quarta-feira, 31 de outubro de 2012

SER FELIZ.





O prejuízo de 35,7 milhões de Euros da SAD foi tema de debate na última semana. São números desconfortáveis para os portistas e estimulantes para o Correio da Manhã que viu sumo suficiente para fazer 2 ou 3 capas.




Eu tenho enormes reservas à forma como o Porto foi gerido no ano de 2011. Falo no ano civil de 2011 quando subitamente se reforçaram percentagens de passes por valores astronómicos, se renovaram contratos com prémios de assinatura milionários e se contrataram jogadores por valores pouco habituais para a escala Porto.





Escrevi aqui 2 crónicas onde abordei o negócio Falcao (ver aqui) e o negócio Danilo (ver aqui) que são exemplos do que não se deve fazer.

Porque é que não se deve fazer? Porque são desvantajosos do ponto de vista financeiro e representam actos de gestão que não encaixam na estratégia de negócio da SAD.

Não faz sentido que um jogador de futebol que seja vendido por 40 represente menos encaixe do que se fosse vendido por 30.
Não faz sentido que um clube que assenta o seu modelo de negócio em Resultados Extraordinários contrate um jogador não fundamental a curto prazo por 18 milhões.

Não me interessa esmiuçar com pormenores técnicos o Relatório e Contas. 

Quando olhamos e queremos analisar as Contas de uma Empresa, uma SAD, um clube ou um País o mais fácil é olhar para os números e tirar conclusões.

O deficit desceu X? Um país é bem gerido.
A SAD teve prejuízos de Y? É mal gerida.
Uma empresa deu lucro de Z? Tem bons gestores.

A boa ou má gestão não depende de números. Depende de objectivos e da capacidade que há em os adequar à expectativa dos seus funcionários, clientes, sócios, accionistas ou da sua população.

A boa gestão pode e deve conviver com prejuízos e com maus resultados financeiros conjunturais.
A boa gestão não pode nunca esquecer-se porque é que gere, para quem gere e quais os objectivos que visa alcançar.

Qual a diferença entre a SAD de um clube e um país?

A mensuração. A boa ou má governação é facilmente identificável com objectivos concretos num caso e mais dada a interpretações subjectivas noutro.

O Presidente da SAD do meu clube sabe o que me faz feliz. O Presidente da SAD do meu clube não me conhece, nunca falou comigo mas sabe que a gestão da SAD é um instrumento para me dar vitórias desportivas.

E sabe que as vitórias desportivas são o fim último. Fim último e único.

Os governos do meu país também não me conhecem e têm sempre dificuldade em saber qual é o fim último. A dificuldade na mensuração da governação de um país tem dado hipóteses a que se confundam instrumentos com finalidades.
Uns podem ser mais felizes se têm acesso a educação e saúde gratuitas e outros o que quererão é que o Governo de um país se intrometa o menos possível no futuro individual de cada um. Que não lhes poupe na despesa nem lhes castre na receita.

Fazemos todos parte de um grupo mas somos felizes de maneiras diferentes. 




A mensuração do fim último é a pedra de toque na gestão. Em primeiro, segundo e terceiro lugar deve ser identificada a estratégia de gestão. O modelo de negócio. Quem queremos fazer feliz. Numa SAD os accionistas, num clube os sócios, num país a população. Identificados os alvos importa perceber como lhes dar felicidade.
Clarificado o fim último vamos à gestão financeira. 

Qualquer indivíduo seja ele filósofo, contabilista, cozinheiro, picheleiro ou economista tem que perceber essa realidade.

Os outros grandes de Portugal são um bom exemplo para nós.
A dada altura estavam os 2 com enormes dificuldades financeiras e desportivas. 
Um foi pragmático chegando a dizer que preferia ir à Liga dos Campeões do que ganhar um titulo. Confundiu instrumento com fim único. Sanear contas e apostar na formação.
O Outro foi demagógico. Com dificuldades nos 2 tabuleiros fugiu para a frente. Gastou balúrdios que tinha e não tinha para atingir rapidamente o fim único. Tentou copiar o nosso modelo virtuoso

Estando os dois mal nenhum de nós tem dúvidas em saber qual é o que tem o futuro mais sombrio. Desportiva e financeiramente.

