domingo, 31 de março de 2013

Académica 0 - 3 FC Porto: No Limiar do Sonho (Por Breogán)


No limiar do sonho.

Objectivo cumprido e ainda no limiar do sonho, como faz referência o artigo do Walter Casagrande (ler aqui). No limiar, porque mesmo vencendo por 0-3, o futebol debitado pela equipa continua a ser escasso, previsível e cada vez mais limitado no tempo, em consequência da fadiga física de alguns jogadores.






Sejamos francos, ontem vencemos justamente com margem de conforto, mas a oposição foi demasiado fraca para suster a nossa limitada capacidade ofensiva. Pedro Emanuel na procura de imitar quem travou o FC Porto, não percebeu que tinha que sustentar o seu ataque e limitou em demasia a equipa. O FC Porto aproveitou ganhar vantagem táctica, mais uma vez, com uma posse de bola quase inócua em termos de perigo. Porque os problemas crónicos do FC Porto continuam bem vivos e sem solução. 






Foi só mais um jogo em que Jackson lutou sozinho na frente de ataque e muitas vezes desceu ao meio campo à procura de jogo. Com um conjunto de falsos extremos e sem quem assuma a tempo inteiro a batuta criativa da equipa, valeu ao FC Porto marcar nos momentos chave do jogo e o acordar tardio de Pedro Emanuel.

Não foi um jogo onde se sentisse vitalidade ou revolta, mas as mesmas soluções estafadas e gastas, que cumpriram os serviços mínimos e nos mantém no limiar do sonho.

Vítor Pereira voltou a poder contar com Moutinho e escalou Izmaylov no onze, saindo Defour e Atsu da equipa. Mais uma vez, o FC Porto aposta num “molhinho de médios” com Izmaylov e James como “extremos”. Do lado da briosa, Pedro Emanuel procura o reforço do meio campo, tirando uma unidade ofensiva.

O jogo começa com o FC Porto por cima e a Académica na expectativa. Rapidamente, percebe-se que vai ser um jogo sem velocidade, com muita densidade no centro do terreno e rarefeito nos flancos. O FC Porto não tinha rasgo nas laterais e a Académica, sem um extremo de raiz, sofria do mesmo mal.





Aos 4 minutos, surge a primeira situação de perigo. Lucho serve Jackson na área, mas João Real corta para canto. O jogo adormece logo depois e só é acordado pelo 0-1 do FC Porto. Aos 15 minutos, canto para o FC Porto. Moutinho cobra, mas a defesa da Académica alivia. Lucho recupera e volta a colocar em Moutinho, que baila em frente ao seu marcador e cruza tenso. Na área, Mangala corresponde e num excelente golpe de cabeça faz o 0-1. Segunda oportunidade, esta resultante de uma bola parada, e o FC Porto já ganha algum conforto no marcador. Crucial.




Com o 0-1 no marcador, o jogo congela. Nem o FC Porto se anima, nem a Académica acorda. Ambas as equipas debatem-se com os espartilhos tácticos que as limitavam a carrilar jogo pelo centro. Decorrem quase 10 minutos até que o FC Porto volte a criar perigo, e claro, de bola parada. Aos 24 minutos, Jackson sofre falta ainda longe da área da Académica. Ainda assim, James apronta-se para a marcação do livre e acerta na trave.

O FC Porto acorda e atravessa a melhor fase do jogo. Logo no minuto seguinte, bom lance de envolvência do FC Porto com James a servir, de primeira e com classe, a entrada de Lucho na área. Lucho tenta cruzar para Jackson, mas Flávio corta no último momento. Na sequência da jogada, Danilo recupera a bola no flanco direito e passa para James. O “criativo em part-time” volta a meter um passe a rasgar, dando sequência à tabela com Danilo. O lateral entra na área academista e tenta servir Jackson, mas Ricardo defende para canto.

O canto é quase uma repetição do primeiro golo. A Académica corta a primeira abordagem, mas na insistência, James cruza tenso para Mangala, que mesmo em queda, cabeceia à trave.

Logo depois, aos 28 minutos, nova oportunidade. Bola de James (quem mais?!) bem metida na área, ainda desviada por Izmaylov e Jackson contorna Ricardo, mas com ângulo reduzido, remata às malhas laterais.
Bastaram 5 minutos de James com a batuta, para o FC Porto ter oportunidades suficientes e em catadupa para matar o jogo. E tão depressa como apareceu esta boa fase do FC Porto, assim também desapareceu e o jogo volta ao seu estado gélido.





