quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

AMNÉSICOS (Por Walter Casagrande)



O entusiasmo e o romantismo de um adepto do desporto é de uma ingenuidade tocante.

Quando era puto gostava dos tenistas que subiam à rede porque isso era bem mais espectacular do que os que baseavam o seu jogo no fundo do court. Sei quem é o Pat Cash porque ganhou uma final em Wimbledon e tenho que ir à Wikipedia para perceber quem era aquele equatoriano ou peruano que um dia ganhou aquela chatice que era Roland Garros.




O que era espectacular é que fica na memória. A eficácia é coisa de momento.

Quando era puto fiquei aficionado duma equipa da NBA que baseava o jogo no run&gun e nos triplos a finalizar contra-ataque. As vitórias por 132-130 valiam mais do que as 88-86.

No futebol igual. Não percebia como é que as equipas inglesas elogiadíssimas pelo Gabriel Alves baqueavam facilmente na Europa.

E a frase “A melhor defesa é o ataque?”. Vale ou não vale?

Custava-me a crer como é que um Dream Team levava 4 secos de um Milan com o DeSailly a meio campo.
Fui crescendo a ver uma Argentina defensiva a chegar à final do Mundial de 90. Em 1994 vi um Brasil retranqueiro com Dunga, Mazinho e Mauro Silva a conseguir o que as espetaculares equipas de 82 e 86 não conseguiam. Uma Itália fiel ao catennacio a perder só nos penalties.

Em 1998 Deschamps, Petit e Karembeu faziam o miolo numa equipa campeã do mundo sem ponta de lança de jeito.

As equipas espectaculares e atacantes sem este (des) equilíbrio defensivo acabavam por cair. Caiem sempre.

Quem é que não se sentou cheio de entusiasmo para ver o Chile do Bielsa contra o Brasil do Dunga em 2010?

Entretanto cresci e fui percebendo certas coisas.
Percebi que um tenista pode ser medíocre no jogo de rede e ser TOP-10 no mundo.
Percebi que um tenista não pode ser mediano no jogo do fundo do court e aspirar a ser TOP-20.
Percebi que uma equipa de basquetebol de muita correria e triplos só ganha jogos.
Percebi que a frase “O ataque ganha jogos e a defesa campeonatos” vale mais do que “A melhor defesa é o ataque”.

No futebol igual. Se há 10 anos atrás atribuía ao factor acaso o fracasso do Barça de Cruyff frente ao Milan de Capello já há 2 percebi como é que o Inter de Mourinho deu a volta à melhor equipa que já vi jogar futebol.

Com tudo isto à medida que vamos envelhecendo pensamos que ficamos mais espertos.
Não ficamos. Incorporamos o que vemos mas temos tendência em não introduzir a história quando fazemos a antevisão dos jogos.

Na realidade somos preconceituosos.

Gostamos do que queremos gostar e queremos que a realidade dê razão ao nosso gosto.
Definimos um conjunto de competências que achamos essenciais para vencer e forçamos a realidade a adaptar-se ao nosso desejo ainda que tenhamos esquecido ou subestimado a importância de alguma.



O Federer tem as competências todas. É o melhor de todos os tempos.
O Nadal tem uma ou duas. O Nadal ganha ao Federer? Então é porque é psicológico.
A Holanda tem Sneijder, Robben, Van Persie, VdVaart e Huntelaar e faz 0 pontos no Europeu?
É porque havia mau ambiente no balneário ou queriam fazer a cama ao treinador.
O James lesionou-se? Não temos hipótese.



Portistas, benfiquistas e sportinguistas que gostam de desporto e futebol viram o mesmo que eu vi e que aqui escrevi.

80% deles pensavam que o Benfica era favorito porque o Porto, para além de Jackson, não tinha ninguém para desequilibrar.
80% de nós (eu incluo-me nesta fatia) achavam que o Benfica era favorito mesmo sabendo que o Benfica, para além de Matic, não tinha ninguém para equilibrar.
Nascemos desportivamente ingénuos. Morreremos desportivamente românticos.
Somos capazes de dizer que um defesa fez uma enorme exibição tirando aquele lance em que se esqueceu de marcar um avançado e permitiu que ele seguisse isolado para a baliza.
Somos capazes de dizer que um defesa lateral foi o melhor em campo mesmo que tenha sido “comido” na defesa pelo adversário em 2 ou 3 lances perigosos.
Nós e eles víamos Ola John, Gaitan, Salvio, Rodrigo, Lima, Nolito, Bruno César e pensávamos que com Varela, Seba, Tozé e Kelvin estávamos curtos para discutir o jogo.
Como se o Nadal antes de um jogo com o Federer pensasse que estava lixado porque não tinha jogo de rede.


