sábado, 2 de março de 2013

Sporting CP 0 - 0 FC Porto (Crónica de Breogán)


Feitos num oito!





Comecemos de fora para dentro a análise deste jogo.

Durante a semana existiram duas preocupações mediáticas. Primeiro, retirar toda a pressão ao nosso adversário (que dependia deste jogo para tentar chegar às competições europeias, objectivo ainda recentemente assumido) e colocá-la sobre o FC Porto.





Assim, são cumpridos dois objectivos: o adversário já se pode assumir a sua posição de equipa pequena no campo, sem que venha mal nenhum ao mundo e jogar para o "pontinho" como quem luta para não descer. Ainda por cima, cria-se a ratoeira que o FC Porto tem tudo a perder e o adversário tudo a ganhar. É o avançado holandês do adversário quem sintetiza todo este estado de espírito: tudo fazer para que o FC Porto não seja campeão.


Segundo, uma campanha de hostilização, sobretudo aos jogadores que já vestiram a camisola do clube do campo grande. Aí, o rolo de papel higiénico da travessa da queimada assume papel principal, com uma da capa no dia do jogo que entra para o galarim das mais ignóbeis da memória jornalística do desporto português. Além disso, convoca-se a opinião de ex-reinadores dos verdes para comentarem as aparições de Izmaylov de azul e branco. Ex-colegas também têm opinião e até o médico visconde, que jura tudo ter feito sob juramento hipocrático para salvar o russo. E se mais não fez, é porque o juramento ou a subjectividade da dor não o deixaram! Durante o jogo, e pela primeira vez esta época, os assobios lagartos não eram para os riscados de verde, mas para os "judas" de azul e branco. Acaba no camarote presidencial entre empurrões, apertões e agressões verbais. À sporting: muita "bétice" por fora, mas educação boçal no falar e, sobretudo, no pensar.


Foi este o cenário que se desenhou e ao qual o FC Porto não soube dar resposta. Tantas já foram as vezes que nos pintaram o diabo e em que nós entravamos no jogo com o dito no corpo. Tal era a gana e a raiva de desmentir tudo em golos. Desta vez, não. Não por falta de matéria para espevitar a malta, mas por incapacidade. Jesualdo alega que o sua equipa foi esperta, então é porque esperteza saloia também deve contar. O que Jesualdo fez foi, tão só, copiar o que todos os treinadores de clubes que lutam para não descer fazem frente ao FC Porto: bloco baixo, reforço do meio campo e gente para correr pelos flancos. A esperteza de Jesualdo é a mesma que a de tantos jogos onde o FC Porto viu-se e desejou-se para virar autocarros. Restava confiar na sorte e na ansiedade portista, sobretudo, com todo o circo mediático montado.

No fim do jogo, a pergunta que mais se ouvia para o lado portista era se Moutinho tinha feito falta. A resposta sempre foi não e é correcta. Ontem, não foi só Moutinho que faltou. Faltou também um 10 e extremos capazes de alimentar o ataque. Dir-me-ão que isso tem faltado quase sempre esta época! Não podia estar mais de acordo, só que agora para além disso, faltou Moutinho, o nosso 8 com melhor qualidade de passe e dá à equipa maior verticalidade. Sem esse factor de aceleração do nosso jogo, o FC Porto iria bater no autocarro verde e nem era preciso que este tivesse grande qualidade individual nos jogadores que o formavam. Faltou Moutinho e o resto. E que resto é! Que diferença faz!

O FC Porto não flanqueava, não acelerava o seu jogo ofensivo e limitava-se a somar minutos à sua posse de bola. Vítor Pereira, no fim do jogo, refere que a equipa tentou fazer as coisas demasiado rápido e que, com isso, nem sempre encontrou a melhor opção. Está mais que visto que o problema ainda não foi diagnosticado e que é para manter o modelo de jogo, mesmo perante sistemas de jogo tão fechados. Esta contaminação viral de oitos no meio campo portista, que já ameaça alastrar-se para os flancos, vai continuar.

O FC Porto joga sem estruturação a meio campo e sem extremos para dar amplitude ao seu jogo. Jesualdo, na sua esperteza saloia, limitou-se a colocar dois extremos "ciclistas" sobre os laterais portistas e assim, com tão pouco, aniquila a débil capacidade do FC Porto em flanquear. Restava aguentar uns minutos, deixar a ansiedade crescer e confiar que o meio campo portista, sem um criativo, jamais faria chegar jogo a Jackson. Assim, até um Ilori o pode marcar.