O jogo só volta a acordar aos 37 minutos, por revolta de Fernando. Na raça e em progressão vertical, Fernando tabela com James, primeiro, e Izmaylov, depois, para entre ressaltos e repelões, entrar na área e rematar para golo, mas Flávio, uma vez mais, salva no último momento. Acaba aqui a produção ofensiva do FC Porto e aproveita a Académica para subir de produção e criar duas situações de relativo perigo. Primeiro, num remate forte de ressaca de Wilson Eduardo mas à figura de Helton. Depois, numa “brincadeirinha” de Helton com Makelele a tentar aproveitar a sua ausência entre os postes.




Face às oportunidades, a vantagem é escassa. A apatia coimbrã permite ao FC Porto criar perigo, mesmo sem acelerar ou ser criativo no ataque. O golo de Mangala é determinante, porque coloca o FC Porto numa posição de conforto no jogo.

A segunda parte não trás novidades. As equipas entram com os mesmos onzes e a mesma toada de jogo. O filme inicial desta segunda parte acaba por ser um decalque do da primeira parte. O FC Porto entra melhor e acaba por materializar em golo a sua primeira grande oportunidade, aos 52 minutos de jogo. Destaque para James e Danilo. O lance começa em James, na zona central, que solicita a subida de Danilo no flanco. Danilo devolve a James e arranca para a área. Entretanto, James tabela com Lucho e faz o movimento vertical, arrastando as marcações. Lucho percebe a desmarcação diagonal de Danilo nas costas do lateral, aproveitando a preocupação com James, e endossa-lhe a bola. O passe é perfeito, deixando Danilo cara a cara com Ricardo. Perante a saída do guarda-redes, Danilo coloca a bola entre as pernas deste e faz o 0-2. Jogada flanqueada, criativo na sua zona e golo. Tão simples e, no entanto, tão complicado de obter neste FC Porto.

O FC Porto marca logo a abrir e os planos da Académica vão por água abaixo. Ainda assim, logo no minuto seguinte, Helton e Alex Sandro tentaram dar alguma emoção ao jogo, numa nova “brincadeirinha” em zona proibida.







Aos 54 minutos, de novo James a aparecer no jogo. Passe a rasgar para Jackson que foge a João Real. A recepção é boa e com classe suficiente para deixar Ricardo fora do lance, mas João Dias, na dobra, corta o lance quando Jackson já preparava o remate.







Após esta entrada forte, o jogo volta a arrefecer. Aproveita Pedro Emanuel para começar a corrigir o que tinha faltado à Académica durante todo o jogo: saída para o ataque. Tira um trinco e coloca um médio criativo.

A Académica melhora, mas não incomoda. O FC Porto, respaldado pelo 0-2, deixa o jogo correr. Aos 63 minutos, a Académica cria perigo num canto. Responde o FC Porto, três minutos depois, por Jackson de cabeça, também após um canto.

Sem resultados práticos, Pedro Emanuel volta a mexer e coloca, finalmente, um extremo em campo. Responde Vítor Pereira, aos 75 minutos, gerindo o esforço dos seus jogadores. Saem Lucho e James e entram Castro e Defour.

O jogo abranda muito de ritmo e só aos 87 minutos volta a haver perigo. Boa penetração de Defour pelo flanco direito, após toque de calcanhar de Moutinho. Defour serve Izmaylov que amortece para o remate de Moutinho. O remate sai forte, mas ao lado. Nova jogada flanqueada.

Mas o jogo não acabaria sem novo golo. Aos 89 minutos, livre cobrado por Moutinho, mas a defesa da Académica afasta. Na ressaca e fora da área, Castro desfere um pontapé cruzado e colocado, não dando hipóteses de defesa a Ricardo. Seguiu-se a alegria dos festejos do menino de Gondomar e, pouco depois, o apito do árbitro.

Objectivo cumprido. Não foi brilhante, mas foi sólido. Sobretudo, perante tão débil oposição. Ainda assim, são preocupantes as dificuldades físicas da equipa e continuamos a revelar as mesmas dificuldades crónicas o jogo ofensivo. E não temos mais margem de erro! Estamos no limiar do sonho.


Análises Individuais:

Helton – Foi um espectador durante todo o jogo. Ainda assim, o apelo pelo perigo e pelo risco foi irresistível em dois lances escusados.

Danilo – Foi um jogo onde doseou melhor as suas investidas e soube ser influente quando solicitado. Mais confiável do ponto de vista técnico, é premiado com um golo. Ainda tem um longo caminho para percorrer para ser o jogador que pode ser. Sai de rastos do jogo. Significativo.

