domingo, 21 de outubro de 2012

Taça de Portugal: CCD Santa Eulália 0 - 1 FC Porto (Crónica)


Valha-nos Santa Eulália!







Desde jogo, só sobrevivem duas coisas positivas.
Primeiro, a vitória dentro dos 90 minutos que permite-nos passar à próxima eliminatória. Valha-nos Santa Eulália por isso! Segundo, a conferência de imprensa no final do jogo.






 Não pelo tom encrespado. Muito menos pela falsa demonstração de liderança de pseudo murro da mesa e daqui para a frente não vai ser repetível. Todos sabemos, mesmo os que não querem e os que não conseguem ou não podem admitir, que estamos sujeitos a mais jogos assim neste legado. Simplesmente, porque ao contrário de Vila do Conde, Vítor Pereira disse que sabia o porquê deste jogo ter saído como saiu. Mesmo que tenha sido alguém a dizer-lhe o porquê e não fruto do seu próprio pensar. Seria a desgraça se no fim de um jogo destes, contra o adversário que foi (que até apresenta atletas mais anafados que lutadores de sumo), o treinador do FC Porto se sujeitasse ao ridículo de se virar para os jornalistas presentes e dizer que não tinha percebido o que tinha acontecido. Valha-nos Santa Eulália por isso também!

Sendo de autoria própria ou não, o que afirmou Vítor Pereira no final do jogo é verdade. As muitas mexidas e as adaptações exóticas no cerne da equipa só podiam dar o resultado que deram. No fundo, ter rasgo de treinador é percepcionar o improvável antes de acontecer, por maior força de razão, percepcionar por antecipação o óbvio é o “quanto basta” para um bom treinador. Vítor Pereira falhou em ambas. Ao menos no fim, desta vez, diz que percebeu o que correu mal. Temos evolução.

É verdade que este é um jogo de menor interesse numa época que se espera longa e com muitos objectivos para conquistar. É verdade que para o Santa Eulália este era “o jogo” desde a sua fundação. Também sabemos do jogo importante para a Champions que se avizinha e das alterações que se iriam efectuar na equipa, dada a valia do adversário, para rodar plantel. Mas para lá do acesso à próxima eliminatória da Taça de Portugal, este jogo serviria para mais alguma coisa? Sim, serviria. Nestes jogos ganham-se jogadores. Nestes jogos ganha-se continuidade.

Que jogador se aproximou do onze inicial no após Santa Eulália? Nenhum. Um plantel tem sempre primeiras e segundas escolhas. É uma lei fundamental do futebol. Quanto maior for o fosso que separa as primeiras escolhas das segundas, mais limitado o plantel se torna e maior é a descrença da equipa e de tudo o que a envolve (adeptos incluídos) quando tem que recorrer às segundas escolhas. Mesmo para os adversários é um critério de motivação. Se os adversários percebem que as segundas escolhas aguentam o nível exibicional da equipa, o suposto “ponto fraco” não existe nas suas cabeças. Mas se, pelo contrário, começam a ganhar crença que quando o FC Porto não apresenta o seu 11 de gala há sérias hipóteses do nível da equipa cair consideravelmente de rendimento, então a motivação para enfrentar o FC Porto é outra.

No após “valha-nos Santa Eulália”, o FC Porto não “ganhou” nenhum jogador, como até pode ter “perdido”, irremediavelmente, alguns deles.





Quanto à continuidade, é um aspecto ainda mais abrangente. Envolve a equipa no seu todo. Estes jogos são um teste à continuidade da equipa. Não se exige que o FC Porto goleie por muitos, nem se exige, sequer, que o FC Porto goleie. Exige-se ao FC Porto que faça um jogo sólido, inquestionável e coerente. Exigia-se ao FC Porto que não desse hipóteses ao Santa Eulália, que controlasse o jogo e não que estivesse sujeito a uma anedota no fim do jogo, como, ainda por cima, esteve quase a acontecer. É esta continuidade exibicional que dá crescimento sustentado à equipa. Não há equipa que cresça numa montanha russa exibicional.





