domingo, 9 de dezembro de 2012

FC Porto 1 - 0 Moreirense: O Golo que tardou (Crónica de Breogán)



Foi um daqueles jogos em que a bola cheirava o golo, mas nunca lhe descobria o caminho. Jogos que nos deixam os nervos desfeitos, não porque a equipa esteja a jogar mal, mas porque parece que estamos a assistir a um somatório de oportunidades falhadas que não cessa. No fundo, porque sentimos que são 3 pontos que nos podem escapar e de uma forma inglória.

O FC Porto não fez um grande jogo. Nem podia

Casquilha montou a sua carapaça defensiva da forma que o FC Porto não gosta. É que já todos sabemos as limitações deste FC Porto frente a equipas que se fecham atrás e sobrepovoam a zona central. O FC Porto não tem um criativo a tempo inteiro na zona 10 e tem francas dificuldades em ser acutilante a flanquear. Bem sei que já parece uma ladainha. E é! Mas não é por isso que deixa de ser verdade e até Casquilha já a sabe de cor! Vai daí, coloca dois extremos com missão de auxiliar a defender e só depois contra-atacar. Ainda soma dois trincos à frente da defesa para trancar qualquer laivo de criatividade por parte do FC Porto na zona central.






O FC Porto, já se sabe, no centro viveu dos momentos de James. Nos flancos, da ausência futebolística de Varela e de quando a equipa se lembrou de Danilo. Aliás, a questão dos laterais é interessante. Esta tentativa de fazer dos laterais do FC Porto responsáveis primários por flanquear o jogo tem uma base táctica muito frágil. Se temos dois laterais com os máximos apontados ao ataque, então precisamos de sustentação táctica. Seja com um terceiro central ou com um médio defensivo bem amarrado atrás. 




Porque se é para jogar neste sistema, o modelo só funciona se os laterais tiverem à sua frente um extremo capaz e produtivo. Só se o adversário estiver preocupado com a “mordida venenosa” do nosso extremo é que o lateral terá liberdade para fazer a “ultrapassagem” ao extremo e ser ele a aproveitar o espaço e momento ofensivo. Não é por acaso que ontem se viu o Alex Sandro a subir de produção com a entrada de Kelvin. Bastou a vontade do miúdo, o chamar de atenção sobre si mesmo, para que Alex Sandro ganhasse espaço e tempo para atacar.

Contra o Moreirense e no Dragão, esta fragilidade táctica até é um detalhe sem consequência. Mas contra um adversário de maior valia ofensiva ou em terreno mais hostil, todo o nosso jogo pelo flanco é bloqueado e em grande medida pela nossa própria limitação em apresentar extremos rompedores no jogo. E se mesmo assim, insistirmos, a fragilidade defensiva é gritante. Até o Moreirense ontem conseguiu dois/três contra-ataques grátis à custa desse sobre-esforço da equipa em se lançar ao ataque pelo flanco para suprir as suas limitações. Contra adversários de maior valia, ou com mais qualidade nos flancos, é algo que nos pode penalizar.

Por fim, e para acabar a maçadora análise táctica, volto à questão central. Realmente, o que nos vale é o super-talento que é Jackson. Um ponta-de-lança que não se esconde do jogo e que joga tanto (ou mais!) fora da área que dentro dela. Se assim não fosse e quando assim não for (por lesão, castigo ou rotação de Jackson), o FC Porto terá grandes dificuldades em alimentar o seu jogo pelo corredor central.






É esta capacidade de Jackson que sabota a colocação de dois trincos por parte dos adversários de menor valia nos jogos no Dragão. Se assim não fosse e como se vê amiúde nos jogos fora, o espaço entre o meio campo e Jackson é longo demais para o nosso jogo fluir. Vive dos momentos em que James deriva para o centro e pouco mais. Viu-se em Braga, por exemplo, onde perante um adversário de melhor qualidade, Jackson esteve isolado da equipa na maior parte do tempo. Resumindo, o FC Porto precisa de encontrar uma solução para o flanco em Janeiro. Alguém que seja uma ameaça e que liberte, de vez, James para a sua posição.




O jogo de ontem é mais um episódio nesta ladainha. Ainda assim, o FC Porto chegou vezes que bastem à baliza do Moreirense. Faltou mais qualidade na hora do remate, o que foi dando mais alento à estratégia do Moreirense. Não jogamos mal, longe disso. Mas à medida que íamos falhando o golo, parecia que este ficava cada vez mais distante. A equipa mais ansiosa, sem capacidade de aumentar o ritmo e (importante!) de alargar o seu perigo a toda a frente de ataque. O Moreirense, pelo seu lado, apertava a sua marcação na zona defensiva e confiava na sorte.