Alex Sandro – Jogo muito amorfo. Não se destacou nem no plano ofensivo, nem foi muito sólido a defender. Anda longe da sua boa forma e isso nota-se no seu jogo.

Otamendi – Jogo imperial, só com um passo em falso, mas Wilson Eduardo acertou em Helton. Rápido e incisivo no corte, foi o comandante da defesa.

Mangala – Alguns lapsos defensivos, mas nada de monta. Ofensivamente, é um bicho na área. Marca um golo e quase marca outro. Os céus são o seu domínio.

Fernando – Num jogo onde o meio campo da Académica não exerceu pressão alguma, libertou-se de quando em vez no ataque. Deveria ter tido mais calma no lance no final da primeira parte. Maior tranquilidade e teria marcado. Esteve algo errático no passe.

Moutinho – Jogo de baixa intensidade, como em recuperação, mas sempre pontuado de qualidade. Qualidade de passe e sempre disponível para equilibrar a equipa. Esticou o seu jogo ao máximo e orientou o jogo “escondido” da equipa.

LuchoBom jogo, embora algo ausente do plano ofensivo. Ainda assim, fez a assistência para o segundo golo, num passe de excelente qualidade.

Izmaylov – Um jogo morno. Não jogou mal, nem bem. Não é extremo e não causou perigo no flanco. No centro, participou no que podia, mas nunca imprimiu uma qualidade diferenciada aos seus lances. Nem sim, nem sopas. Mais uma exibição cinzenta. O FC Porto precisa de um jogador mais ousado.

James – Longe da sua boa forma física, é ainda quem cria perigo. Sintomático das nossas dificuldades ofensivas. Quase tudo de bom no ataque saiu dos seus pés. É esta capacidade de mexer no jogo que faz de James um jogador único no plantel do FC Porto. Mesmo passando tempo demais longe do seu habitat.

Jackson – Trabalhou, suou e não marcou. Tentou tudo, mas não era o seu dia. Passa uma fome de bola durante o jogo que dói. Passa mais tempo fora da área a alimentar a equipa que dentro dela a ser alimentado. Até custa ver.


Castro – Mais um jogo onde volta a mostrar que tem um jogo mais equilibrado e que tenta não ser só um jogador de transpiração. Um bom golo e um prémio merecido. Foi bom ver aquela alegria. Contraste imenso com Danilo, por exemplo.

DefourBoa entrada, embora para um lugar que não é o seu.

MaiconNão deu espaço na defesa e prepara-se para titularidade frente ao Braga.





Ficha de jogo:

Académica-FC Porto, 0-3
Liga portuguesa, 24.ª jornada
30 de Março de 2013
Estádio Cidade de Coimbra
Assistência: 5.832 espectadores

Árbitro: Bruno Esteves (Setúbal)
Assistentes: Rui Teixeira e Mário Dionísio
Quarto árbitro: Rui Patrício

ACADÉMICA: Ricardo; João Dias, João Real, Flávio (cap.) e Hélder Cabral; Bruno China, Makelele e Marcos Paulo; Rodrigo Galo, Edinho e Wilson Eduardo
Substituições: Bruno China por Cleyton (59m), João Dias por Marinho (67m) e Wilson Eduardo por Cissé (86m)
Não utilizados: Peiser, Halliche, Keita e Ogu
Treinador: Pedro Emanuel

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando, João Moutinho e Lucho; James, Jackson e Izmaylov
Substituições: Lucho por Castro (74m), James por Defour (74m) e Danilo por Maicon (81m)
Não utilizados: Fabiano, Liedson, Abdoulaye e Kelvin
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 0-1
Marcadores: Mangala (15m), Danilo (52m) e Castro (89m)
Cartões amarelos: Bruno China (23m), Mangala (34m), Otamendi (62m) e João Moutinho (87m)




Análise dos Intervenientes: 

Vítor Pereira:

«Foi uma exibição segura e serena. Fizemos três golos e podíamos ter feito mais um ou outro, mas penso que não seria justo para a Académica. Estou satisfeito pela forma como gerimos o jogo e criámos oportunidades, e estou contente com os jogadores e com o resultado.»

«Fizemos um jogo personalizado. Sabíamos que não podíamos entrar com precipitações, nem querer chegar depressa. Trabalhámos o jogo, e os espaços foram surgindo e os golos apareceram. Podia ter aparecido mais do que um na primeira parte porque fomos criando oportunidades, mas no fim concluímos três e estamos satisfeitos.»

