com Atsu preparado para desviar e a uns escassos metros da linha de golo.

Não ferveu mais o jogo e muito menos as bancadas.

Foi um jogo de gestão. É confortável pensar assim. A verdade é que aqueles 15 minutos foram uma excepção neste jogo. Os outros 75 minutos foram aquilo que o FC Porto mostra sempre contra equipas deste nível. Um meio campo muito distante de Jackson e uma dificuldade extrema em flanquear. Dois golos de bola parada salvam a noite. Isto de futebol corrido está mais difícil.







Entramos, agora, num ciclo muito exigente e esses 15 minutos frente ao Estoril precisam de ser esticados ao máximo e repetidos jogo sim, jogo sim. Não temos mais margem de erro e chega a hora das decisões. É esta a dúvida que nos assalta. O que teremos pela frente? Ontem, creio, poucos foram os que não saíram do jogo com algum receio. Foi longo demais o bocejo.





Análises Individuais:

Helton – Lá resolve o percalço que arranjou a meias com Otamendi. Se Otamendi deveria ter chutado para longe, também é verdade que Helton é apanhado em terreno de ninguém. Falta de comunicação, no mínimo. Ainda por cima, confiou em demasia no golpe de vista a livre de Carlos Eduardo. De resto, sem trabalho algum.

Danilo – Foi uma exibição melhorzinha em relação ao que tem vindo a mostrar, mas ainda está bem longe do seu potencial. Foi sempre seguro a defender e a produção do flanco direito sobreviveu muito das suas investidas, sobretudo, na segunda parte.

Alex Sandro – Bom jogo, tanto no aspecto defensivo como ofensivo. Teve alguns lapsos, mas também, momentos técnicos de brilhantismo. Ainda não está no seu melhor, mas já passou a pior fase esta época.

Maicon – Não teve grande incómodo pela frente, o que facilitou o seu papel defensivo. Pareceu mais solto de movimentos e mais rápido sobre a bola. Excelente elevação no golo.

Otamendi – Erro de principiante. Mesmo que o guarda-redes diga para passar, ali é pontapé para a frente ou para a linha lateral e ponto final. Não há espaço nem tempo para experimentalismo. De resto, a habitual segurança.

Fernando – Num jogo sem grandes destaques individuais, sai como o melhor em campo. Boa primeira parte, sempre disponível a ajudar a circulação de bola, mas destaca-se pela segunda parte que faz. Varre Carlos Eduardo de campo e mata toda a criatividade do Estoril quando Marco Silva aposta todas as fichas no ataque.

Defour – Nem se destacou, nem destoou. Muita disponibilidade, mas pouca arte. Raramente conseguiu desequilibrar e não deu à equipa a dinâmica que precisava.

Lucho – Enquanto esteve em campo foi o elemento do meio campo que melhor levou o FC Porto para o ataque. Ainda assim, jogou demasiado longe de Jackson. Sai por gestão para um jogo onde a sua boa forma pode ser determinante na batalha a meio campo.

James – Ainda muito longe da sua boa forma, foi importante nos primeiros 15 minutos. Deu alguma magia na zona 10 e foi importante nas bolas paradas. Sai de campo também por gestão e com uma assistência para as estatísticas.

Atsu – Volta à casa de partida. É sempre assim com Atsu: Desilude, sai da equipa, volta a entrar, promete umas coisas e volta ao início do ciclo. Foi um jogo típico de Atsu. Bons 15 minutos, e não extraordinários como já por aí vejo, e depois só mais um ou outro detalhe em 75 minutos de futebol. Falta consequência ao futebol de Atsu e ontem voltou a mostrar isso. Foi Danilo quem manteve o flanco direito vivo na segunda parte e não Atsu.

Jackson – Mais um jogo de sacrifício e bem disputado com Steven Vitória. Exceptuando os primeiros 15 minutos, voltou a ser um ponta-de-lança esquecido pela equipa. Boa cobrança de penalti. Tanto talento e tão pouco serviço. Até dói!


Castro – Ganhou aos pontos a Defour e por larga margem. Trouxe dinâmica e alegria ao jogo. Soube desequilibrar, algo que o belga nunca conseguiu. Até rematou, com precisão e à baliza, e não torto e desastrado como Defour. Merece mais utilização e que Vítor Pereira pense duas vezes se o mete a ele ou Defour.

Varela – O banco fez-lhe muito bem. Veio logo mais vertical e dinâmico. Faltou-lhe o acerto de outros tempos, mas, pelo menos, mais mexido ficou. Ai não!

Izmaylov – Jogou numa posição interior e voltou a ser perfeitamente irrelevante no jogo. Nem aquece, nem arrefece.


FICHA DE JOGO:

FC Porto-Estoril, 2-0
Liga, 22.ª jornada
8 de Março de 2013
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 24.604 espectadores

Árbitro: Nuno Almeida (Algarve)
Assistentes: Pais António e Paulo Ramos
Quarto Árbitro: Nuno Pereira

FC PORTO: Helton; Danilo, Maicon, Otamendi e Alex Sandro; Fernando, Lucho González (cap.) e Defour; James, Jackson Martínez e Atsu
Substituições: Lucho González por Castro (56m) e James por Varela (56m) e Defour por Izmaylov (72m)
Não utilizados: Fabiano, Quiño, Liedson e Abdoulaye
Treinador: Vítor Pereira

ESTORIL: Vagner; Mano, Yohan Tavares, Steven Vitória (cap.) e Jefferson; Gonçalo Santos e Diogo Amado; Carlitos, Evandro e Carlos Eduardo; Licá
Substituições: Diogo Amado por Luís Leal (57m), Carlitos por Gerso (75m) e Gonçalo Santos por Tony Taylor (75m)
Não utilizados: Mário Matos, Anderson Luís, João Pedro e João Coimbra
Treinador: Marco Silva

Ao intervalo: 2-0
Marcadores: Maicon (4m) e Jackson Martínez (13m, pen.)
Cartão amarelo: Luís Leal (90m+1)




Análise dos Intervenientes:

Vítor Pereira: 

"O subconsciente fez a gestão"

«Tivemos uma boa entrada em jogo. Aos 15 minutos estávamos com 2-0. Jogámos contra uma das sensações da Liga, uma equipa perigosa, e depois do 2-0 fomos controlando. O jogo esteve sempre controlado. Só me recordo de um livre do Estoril que ainda bateu no poste [Carlos Eduardo] e nada mais do que isso. O próprio subconsciente foi fazendo a gestão.

«A equipa foi gerindo, controlando, mas houve uma altura em que não fizemos o controlo com posse. Mas estou satisfeito com os três pontos e a vontade de decidir rapidamente o jogo. Temos de dar mérito ao Estoril. Bateu-se com qualidade, agressividade, fez-nos correr e trabalhar muito».

Sobre a suposta fadiga física

«O próximo jogo tem características diferentes. Isto não tem a ver com questões físicas, mas emocionais».


Fernando: 

«Seleção brasileira? Um dia vai chegar»

«O nosso objetivo era este: entrar fortes, controlar o jogo e conseguir o resultado positivo que passava pelos três pontos. Não foi uma questão de pensar muito no Málaga. A verdade é que entrámos bem, mas o Estoril criou-nos alguns problemas e tivemos de baixar a intensidade do jogo.

Se eu, o Alex Sandro e o Danilo ficamos tristes por não termos sido chamados à seleção brasileira? Temos sempre o objetivo representar a nossa seleção. Cabe ao selecionador optar, não optou por nós, é um direito dele. Vamos continuar a trabalhar como até aqui, um dia chegará a nossa vez.»





Por: Breogán
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