domingo, 19 de outubro de 2014

Harakiri em construção – A palavra de Lopetegui



Lamento, mas esta telenovela vai pegar, como é costume, nascenas do último episódio escrito após a vitória por 2-1 ao Braga (link): 

Tenho a certeza que no próximo jogo Marco Silva vai ter a mesma abordagem  que teve no jogo de Alvalade. À Rui Vitória. À Sérgio Conceição.

Eles não jogam sempre assim. Jogam sempre assim porque jogam connosco.

Sabem com o que contam deste lado e desenham sozinhos a realidade.

Cabe-nos a nós voltar a tentar torcê-la ou mostrar conhecimento.

Não é Rúben, Maicon, Oliver ou Brahimi que têm a palavra. É Lopetegui.

Analisemos então a palavra de Lopetegui depois de tudo o que viveu desde que aqui chegou.

Da dupla jornada Shakthar/Braga para hoje muda meia-equipa.

Mudar meia-equipa justifica-se em 3 circunstâncias:

           a) Acautelar o desgaste depois da jornada das selecções e à porta do jogo de Champions
           
           b) Acreditar que o Plantel é homogéneo em qualidade;
     
           cConsiderar o jogo de hoje como secundário no mapa da época.

                                                                           
Bruno Martins Indi jogou na 2ª feira. Fabiano e Tello estão há 15 dias sem jogar. Não foi Alex Sandro que foi à China. Foi Danilo.

Só em Brahimi colava a alínea a). Cola em Brahimi mas olhando para Jackson, Quintero. Herrera  e Danilo percebe-se quão frágil é alinhar pela tese da gestão fisica.

Achará que o plantel é homogéneo em qualidade? Eu consigo meter Marcano e Indi no mesmo saco. Fabiano e Andrés com esforço e considerando a tradição de rodar o redes da Taça.

Alex Sandro é de outra casta. Brahimi é melhor do que Quintero e Tello é melhor do que nada.

Como parece ser costume, Lopetegui não tenta torcer a realidade apenas nos jogos quando perante um cenário e um problema proposto pelo adversário não abdica de responder duma só forma.

Pelos vistos também na avaliação que faz dos jogadores tenta fazê-lo.
Imagino-o a pensar:

“Com Adrian e Quintero teremos o mesmo rendimento que Tello e Brahimi.”
“José Angel ou Alex Sandro não se nota a diferença.”

Olhando para a perspectiva da alínea c) prefiro pensar que ele ERRADAMENTE acredita que tanto faz jogar com A ou B.

Que o rendimento exigivel para o Porto que joga em casa contra o Sporting é assegurado também com estes.

Prefiro pensar que ele avalia mal os jogadores aqui e ali do que saber que ele não conhece a cultura do clube para onde veio trabalhar.

Se sonhasse que há aqui facilitismo e desvalorização da importância do jogo de hoje a crónica não tentaria ser analitica. Era uma sentença.

Passando à frente da escolha de jogadores vamos à palavra de Lopetegui. Ao resto.

Toda a gente sabia o que o Sporting ia fazer. Toda a gente tem podido ver o que todas as equipas que jogam com o Porto fazem. Está visivel para todos a quantidade de erros, brindes e benesses que o Porto tem dado nos últimos jogos e que estão para lá do azar colectivo ou da verdura individual.

Havia óbvios problemas de construção.  O Porto insistia sempre em construir mesmo assim.

Como responde Lopetegui?

Surpreendendo tudo e todos. A realidade pensada por Marco Silva, Rui Vitoria, Sergio Conceição mudou.
Eles pensavam que o Porto fazia obrigação de construir desde trás mas que para o fazer o Porto utilizava 3 médios. Lopetegui engana-os. Se já estavamos a ter dificuldades com 3 talvez a coisa melhore se tentarmos só com 2.

Marco Silva estava certo da realidade que Lopetegui lhe daria.

Eu torcia para que Lopetegui o enganasse. Que mostrasse conhecimento em vez de tentar torcer a realidade.

Lopetegui enganou-nos aos 2. Ao Marco Silva roubou-lhe a realidade e deu-lhe o paraíso.

A nós deu-nos uma tarde de inferno.

A tactica escolhida para este jogo foi um 4-4-2 à Gabriel Alves. No tempo em que o Gabriel Alves comentava a 1ª Liga Inglesa (sim, já lá vão décadas!) todas as equipas jogavam neste 4-4-2.