A vitória é justa, curta e mentirosa. Tivemos dificuldades em marcar, mas tivessem James e Jackson um pouco mais de acerto e ontem era uma mão cheia.

Vítor Pereira escalou o seu onze base, com Defour a fazer a vez do lesionado Fernando. É um FC Porto a todo o gás que avança sobre o Moreirense. Logo ao segundo minuto, já Jackson desperdiça, com um remate ao lado, uma grande abertura de James. Aos cinco minutos, é James que, em excelente posição na área, não aproveita um mau alívio de Ricardo Ribeiro, após um canto, para facturar. Cinco minutos e duas grandes oportunidades desperdiçadas.

Ao minuto 11 e 12, Jackson volta a cheirar o golo. Primeiro, cabeceia por cima a centro de Varela, depois, é James a centrar para novo remate de cabeça, desta feita a passar rente ao poste. Dois minutos depois, é Danilo que sobe à área contrária e remata contra Anaílton, já em posição privilegiada. Foram 15 minutos intensos, com o Moreirense de cabeça baixa e dentes cerrados a aguentar o balanço ou a safar-se de boa!
Após estes 15 minutos muito fortes, o FC Porto abranda o ritmo e o Moreirense fecha a marcação na zona central. Aos 22 minutos, o Moreirense ousa o seu primeiro contra-ataque mas o remate de Pintassilgo sai muito por cima.




Por volta dos 30 minutos de jogo, o FC Porto parte para nova vaga ofensiva. Aos 29 minutos, Jackson falha clamorosamente. Grande abertura de Moutinho para Varela. O extremo centra rasteiro, mas Jackson falha com o estádio do Dragão já com o golo a cantar na boca! Um lance flanqueado e o Moreirense treme todo. Aos 30 minutos, é Ricardo Fernandes a tirar o pão da boca de Jackson, após grande abertura de James para Varela. Cinco minutos depois, grande jogada do FC Porto. A bola roda do flanco direito para a zona central, sempre ao primeiro toque, começando em Danilo, passando por James, até chegar a Moutinho. O médio, com espaço, enche o pé, para grande defesa de Ricardo Ribeiro. Mais uma que não quis entrar!!!




Aos 38 e 39 minutos, mais dois remates de James a passarem ao lado da baliza do Moreirense.
Finda aqui a vaga ofensiva. Até ao intervalo, só merece destaque o toque que Lucho sofre e que forçaria a sua substituição ao intervalo.

Para a segunda parte, Kelvin é chamado a jogo por conta da lesão de Lucho. O miúdo assume o flanco esquerdo, Varela passa para o direito e James vem para a sua posição natural. A entrada do FC Porto volta a ser forte. Aos 47 minutos, Jackson centra para Varela, mas este não consegue cabecear para a baliza e sai por cima. Aos 51 minutos, nova grande jogada do FC Porto e, uma vez mais, nasce no flanco. Danilo sobe, ganha a linha de fundo e cruza. Varela deixa passar por entre as pernas (e ainda bem!) para James ficar com a sobra. Em posição frontal, o remate sai colocado, mas Paulinho desvia por cima!

Aos 57 minutos, Vítor Pereira surpreende. Retira Varela e coloca Kléber. Jackson e Kléber formam uma dupla ofensiva, o que é areia demais para a dupla de centrais do Moreirense. James retorna ao flanco direito, embora, como sempre, fuja dele como o diabo da cruz, ficando a missão de dar profundidade ao flanco entregue a Danilo. A meio campo, Moutinho e Defour formam um duplo pivot. Muito risco, mas bem jogado. É em casa e era o Moreirense. A vitória é imperiosa!

Aos 58 minutos, já Jackson foge à marcação. Recebe bem na área, mas não roda o suficiente e o remate sai enrolado. Um minuto depois, Moutinho centra para James, mas cabeceamento sai para as mãos de Ricardo Ribeiro.