É esta continuidade que torna a equipa maquinal. Mesmo mudando algumas peças, o rendimento é perene. Todas as grandes épocas do FC Porto tiveram esta sustentação. Foram muito poucas as interrupções na continuidade exibicional da equipa. Com este legado de Vítor Pereira, nunca se sabe o que vai acontecer a seguir. Sobretudo, nos jogos fora de casa.

Nada do anteriormente escrito respalda ou desculpa a manifesta falta de empenho e de qualidade nas exibições individuais de alguns jogadores. Aliás, é já um sintoma recorrente neste consolado. Nada do anteriormente escrito justifica que um jogador se entregue à miséria do jogo e não tente ser foco de revolta que contagie a equipa. Infelizmente, nem quem jogava dava a volta ao texto, nem quem entrava melhorava o que fosse, nem quem segurava a batuta (?) no banco conseguia sacar uma nota afinada da orquestra!!!

O que é assustador neste jogo é sentir, uma vez mais, que Vítor Pereira não percebe como se articula uma equipa de futebol moderno. Entregar a primeira fase de construção e de pressão no meio campo a Castro e Rolando, um central adaptado e um médio sem andamento para o caudal de jogo que o FC Porto precisa é matar toda a equipa. Os defesas ficam a apanhar jogadores que vencem verticalmente a linha de pressão e os atacantes ficam entregues a tentar o rasgo individual porque não há meio campo que suporte e alimente o jogo ofensivo da equipa.

Imaginem a Fórmula 1. A equipa principal é o melhor carro e no seu centro tem um motor V10. O nosso carro suplente (o que ontem jogou), com umas peças novas à mistura, tem um motor V6, mas Vítor Pereira decide ir mais longe, retira-lhe o motor V6 e coloca um motor de tractor a dois tempos. A partir daqui, não interessa se é Santa Eulália, Apoel, Espinho ou Santa Clara ou outra equipa qualquer. Ou temos alguma peça em superprodução que supere a incapacidade do motor, ou temos um problema que não é ultrapassável no centro mecânico do carro.

Nem tudo foi mau. Houve lances em que se percebeu a qualidade de alguns jogadores, mesmo estando amarrados pela tacanhez colectiva e tolhidos pela indolência individual.

Quanto ao jogo, a primeira parte até começou de forma razoável. Kléber, por duas vezes, tenta o golo nos primeiros 10 minutos. Primeiro, de cabeça, depois de pontapé de bicicleta. O Santa Eulália responde aos 13 minutos e anima-se para o jogo. Entre os 15 e os 20 minutos é Iturbe a ter três boas situações, mas decide sempre mal. Segue-lhe o exemplo Atsu que, aos 22 e aos 30 minutos de jogo, tem duas ocasiões para marcar, mas não é eficaz. No mesmo minuto 30, chega o golo de Danilo, num lance individual e em progressão vertical. Um lance de talento, concluído com classe. Um lance em que a superprodução individual superou o constrangimento no cerne da equipa. Cinco minutos depois, Danilo volta a tentar o remate fora da área, mas o seu remate é defendido. Dois minutos depois, Kleber falha isolado e de forma displicente, após boa tabelinha com Atsu.





A segunda parte foi uma descida às profundezas dos infernos. Logo aos 47 minutos, Fabiano salva o empate. Aos 50 minutos, Kléber volta a ter uma oportunidade e a falhar. Aos 67 minutos surge a única grande oportunidade do FC Porto na segunda parte. Atsu aproveita o atabalhoamento da defensiva contrária e atira à trave. A partir daqui, o FC Porto ausenta-se de campo e o Santa Eulália quase conseguia o seu milagre por duas vezes! Do FC Porto, nada! Um absoluto ZERO! Valeu-nos (que era o) Santa Eulália!




