domingo, 8 de dezembro de 2013

FC Porto 2 - 0 Braga - Misericórdia





Até chega o momento misericordioso. O intervalo, com Lucho a ter que ser substituído. Não é qualquer crítica a Lucho, que, como sempre, tenta fazer o que pode na missão que lhe é entregue.








O que aconteceu ao intervalo deste jogo foi um acto de misericórdia. Para se perceber, é só percorrer a raiz da palavra. Após a miséria de primeira parte, em nada diferente à longa metragem de desgraças do mês de Novembro, algo aconteceu no coração da equipa (o meio campo) que a transformou na segunda parte. Para nós, portistas até ao tutano, foi um acto de misericórdia! Finalmente, vimos a equipa a jogar futebol, a não ser complacente e pró-activa.

Mas comecemos por o que antecedeu o jogo. Após o naufrágio em Coimbra, a nação Portista quase entra em estado de sítio. Não pelo resultado negativo por si mesmo, embora a indiferença a perder jamais entre nos nossos mandamentos, mas pela sucessão desesperante de incapacidade jogo após jogo. O FC Porto fecha-se em copas, prometem-se mudanças entre dentes e que algo vai mudar.

Mas não muda. Para lá da ausência forçada de Fernando, é o mesmo FC Porto de sempre que entra em campos. Não toma andadura, lá diz o povo. Duplo pivot, Lucho colado a Jackson, falso extremo.





Resultado? Meio campo para Braga, com Luíz Carlos com tempo e espaço para comandar as operações bracarenses. Faltou-lhes clarividência à frente, muito devido ao excelente trabalho da linha defensiva do FC Porto. Os centrais marcam Éder a preceito e os laterais azuis e brancos controlam os extremos contrários, purgando o perigo lentamente. Pouco a pouco, o ataque bracarense paralisa.





Se na linha defensiva a equipa respirava saúde, do meio campo para a frente, o FC Porto só soluçava. Aquele meio campo não funciona. Provado, comprovado e mais que declarado! O ataque, nem cócegas fazia. Sem meio campo, é impossível ao ataque impor-se ao adversário. Nunca joga de frente para a baliza, mas de costas para esta. Vantagem total para a defesa contrária.

Com os nossos laterais presos à missão defensiva de anular os extremos do Braga, ficamos sem extremos e sem criativos. Pois é isso que os nossos laterais são neste FC Porto de duplo pivot e de falsos extremos.
A primeira parte escoa-se com uma só grande oportunidade para o FC Porto. Das poucas vezes que Alex Sandro sobe e entra na área, Josué obriga Eduardo à defesa da noite.


Mas é um daqueles momentos onde parece haver intervenção dos Deuses. Misericórdia divina - os Deuses da bola com compaixão pelo sofrimento Portista. Estou certo que na linha de pensamento de Paulo Fonseca estaria mexer no seu duplo pivot mais cedo ou mais tarde. Não para o alterar, mas só para mudar os seus intervenientes. Entraria alguém para o flanco, talvez Quintero ou Licá, com Josué a entrar no duplo pivot. Sim, que para Paulo Fonseca, Josué não entra nas contas para elemento mais ofensivo do meio campo. É então que surge esse momento misericordioso. Paulo Fonseca vê-se obrigado a mexer na posição mais ofensiva do meio campo ao intervalo. Com Lucho KO, sem Josué a entrar na aritmética, ou recorria a Quintero ou a Carlos Eduardo. Não tinha hipótese. E entrariam para esse vértice ofensivo, quer quisesse ou não!

Paulo Fonseca decide bem. Entra Carlos Eduardo, mais sólido e mais consistente com as suas exibições na B. Venceu a produtividade de Carlos Eduardo e não a intermitência de Quintero.

