quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

PSG 2 - 1 FC Porto (Crónica de Breogán)


O peru quer-se gordo!




É uma derrota agreste. Mais que agreste, é revoltante. Primeiro, porque deixa-mos em Paris um peru natalício bem alimentado. Fica sempre a sensação maldita do “se”. Segundo, porque a equipa lutou, debateu-se, procurou tapar as debilidades (muitas delas impostas por quem comanda) e explorar as suas virtudes. 



Mas isto é Champions. Aqui não há aquela almofada de conforto que tanto nos alivia nas competições domésticas. Aqui os jogos disputam-se em cada centímetro de talento, em cada decisão táctica e em cada lapso. É esse o passo que o FC Porto tem que dar para ser ameaçador na próxima eliminatória da Champions. 

Não há margem para erro. Dentro de campo ou no banco. Tudo tem que potenciar e nada pode reprimir a nossa margem de produção nestes jogos.

A derrota não é mais que um tropeço no nosso percurso na Champions. Tão grave, ou até menos, que o nosso empate em Kiev. O objectivo está cumprido, resta agora ter sorte nas bolinhas amestradas, como lhes chama Vítor Pereira.

Vítor Pereira, naturalmente preocupado com a “gestão emocional do grupo”, decidiu alterar de forma substancial o onze inicial. Para muitos, é a melhor equipa possível do FC Porto, mas para Vítor Pereira é, tão só, aquela que lhe dava mais garantias. Alias, em coerência com o que havia afirmado no final do último jogo.

Ancelotti vai para jogo com tudo. À frente da defesa estaciona dois tanques. É uma tentativa para capitalizar sobre a fraca produção ofensiva que o FC Porto apresenta pelo centro do terreno e, assim, garantir suficiente recuperação de bola para abastecer o ataque. Dá liberdade aos laterais para subirem e coloca nas faixas Menéz e Lavezzi. Estava claro quem iria dominar o jogo flanqueado e comandar o meio campo.

O arranque do jogo mostra logo quem tem vantagem sobre o tabuleiro. Incisivo nos flancos, muito pressionante no meio campo e espicaçado por uma vontade titânica de afastar a crise, o PSG toma conta do jogo e encosta o FC Porto atrás. Aos 10 minutos de jogo, já o PSG contava com duas boas oportunidades. 

Aos 12 minutos, é a primeira aproximação do FC Porto à baliza Parisiense. Jackson remata forte à entrada da área e a bola passa rente ao poste. É o arranque para um dos melhores períodos na partida do FC Porto, com James a assumir a sua posição de 10. Um minuto depois, Lucho desperdiça uma boa jogada. Ao tentar assistir James, perde tempo para rematar, quando tinha uma boa oportunidade para facturar.

Aos 20 minutos, já o PSG estava de volta ao comando da partida. Pastore assumia mais o jogo e procurava desequilíbrios no flanco direito Portista. Nos dez minutos seguintes, O PSG volta a criar mais duas situações de perigo, das quais se destaca um corte soberbo de Alex Sandro sobre Lavezzi. Até que, ao minuto 30, o PSG chega à vantagem no marcador. Livre cobrado exemplarmente por Maxwell, Thiago Silva ganha nas alturas a Danilo e remata de cabeça para as redes Helton.





Com a vantagem, o PSG relaxa. Aproveita o FC Porto, que volta a recolocar James a 10 e a crescer no jogo. São mais 10 minutos de bom Porto! Logo aos 32 minutos, James coloca a defesa do PSG em sentido, mas o lance perde-se. No minuto seguinte, o FC Porto alcança o empate. Jackson recebe do meio campo e entrega-a, no flanco, em Danilo. Aproveitando o corredor aberto, Danilo avança sobre Pastore, finta-o e centra tenso para a área. Jackson ataca a bola no segundo poste e cabeceia para golo. É uma das raras jogadas onde o FC Porto conseguiu supremacia no jogo flanqueado. Algo que é urgente corrigir.




Após o golo do empate, o FC Porto continua a dominar o encontro. Fernando e Moutinho superaram a barreira do meio campo Parisiense e James traz magia ao jogo no centro do terreno. Aos 42 minutos, após uma excelente jogada colectiva ao primeiro toque, James remata em arco para defesa de Sirigu. Um minuto depois, Alex Sandro centra para Fernando, mas o desvio sai ao lado. Na resposta, Ibrahimovic quase cabeceia para golo, mas Helton desvia no último momento. É este o último lance de perigo de uma primeira parte muito disputada.

