domingo, 19 de outubro de 2014

Athletic de Bilbao: um clube admirável, mas mais um leão a abater!

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O clube.

Mais que um clube. Uma expressão do mundo do futebol tão repetida, muitas vezes sem sentido, ou razão. Não é este o caso. O Athletic de Bilbao é mais que um clube. É uma afirmação, uma nação, uma vontade e um legado. O Athletic é uma causa, uma missão, uma maneira de viver e estar, no fundo, uma maneira de lutar. Não se esgota num jogo, num desporto, na vitória ou na derrota, num campo ou num símbolo. O Athletic é imortal, porque é passado de geração em geração, como uma bandeira e um testemunho, estimado e preservado, significância de uma causa maior. Bem sei que estas palavras podem ressoar a exagero, até demagogia, sobretudo, porque provêem de um confesso admirador desse clube. Mas não o são.

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O Athletic inspirou um dos mais belos quadros com a temática do futebol. Aurelio Arteta imortalizou Pichichi no seu quadro “'Idilio en los Campos de Sport”. E fê-lo transcendendo o futebol e o resultado. Não foi em campo, mas fora dele. Não foi na refega do resultado, mas na cortesia para com uma mulher. Não foi num momento de glória, com um público esfuziante, mas num fugaz segundo mundano e privado. Eis o Athletic.

Respeitam-se tradições e cumprem-se rituais. É um dos poucos clubes profissionais na liga vizinha que é propriedade dos sócios. É, também, dos poucos que é totalmente dono do seu estádio e de todas as instalações que utiliza. É um clube que vive da bancada e da sua memória. É assim que se renova e ataca o futuro. Próximo das suas gentes. Não, minto, o Athletic é as suas gentes! Um estádio sempre vibrante, vestido com as suas cores e incondicional. Pois a derrota é um percalço e a vitória uma certeza.

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A equipa.

Este Athletic são os restos de uma ínclita geração de jogadores que o clube conseguiu reunir. Dito isto, não se tome o Athletic por mais fraco, pelo contrário. Se é verdade que talentos como Javi Martínez, Ander Herrera, Fernando Llorente e Fernando Amorebieta já não treinam em Lezama, também é certo que, desde a época passada, este Athletic ganhou novo rumo, mais firme e regulado, pela mão firme de Ernesto Valverde. Enquanto Bielsa tinha nas suas mãos todos os talentos dessa ínclita geração, o Athletic era mais etéreo e errante. Entre o céu e o inferno a distância era curta. Tanto se ganhava em Camp Nou, como se perdia em San Mamés contra o Getafe, logo a seguir.

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Agora, são a regularidade e o firme carácter que definem a equipa. Mais, Valverde ressuscitou o arreguenho típico de uma equipa do Athletic. A equipa quebra, mas não cede. Onde acaba a arte, começa a luta. O público de San Mamés sabe que a vitória pode não ser possível, mas a camisola sai de campo a pingar. Pois é essa a sintonia entre o campo e a bancada.

Valverde teve que reinventar a equipa. Os grandes talentos já partiram, outros ameaçam sair a cada janela de transferência, como Iker Muniaín, Ayméric Laporte e Ander Iturraspe e o mercado que o Athletic se auto-impõe é exíguo.

Cabe, por isso, ao treinador esticar a manta, ou seja, adaptar jogadores a novas posições e potenciar o talento ao máximo. Não há desculpas, rodeios ou alternativas. É nesta arte da enxertia que Valverde se tem notabilizado. Para isso, o Athletic deixou de sonhar. Passou a jogar um futebol mais concreto, realista e eficaz. Ninguém inventa e ninguém é mais que a equipa.

A equipa organiza-se em 4-3-3. Tem duas características definidoras. Sempre com extremos abertos nos flancos e um 8 a meio campo que se aproxima muito do 6. É uma equipa que se fecha muito bem ao centro em transição defensiva e que procura sempre os corredores na transição ofensiva. Está confortável em posse, mas ao contrário da teoria reinante do futebol da sua liga, não faz da posse uma obsessão. Procura sempre esticar o jogo nos flancos e juntar um médio a Aduriz na procura do golo.