Aos 74 minutos, um susto para o FC Porto. O risco de contra-ataque é grande, mesmo perante um Moreirense. É numa transição ofensiva do Moreirense que, num corte singelo, Otamendi quase faz auto-golo ao atrasar de forma defeituosa para Helton. Valeu Helton! Na resposta, James remata para nova defesa de Ricardo Ribeiro. O Moreirense volta a contra-atacar e Alex Sandro corta o lance na área com a mão. Seria um prémio absurdamente injusto para o Moreirense, mas era penalti.







Não foi de bola corrida, tinha que sair ao enésimo canto! Aos 71 minutos, canto de James e Jackson a cabecear de cima para baixo e para golo! Um golo de ponta-de-lança na pequena área! Um jogo que chegou a meter medo, resolvido pelo faro de Jackson.






A partir daqui, o FC Porto travou o seu ímpeto. Ainda assim, aos 81 minutos, James distribui para Danilo. O brasileiro sobe pelo flanco direito e cruza ao segundo poste. Jackson atira, mas não consegue fazer o segundo. Mais um que ficou por marcar. No minuto 90, Danilo volta a tentar o golo. Volta a vir do flanco para o meio, mas remata ao lado.

Uma vitória onde o maior adversário foi a zarolhice na hora de rematar. Deixo duas notas finais

Primeiro, o número de bolas paradas que o FC Porto tem que bater para obter algum sucesso é enorme! É algo que precisa de ser corrigido. 
Segundo, e a título pessoal, foi um prazer ter o Dragão como palco de reentrada de Castro na primeira liga. Um dos melhores médios portugueses, um jogador desviado de outros voos por lesões graves (até das nossas cores) e que merecia o prémio de voltar um palco grandioso como o nosso.


Análises Individuais:

Helton – Um jogo sem trabalho, excepto na intervenção onde limpa a face a Otamendi. Bons reflexos.

Danilo – Bom jogo ofensivo, embora a equipa ainda não o solicite em conveniência. Precisa de ter um extremo à sua frente. Quando o tiver vai render muito mais. Andou perto do golo e não deu hipóteses a nível defensivo.

Alex Sandro – Sem Kelvin, foi um. Com Kelvin, foi outro. Fez uma segunda parte mais solto, mais ofensivo e mais seguro a defender. Não é estranho, é consequência da maior capacidade ofensiva do flanco. Tem muito futebol. Ainda pode render bem mais.

Otamendi – Jogo perfeito, excepto um segundo de horror. Safou-se! Valeu Helton. De resto, perfeição sobre Ghilas e qualidade na saída de bola.

Mangala – Podia e devia ser o melhor em campo. Fez uma exibição tremenda, até com fintas de calcanhar sobre o adversário. Está a crescer desmesuradamente e será, em breve, um caso sério. Com o jogo já com o conforto do 1-0, salta-lhe o chip! Faz uma entrada despropositada, recebe um amarelo e só não vai para a rua depois porque o árbitro ainda não tem o 5º grau de olarápio. O que foi aquilo no fim após uma exibição de gala?!

Defour – Foi um jogo à sua medida. Fábio Espinho nunca foi um problema e pôde juntar-se à circulação de bola a meio campo. Não dá tanta segurança atrás, sobretudo nas vitais dobras aos laterais. Já se sabe, nestes jogos até dá a impressão que Defour pode ser o 6 do FC Porto. É só impressão. Nos jogos mais igualados, não é suficiente.

Moutinho – Excelente jogo. Faltou mais qualidade no passe e sorte no remate. Certo. Mas teve um trabalho no meio campo fundamental. Foi ele que assegurou a transição ofensiva em grande parte do jogo e fez muito transporte de bola vertical. Ainda deu uma mão a defender. Fundamental.

Lucho – Notou-se mais a dobrar os laterais que no seu papel de chegar a Jackson. Lucho recua no meio campo. É inexorável. Não tem culpa, é assim o processo de maturação. Pena é que o FC Porto seja forçado a recuar com ele. Precisamos de alguém ali com outra dinâmica. Desde que saiu em Braga, ainda não fez um jogo ao seu nível.

Varela – Mais um jogo perdido. Teve algumas intervenções meritórias, mas nada que constitui-se um volume de jogo constante. É por aqui um dos problemas actuais no FC Porto. O FC Porto precisa de uma solução para extremo enquanto os meninos crescem.

James – Voltou a fazer um jogo de grande nível, mesmo que espaçada a momentos. Criou muito jogo e faltou-lhe uma ponta de sorte na finalização. Foi a fonte da maior parte do perigo e sai de campo com mais uma assistência.

