sábado, 6 de outubro de 2012

Stockton/Malone




Não embandeiro em arco. As grandes equipas inglesas ou italianas quando jogam contra as grandes equipas portuguesas fazem-no como o PSG fez na quarta-feira.
Especulam com o 0-0 e mostram tanto desejo em marcar golo como o Beira-Mar ou a Académica enquanto visitantes.

Há inúmeros exemplos nos mais recentes anos de equipas de nomeada que se apresentam dessa forma na Luz ou no Dragão.
Quem se quiser animar dirá que somos nós que obrigamos esses adversários de nomeada a não sair da toca. Que eles não jogam, apesar de estarem cheios de vontade, porque nós não deixamos.
O PSG deste ano, como o Manchester City do ano passado, não joga para ganhar encarando o empate como um 2.º resultado aceitável.

Essas equipas fazem o contrário. Apostam no 0-0 e, se possível, arriscam a vitória.

Nesses jogos especulativos o clic é normalmente o primeiro golo, quando ele é marcado por uma equipa Portuguesa.
Há uns anos o Benfica eliminou um Liverpool fortíssimo por causa disso. O 1-0 da 1ª mão acontece já nos últimos 10 minutos o que transformou a calma glaciar da 1ª mão para uma ansiedade suicida na 2ª.

O ano passado, quando cá jogou o City, o golo de Varela obrigou a que o clic no jogo fosse cedo demais. Este ano o golo de James veio no momento certo.

Não embandeiro em arco. Vejo uma equipa forte, capaz de se bater com qualquer equipa extra Barca, Real ou Bayern mas capaz de não desbloquear jogos com Académicas, Nacionais ou Moreirenses.

Entre o último ano de Jesualdo Ferreira, o ano de AVB e este Porto de Vítor Pereira há uma alteração colossal.




É um 4-3-3 mas a equipa das transições ofensivas rápidas morreu. Somos uma equipa fortíssima na pressão alta mas estamos cada vez mais incapazes de traduzir essa pressão em algo consequente.
A diferença entre o Porto de JF e AVB e este Porto de VP é um bocadinho como a diferença do Barça de Guardiola e da Espanha de Del Bosque deste último Euro.




O Porto mordaz, acutilante e rápido morreu. Este é um Porto com tremenda qualidade na posse, com uma percentagem elevadíssima de jogadores que sabem como passar, como se posicionar e o que fazer com e sem bola.

A Espanha de Del Bosque tinha Xavi, Iniesta, Silva, Cesc, Xabi Alonso, Busquets. Todos sabiam o que fazer com bola, como se posicionar, como tabelar. Faltava potência e velocidade.

Faltando Villa ou Pedro faltava o resto. Plagiando a música de Adriana Calcanhoto se havia a Estrada faltava o Carro, se havia Romeu faltava a Julieta e se havia queijo faltava a goiabada.

Messi é carro e estrada, Pedro e Villa são a Julieta e a Goiabada.

Quem gosta de NBA recorda com saudade a dupla Stockton/Malone.
A Espanha de Del Bosque e o Porto de Vítor Pereira estão cheias de Stocktons. Faltam Malones.

Este Porto que vimos na quarta-feira está cada vez mais próximo do padrão da Espanha de Del Bosque que, na minha opinião, é batível ao contrário do que a realidade tem demonstrado.

Não temos aquela percentagem de posse de bola mas temos uma enorme qualidade de passe e fazemo-lo com critério e noção de jogo de Champions. Perante a postura passiva do adversário fizemos um jogo adulto e à altura do exigível.

Quem quiser ver o jogo de forma mais desapaixonada percebe que grande parte das oportunidades de golo nasce do facto de jogarmos contra uma equipa grande que quis jogar em contexto defensivo.

Como equipa grande que é o PSG quando recuperava a bola na defesa tentava sair a jogar. Devagarinho mas a passar a bola de uns para os outros no 1.º terço.
Ora, o ponto forte colectivo deste Porto é o miolo. É o meio-campo. Dos melhores da Europa. O PSG arriscou passar pelo meio dessa matilha em vez de a tornear. E assim nasce o golo e oportunidades como as de Varela ou Jackson.
A nossa pressão alta sufoca a saída de bola do PSG.

Como acima expus se a pressão alta é o nosso ponto forte falta velocidade de ponta que confira a essa arma um carácter letal.
Se não o fizermos vamos continuar a ser equipa para discutir jogos destes mas seremos também equipa para sofrer para ganhar ao Zagreb em casa.