«Foi bom voltar às vitórias depois de quinze dias de seleções. Era importante retomar a normalidade, e a nossa equipa está habituada a ganhar, a nossa normalidade são as vitórias. Não me recordo de nenhuma situação de golo para a Académica. Pode ter acontecido uma ou outra oportunidade para atirarem à nossa baliza, mas nós controlámos o jogo.»

Sobre o regresso de Moutinho:

«A dinâmica do nosso meio campo está muito sistematizada. Os três jogadores que têm jogado mais no meio têm rotinas, e claro que as ausências se fazem notar, pela ligação que têm os três. E o João é um jogador inteligente que sabe marcar os ritmos, criar os espaços, aparecer e controlar os tempos de entrada. Por isso é um jogador importante.»

Sobre a desvantagem para o Benfica 

«Temos de fazer bem o nosso trabalho, com a seriedade com que fizemos hoje, e acredito que teremos campeonato até ao fim.»

Sobre Danilo que saiu com queixas 

«Julgo que não será nada de de especial, saiu apenas por precaução»


Danilo:

 «Somos todos jogadores de caráter»

«A equipa fez por merecer, fizemos um jogo controlado. O resultado é fruto do trabalho que fizemos durante o jogo.»

Foi a resposta forte que o treinador pediu?

«Independentemente do que o mister pedir, somos todos jogadores de caráter. Estamos habituados a vencer e quando temos dois resultados que não são a vitória isso deixa-nos incomodados. Fizemos o que tínhamos de fazer.»

Saída de campo em dificuldades

«Tive cãibras, é normal. Desgastei-me um pouco mais neste jogo, agora é procurar descansar para a próxima semana.»

Sobre o golo 

«Procuro ajudar a equipa. Às vezes ajudo mais, outras menos. Hoje fiz o golo e estou muito contente com isso.»

Questionado se ainda tinha muito a crescer

«A equipa ainda tem muito a crescer.»



Pedro Emanuel: 

«Primeiro golo condicionou estratégia»

«Este é um jogo muito fácil de analisar. Procurámos claramente controlar o que seria o ímpeto inicial do F.C. Porto, e a partir dai procurar as nossas saídas e causar algum incómodo no nosso adversário. Num lance de bola parada sofremos um golo logo aos 15 minutos e isso condicionou um pouco a nossa estratégia. Tentámos manter aquilo que seria o nosso modelo e estratégia para este jogo, procurámos reequilibrar aqui e ali, para chegarmos à frente com mais critério, mas o início da segunda parte deu tranquilidade ao nosso adversário, que com jogadores de qualidade nos conseguiu controlar.»

F.C. Porto não é de outro campeonato? 

«Mas este jogo não é do nosso campeonato. Queríamos disputar o jogo dentro de um critério e rigor que nos levaria a procurar e ambicionar outro tipo de resultado. Não foi possível, a vitória do adversário é justa, e a nós resta levantar a cabeça e continuar o nosso trilho para estarmos prontos para ir à luta nestas cinco finais que faltam.»

Depois do 2-0... 

«A diferença de dois golos deu maior conforto ao adversário e obrigou-nos a ter um maior dispêndio emocional e maior desgaste físico. E o jogo a partir daí deixou de ter aquele entusiasmo. Ainda tentámos o golo, mas não foi possível, e acabámos por desligar do jogo, porque o momento emocional não nos permite mais. E é essa luta que temos de ter connosco. Nós estamos dentro dos nossos objetivos e a nossa principal luta é no próximo fim-de-semana em Barcelos.»

Sobre a situação da Académica

 «Todos os jogos são decisivos nesta fase. As equipas estão muito juntas na tabela classificativa, e temos de jogar jogo a jogo, e procurar conquistar pontos com adversários diretos, como é o caso do próximo desafio. Temos de olhar para aquilo que é o nosso espírito competitivo, a nossa coragem para enfrentar estes momentos delicados, e acima de tudo temos de acreditar no nosso trabalho e ter uma força interior tremenda.»

Exemplo da última época

«Temos de reagir da mesma forma como fizemos no ano passado, quando também estivemos quinze jogos sem ganhar, e depois ganhámos a Taça de Portugal e fomos à Liga Europa. Acho que o passado recente é uma grande lição e um grande estímulo para nós. Mas para isso acontecer temos de querer, de estar motivados e acreditar nas nossas capacidades, e estar disponíveis para que isso aconteça.»




Por: Breogán


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