O PSG imprimiu uma verticalidade enorme ao seu jogo, sobretudo nos flancos, o que causou muitos calafrios à defensiva Portista. O FC Porto respondia com um jogo em posse, mas sem criatividade na zona central. Só conseguia criar perigo quando James assumia a batuta na zona central. O jogo flanqueado, uma vez mais, vivia em exclusivo dos laterais. James tentava sempre a fuga para o centro e Varela era pouco mais que uma inexistência. Só Danilo e Alex Sandro conseguiam esticar o jogo pelos flancos.

Na segunda parte, o PSG volta a entrar com a corda toda. Nos primeiros 15 minutos, o PSG dispõe de quatro ocasiões para marcar, duas delas são soberanas. Até que, ao minuto 62, atinge o 2-1. Após um livre, muita passividade para cortar a bola, sobretudo por Moutinho e Alex Sandro. A bola sobra para Lavezzi que, de ângulo apertado, remata rente ao poste esquerdo de Helton. Helton atira-se, mas não fecha o espaço entre si e o relvado. A bola escapa-se por debaixo do seu corpo, para um peru do tamanho do Louvre.

O PSG fez por merecer o golo, embora o FC Porto se tenha batido com galhardia. A forma como consegue o golo é devastadora. É mais fácil digerir um golo por mérito alheio que por demérito próprio. O FC Porto sente o golo violentamente e por 10 minutos fica meio perdido no jogo. O PSG, à maneira italiana, apanha a vantagem e refreia o ímpeto ofensivo.

O jogo só volta a ter emoção ao minuto 72 e é quando surge a resposta do FC Porto. Moutinho isola, magistralmente, Jackson. O Colombiano, só com Sirigu pela frente, baralha-se com tanta facilidade e falha um golo cantado!!! Logo o imita Lucho que, ficando com a sobra e com a baliza à mercê, atira para o alto da torre Eiffel!!!




Se no campo o desperdício era enorme, o banco também não queria ficar atrás. Um minuto depois do FC Porto mostrar ao PSG que pode voltar a marcar, Vítor Pereira retira Fernando. Ancelotti não deu pulos de contente, mas vontade não lhe deve ter faltado. Vítor Pereira volta a cair no erro de palmatória de substituir o seu 6. Nem à enésima vez aprendeu! O jogo a meio campo desagrega-se e o FC Porto deixa de ganhar bolas. O PSG volta a criar perigo por Menéz e Ancelotti percebe que tem aqui a solução para garantir a vitória. Sete minutos depois de Vítor Pereira abdicar de Fernando, Ancelotti mete Verratti. O jogo acaba. O FC Porto não tem meio campo para sustentar o ataque e o PSG esconde a bola.



Mas ainda havia mais para contar. Aos 85 minutos, finalmente, sai Varela e entra Atsu. Vítor Pereira, mais vale tarde que nunca, percebe que o seu jogo flanqueado precisa de um jogador que consiga, pelo menos, manter a posse de bola durante alguns segundos, para que a linha média pudesse subir. Algo que Varela não garantia.

Ancelotti não vai de modas e volta a meter mais gente para o meio campo: Jallet. O cadeado que faltava. É então que se assiste à substituição mais estranha dos últimos tempos. A poucos minutos do fim, Vítor Pereira abdica de Alex Sandro (o único que ainda dava profundidade ao flanco esquerdo) e coloca Abdoulaye em campo. Mangala passa para defesa esquerdo e, assim, se esgota o último cartucho para retirar deste jogo um resultado melhor e algum (muito!) dinheiro. Estaria Alex Sandro lesionado ou limitado pela sua recente lesão? Fazia assim diferença, a tão pouco tempo do fim e já a perder, abdicar de uma substituição táctica para efectuar uma substituição forçada? Ou será mais uma opção táctica insondável? É tão estranho que nem dá para perceber o que terá sido. 

O que é certo é que a divina providência encarregar-se-ia de dar ao FC Porto mais uma oportunidade. No último minuto, livre bem cobrado por James e Otamendi a falhar o alvo em excelente posição.

Três oportunidades escandalosamente falhadas para garantir o empate e uma vantagem dada por um peru monumental. Custa perder assim. É tanto o demérito que deixa uma sensação de náusea.