Equipas pequenas a jogar em contexto defensivo evitam a pressão alta. Jogam com bloco baixo e não batem no muro.
Se o Sporting jogar no Domingo como jogou na 2ª metade da época passada ou no início desta época vai ser muito difícil.

Porquê?


1 – Falta o carro para comer metros de estrada.

Fernando, Lucho, Moutinho, James, Alex são top a passar, a posicionar e a cortar mas precisam de estrada.

Temos que ter velocidade de ponta nas alas.
O plantel do Porto tem Miguel Lopes, Danilo, Iturbe e Atsu capazes de dar essa 6ª velocidade.
Atsu tem velocidade e muito talento mas não tem baliza. É um terror para qualquer defesa lateral mas 90% das vezes ou cruza ou chuta fraco.
Quem se lembra do brasileiro Artur percebe o que digo. Era um avançado que podia jogar na ala e que era um perigo para o lateral e para o redes.
Atsu ainda está verde e é um terror para o lateral mas um cordeiro para qualquer redes.

A substituição de Álvaro por Alex fez-nos ganhar muita coisa a nível de posicionamento defensivo, capacidade de jogar por dentro, desequilíbrios no 1 para 1 mas fez-nos também perder um bocadinho do carro que acelerava sem travão naquela estrada.

Este Alex é melhor jogador que o Álvaro mas é mais um jogador na linha da qualidade de passe, posicionamento que monopoliza o onze inicial do FCP.
O Porto precisa de locomotivas.

Ficamos sem Hulk, sem Álvaro e o Varela de hoje não é o de há 3 anos. É mais um extremo capaz de ir à linha mas não ganha em velocidade pura a um lateral como faz Atsu.
Em jogos destes tem a vantagem de dar peso e consistência à equipa mas cada vez menos é o comboio que precisamos para esticar o jogo.

2 – Meia distância e meio rompedor.

Lucho é o nosso médio com mais chegada e tem poder de remate à entrada da área.
Moutinho tem menos chegada e falta-lhe poder de remate. Já não digo à Guarin mas pelo menos à Belluschi.
Fernando é um médio sem chegada e pouco vocacionado para a meia distância.
James tem poder de remate a média distância mas aposta pouco nessa vertente.

Destes 4 há 2 capazes de conferir à equipa um poder de fogo adicional mas o chip é o do Barça. De tentar mais uma tabela, mais um passe em vez de sinalizar o adversário que à entrada da área a marcação zonal pode ser um perigo.
Um exemplo disso é uma jogada na 2ª parte entre James e Lucho. Se fosse entre James e Moutinho eu percebia e defendia o forçar da tabela.
Quando a bola está em Lucho e há espaço eu quero que ele remate. Não podemos ser só tiki e taka. Os que têm poder de fogo devem dar à equipa essa arma.

Quando AVB encaixou Guarin a Moutinho no meio-campo fez o Porto subir de nível não pela qualidade individual que Guarin tem face a Belluschi ou Micael mas por dar a uma equipa já de si muito boa armas adicionais. Complementaridade.

Potência, poder de fogo e capacidade para romper defesas com bola.

Face ao plantel actual só vejo um jogador capaz de dar ao nosso meio-campo essa característica. Esse jogador chama-se Danilo. Não vou por aí porque não interessa mexer naquele trio e Danilo é fundamental para preencher outro vazio.
  
3 – Jackson.

Se eu fosse treinador de futebol pegava no Homem e ia jogar à sardinha para apurar reflexos. De tanto levar palmadas nas mãos havia de perceber que há jogos em que a velocidade de reacção pode evitar muita dor.

As principais qualidades de Jackson já vistas são o jogo aéreo e a qualidade que mostra com a bola nos pés. Trata bem o esférico e vê-se que sabe o que fazer com ele.

Qual é o problema?

Quantos cruzamentos faz o Porto?  Quantos cruzamentos faz este Porto?
De que vale ter jogo aéreo se o estilo Barceloniano privilegia o toque, a tabela e o passe?

Ele sabe o que fazer com a bola mas o tempo em que a mensagem vai do cérebro (emissor) ao receptor (ponta da chuteira) é elevadíssimo.
O treino do jogo da Sardinha serviria para isso. Para tentar ajudar a transformar este jogador que parece ser mais de gramado sul-americano do que de relvado Europeu.
  
O que fazer para melhorar este Porto?

Perceber os pontos fortes deste Porto é essencial. Para melhorar não basta identificar o que está mal. Importa que as correcções a fazer não destruam os pilares do que até agora corre bem.

O melhor que este Porto tem colectivamente é Lucho/Moutinho e Fernando. É o miolo.
O melhor que este Porto tem é a capacidade de desequilíbrio individual de James.