Valverde é adepto da marcação ao homem nos esquemas tácticos defensivos. A equipa é agressiva no ataque ao espaço, embora a perda média de altura devido às saídas de Llorente, Javi Martínez e Amorebieta, todos acima do 1,90m, se faça sentir. Nos esquemas tácticos ofensivos a equipa procura sempre dois alvos principais: Iturraspe e Laporte. A estes, juntam-se dois alvos secundários: Gurpegui e Aduriz. Normalmente, agrupam-se em par (um lavo primário e um alvo secundário) e cada grupo ataca um dos postes. Vão variando a constituição dos grupos, de esquema táctico para esquema táctico, bem como, o ataque a que poste.

Passando para a análise individual por sector, na baliza, Gorka Iraizoz é dono e senhor do lugar. Guarda-redes muito competente entre postes, mas revela fragilidades no jogo aéreo. É a voz de comando da defesa e é competente no jogo com os pés.

A defesa é o ponto mais fraco da equipa. Muito órfã das saídas de Javi Martínez (muitas vezes usado como central) e Fernando Amorebieta.

Actualmente, a dupla de centrais mais utilizada é composta por Ayméric Laporte e Carlos Gurpegui. O primeiro, usado pelo lado esquerdo da defesa (é canhoto), é um menino de 20 anos com grande poder de choque. Rápido e incisivo no corte, até já chegou a ser utilizado a defesa esquerdo. Foi muito pretendido nesta janela de transferência. Ao seu lado, o capitão de equipa, já a caminho dos 35 anos e um ex-médio defensivo. Gurpegui é a antítese de Laporte. Baixo, débil no choque e já algo lento. É um jogador muito técnico e cerebral. Aposta sempre na antecipação. Dá uma saída de bola exemplar. Há duas alternativas: Mikel San José e Xabier Etxeita. Mikel San José é o mais utilizado. O seu perfil é mais próximo de Laporte. Forte presença física, embora bem menos rápido que o seu colega. Etxeita aproxima-se mais de Gurpegui. Jogador mais técnico, mas menos competente no choque.

O lado esquerdo da defesa é entregue a Mikel Balenziaga. Central de origem, é uma criação de Valverde para a resolução de um problema. A adaptação revelou-se acertada e é dono do lugar. Não é um defesa esquerdo muito afoito no ataque, mas confere muita solidez defensiva. Agressivo e muito inteligente no posicionamento, equilibra a equipa, pois o lateral direito é frequentemente projectado no ataque. Como alternativa tem Jon Aurtenetxe. É um jogador algo limitado tecnicamente, vindo de um empréstimo ao Celta de Vigo na segunda liga, onde não foi uma opção regular. É um jogador possante e que se projecta com mais intensidade no ataque.

O flanco direito da defesa está em remodelação. Óscar de Marcos, um médio ofensivo, até mesmo um segundo avançado, está a ser adaptado a lateral direito. Jogador fisicamente robusto e tecnicamente evoluído. Confere muita profundidade ao ataque e qualidade ofensiva ao flanco, mas obriga a equipa a frequentes compensações defensivas. Ander Iraola, até aqui dono e senhor do lugar e capitão de equipa, está a ser relegado para o banco. Também ele é uma adaptação. Iniciou-se como extremo direito, mas já há mais de uma década que cumpria a função de lateral. Mais sólido defensivamente, até pela experiência que já possui, não deixa de ser um lateral muito ofensivo. O lado direito da defesa do Athletic é, frequentemente, ofensivo, enquanto o flanco esquerdo é mais recatado. Numa terceira linha surge Unai Bustinza, um lateral que subiu da equipa B e que é a mais defensiva das soluções.

No meio campo, a posição 6 é cativa de Ander Iturraspe. No fundo, o jogador que ficou com o legado de Javi Martínez. Tal qual como o actual jogador do Bayer, a posição de defesa central não lhe é desconhecida, mas é a 6 que é mais utilizado. Iturraspe é a placa giratória da equipa, definidor das transições defensivas e ofensivas. Jogador de enorme classe, tecnicamente muito fiável e apurado, é, sobretudo, um jogador muito inteligente em campo. É o primeiro responsável pelas compensações na equipa. Como alternativa tem Erik Morán. É um jogador com um perfil muito idêntico, igualmente muito capaz e fiável do ponto vista técnico. Tem menor velocidade de execução e uma menor experiência competitiva.