Jackson – O melhor em campo. Porque resolveu, embora também tenha desperdiçado, mas pelo muito que jogou pela equipa. É um grande jogador. É um grande ponta-de-lança. Talento puro.


Kelvin – Não fez tudo bem, nem levou o FC Porto ao colo. Seria uma loucura exigir isso. Entrou com genica, com vontade de ter a bola no pé e enfrentar o defesa. Procurou sempre a baliza ou a linha de fundo. Só isso, só essa vontade e disponibilidade, fez Alex Sandro subir de nível. Meteu respeito a Paulinho e abriu o corredor para Alex Sandro. Para uma quase estreia, foi bem bom!

Kléber – Trouxe um problema novo. Não fez uma exibição boa, nem má. Mas trouxe um problema novo ao jogo. O Moreirense sabia que estava em Jackson o perigo, mas não podia deixar Kléber solto. É que mesmo com o público do Dragão a assobiar, se sobrasse uma bola, podia ser que fosse golo.

Atsu – Entrou para queimar tempo.




Ficha do Jogo:

FC Porto 1-0 Moreirense
Liga 2012/13, 11.ª jornada
8 de Dezembro de 2012
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 24.610 espectadores.

Árbitro: Vasco Santos (Porto).
Assistentes: João Santos e Ludovico Santos.
Quarto árbitro: João Lamares.

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Defour, Lucho (cap.) e João Moutinho; James, Jackson Martínez e Varela.
Substituições: Lucho por Kelvin (46m), Varela por Kleber (57m) e James por Atsu (90m).
Não utilizados: Fabiano, Iturbe, Miguel Lopes e Abdoulaye.
Treinador: Vítor Pereira.

MOREIRENSE: Ricardo Ribeiro; Paulinho, Ricardo Fernandes, Anilton e Augusto; Júlio César e Filipe Gonçalves (cap.); Pablo Olivera, Pintassilgo e Fábio Espinho; Ghilas.
Substituições: Pablo Olivera por Wagner (73m), Pintassilgo por Castro (78m) e Júlio César por Renatinho (83m).
Não utilizados: Ricardo Andrade, Ricardo Pessoa, Rafael Lopes e Diego Gaúcho.
Treinador: Jorge Casquilha.

Ao intervalo: 0-0.

Marcador: Jackson Martínez (71m).

Cartões amarelos: Filipe Gonçalves (52m), Alex Sandro (62m), Mangala (77m), Fábio Espinh



Análise dos intervenientes:

Vítor Pereira:

«Não estávamos a conseguir criar indecisão na defesa do Moreirense. Precisávamos de um homem para libertar o Jackson. Aproximámos também o James do centro e correu bem. Não sei se apostar no Kléber foi determinante, mas ajudou a chegar aos três pontos e a continuarmos na frente».

Sobre a exibição

«Não esperava mais do que isto. Vínhamos de um ciclo dificílimo, exigente, e defrontámos uma equipa organizada. O Moreirense teve uma única ocasião de golo: um atraso de peito do Otamendi para o Helton. Para estes jogos é preciso estar fresco e ter as ideias claras. Hoje não era dia para isso. Era dia para ganhar».

«Fomos equilibrados, não permitimos transições ao Moreirense e podíamos ter feito mais golos. Estou muito satisfeito com a entrega dos jogadores, depois de um jogo da Liga dos Campeões. Basta conferir os resultados das equipas que jogaram a Champions».

Sobre o Sporting-Benfica

«O campeonato vai ser complicado. Estas equipas que defendem bem, arriscam pouco e estão sempre equilibradas, colocam dificuldades. Ficaram cá os três pontos. Nós fizemos o nosso trabalho. Vamos esperar pelo resultado dos outros. Os campeonatos ganham-se com mérito nosso e demérito dos adversários. Vamos ver o que sai desse jogo». 


Jackson: 

«Jogo estava a tornar-se muito difícil»


«O jogo estava a tornar-se muito difícil, mas competia-nos continuar a jogar o nosso futebol e atacar. Tentámos criar oportunidade e conseguimos marcar o golo que nos deu a tranquilidade para gerir a partida depois.»

Sente-se herói dos adeptos

«Sempre. É verdade que as exigências vão sempre aumentando quando conseguimos bons resultados. O meu objetivo é jogar forte para marcar golos e ajudar a equipa.»

Que resultado prefere no derby?

«Estamos a fazer o nosso trabalho, que é o mais importante, e estamos tranquilos.»




Por: Breogán

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