A segunda parte do FC Porto é outra coisa. É tudo aquilo que já foi sublinhado em muitas crónicas. O meio campo do FC Porto ganha estrutura. Defour fica a 6, Herrera para 8 e Carlos Eduardo assume-se a 10. O Brasileiro traz fiabilidade no passe, visão de jogo, requinte e técnica. Começam a existir tabelinhas nas costas de Jackson, que não mais sai da área. O meio campo Portista estica, invade o último reduto bracarense e ganha profundidade. Misericórdia!!!





Os extremos portistas ganham vida, mesmo Josué, que não o sendo, passa pela sua melhor fase do jogo. O jogo flanqueado muda. São os extremos que o assumem e os laterais ajudam. O inverso da primeira parte, onde os laterais é que tentavam assumir (e os extremos atrapalhavam). 






Há trocas posicionais, sobretudo com Carlos Eduardo e Josué. Ao contrário na primeira parte, onde simplesmente havia fuga do flanco por parte de Josué, sem ninguém para assumir essa posição. Tudo diferente.
O jogo muda e muda tanto que podíamos sair com goleada.


O golo a abrir a segunda parte ajuda e muito ao crescimento Portista. É uma espécie de atestado de competência à mudança da equipa. A equipa ganha tranquilidade, mas mais que isso, sente-se em casa. Confortável e sem espartilho. Sabem aquela sensação de quando se chega a casa e se despe a roupa de trabalho e se veste algo confortável? 

Mesmo que a roupa de trabalho seja a um fato italiano absurdamente caro e a roupa caseira um trapo de bom algodão comprado na feira da terra, há sempre aquela sensação de alívio, conforto e prazer. A mudança misericordiosa forçada ao intervalo e o golo a abrir trouxeram esse prazer e conforto à equipa. De repente, é mais fácil jogar à bola. Faz sentido. Tem lógica. Bem diferente do espartilho táctico a que Paulo Fonseca vem obrigando a equipa.

Após o golo, o FC Porto soma oportunidades. O Braga vai-se safando e Jesualdo desespera. E o desespero faz-se sentir no banco. Jesualdo retira Luíz Carlos, mas mantém Alan no meio campo (onde na vida é o Alan um 10?!). É o xeque-mate ao seu próprio meio campo. Só dava FC Porto. Só havia FC Porto.

Mesmo só com um extremo e com Paulo Fonseca a recusar-se meter Kelvin em campo para a equipa abrir mais e ganhar imprevisibilidade.

Mas este FC Porto estava feliz. Entra Licá, a equipa abre um pouco, não tanto como deveria, mas o 2-0 chega logo depois.

Ganhamos bem. Fizemos mais nestes 45 minutos que na soma de quase todos os jogos de Novembro. Esclarecedor.

Portanto, há potencial neste plantel. É evidente. Há lacunas, mas há muito ainda sumo para ser extraído. Haja treinador.

Ficou evidente a diferença de ter um meio campo estruturado. Agora, imaginem com dois extremos abertos, com jogo interior forte e capazes de fazer um drible. Somem um Jackson só preocupado em finalizar. Só à caça do golo e não do jogo atacante. Imaginem!

O que Paulo Fonseca disse no final do jogo, deixou-me estarrecido. Não vou valorizar. Quero acreditar que o que se passou na segunda parte é tão forte, tão evidente, tão definitivo, que não há hipótese alguma de voltarmos à primeira parte. Mesmo que seja contra a sua vontade. Nem que ordem venha de cima, ou das bancadas.

Mais, espero que se evolua mais. Que Kelvin saia da sombra. Que seja essa uma das capas do O Jogo num futuro muito breve.



Análises Individuais:

Helton – Quase sem trabalho, só os primeiros 20 minutos lhe trouxeram mais que fazer.

Danilo – Encarou Rafa de frente e lentamente afastou-o do jogo. Defensivamente esteve perfeito. Na segunda parte, com outro “ambiente ofensivo” no jogo, chegou ao ataque e apoiou o extremo.