A) O que se deve fazer é partir desta base. Não ficar embriagado com Defour a 6 ou James a 10 e destruir a força colectiva deste Porto.
Na passada 4ª feira quando vi Atsu na linha para entrar uma parte de mim desejava a saída de Lucho para dar aquele plus ofensivo que parecia ser necessário.
A outra pedia a saída de Varela para não pôr em risco o controle e o domínio de jogo que estava nas nossas mãos.

Essa luta interna foi desfeita 2 minutos depois. Quando numa transição rápida com Fernando e Moutinho desposicionados vi o aparente desgastado Lucho a disputar um sprint longo com o fresco Lavezzi em velocidade para lhe roubar uma bola por trás em carrinho perto da nossa área.
Esses lances que não aparecem no resumo de três minutos são a diferença entre a vitória ou a derrota.
Mais vale ser acusado de cinzentismo do que arriscar o caos táctico. No momento em que Sá Pinto ouviu os críticos e optou por tirar médios para dar ofensividade trocou o cinzentismo pelo caos.

O papel que VP sempre deu a James é o correcto. O Porto tem que dar a liberdade que o seu melhor jogador ofensivo precisa. Se não pode jogar a 10 porque mina o ponto forte colectivo tem carta branca para desequilibrar a equipa tirando-lhe a simetria nas alas.

B) Para devolver essa simetria é urgente descobrir um comboio nas alas. É fundamental dar a Danilo o papel que Daniel Alves tem no Barça. É fundamental que o trio de meio-campo perceba que aquele lateral tem que arriscar ofensivamente e preencher aquele espaço se preciso for.

C) Iturbe é neste contexto fundamental. Não por ser o novo-Messi mas por ter características que a equipa precisa. A 6ª velocidade, baliza e poder de fogo.
Fundamental para estar no banco. Não faz sentido ter Castro + Miguel Lopes + Defour no banco.
Bastaria Miguel Lopes + Defour para precaver quaisquer catástrofes no miolo. Danilo pode lá jogar, lembro.

No banco tem que haver um governo-sombra para o trio da frente. Só com Atsu e Kleber a equipa fica manca no banco.

D) Dar minutos a Kleber enquanto se trabalha a velocidade de reacção de Jackson. Perante defesas viciadas no estilo Jackson uma injecção de Kleber poderia trazer efeitos energéticos similares ao que vimos na troca Varela/Atsu contra o PSG.

E) Rolando. Rolando está para Otamendi como Fernando está para Defour.
Em teoria, Otamendi não merece ir para o banco. Desde que assumiu a titularidade tem estado a um bom nível. O problema é que eu penso que este bom nível é o máximo que o Otamendi nos pode dar.
O Rolando ainda é (com licença do potencial de Maicon) o melhor central que o Porto tem e uma garantia de qualidade, segurança e fiabilidade.
Não faz sentido pôr na prateleira ou desperdiçar um activo que pode dar a experiência, qualidade e tranquilidade que esta jovem equipa precisa.

É por aqui que o Porto tem que caminhar.
A base deve ser Helton, Danilo, Maicon, Rolando, Alex, Fernando, Moutinho, Lucho e James.

Estes 9 são a base. Atsu/Varela e Jackson/Kleber para serem usados como Belluschi/Guarin e Otamendi/Maicon eram utilizados por AVB. Até que fique demonstrado à saciedade que a equipa joga mais e melhor com um do que com outro.

Danilo é a peça-chave na equipa. Deve ter a invulgar liberdade que é conferida a um defesa.

“Podes ser ala, podes atacar. Deves ser tu a subir nos cantos e Fernando a acompanhar Alex cá atrás.”

Tendo a liberdade para atacar deve ser encorajado a experimentar a meia distância de quando em vez. É um jogador com jogo aéreo, com chegada, com cruzamento e com físico. Precisa de ser libertado para preencher o obrigatório buraco James e dar simetria e cruzamentos que Jackson precisa.

Iturbe deve ter em 2012/13 o papel que Juary tinha há décadas atrás.

Kelvin pode ser uma arma importante se em determinados jogos se perceber que só de bola parada lá chegamos.
Se James e Maicon mostrarem o perigo que o Porto pode representar nas bolas paradas injectar um talento como Kelvin é garantia de faltas à entrada da área aos magotes. É virtualmente impossível tentar tirar a bola ao miúdo sem lhe acertar na canela.

Não embadeirar em arco. Não pôr as fichas todas na capacidade de posse. Dar mais soluções. Ter carro e estrada. Queijo e Goiabada. Melhorar este Porto.


 Por: Walter Casagrande

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