Já sabemos que a Champions não nos mente, como mente o campeonato. Todas as nossas deficiências são exacerbadas e as nossas virtudes são mitigadas. Isto é futebol ao milímetro. Ganha-se em muito pouco e pode-se perder em muita coisa.

É um desperdício não ter James a 10. Foi aí que o PSG mais sentiu dificuldades.

É imperioso proibir Vítor Pereira de substituir o seu 6. É quase sempre nos jogos onde menos pode cometer essa loucura que mais a comete.

É imperioso descobrir um extremo em Janeiro. A opção por Atsu peca por tardia, é um facto, atendendo a exibição de Varela. Mas não é profundamente criticável. 

O jovem Ganês está longe de ser plenamente convincente e, ainda por cima, em breve despede-se para ir para CAN. A incapacidade do FC Porto flanquear jogo é gritante!!! E altamente LIMITANTE!!!

Não creio ser justo correlacionar este jogo com as opções tomadas no último jogo em Braga. Esta derrota não é pior por termos perdido frente ao Braga, como uma eventual vitória não desculparia o desaire passado.



Análises Individuais:

Helton – Só não acontece a quem se senta no banco ou na bancada. Mas a verdade é que já cansa o costumeiro peru Europeu que Helton insiste em oferecer em quase todos os anos. É que, ainda por cima, são perus caros. Custam-nos fortunas. Não está numa boa fase, mas também não vale a pena fazer um drama sobre isso. Está na hora de começar a retribuir. Menos falatório e mais acerto com as luvas.

Danilo – Mostrou o seu potencial ofensivo no lance do golo. A equipa insiste em não utilizar a sua capacidade ofensiva, mas Danilo também não dá segurança para isso. Não pode dar tanto espaço nas suas costas e tem que ser mais autoritário na abordagem aos lances. Bola dividida tem que ser sua! No lance do primeiro golo do PSG, pode perder para Thiago Silva nas alturas, até é natural, mas não pode ficar de camarote a assistir. Tem que estorvar ao máximo.

Alex Sandro – Algumas dificuldades frente a Lavezzi, mas a ajuda de Varela era incipiente. Foi o único que deu profundidade ao flanco. No plano defensivo, teve alguns cortes de elevada craveira, embora tenha sido comido de cebolada no segundo golo do PSG. A equipa precisa de apostar mais na sua velocidade e menos na bola no pé.

Otamendi – Muito bem na marcação a Ibrahimovic e nas dobras a Danilo. Um ou outro pecadilho, mas nada de substancial. Não pode falhar uma oportunidade daquelas no último minuto!

Mangala – Tremendo na marcação a Ibrahimovic, nunca dando um palmo de terreno. Está a crescer e está muito mais acertado no tempo de entrada aos lances. O melhor em campo.

Fernando – Duas perdas de bola de quem não aprendeu nada com o penalti que cometeu em Braga. Não está no seu melhor momento de forma, mas matou muito jogo do PSG. A sua saída rebentou com o meio campo portista.

Moutinho – Perante dois monstros no aspecto físico e com um Lucho abúlico do seu lado, pouco mais podia ter feito. Tentou transportar jogo, mas Jackson estava muito distante. Entregou-se à luta e pouco tempo teve para jogar o bom futebol que tem.

Lucho – No regresso a França, assina uma exibição muito pobre. Tomou quase sempre a decisão errada e perdeu duas boas oportunidades de marcar. A segunda, então, é escandalosa. Foi varrido pelo meio campo defensivo do PSG e não acompanhou Jackson. Como capitão, não pode ficar de mansinho. Tem que proteger os seus colegas e exigir do árbitro acção. Ver Ibrahimovic e Alex bater e ficar calado não é de capitão.

James – Mais um jogo que fica aquém do que pode dar à equipa. Não por sua culpa, mas pelo espartilho táctico com que joga. Se o FC Porto quer ter ambições nas próximas eliminatórias, é bom que pense em não desperdiçar o talento de um dos melhores nº10 do mundo. Com James a 10, Matuidi e Chântome não teriam tanto tempo para caírem sobre Moutinho e Fernando.

Varela – Mais uma exibição que chega a ser agoniante. Van der Wiel fez dele gato e sapato. Maxwell a mesma coisa. Nem atacou, nem ajudou muito a defender. Andou por lá. A estragar muita coisa e a fazer quase nada. Tivesse jogado um décimo do que jogou Ménez e o FC Porto traria outro resultado de Paris. Verticalidade foi zero!