Perante esta estranha introdução ao Benfica-Porto em que é que ficamos?

O Porto fez uma grande, razoável ou pequena exibição no Domingo passado?

Depende. Depende do contexto.

Eu fiquei agradavelmente surpreendido. Porque sou um amnésico preconceituoso.

Nos últimos 10 anos não é fácil descortinar um jogo onde se tenha sentido um tão grande domínio do Porto.
O argumentista do filme de domingo à noite foi o Vitor Pereira e foi o modelo de jogo do Porto que imperou nos 90 minutos.




O ano passado, por exemplo, o Porto entra muito bem e domina o jogo até aos 20,25 minutos.
O Benfica reage e consegue impor o estilo frenético a partir daí. Na 2ª parte sucede o mesmo de forma inversa. Há luta de estilos e a história do jogo só pode ser contada mesclando os períodos de domínio de uma e outra equipa.

Esta época não. Não me lembro de um jogo na Luz (tirando uma vitória por 1-0 com golo do Deco na era Mourinho) em que o Porto tenha passado os 90 minutos sem ser encostado às cordas por 5 minutinhos que fossem. Aqueles períodos em que nós, portistas, pensamos ou verbalizamos:

“Eles estão a apertar! Estamos a ser pressionados.”

Para os 80% de desmemoriados, como eu, que achavam que era na contagem de espingardas atacantes que se definia a pole position o Porto foi grande.

Chegar a casa do rival e fazer do jogo o que ele queria que fosse durante 90 minutos é de louvar.
O paradoxo é tal que se contarmos oportunidades flagrantes de golo o Benfica tem tantas ou mais nos 90 minutos. Se é assim, estranho observar o alívio nas declarações de uns e a revolta na de outros.
Esse sentimento não se prende unicamente com questões arbitrais mas também com o facto de uma equipa que se acha e comporta como grande ter sido reduzida a uma pequenez de comportamento que julgava não ter que suportar.

Em 2011/12 o Porto abre com 1-0 e com Lucho aos comandos sufoca a saída de bola do Benfica. Lá para os 25 minutos de jogo Jesus manda retirar as tropas por terra e avança pelo ar e consegue equilibrar. Uma concessão ao modelo para jogar olhos nos olhos com o Porto.

Em 2012/13 o Porto abre a dominar mas de forma menos casuística. Já não havia surpresa. Tirando o frenesim de erros e golos o Benfica, já avisado, tenta não esperar pelo minuto 25 para retirar as tropas e equilibrar o jogo.

Primeiro há incapacidade e depois há uma renúncia clara a fazer 4 passes seguidos e orientados. “Não vale a pena” – pensa Jesus

Só que desta vez nem pelo ar. Fernando, Mangala & friends começam a limpar também pelo ar e a intimidar jogadores propícios à intimidação.

O Cardozo parecia um gatinho assustado e o Lima um cachorrinho perdido.






Passa o minuto 25 e o Porto continua a mandar. Enzo Perez está tão toldado pela necessidade de acompanhar com 2 olhos e 2 pernas 4 médios que nem na bola toca e apenas Matic fazia umas flores à Alex Sandro quando se punha aos ziguezagues perante a matilha de médios a salivar que o perseguiam.








Se não dá por terra nem pelo ar a equipa fica perdida. O que fazer para respirar? O balão de oxigénio era o único jogador do Benfica com linha de passe confortável para a recepção.

Salvio tinha sempre espaço para receber a bola porque a ala esquerda estava desalinhada da pressão sem bola feita pela equipa toda.
Ao contrário da equipa o Alex dava espaço para o adversário directo receber a bola e só aí se encostava. As vezes que o Mangala teve que fazer de defesa esquerdo na 1ª parte para dobrar ou auxiliar o Alex foram demasiadas.

Tantas que no lance do 2.º golo Maxi e Salvio, sem qualquer rasgo criativo, conseguem chegar à linha apenas correndo. Varela fica a olhar para amanhã, Alex em vez de fechar a baliza protege a linha lateral e obriga o Mangala a abandonar o eixo para tentar matar a jogada ali.

No lance do 2.º golo há falhas técnicas e falhas atitudinais. As primeiras perdoo com mais facilidade, confesso.

Chega a 2ª parte e o tom do jogo mantém-se.

Se há dúvidas sobre quem mandou e quem dançou ao som do mandador é só analisar as declarações de Jorge Jesus no fim do jogo quando trai uma afirmação inicial de jogo disputado taco-a-taco dizendo:
“A meio da 2ª parte os médios do Porto começaram a ficar mais cansados e o jogo ficou mais equilibrado.”