Para dar um toque de modernidade à coisa Lopetegui escolhe para médio esquerdo um médio centro. Eu vi o Oliver a jogar por ali contra o Lille mas numa dinâmica em que era o 4.º médio centro. Alguém que também jogava por dentro para dar a consistência exigida por um jogo daquela importância.

Se do lado esquerdo põe um jogador de toque mas sem profundidade, do lado direito resolve inovar e coloca um n.º 10 de origem com gravissimas carências defensivas mas um enorme talento.

Normalmente discutimos se o Quintero pode jogar como o James aqui fazia ou se tem que ser obrigatoriamente n.º 10. O que será melhor para o colectivo?

Lopetegui tem a palavra e resolve pô-lo a médio direito. À Secretário.

Os dois médios centro são tractores. Jogadores fisicos e de vai-vem com mais força do que capacidade de passe.

Os dois médios ala são o oposto.

Jackson é o 9 habitual e Adrian tenta ser o 9,5 entre Jackson e os dois médios centro.
Na prática o que acontece:

Oliver joga na fatia do lado esquerdo com quase nula intervenção na zona central do terreno. Como não tem profundidade e aceleração o lateral pode marcar por dentro sem problema.

Com Quintero ainda pior. Se pega a bola longe e não tem arranque mais fora do jogo fica.

No 4-4-2 à Gabriel Alves o mais curioso é o comportamento de Casemiro e Herrera.

Casemiro tenta ser aquele 6 à maneira dele quando o Porto joga num 4-3-3. Como se tivesse mais gente ali.
Herrera tenta ser aquele 3.º médio com chegada à área como se o Porto jogasse num 4-3-3.

O Porto joga só com 2 médios centro e eles comportam-se como se estivessem na tactica antiga. Resultado? BURACÃO. CRATERA.

Passeio no parque para Wiliiam Carvalho, Adrien, João Mario, Nani (que andou por ali), Montero (que baixou para ali) e até para os laterais que podiam jogar mais por dentro porque sabiam que jamais qualquer dos médios ala exploraria a profundidade.

Lopetegui deu o paraíso a Marco Silva. Passo a citar o treinador do Sporting na flash:

 “O Porto alterou a sua estrutura na 1ª parte. Conseguimos ter ainda mais superioridade no meio do terreno. “

Não sei se ria ou se chore.

Ainda não passava 1 minuto de jogo e as crateras geradas pelo 4-4-2 à Gabriel Alves se faziam sentir. Nani ao poste e logo a seguir calafrios na grande área.

O Porto foi deliberadamente colocado pelo seu treinador num túnel sem ponta de luz. Para fingir equilibrio alguns jogadores foram-se destacando individualmente.

Depois do susto inicial é Herrera que acende a lampada e sozinho consegue empurrar o jogo para o lado de lá. Como seria de esperar o esforço individual de 1 homem para dar luminosidade a um tunel daquele tamanho dura pouco. Aos 15/20 minutos de jogo já não dava. Eles eram tantos e Herrera só 1. Nada como 3 ou 4 faltas bem feitas para apagar as luzes.

Enquanto isso, Casemiro não dava conta de tudo cá atrás e ia fazendo falta em cima de falta para compensar a falta de cultura da posição 6 que tem e a desigualdade numérica.

Oliver e Quintero foram colocados em quarentena por Lopetegui e jogavam aquele futebol de caixinha inconsequente em 3 metros quadrados.

Só quando Danilo ou Angel davam profundidade pelo flanco é que atiravam a lanterna para as mãos dos companheiros. Num desses lances Quintero mostrou a genialidade e estivemos perto do 1-0.

Pelo minuto 30 Jonathan Silva cavalga pela ala onde só Danilo defende e cruza. Montero faz o habitual e Marcano mostra a Montero o que é suposto um avançado fazer. Surge o golo do 0-1.

Pouco tempo depois e numa das raras fugas da quarentena, Quintero tem um passe sublime que Jackson finaliza à altura. 1-1 e está-se tão bem no escurinho.

Até que, o paraíso que Lopetegui entregou a Marco Silva dá frutos.

Numa transição do Sporting, Maicon chega primeiro para o corte mas hesita deixando que a bola caminhe para zonas mais recuadas. Aí, estando mais acossado é obrigado a aliviar.

Durante este período de tempo seria suposto que a zona defensiva do Porto já estivesse minimamente reagrupada.

Antes do alivio já o Sporting fez o habitual. Plantou uma multiplicidade de jogadores no meio-campo ofensivo.