Muitos dirão que “com o mal dos outros posso eu bem!”. Dizem mal.

O negócio futebol é quase como uma entrada na Faculdade. Tem numerus clausus.
Eu posso entrar para Medicina com média de 17 se no ano em que concorro todos os outros tiverem 16 ou menos. A concretização do meu objectivo de vida está directamente correlacionado com a qualidade da concorrência. A minha felicidade não vive sem que tal não se suporta na infelicidade de outros.

O Pingo Doce, o Continente e o Jumbo podem ser todos felizes ao mesmo tempo.
O Porto, o Benfica e o Sporting não.

A gestão da SAD tem que perceber isso. Tem que estar atenta à gestão das SAD´s que com ela partilham a definição do fim último.

O que é que temos visto? Que quer a nível do instrumento (análise das contas das SAD´s) quer a nível de fim último (felicidade de sócios/accionistas) a nossa lidera.

Tentei nas linhas que acima deixei tirar o peso que hoje em dia se dá à análise do instrumento. É bom que o vírus que hoje contamina o país não passe para o meu clube.

Não, não é um deficit de 3 ou 4% do PIB que me faz feliz.
Sim, sou capaz de ter uma vida feliz com uma divida pública superior a 100%.do PIB.
A qualidade de vida de um país não se mede por indicadores económicos.
Ninguém compra essa ideia de felicidade.
Avalia-se pela qualidade de vida dos seus habitantes que não é vista por taxas de crescimento do PIB mas, por exemplo, análise do indicador IDH. Caso contrário a Índia ou a China seriam paraísos na terra.

Espero ter conseguido esvaziar o balão de que a avaliação da gestão da SAD é o resultado directo da gestão das contas.

A partir daqui faço o percurso inverso. Explicar onde é que ela é decisiva. Sempre com a minha felicidade como fim último e único.




A SAD trabalha para eu ser feliz. Feliz em 2012, feliz em 2013 e feliz em 2014. Feliz sempre.

A gestão financeira não pode à conta da felicidade de 2012 colocar em risco a felicidade de 2016, 2017 e 2018.
Tem sempre que ver mais além. É por isso que tem que vender Falcao e Hulk e terá que vender no futuro Moutinho, James e Maicon. Tem que esvaziar as possibilidades de eu ser feliz em 2012 para garantir que a minha felicidade tenha possibilidades de se concretizar no tempo.

Continua a trabalhar para o fim último incorporando que o fim último não se esgota no curto prazo.
O modelo de negócio que o Porto implementou e exponenciou nos últimos 10 anos é esse.

A gestão operacional do Porto é deficitária. O que representa esta frase?
Representa que o que os gastos estruturais do Porto são superiores às suas receitas estruturais.
A partir daí tínhamos 2 caminhos. Para viver com essa realidade ou se equilibra esse balança ou se arranja um contrapeso que a equilibre extraordinariamente.

Esse contrapeso são os resultados extraordinários na gestão de activos.  
Ora, o que temos visto é que o Porto é top mundial na capacidade de gestão de activos. Sabemos procurar, encontrar e potenciar talentos. 

A venda de Nani ao Manchester United é uma receita extraordinária possibilitada por uma qualidade extraordinária. O Sporting não tem capacidade ordinária nos seus quadros de gestão para gerar receitas extraordinárias.

A venda de Anderson ao Manchester United é uma receita extraordinária possibilitada por uma qualidade ordinária.

São tantos os casos nos últimos 10 anos (Lucho, Lisandro, Pepe, Cissokho, Deco, Bosingwa, Quaresma, Anderson, Falcao, Guarin, Hulk, Raul Meireles) que percebemos que essa qualidade que nos permite obter uma receita extraordinária é ordinária.

É esse o modelo de negócio da SAD. Queremos liderar cá dentro e ser competitivos lá fora.

Ter contas operacionais equilibradas cumpre os 2 propósitos?
Na minha opinião NÃO
Podíamos, com muito mais dificuldade, liderar cá dentro mas teríamos a competitividade lá fora ao nível de um Anderlecht. Eu não seria feliz.