No fim, disse que percebeu. Esperemos que, com a intercessão de Santa Eulália, tenha percebido mesmo.
Pelo menos, já o disse, nem que fosse só da boca para fora e de sobrolho carregado!

O estilo do monólogo final, já não disfarça o que o provoca. Já há muito se sabe que mudar uma equipa por completo, nem dá uma oportunidade a quem entra, como só periga a continuidade da forma da equipa. Ainda por cima, juntar adaptações é do piorio.

Ontem, lembrei-me de Robson. Do que fez no fim de um jogo, em vez de um discurso pretensamente curto e grosso para jornalista ouvir. Mas desta vez, o treinador também tinha que dar umas boas voltas ao campo a correr.

Há sumo para ser extraído, não temos é espremedor.


Análises Individuais:


Fabiano – Mostrou que é opção séria a Helton. Boa defesa aos 47 minutos de jogo.

Danilo – Aos 13 minutos deu demasiado espaço na sua zona e o Santa Eulália aproveitou. Após esse lance, subiu de produção defensivamente e aproveitou o flanco para esticar jogo. Marcou um golo de talento e continuou a produção ofensiva. Aos 61 minutos, passou para o meio campo e perdeu-se naquela confusão. Sem espaço para explodir e atarefado a apagar demasiados fogos.

Quiño – Fez um jogo tímido, mas competente. Foi sério a defender e tentou sair para o ataque. Não merecia ser substituído.

Abdoulaye – Exibição demasiado faca. Cheia de “pecados” que não ganharam contornos mais gravosos porque do outro lado estava uma Santa Eulália. Teve bons cortes, mas displicências monumentais.

Mangala – Demasiado impetuoso, ainda assim, safou-se no meio deste turbilhão. Quando passou para defesa-esquerdo caiu abissalmente de produção e abriu o corredor, até então, bem fechado por Quiño. Terá Vítor Pereira percebido? Não é solução para a ausência de Alex Sandro.

Rolando – Fez uns bons passes, uns cortes aqui e ali, mas não tem dinâmica ou capacidade táctica para ser 6 (quanto mais 8!, como foi algumas vezes). Fez o que podia, o que era pouco para o que a equipa precisava. Quando Vítor Pereira percebeu e o devolveu à sua posição, não deu a tranquilidade ao sector que a equipa precisava.

Castro – Muita corrida, pouca dinâmica. Muito altruísmo, pouca qualidade. O passe nem sempre saiu preciso e raramente vertical. Nunca foi o médio que a equipa precisava. Uma coisa é jogar no Gijón que luta para não descer. Outra bem diferente é jogar num Bicampeão Europeu. Castro não dá o passo em frente.

Kelvin – Um jogo aos repelões. Misturou bons detalhes com longas ausências do jogo. Nota-se que é um jogador com muito futebol para dar. Falta-lhe quem o saiba extrair.

Iturbe – Entrou para o jogo e pensou que a melhor forma de entrar nas contas de Vítor Pereira era voltar a marcar outro golo como fez ao Celta de Vigo na pré-época. Erro tremendo. Perdeu-se e foi humilhantemente vencido lance após lance, até que, chateado com o jogo, desapareceu. Iturbe tem que jogar simples e começar pelo básico. Até lá, não passa de uma promessa. A aposta também tem que ser diferente. Iturbe é para jogar 20 minutos na primeira liga e não os 5 minutos finais.

Atsu – Dos jogadores ofensivos, foi o que fez o melhor jogo. Como todos os outros, sofreu com a ausência de um meio campo competente e abusou do lance individual. Não pode deixar-se contagiar com a onda de elogios que o rodeia. Tem muito que evoluir e precisa de ser bem mais eficaz. Até lá, nada de ganhar tiques de vedeta em campo.