Se ficou é porque não estava. Nunca esteve. Mesmo com o cansaço.

É de tal forma gritante que o Benfica obriga-se, inteligentemente, a jogar à Stoke City para sentir que podia discutir o resultado.

Bolas paradas, lançamentos. Se insistissem em ter comportamento de grande contra o poder do nosso meio-campo acabavam de gatas como em 2011/12. “Não vale a pena!” - pensou Jesus.
Pensou bem.

Num clube fanfarrão a impotência dói muito. A sensação de ser dominado sem apelo nem agravo doeu mais do que o empate. Estavam todos aliviados como se acabassem de sair vivos de um rapto em que pensavam não ter escapatória.
“Uf! Safamo-nos!”




E nós?

Nós fizemos do Benfica uma equipa pequena mas não ganhamos.

Fizemos do Benfica o que fizemos do Gil Vicente na 1ª jornada e o que, muito provavelmente, iremos fazer do Setúbal e do Guimarães em próximas deslocações.

Dominar o jogo todo. O problema grave é a capacidade criativa. O jogo é nosso mas a baliza não. No Domingo não ganhamos ao Benfica como voltaríamos a não ganhar ao Gil porque falta quem materialize. Quem mude a velocidade do jogo no último terço para que o passe Lucho-Jackson com 10 pernas à volta não se processe da mesma forma que o passe Fernando-Moutinho contra 4 pernas adversárias.
Precisamos de velocidade se o bloco não é exageradamente baixo e de ter jogadores que no 1 para 1 desatem o nó quando o autocarro é estacionado.

Temos jogadores defensivos velozes mas ofensivos não. Os que temos ou são inconsequentes (Atsu) ou parecem preferir tentar dar à equipa aquilo que ela não precisa (Iturbe).
O único jogador capaz de ultrapassar um defesa adversário via drible é o Alex Sandro.
Precisamos de James para que os adversários se esqueçam de qual é o ponto forte desta equipa. O fabuloso trio de médios.

Saio pessimista de Domingo porque fizemos do Benfica uma equipa vulgar e fomos incapazes de capitalizar essa humilhação.

Deu ainda para perceber que as dificuldades que atravessamos perante o transformado fraco opositor se irão replicar no resto do campeonato.

A jogar assim teremos 50% dos jogos da 2ª volta a serem decididos com 1 golo de margem.
A jogar assim discutimos o jogo com o Málaga, o United ou a Juventus sem temores.
A jogar assim teremos menos hipóteses num campeonato desequilibrado.
Os pontos fracos do Porto são expostos por equipas fracas.
Os pontos fortes do Benfica são revelados contra equipas fracas.
Temos equipa para a Champions mas precisamos de reforços para atacar a Liga.

Melhor jogador em campo: Fernando
2.º Melhor Jogador em campo: Lucho
3.º Melhor Jogador em campo: Moutinho
Prémio à 2ª só cai quem quer: Mangala no filme “Como deixar fugir um paraguaio a coxear.”

Arbitragem:

João Ferreira esteve muito bem. Poucos são os árbitros com um padrão de actuação linear e coerente. Muitas vezes as equipas queixam-se que nunca sabem com o que podem contar porque o critério varia ao sabor do vento.

Com o João Ferreira não há tornado que mude o critério. Em Aveiro e na Luz sempre a deixar jogar. Não mostro amarelos a uns nem vermelhos a outros. Uns podem fazer faltas e outros podem agredir.
Não posso dizer o mesmo do árbitro António Godinho que ao não seguir a linearidade do seu chefe de equipa acaba por ter influência no resultado.
Devia ter levantado a bandeira no lance do 1.º golo do Porto. Ninguém estranharia.

Termino com a análise ao Vítor Pereira.

A conferência de imprensa é brutal. Brutal porque dá um megafone aquilo que todos pensávamos.
Eu pensava que o que se tinha passado ia cair no esquecimento. Graças ao nosso treinador não foi possível branquear. Muitíssimo bem.

Esta equipa é equipa de treinador. Tacticamente falando. Joga um tipo de futebol oposto do estilo de Jesualdo Ferreira herdado e conservado com apport emocional por André Villas Boas.
Tenho dúvidas conceptuais no que concerne aos riscos defensivos mas o que tenho visto em parcelas de jogos é que esta equipa é colectiva e de treinador.

É o Porto de Vítor Pereira como há o Barcelona de Guardiola, o Milan de Capello ou o Stoke City de Tony Pullis/Jorge Jesus.



Por: Walter Casagrande
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