Jackson – Mais um jogo violento para Jackson. Nos flancos, ninguém! O meio campo? Lá longe! Só James, de vez em quando. Como companhia, dois centrais Brasileiros com “mão pesada”. Só não é o melhor em campo pelo golo que perde. Não pode! Aquilo não é ao seu nível. É uma perdida inacreditável. Tem que ser mais decidido. É para golo e mais nada. Já o seu movimento em toda a jogada do primeiro golo é brilhante.


Defour – Não trouxe nada de novo ao jogo. Não defendeu melhor que Fernando e não atacou melhor que Fernando.

Atsu Fez logo melhor que Varela. Mas com a fasquia colada ao chão, seria extraordinário se ainda fizesse pior.

AbdoulayeEspero pelo momento em que esta substituição seja explicada. O que temo é que não tenha explicação.


Ficha do Jogo:

Paris Saint Germain 2-1 FC Porto
UEFA Champions League, grupo A, 6.ª jornada
4 de Dezembro de 2012.
Parc des Princes, em Paris.
Assistência: 45.512 espectadores.

Árbitro: Craig Thomson (Escócia).
Assistentes: Derek Rose e Alasdair Ross.
Quarto árbitro: Graham Chambers.
Assistentes adicionais: Steven McLean e Kevin Clancy.

PARIS SAINT-GERMAIN: Sirigu; Van der Wiel, Alex, Thiago Silva (cap.) e Maxwell; Lavezzi, Chamtôme, Matuidi e Pastore; Ménez e Ibrahimovic.
Substituições: Lavezzi por Verratti (77m), Ménez por Jallet (85m) e Pastore por Nenê (88m).
Não utilizados: Douchez, Sakho, Armand e Sissoko.
Treinador: Carlo Ancelotti.

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando, João Moutinho e Lucho (cap.); Varela, Jackson Martínez e James.
Substituições: Fernando por Defour (70m), Varela por Atsu (84m) e Alex Sandro por Abdoulaye (85m).
Não utilizados: Fabiano, Miguel Lopes, Castro e Kleber.
Treinador: Vítor Pereira.

Ao intervalo: 1-1.

Marcadores: Thiago Silva (29m), Jackson Martínez (33m) e Lavezzi (61m)

Cartões amarelos: Otamendi (29m), Lavezzi (76m), Thiago Silva (84m), James (84m), Danilo (90m), Alex (90m+2) e Mangala (90m+2).


A Análise dos intervenientes:

Helton:

«Só acontece a quem está lá dentro. Infelizmente, estava a dar um passo no momento do remate e acabei por não ter o equilíbrio correto para fazer o melhor movimento. Fui infeliz. Cometi uma falha que custou caro, pois queríamos um resultado diferente e ficar no primeiro lugar. Tenho de dar os parabéns aos meus companheiros, que fizeram por merecer outro resultado. Criaram oportunidades para virar o jogo antes da falha».


João Moutinho:

«A equipa tem de reagir bem. Perdemos a liderança num jogo em que fizemos uma boa exibição e criámos oportunidades para obter outro resultado. Infelizmente não conseguimos vencer. O certo é que estamos na próxima fase, era esse o nosso objetivo. Venha quem vier, vamos tentar ganhar como fazemos em todos os jogos. A intenção principal era passar. Queríamos o primeiro lugar mas não conseguimos. Fizemos uma boa exibição, o grupo esteve forte e unido. Erro de Helton? Não, foi um erro de toda a equipa». 


Vítor Pereira:

«Viemos com a expectativa de ficar em primeiro lugar, o que não foi possível. Foi um jogo difícil, em que revelámos alguns momentos de qualidade e outros em que não fomos capazes de suster a qualidade do Paris Saint-Germain. Avançamos para a próxima fase acreditando que é possível permanecer na Liga dos Campeões. O nosso plantel é constituído por 25 jogadores e eu tenho que manter os níveis motivacionais altos, para transmitir um sinal claro de que conto com todos. Fiz a gestão que achei necessária para jogar em Braga com o objectivo de ganhar e hoje coloquei a equipa que achei mais indicada para poder discutir o encontro. O objectivo fundamental era passar a fase de grupos, o que já foi conseguido há muito tempo. Agora vamos aguardar pelo sorteio."»




Por: Breogán
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