Kléber – Muito bom começo de jogo, terrível e imperdoável perdida, aos 37 minutos, após boa tabela com Atsu. A partir daí, desesperou e desapareceu do jogo. A vida já não lhe corre bem, ao menos que lute para inverter isso. Não era o jogo fácil para ele. O meio campo não existia e os criativos estavam apostados a jogarem sozinhos. Ainda assim, tem que voltar a mostrar a vontade e o empenho que mostrava no Marítimo. Cada lance é o último, ou não vai sobreviver a mais um ano de FC Porto. A apatia com que acaba o jogo é confrangedora.


Miguel Lopes – Má entrada em jogo. Continua a revelar uma arreliante sobranceria defensiva. Ofensivamente, não esteve ao seu nível.

Varela – Mais uma entrada à Varela. Inconsequente e patética.

Sebá – Presente envenenado ter uma estreia assim. Com a equipa a jogar tão mal e sem fio táctico. Mas também não entrou bem. Rapidamente se percebeu que não traria nada de diferente ao jogo.


O que disserem os Intervenientes:

Vítor Pereira:

"Temos que ser muito mais fortes"

Depois da vitória, por 1-0, frente ao Santa Eulália, que garantiu o apuramento do FC Porto para a quarta eliminatória da Taça de Portugal, Vítor Pereira preferiu ser breve, reconhecendo, numa curta declaração, que esperava um desempenho superior da equipa e assumindo, sem qualquer reserva, a sua quota de responsabilidade pela exibição e pelo resultado.

“Assumo completamente as minhas decisões e reconheço que, com tantas mexidas e adaptações na equipa, descaracterizámos o nosso jogo”, disse o treinador dos bicampeões nacionais, admitindo que o FC Porto não apresentou em Vizela a qualidade habitual.

Para valorizar, continuou Vítor Pereira, sobrou-lhe apenas “a passagem à próxima eliminatória” e “o apoio dos adeptos”, que “mereciam outra exibição”. Sem se esquecer de dar os parabéns ao adversário, “que fez um belíssimo jogo e foi ambicioso”, o treinador assumiu ainda que “a conquista da Taça de Portugal é um objectivo da equipa” e que, para o conseguir, terá que se apresentar “muito mais forte já na próxima eliminatória”.

Danilo:

“É natural que tenha sido assim, porque temos um jogo grande na quarta-feira [n.d.r.: FC Porto-Dínamo de Kiev]”, argumentou o lateral direito, que marcou, aos 31 minutos, com o pé esquerdo. “Mas o Santa Eulália também fez um grande trabalho”, prosseguiu. “Dificultou ao máximo, mas acabámos por sair daqui com a vitória e garantir a passagem à próxima eliminatória”.




FICHA DE JOGO:

Santa Eulália-FC Porto, 0-1
Taça de Portugal, terceira eliminatória
20 de Outubro de 2012
Estádio do FC Vizela, em Vizela
Assistência: cerca de 6.000 espectadores

Árbitro: Rui Costa (Porto)
Assistentes: Nuno Manso e Bruno Rodrigues
Quarto árbitro: Ivan Vigário

SANTA EULÁLIA: São Bento; Inácio, Basílio, Filipe Alves e Armando; Hélio, Rui Costa, André Cunha e Nélson (cap.); Carlitos e Zézé
Substituições: Filipe Alves por Benício (65m), Carlitos por Tiago Monteiro (74m) e Zézé por Filipe Magalhães (80m)
Não utilizados: Espinha, Chico, André Monteiro e Tiago
Treinador: João Fernando

FC PORTO: Fabiano; Danilo, Abdoulaye, Mangala e Quiño; Rolando, Castro (cap.) e Kelvin; Atsu, Kleber e Iturbe
Substituições: Kelvin por Miguel Lopes (61m), Quiño por Varela (61m) e Iturbe por Sebá (72m)
Não utilizados: Kadú, Lucho, James e Fernando
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 0-1
Marcador: Danilo (31m)



Por: Breogán
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