O nosso modelo é virtuoso. Contratar jovens com potencial, utilizá-lo e vê-lo crescer até o atingirem ao serviço das nossas cores e vendê-lo quando ele está maduro (25 ou 26 anos).
Com isso ganhamos desportivamente ao ter jogadores de grande nível como Hulk ou James e ganhamos financeiramente ao obter mais-valias com a venda desses atletas.

O Porto tem que vender Hulk hoje por 40 para poder sonhar em vender James por 40 amanhã. Tem que vender James por 40 para ter esperança em vender o Caballero por 40.
O Braga teve que vender Lima por 4 para poder vender Eder amanhã por 5 ou 10.

O Problema dos 35 milhões de prejuízo não é o prejuízo em si mesmo. É o facto de ele ser oriundo de um desvio do modelo de negócio que visa a obtenção do fim último.

Podemos e devemos correr riscos de ter contas no vermelho.
Não podemos correr o risco de fazer implodir o modelo de negócio. 
A receita de 15 milhões pela Cláusula de rescisão de AVB é extraordinária e decorre duma qualidade extraordinária. Devíamos olhar para esse dinheiro como o Bragança olha para a verba que lhe toca à conta do negócio Pizzi. Não é para estourar!

A renovação, compra e prémio de assinatura de um jogador como Hulk que já estava maduro foi um risco que pôs em causa o modelo de negócio que nos faz feliz.
Põs em causa porque diminui a margem de mais-valia, porque diminui o facto tempo (Tivemos que o vender este ano fosse como fosse) que deve ser sempre uma variável do negócio e porque atrasa a maturação de outros talentos.
A contratação de Alexsandro por 10 e a não venda de Álvaro Pereira foi outro risco que põs em causa o modelo de negócio que nos faz feliz.
Põs em causa porque coloca na prateleira com consequente risco de desvalorização um jogador de 10M e porque diminui o poder negocial futuro na venda do Álvaro.
O valor do Torres num plantel que tenha Lukaku, Drogba e Anelka não é o mesmo que num plantel que só tenha Torres. 
A postura de um clube que nos garante as receitas extraordinárias é diferente se ele sabe que a variável tempo o favorece.
O Lyon e o Marselha sabiam que o Porto podia não vender naquele ano o Lucho e o Cissokho. Por isso conseguimos aquelas receitas.

O Inter e o Zenit sabiam que o Porto tinha que vender neste ano o Álvaro e o Hulk.

O Porto é óptimo a descobrir talento. Aposto que dentro do leque Iturbe, Kelvin, Atsu ou Caballero sairá pelo menos 1 que compensará o custo dos 4.

Não pode é brincar com a variável tempo.

Não pode ter os seus principais activos maduros e no plantel. Não pode ter Rolando, Fernando, Moutinho, Hulk e Álvaro Pereira todos com 25 e 26 anos.

Porque todos os clubes vão perceber que é agora ou nunca. Porque todos os jogadores vão perceber que ou é agora que fazem “O contrato” ou que nunca mais o farão.
Porque não podemos vender todos ao mesmo tempo. Se o fizéssemos estávamos a gerir bem as contas da SAD de hoje mas estávamos a desrespeitar a estratégia de negócio. 
O ser feliz.

Para além de brincar com a variável tempo jogou com a variável margem de lucro.
Uma coisa é comprar Kelvin, Iturbe, Fernando, Atsu, Tomas Costa ou Stepanov
Outra é comprar Moutinho, Alexsandro, Danilo, Hulk.









Quando se dá 5M por um jogador temos que estar preparados para o insucesso. Pode correr mal e não é por isso que se põe em causa o modelo.
Quando se gasta 10,15 ou 20 por um jogador sabemos que tem que correr bem. Não pode correr mal. Subimos a fasquia demasiado alto. Esses jogadores têm que representar lucro para o clube. Desportiva ou financeiramente as suas contratações têm que equilibrar o deficit operacional com que temos que saber conviver.







A carreira do Sergey Bubka seria muito diferente se ele, ao contrário da politica do subir centímetro a centímetro, tivesse optado por, de repente, colocar a fasquia nos 6 metros e 20.

A gestão financeira de 2011 foi má porque vimos negócios esquisitos e porque não respeitou o modelo de negócio da década. Subiu a vara desnecessariamente para um patamar em que pode ser difícil saltar.  E ,não saltando, caímos com estrondo.