É por demais evidente a falta de soluções ofensivas para desbloquear jogos destes. Onde acaba a responsabilidade da SAD e começa a de Vítor Pereira, ou vice-versa, não sei. Mas mesmo perante este desequilíbrio, o FC Porto tem soluções para fazer face a este problema. Não se podem é mais protelar decisões técnicas. Há um campeonato para ser ganho.






Centrando no jogo, Vítor Pereira faz duas alterações em relação ao onze inicial do jogo frente ao Rio Ave. Alex Sandro, após castigo, volta a assumir a posição de defesa esquerdo e Defour ocupa o lugar do Moutinho. É um meio campo menos dinâmico que enfrenta a dupla de trincos montada por Jesualdo e com muita duplicação de funções, sobretudo na primeira fase construção, o que origina o recuo da linha média e o distanciamento face a Jackson.

O jogo começa logo com um susto. Boa amostra daquilo que o adversário iria procurar no jogo. Perda de bola do FC Porto e Labyad a correr desenfreado em direcção à baliza de Helton. Danilo atrapalha a progressão de Labyad e sem arte para mais, o marroquino atira-se para o chão na área portista. No contra-ataque, Fernando corre sobre o meio campo do adversário e serve Jackson, descaído para o flanco direito. Jackson remata forte, mas Patrício defende com dificuldade.

Aos 8 minutos, livre frontal a favor do FC Porto. Danilo cobra em força e a bola passa rente ao poste direito de Patrício. Aos 15 minutos, volta a ser Fernando a tentar levar a bola a Jackson. Nova arrancada pelo centro do terreno, desta vez, descobre Jackson descaído no flanco esquerdo. O colombiano livra-se da marcação, mas o remate sai torto.





No minuto seguinte, é Otamendi quem tira a bola no momento certo a Wolfswinkel. Cinco minutos depois, Defour aproveita as costas de Miguel Lopes e foge pelo flanco esquerdo. Nenhum central do adversário sai em seu encalço e o belga entra pela grande área dentro pela zona lateral. Só com Patrício a tentar reduzir o ângulo de remate, Defour não teve calma e remata à figura do guarda redes adversário. Mais cinco minutos e nova oportunidade. Lucho bombeia uma bola para a área. Ilori corta a bola de forma defeituosa, deixando-a à mercê do ponta de lança do FC Porto. Quando Jackson já calculava o remate, Patrício ca sobre ele e afasta a bola com uma palmada.



Aos 37 minutos, a última oportunidade para o FC Porto nos primeiros 45 minutos. Jackson recebe um passe de costas para a baliza e fora da grande área. Roda com classe sobre Ilori e tenta acertar no ângulo. O remate sai próximo do objectivo, mas ao lado. Acaba aqui o perigo portista na primeira parte. É um lance que resume bem as dificuldades portistas. Jackson obrigado a jogar fora da área e de costas para a baliza do Patrício. Nas três oportunidades que teve, nenhuma foi na zona 9. Ora descaído nos flancos, fazendo o trabalho dos extremos que não existiam, ora fora da grande área, fazendo o papel do criativo que também não existia. De resto, um livre de Danilo e uma arrancada de Defour a aproveitar um erro de marcação alheio. Até ao intervalo, um grande susto para o FC Porto. Otamendi atrapalha-se com a linha de fora de jogo e permite a Wolfswinkel ganhar espaço em zona frontal à baliza. Dier, sem pressão no transporte de bola, serve o avançado que, isolado e com a baliza à mercê, não leva de vencida Helton.

O intervalo não é bom conselheiro e o FC Porto não entra forte no segundo tempo. Pelo contrário, afunda-se nos seus problemas e com a ansiedade crescente, desliga todo o seu jogo ofensivo. Nem Jackson conseguiria ressuscitar o jogo ofensivo do FC Porto.

Sem jogo flanqueado e sem conseguir criar perigo, Vítor Pereira decide mexer no jogo aos 57 minutos. Tira Izmaylov e coloca James em jogo. O jogo flanqueado não melhorou, como é óbvio, nem o jogo interior ganhou nova dimensão, infelizmente. James entrou desinspiradíssimo e não consegui ser determinante no jogo. Responde Jesualdo, fazendo aquilo que lhe restava fazer. Retira o inócuo Labyad e coloca outro ciclista - Bruma - à procura de melhor inspiração.

O FC Porto arrasta-se no encontro, sem velocidade e sem um pingo de talento na sua acção ofensiva. Aos 68 minutos, Vítor Pereira torna a mexer. Retira Varela e coloca Atsu.