A posição 8 é ocupada por Mikel Rico. Cumpre a sua segunda temporada no Athletic, já a caminho dos 30 anos. Rico é um caso raro. Chega tarde ao Athletic, depois de ter comido o pão que o diabo amassou nas divisões inferiores. Isso nota-se no seu futebol. É uma formiguinha que trabalha o jogo todo. Não há uma bola perdida. Junta-se muito a Iturraspe e é fundamental no trabalho de compensação. Apesar deste lado operário, é um jogador com boa capacidade técnica e capaz de marcar golos decisivos. Não tem uma alternativa directa no plantel. Ou entra Morán para formar dupla com Iturraspe, ou desce Beñat da posição 10. Mais raramente, Óscar de Marcos assume a posição.

A posição 10 é uma das preocupações de Valverde. Até aqui ocupada por Ander Herrera, o Athletic ainda procura por um médio que, de forma regular, garanta a criatividade ofensiva da equipa. A aposta tem caído em Beñat Etxebarria. É um jogador recuperado pelo Athletic, pois foi dispensado ainda jovem, tendo crescido na Andaluzia ao serviço do Bétis. O seu retorno a Bilbao gerou grande expectativa devido às exibições que havia produzido nas duas temporadas anteriores, com alguns golos decisivos e muitas assistências. É um jogador tecnicamente muito evoluído, mas é indolente em campo, algo que San Mamés não está habituado a perdoar. É a inconstância exibicional que tem bloqueado a sua afirmação. Na época passada, pouco passou de suplente utilizado e nos poucos jogos desta temporada, é dos jogadores mais contestados. Ainda assim, quando inspirado, Beñat decide um jogo. Tem uma boa cobrança de bolas paradas. Valverde já ensaia algumas soluções para manter Beñat em estado de “vigília exibicional”. Unai López, vindo da equipa B, é um jogador “rodinhas baixas”, muito rotativo e sempre ligado no jogo. É um dos jogadores da cantera em quem se mais aposta. Um talento à espera de ser trabalhado por Valverde. Outra solução frequentemente utilizada é a entrada de Ibai Gómez para o flanco, passando Muniaín para a posição interior criativa.

É no ataque que o Athletic é mais rico em soluções. Os extremos titulares são Markel Susaeta à direita e Iker Muniaín pela esquerda. Dois extremos com características muito diferentes. Susaeta é um jogador de linha, muito disciplinado tacticamente, embora sem uma grande velocidade de ponta. É um jogador tecnicamente muito competente, mas que arrisca muito pouco. Serve de contrapeso perfeito para o lateral que ocupa a sua faixa, quase sempre muito ofensivo (Iraola ou de Marcos). No lado esquerdo, a estrela da equipa. Um talento já há muito cobiçado. Muniaín tem um jogo interior poderoso, assente num excelente controlo de bola e numa mudança de velocidade ao alcance de poucos. Jogador com baixo centro de gravidade, escorrega por entre a marcação, qual enguia com olhos na baliza. Já tem uma maturidade táctica assinalável para um miúdo de 21 anos, afinal, já é titular desta equipa desde os 17 anos. Um repentista que trata a bola por tu. Um perigo.
O habitual extremo suplente é Ibai Gómez. É o “joker” da equipa. Um dos jogadores preferidos da massa adepta que enche San Mamés. Há muito que se reclama a sua titularidade na vez na Susaeta ou Beñat. É um virtuoso com bola. Um jogador capaz de momentos vistosos, mas algo inconsequente no seu jogo. É um extremo que abre bem o jogo junto à linha, de preferência no flanco esquerdo, sempre em velocidade. Marca golos decisivos e cruza a preceito. É dono de uma bola parada de respeito! O jovem Ager Aketxe, oriundo da equipa B, fecha o leque de extremos.