A gestão financeira da década tem sido boa porque tem se sabido suportar numa competência única que a gestão desportiva tem.
A gestão financeira de 2011 foi má porque acreditou que a competência da gestão desportiva não tem limites. Que é tão fácil comprar por 5 e vender por 15 como comprar por 20 e vender por 35.
A gestão financeira permitiu que a desportiva deixasse de fazer substituições para apostar em antecipações.

Antes vendíamos o Ricardo Carvalho e íamos buscar o Pepe. Vendíamos o Pepe e íamos buscar o Stepanov.
Vendiámos o Deco e íamos buscar o Quaresma. Vendíamos o Quaresma e íamos buscar o Hulk.
Vendíamos o Lisandro e íamos buscar o Falcao.

Vendíamos e com o dinheiro da venda íamos comprar. Substituíamos

Agora antecipamos. Antecipamos que vamos vender o Álvaro e vamos buscar o Alex.
Antecipamos que vamos vender o Moutinho e vamos buscar o Defour.
Antecipamos que vamos vender o Rolando e trazemos o Mangala.

Perspectivamos a venda e com o dinheiro dessa perspectiva vamos comprar. Antecipamos. 

O erro de 2011 tem implicações. O caso Rolando, o caso Álvaro Pereira, o caso Fucile, o caso Sapunaru, o caso Belluschi e o caso Guarin, o caso Hulk, o caso Moutinho e o caso Fernando, o caso Danilo e o caso AlexSandro.

Todos foram ou são casos. Uns bem resolvidos outros mal ou por resolver. Muitos evitáveis se respeitássemos a variável tempo e não subíssemos a vara para os 6 metros e 20.

A forma como regressamos ao normal neste defeso dá-me esperanças. O emagrecimento do plantel a nível de quantidade e qualidade era exigível.
Reduz custos operacionais (com pessoal), capitaliza receitas extraordinárias no presente e dá espaço a receitas extraordinárias futuras.

Quando a dado passo do Relatório se diz que não estão contabilizadas as vendas de Hulk e Álvaro não é essa afirmação que me dá esperança.
Neste Relatório estão contabilizadas vendas de valor similar como as de Guarin e Falcao e o resultado foi o que foi.
O que fará a diferença não são as receitas que irão ser contabilizadas mas sim as despesas à Manchester City que não aparecerão no próximo Relatório e que apareceram neste como resultado do fortíssimo investimento em contratações e renovações.

Os capitais próprios voltarão a ser positivos certamente o que nos coloca numa realidade aposta ao dos clubes rivais. Realidade que tem implicações fortíssimas na felicidade dos anos de 2015 em diante.

É isso que importa. SER FELIZ. Quando se analisar o Relatório e Contas de 2012/13 teremos que perceber se os números que lá estão respeitam esse FIM ÚNICO.

Se o preço do Dragon Seat e dos bilhetes subirem 50%, se não se pagarem prémios e comissões e se cortar 20% nos custos com pessoal podemos atingir as metas de uma qualquer troika.
Se no Relatório de 2012/13 lá aparecerem as vendas de Moutinho, James, Maicon, Fernando e Alex e não se detectar qualquer investimento teremos um resultado liquido glorioso e um onze inicial capaz de se bater taco a taco com o Moreirense e o Genk.

Esse lucro glorioso seria feito à custa da nossa felicidade de 2013/14. Certinho e direitinho.
Se o Angelino Ferreira nos disser num tom fleumático e vagaroso que temos que ser infelizes em 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017 para termos condições para atingir o céu em 2020 mandamos a SAD inteirinha com o Pinto da Costa lá dentro para o Inferno.








Porque é que iam todos para o Inferno? Porque estes sabem que não nos podem vender uma outra ideia de felicidade que não seja a nossa. Se o Pinto da Costa nos dizer que lá está para pôr as contas em ordem e que a nossa felicidade só deve depender de estarmos vivos e ter jogo no Dragão ao Domingo deixa de nos representar.









Porque um qualquer relatório e Contas deve a ele ter associado uma estratégia. 

SER FELIZ.



Por: Walter Casagrande
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