No entanto, é o clube do campo grande quem causa perigo. Aos 72 minutos, Bruma remata ao lado após novo contra-ataque.

Aos 75 minutos, Jesualdo retira Adrien e coloca Carrillo. Abre-se uma porta ao FC Porto para aproveitar a menor pressão a meio campo, mas nem assim Vítor Pereira arrisca. Mantém James a falso extremo e Defour no centro ao lado de Fernando. Aos 79 minutos, Rojo é expulso e Jesualdo retira Capel, colocando Fokobo ao lado de Ilori.




Mesmo perante tão imberbe dupla de centrais, o FC Porto não cria perigo. A bola nem chega a Jackson!!! Tais e tão profundas são as dificuldades ofensivas do FC Porto. Excepção para a ÚNICA jogada flanqueada do segundo tempo! Aos 81 minutos, Alex Sandro liberta para Atsu. Com espaço para correr, o ganês avança para a área do adversário, mas o mau domínio de bola e a dificuldade de armar o remate limitam o seu ângulo de remate e acaba por permitir a defesa a Patrício. Até ao fim, seria o adversário a cheirar o golo por duas vezes. Primeiro, após perda de bola infantil de James, com Helton a ter que arriscar fora da área sobre Wolfswinkel. Depois, já nos descontos, Carrillo desperdiça mais um contra-ataque.




Continuamos dependentes de nós. Correcto, mas não é esse o ponto. Estamos, mais que nunca, dependentes de Vítor Pereira, isso sim. Ou o técnico do FC Porto afronta os problemas crónicos da equipa perante adversários que se fecham e que exploram a nossa ausência dos flancos, ou, encarando o calendário que ainda temos que percorrer, não creio que essa verdade matemática nos valha de grande coisa. Chegou a hora de assumir. Basta deste futebol de oitos a meio campo e um pouco por toda a parte. Temos soluções no plantel para dar profundidade e classe à equipa na hora de atacar. Temos que estruturar o meio campo e tomar decisões técnicas, por ventura difíceis, mas urgentes. Ou então, estamos feitos num oito!


Análises Individuais:

Helton - Acaba por ser um dos salvadores da noite, apesar de ter tido uns momentos à Helton durante a primeira parte. É essa arte muita própria que acaba por nos salvar, já no fim do jogo. Muito boa saída à oportunidade de Wolfswinkel, na primeira parte.

Danilo - Continua a funcionar a diesel no vai e vem do flanco. Tecnicamente, voltou a estar desastroso e distante do futebol que pode apresentar. Creio que todas as suas dificuldades de afirmação têm um substracto físico e não é caso único no plantel.

Alex Sandro - Entra logo com o pé esquerdo, numa perda de bola patética. Capel não lhe deu trabalho algum, mas a sua presença já foi o suficiente para o reter atrás. Sem ajuda no seu flanco, não foi o dínamo ofensivo que costuma ser. Bruma já deu mais trabalho e acaba o jogo de rastos.

Maicon - Veio irreconhecível da lesão. Muito pesadão e errático, está longe do seu nível. Abusou do chuto para a frente e percebeu-se que não estava confortável com a bola. É mais um "caso físico" do plantel.

Otamendi - Fez um jogo que o caracteriza. Tanto fez cortes determinantes, como comete erros de principiante. A forma como deixa Wolfswinkel em jogo na primeira parte é quase hilariante. Ainda assim, revelou-se a peça mais segura na hora de defender. Grandes cortes ao longo da partida evitaram males maiores.

Fernando - Num meio campo onde tudo se pede a toda a gente e a todo o instante, foi ele o principal alimentador de Jackson na primeira parte! Ora aí está um bom sintoma de como vai mal a criação de jogo do FC Porto. Tentou empurrar o meio campo portista, mas não havia forma. Adrien nunca foi ameaça, pois limitou-se a ser "trinco avançado". Sai de campo com a melhor exibição da noite e um cartão amarelo mais que injusto.

Defour - Até fez um bom jogo, mas acabou perdido no meio campo portista. Quase como sem saber o que tinha a fazer. Se calhar, a sua tenacidade no flanco, com James no centro, teriam dado uma alma nova ao flanco direito do FC Porto. É possível. Uma coisa é certa, não teve a verticalidade de Moutinho.

Lucho - Mais um jogo de esforço e pouca glória. Continua a debater-se consigo mesmo na tentativa de esticar jogo ofensivo. Tentou abrir linhas de passe e tabelar, mas Rinaudo tapou-lhe todos os caminhos. Entregou tudo o que tinha, mas não se pode pedir que resolva todos os problemas ofensivos do FC Porto. Já não é jogador para isso.