No centro do ataque, manda a tradição, o Athletic tenha sempre um ariete. De Julio Salinas, passando por Cuco Ziganda, a Isma Urzáiz, até chegar a Fernando Llorente, até antes destes, os míticos Pichichi e Telmo Zarra, o Athletic sempre dependeu da arte do golo de um jogador. Pensar-se-ia que a saída de Llorente seria quase irreparável, mas acabou sendo aquela com que o Athletic melhor lidou. Tudo por causa do “enfant terrible” Artiz Aduriz. O jogador mais talentoso do plantel. Capaz de tardes e noites de encanto, com golos de espanto e detalhes técnicos de um predestinado. Mas também exibições de fel, num genialidade colérica, zangada com a equipa e com quem o comanda. Aduriz passou a carreira a entrar e sair do Athletic, ora por questões disciplinares, ora para provar que é jogador para outros voos. Ora deixando saudades, ora levando amargura. Amado por muitos, odiado por outros tantos, Aduriz é o craque que resolve. Aos 33 anos, passou ao lado de uma carreira que deveria ser muito mais recheada em títulos e prestígio, mas foi ele quem aguentou o peso da ausência de Llorente e quem o fez esquecer. O Athletic tem um avançado centro de classe mundial, esteja ele em dia sim.

Não é a única opção para o centro do ataque. É, até, a posição onde o Athletic mais investe. Há dois jogadores que assumem uma segunda linha. Kike Sola é um avançado competente. Sem ser brilhante, é um jogador que garante golos. Fustigado por uma lesão, desde que chegou ao Athletic vindo do Osasuna, pouco jogou. Foi por isso que o Athletic decidiu atacar o mercado para encontrar um novo avançado. O escolhido foi Borja Viguera do Alavés. Um segundo avançado formado na rival Real Sociedad. Jogador capaz de jogar atrás do avançado centro, até a partir do flanco, Viguera é um jogador muito incisivo no ataque ao espaço e aproveita com inteligência as costas da defesa. Assume-se como opção a Aduriz, mas também como seu complemento, quando a equipa parte à procura de contrariar um resultado negativo. Numa terceira linha, mais dois jogadores. Gaizka Toquero é o absoluto inverso de Aritz Aduriz. O talento é demasiado escasso, mas o empenho é incondicional. Nunca vira a cara à luta, jamais desiste e só a exaustão o pára. Subiu a pulso até ao Athletic, porventura, nem nunca jogaria na primeira liga se não fosse o Athletic, e é grato por isso mesmo em todos os segundos em que lhe é concedida a honra de jogar pelo seu clube. A camisola do Athletic não é a sua segunda pele. É a primeira. E espantem-se, é das camisolas mais vendidas nas lojas do clube. Sintomático. Por fim, Guillermo Fernández, tido como uma grande esperança do clube. É um avançado centro que precisa de ganhar poder de choque. Devido à concorrência, na pré-época chegou a ser testado a jogar na ala esquerda.

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Mas há mais Athletic para além da equipa sobre o terreno, sobretudo em San Mamés. Onde o medo cénico jogará sempre a favor da equipa da casa. Pelo público incondicional, trajado das suas cores ou com a amada Ikurriña; pelos corredores pejados de tradição que conduzem ao campo; pelo ritual de depositar um ramo de flores no busto de Pichichi na primeira vez que se visita San Mamés, ritual já cumprido pelo FC Porto na visita efectuada a 26 de Setembro de 1956, com vitória para os da casa por 3-2. Jaburu e Hernâni, com um golo cada, foram insuficientes para aplacar os três golos de Artetxe, um dos tais arietes históricos do Athletic. Este jogo foi a segunda mão de uma pré-eliminatória da Taça dos Campeões. Na primeira mão, disputado no saudoso estádio da Antas, havíamos perdido por 1-2. José Maria marca para nós, mas Gaínza e Canito levam a vitória para o Athletic.

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Venha a desforra!
Um clube admirável, mas mais um leão a abater!

Deixo dois documentários que ilustram o Athletic, o segundo é extenso, mas é uma obra-prima:




Por: Breogán
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