Por sorte, o alivio apesar de frouxo cai na zona de intervenção de um jogador do Porto.

Por incrivel que pareça é Casemiro que sendo 6 ainda está de frente para a baliza de Andrés Fernandez. Ainda vem em recuperação após desposicionamento. Já a tentativa de transição do Sporting se havia esgotado mas o médio mais defensivo do Porto ainda lá vinha. Ele nunca está. Anda por ali.

A partir daí a história é a de sempre. Ruben Neves Alvalade, Oliver e Maicon Lviv, Brahimi Dragão contra o Braga.

O adversário sabe que pode criar perigo em qualquer momento no último terço.

Se a transição dá certo, perfeito. Se a transição é cortada, perfeito na mesma que eles tentam sempre construir ainda que não estejam organizados para tal.

Plantar jogadores e esperar. “Deixa-os pousar”. Nós, quais passarinhos, pousamos.

Nani, golo.

Ao intervalo o Porto precisava de substituições. Não tendo Evandro no banco a saída de Oliver é mais um harakiri.


O que o Porto precisava era de mais tropas onde tudo se decide. Lopetegui deixa ficar a visivel inutilidade de Adrian e abandona o 4-4-2 Gabriel Alves para voltar ao 4-3-3 habitual com Quintero no meio, Tello a extremo-direito e Adrian do lado oposto.

Aqui a luz de Quintero e a classe de Jackson disfarçam a debilidade do miolo e empurram o Porto para a frente. Durou pouco. Quando Jackson volta a dar provas da tremideira na marcação de penalties vem ao de cima a realidade.

A melhor equipa toma conta do jogo e com passe, proximidade entre os jogadores e pressão q.b mostra a Lopetegui o que é suposto uma equipa de posse fazer.

O jogo parece sempre controlado, apesar de Quintero e apesar de Jackson.

O Porto podia ter empatado mas já chega de mentiras. Ganhar ao Braga daquela forma foi o atalho para esta derrota. Já deu para ver que Lopetegui não aprende com as vitórias.

Quero confiar que será capaz de fazê-lo com o peso desta derrota. É bom que o sinta, que o perceba e que se deixe de experimentalismos.

Chega de tentar torcer a realidade. Chega de dar o paraíso e palco aos treinadores adversários.


Análises Individuais:

Andrés – Jogo ingrato. Sem culpa nos golos mas sofreu 3. Teve tempo para mostrar qualidade na 2ª parte num remate de William Carvalho.

Danilo – Ficou na escuridão e não conseguiu sair dela. Lopetegui tirou-lhe um dos médios interiores que costumam auxiliar defensivamente. Lopetegui deu-lhe a pior companhia possível para marcar o lateral adversário.
Tentou ser seguro atrás e participativo à frente. Jogo aceitável dadas as circunstâncias.

Maicon – Maicon não é um central feito. É a antitese do habitual companheiro porque é sempre capaz de ser o melhor ou o pior em campo. Precisa de alguém que lhe dê estabilidade porque não será ele que a garantirá para a equipa.
Tem culpas na abordagem do 2.º golo e na tremideira revelada ao longo da partida.

Marcano -  Parece ter qualidade suficiente para aqui jogar mas é imperdoável o auto-golo.
Aqui não se aplica o “acontece”.  Estava a marcar o avançado do lado de fora e devia ter a noção que não tinha ninguém nas costas. Se Montero não chega (como de costume) faz-se ao lance para quê? Porquê? Faz-se ao lance daquela forma?
Para completar o ramalhete participa no 3.ºgolo quando era suposto que fosse bombeiro e atrapalha mais do que ajuda.

José Angel – Nani andou onde lhe apeteceu porque Cedric e o bloco de meio-campo do Sporting chegavam para o 4-4-2 à Gabriel Alves. Por isso teve menos trabalho que Danilo.
Tendo esse beneficio não foi capaz de fazer o que Danilo fez. Tirar o médio-ala da quarentena.
Jogo sem grandes manchas mas demasiado mediano.

Casemiro – Aqui entra a lenda da galinha e do ovo. Se é o estilo de jogo de Casemiro que enterra ainda mais o 4-4-2 de Lopetegui ou se é o 4-4-2 de Lopetegui que impede Casemiro de mostrar o seu valor.
Casemiro não é 6. Não sabe ser 6. Não tem cultura posicional de médio defensivo e não dá quaisquer sinais de evolução no lugar. Para jogar ali prefiro Ruben Neves, Marcano ou até Reyes.
O local e o posicionamento do corpo na altura em que Maicon alivia aquela bola dizem tudo.
Faltoso, errático, desesperado.