Izmaylov - Uns bons detalhes salpicados em 57 minutos de pouco futebol. Não é extremo, não tem rotação para ser médio e joga metades de jogos. É ainda muito limitado o arsenal ofensivo de Izmaylov.

Varela - Mantém-e a titular porque a concorrência é ainda mais fraca. Mesmo sabendo disto, a SAD falha a contratação de um extremo em Janeiro. Veremos as consequências desta decisão. Fez mais um jogo sem qualquer pingo de talento para a amostra.

Jackson - Isolado na frente e desinspirado. É verdade que não foi "São Jackson", mas também este jogo ofensivo do FC Porto corta a inspiração a qualquer avançado do mundo. Na primeira parte, tem três oportunidades, nenhuma na zona 9. Na segunda parte, nem bola teve! Como é possível nem aproveitar o avançado que temos?! Como é possível?!


James - Um verdadeiro desastre a sua entrada em campo. Mais um jogador que volta de lesão completamente derreado. Ainda por cima, colocado no flanco, mais se nota. Ainda assim, foi a sua falta de atitude competitiva que mais sobressaiu. Muito mau, mesmo!

Atsu - Teve uma oportunidade e perdeu-a no meio de alguma atrapalhação. Foi presa fácil para Miguel Lopes e nada trouxe de novo ao jogo. Nem a velocidade, que é a sua arma.

Liedson - Um corte defeituoso de quem entrou para jogar na frente. É o melhor resumo deste jogo do FC Porto no campo grande.



Ficha de Jogo:


Sporting-FC Porto, 0-0

Liga portuguesa, 21.ª jornada
2 de Março de 2013

Estádio José Alvalade, em Lisboa
Assistência: 27.436 espectadores

Árbitro: Paulo Batista (Portalegre)
Assistentes: José Braga e Valter Rufo
Quarto árbitro: Luís Reforço

SPORTING: Rui Patrício; Miguel Lopes, Tiago Ilori, Marcos Rojo e Joãozinho; Rinaudo (cap.), Eric Dier e Adrien; Labyad, Van Wolfswinkel e Capel
Substituições: Labyad por Bruma (60m), Adrien por Carrillo (75m) e Capel por Fakobo (80m)
Não utilizados: Marcelo, Cédric, Zezinho e Etock
Treinador: Jesualdo Ferreira

FC PORTO: Helton; Danilo, Maicon, Otamendi e Alex Sandro; Fernando, Defour e Lucho (cap.); Varela, Jackson Martínez e Izmaylov
Substituições: Izmaylov por James (56m), Varela por Atsu (67m) e Defour por Liedson (81m)
Não utilizados: Fabiano, Castro, Abdoulaye e Sebá
Treinador: Vítor Pereira

Cartões amarelos: Izmaylov (38m), Marcos Rojo (44m e 78m), Maicon (70m), Fernando (86m) e Miguel Lopes (89m) e Bruma (90m+1)
Cartões vermelhos: Marcos Rojo (78m, por acumulação de cartões amarelos)








Analise dos Intervenientes:



Vítor Pereira:


 «Ficámos ansiosos...»

«Defrontámos uma equipa que se bateu sempre, que esteve organizada. O primeiro golo não apareceu. Até aos 55 minutos fomos iguais a nós próprios, com boa circulação, mas não fizemos golo. Depois ficámos ansiosos, a querer fazer as coisas muito depressa. Isso permitiu algumas transições ao Sporting. Não é esse o nosso jogo. Não posso apontar nada aos jogadores, mas faltou mais paciência e ser mais esclarecido. Não rodámos a bola.

Moutinho? Não sou apologista de sentir falta de jogadores. A equipa vale como um todo. Procurámos fazer o nosso jogo. O campeonato está em aberto, vamos à luta. Ainda há algum campeonato para jogar. Ainda temos uma palavra a dizer.

Claro que preferia ter ganhado o jogo, vamos ver o que faz o nosso adversário direto. Ainda temos tempo para decidir o campeonato a nosso favor».

Lucho lamenta falta de Moutinho: 

«É muito importante para nós»


«Não é um resultado positivo. Sabíamos que tínhamos de dar tudo e tentámos. Temos de continuar e falta muito campeonato. É uma lástima não ter ganho em Alvalade. Faltou alguma tranquilidade na hora de definir e escolher a melhor opção. Moutinho? O João é importante e todos sabem disso, mas há colegas que o podem substituir. Espero que se recupere, porque precisamos dele. Vamos daqui com um sabor amargo».




Por: Breogán
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