Alex Sandro – Foi o dínamo ofensivo na primeira parte. Ele e só. Meteu Pardo num bolso e ainda foi a tempo de ajudar o lá na frente. Na segunda parte, foi rei no seu flanco.

Mangala – Leva um amarelo ridículo, mas esteve imperial no duelo físico sobre Éder. Para quando alguém que lhe ensine a ser controlado. Para quando um treinador que ensine o Mangala?

Maicon – Traz uma serenidade ao comando defensivo que Otamendi não tem. Mandou umas bolas para a bancada na primeira parte e foi assobiado. Não importa. Fez muito bem. Isto de cortar tudo de carrinho, num tudo ou nada constante é loucura. Teve duas fífias, mas está a crescer.

Defour – Na primeira parte, passou ao lado do jogo. Na segunda, subiu de produção e revelou à vontade no papel de 6. A presença de Alan a 10 e a saída de Luíz Carlos ajudaram a sua tarefa. Falta-lhe raio de acção e dimensão física. Nisso Fernando pulveriza-o.

Herrera – Na primeira parte andou totalmente perdido. É mais uma vítima desta mania que há no FC Porto em transformar um 8 num 6. À Guarín, à Souza, etc. Na segunda parte, fugiu de 6, segundo parece, mesmo contra vontade de Paulo Fonseca, e fez muito bem. É um jogador muito primário em alguns aspectos técnicos do jogo (o que é assustador!), mas trouxe dinâmica à transição ofensiva e potência na saída para o ataque. Algo que jamais trará em duplo pivot.

Lucho – Tentou fazer o que lhe pediam. Não tem culpa de nunca ter sido um 10 e de, cada vez mais, não conseguir disfarçar isso. Muito menos é uma espécie de 2º avançado. Tenta fazer o que lhe mandam. A melhoria da equipa não se deve à saída do jogador Lucho, mas à alteração táctica que essa alteração trouxe. Já o afirmei, Lucho é o melhor 8 deste plantel. Definha a 10/2º avançado, como Herrera definha a 6 ou Josué a extremo. É o mesmo fenómeno.

Josué – Primeira parte exasperante. Na segunda parte, já mostrou um pouco mais do seu futebol. A equipa facilitou o seu trabalho. Acabou-se a fuga constante de extremo e a bola aparecia-lhe no espaço. Havia criatividade no centro e Josué cresceu no jogo, mesmo jogando coxo no flanco.

Varela – Na primeira parte, foi o Varela de quase sempre. Na segunda parte, mostrou porque é o melhor extremo do plantel, mesmo tendo um lado lunar no seu jogo que parece que nunca mais acaba. Uma segunda parte a rasgar pelo seu flanco. E agora? Mais dos primeiros 45 minutos ou mais dos segundos 45 minutos? Bem sei que também ele é afectado pela forma como o meio campo se organiza, mas é bom que Varela volte a ter alegria no seu jogo.

Jackson – Ponto assente. Quando a equipa faz chegar jogo, os golos não param. Quando a equipa só soluça, tenta fazer tudo e afasta-se do golo. Craque.


Carlos Eduardo – O melhor em campo e por larga distância. Trouxe dinâmica, trouxe arte, trouxe requinte e magia. Nunca virou a cara à luta e mostrou que é um grande jogador. Sair da equipa é loucura. Virou o jogo. Insuflou oxigénio na equipa. Ressuscitou Varela e Jackson. Meteu Herrera a fazer piscinas. Um jogador que tem tanta influência neste jogo, que o transforma, não pode voltar ao banco. É impensável!

Licá – A sua posição trouxe uma melhor dinâmica à equipa. Individualmente, nada trouxe à equipa.

Kelvin – Mostrou porque é titular nesta equipa. Isso mesmo! Não me refiro aos lances de samba nos dois flancos que puseram o Dragão a rir. Mas à tabelinha sobre pressão com Alex Sandro, num lance só ao alcance de quem domina a bola por tu. Titular, sem dúvida.



Por: Breogán
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