Herrera – Sozinho escondeu o buracão durante 15/20 minutos. Foi à bruta e sem classe mas foi. Quando passou esse efeito afundou-se naturalmente. Lopetegui utiliza um determinado perfil de jogadores e escolhe uma tactica que pede outros.
Herrera viu-se demasiadas vezes a receber a bola no meio de sportinguistas. Ele que gosta mais de arrancar do que sabe passar.

Quintero -  Se o futebol tivesse substituições defesa/ataque estilo andebol este colombiano era dos melhores jogadores do mundo.
Passa muito bem, cruza bem, tabela bem, remata bem.
Não sabe correr, não sabe defender, não sabe jogar sem bola.
Como futebol não é andebol cabe a Lopetegui organizar a equipa de modo a que o lado de bom de Quintero permita à equipa conviver com as sombras.
Perante a anarquia de hoje conseguiu provar o seu talento. As sombras não foram tão visiveis porque Lopetegui meteu a equipa na escuridão.

 Oliver – Faltou FM a Lopetegui. Se o basco jogasse FM saberia que acenderia uma luz vermelha quando colocasse o Oliver a médio esquerdo no 4-4-2 à Gabriel Alves.
Uma equipa que quer jogar em posse e com passe resolve entregar esse protagonismo a Maicon, Marcano, Casemiro e Herrera.
Tu, Oliver vais ali para o canto para impedir as subidas do perigoso Cedric.
Saiu ao intervalo porque Lopetegui percebeu que Oliver era um a menos.
Pena que Lopetegui não tenha sido capaz de perceber que Oliver era um a menos ALI mas que seria bem preciso noutras zonas do terreno.

Adrian -  Este tem sido um a menos ALI, ACOLÁ, ACOLI e qualquer lado. Dá pena ver um jogador com tão pouca confiança em si mesmo e que por essa ou outras razões não mostra nada que nos permita concluir que é um futebolista de 1º divisão.

Jackson – Classe mundial mesmo na escuridão. Lutou, marcou, inventou um penalty. Pena que o tivesse falhado porque esta podia ser uma das tardes em que um jogador pode lutar com a sua classe contra uma equipa.

Rúben Neves – Mais cabeça que Casemiro e mais pés que Herrera. Combinou bem com Quintero enquanto o colombiano teve gás mas não chegou para lutar contra a teia de médios que invadiam e violavam a nossa grande área.

Tello – Um ou dois arranques a mostrar o que podia ter sido se tem sido aposta. Acontece que para emergir o melhor Tello é necessário ter um Porto forte e capaz de mandar no jogo.
O meio-campo da 2ª parte tinha capacidade para criar perigo no último 3ª mas não tinha unhas para combater com o bloco leonino.

Brahimi -  Quando entrou já Quintero tinha apagado a chama e  José Angel nunca a tinha tido. Por isso, não teve o impacto esperado mas mesmo assim podia ter empatado a eliminatória o que seria injusto pelo que se viu no Dragão.
  

Ficha de jogo: 

Sábado, 18 Outubro 2014 - 17:00
Competição: Taça de Portugal
Estádio: Dragão, Porto 
Assistência: 36.869

Árbitro: Jorge Sousa (Porto)
Assistentes: Bertino Miranda e Álvaro Mesquita
4º Árbitro: Rui Oliveira

FC Porto: Andrés Fernandez; Danilo, Maicon, Marcano e José Ángel; Casemiro (Ruben Neves, 45), Herrera, Oliver (Tello, 45) e Quintero; Adrián López (Brahimi,73) e Jackson Martínez.
Suplentes: Fabiano, Reyes, Quaresma e Aboubakar
Treinador: Lopetegui

Sporting: Rui Patrício; Cédric, Maurício, Paulo Oliveira e Jonathan Silva; William, João Mário (Rosell, 85) e Adrien; Nani, Capel (Carrillo, 78) e Montero (Slimani, 70).
Suplentes: Marcelo Boeck, Miguel Lopes, Sarr, Carlos Mané
Treinador: Marco Silva

Disciplina: Cartões amarelos: Danilo e Casemiro para o FC Porto, Cédric, Maurício, JOnathan Silva e Nani para o Sporting



 Por: Walter Casagrande

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