segunda-feira, 26 de novembro de 2012

SC Braga 0 - 2 FC Porto (Crónica de Breogán)


Sorte na Colômbia é talento.




Este jogo era um obstáculo imenso para o FC Porto. Primeiro, porque é uma das deslocações mais difíceis a nível interno. O histórico é-nos favorável, mas não ganha jogos. Segundo, porque este Braga tem talento e tem capacidade de resposta. Ainda para mais, atiçado por uma eliminação europeia e perante um FC Porto que assume o papel de “besta negra” que ameaça arruinar com o que resta da temporada a este Braga. Terceiro, já ambas as equipas sabiam do resultado de uma terceira equipa, que passou mais uma jornada de cadeirão, pelo resultado facilmente obtido perante tão débil oposição algarvia.




Quanto ao jogo, Vítor Pereira devolve Alex Sandro e Fernando à condição de titulares. Mangala assume o lugar de central ao lado de Otamendi e relega Abdoulaye para o banco. O FC Porto volta a apostar em James como falso extremo e em Danilo para dar profundidade ao flanco direito.

Peseiro conta com esta opção de Vítor Pereira e monta o Braga em torno deste ponto. Quer dar trabalho a Danilo e evitar que o lateral portista suba. No fundo, secar o flanco direito do FC Porto. Para isso, precisa de alguém com velocidade, “eléctrico” e tenacidade quanto baste. Peseiro coloca Mossoró no flanco e consegue bloquear o FC Porto. Por fim, para não expor a sua linha defensiva e para sustentar a frente de ataque, Peseiro recua Viana para a linha de Custódio.

No fundo, Peseiro sabe que para parar a fase de construção do FC Porto tem que ocupar o seu meio campo defensivo e ter extremos que segurem os laterais do FC Porto. É já uma lengalenga recorrente nas análises aos jogos do FC Porto. Reduzir os espaços e retirar a velocidade no ataque do FC Porto é meio caminho andado para empecilhar toda a construção ofensiva do FC Porto. É que, no fundo, mais que ganhar, Peseiro estava preocupado em não perder.

O jogo começa com o FC Porto a comandar, perante a expectativa do Braga. No terceiro minuto de jogo, o FC Porto ameaça o golo por duas vezes. Após um canto, Otamendi , na zona do primeiro poste, ganha posição na pequena área  e desvia a bola, mas esta vai ao poste contrário. A jogada prossegue e Otamendi fica pela área Bracarense. Na nova vaga de ataque, Lucho coloca-lhe um passe teleguiado, mas Otamendi, isolado, volta a falhar o alvo. O FC Porto manteve a pressão, mas aos poucos, o Braga percebia que as vagas ofensivas portistas podiam ser travadas. O Braga fechou a sua zona defensiva a meio campo e começou a ganhar o duelo nos flancos. Se os primeiros quinze minutos foram do FC Porto, a partir daqui, o jogo fica equilibrado e sempre com o Braga a responder ao FC Porto. Aos 17 minutos, numa rara subida de Alex Sandro pelo seu flanco, com três jogadores do Braga a ficarem pelo caminho, o FC Porto despede-se das jogadas de real perigo na primeira parte.






Aos 24 minutos, e com o jogo francamente equilibrado, Helton defende duas situações de golo no mesmo minuto. A segunda intervenção é brilhante, a remate de Mossoró. Logo depois, o FC Porto responde. James, numa reposição longa de Helton, aproveita um erro de Salino e desenha um contra-ataque. Galga metros e coloca a bola para Lucho, que, em posição privilegiada e sem marcação, atira muito por cima.




Aos 33 minutos, Helton tem dificuldades em agarrar um livre cobrado por Nuno André Coelho. A defesa do FC Porto corta para canto com aflição. No canto, Hugo Viana tenta uma cobrança directa e Helton defende com aperto.

O Braga começou apreensivo, mas rapidamente percebe onde poderia bloquear a construção portista.

Na segunda parte, a exibição do FC Porto foi ainda menos conseguida, até aos 10 minutos finais. O FC Porto continuava sem conseguir meter James em jogo, sobretudo na posição 10 e revelava dificuldades crescentes de construção pelos flancos. Bom exemplo disso é o jogo que os dois laterais portistas tiveram, com excepção de um ou outro lance, raramente chegaram ao ataque.

O Braga ia acreditando e entra mais confiante na segunda parte. O FC Porto ainda tenta esboçar um começo de segunda parte com igual pressão ofensiva que do início do jogo, mas, rapidamente, o Braga equilibra a contenda. Aos 50 minutos de jogo, o Braga usufrui de um livre perigoso na entrada lateral da área. Viana cobra para defesa apertada, mas segura, de Helton.

O jogo cai num empate táctico, com duas equipas a debaterem-se pelo aproveitar do erro contrário, em vez de procurarem o golo por mérito próprio. O desempate só seria resolvido pelo jogo das substituições. Os ténues ataques do FC Porto que escapavam à malha do meio campo defensivo do Braga eram bloqueados por cortes de Douglão, como aconteceu aos 53, 78 e 83 minutos, sobretudo sobre um Jackson demasiado distante da baliza.

As substituições decisivas aconteceram nos últimos 10 minutos da partida. Já antes, Vítor Pereira tinha efectuado a sua substituição da praxe, aos 68 minutos de jogo, com a entrada de Atsu para o lugar de Varela. Nenhum resultado prático substancial havia saído desta opção. Nesse mesmo minuto, Peseiro havia retirado Viana para colocar Amorim e o meio campo bracarense apertava mais malha defensiva.

É ao minuto 80 que o jogo sofre o primeiro abanão. Vítor Pereira retira Moutinho e coloca Defour. A alteração ajuda a equipa a jogar um pouco mais à frente e a chegar-se mais a Jackson. O desgaste havia erodido o futebol de Moutinho e Defour trouxe mais disponibilidade ao transporte de bola do FC Porto. Cinco minutos depois, Peseiro retira Micael e coloca Djamal. Uma substituição fundamental no jogo. Amorim vai para o flanco e Mossoró assume a posição 10. O flanco esquerdo do Braga desaparece. Já desgastado, Mossoró não consegue pegar no jogo e Djamal, ao lado de Custódio, não deu a mesma consistência defensiva que Amorim.

O meio campo do FC Porto começa a circular melhor a bola, porém, não evita dois sustos por Éder, em contra-ataque, mas bem bloqueados por Hélton, aos 86 e 88 minutos.





Logo após a última oportunidade de Éder, Vítor Pereira retira Lucho e coloca Kléber. A alteração baralha as marcações bracarenses e traz Jackson mais para o jogo. Um minuto depois, o FC Porto é premiado no marcador. James aparece na zona 10 e ganha a bola, avança sobre o meio campo defensivo do Braga e na entrada da grande área dispara para a baliza. A bola desvia em Douglão, bate no travessão e entra na baliza de Beto.





Peseiro reage à desvantagem e retira Custódio para dar entrada a Carlão. Três minutos depois e já nos descontos, o FC Porto beneficia do espaço dado na zona defensiva do meio campo Bracarense. Salino alivia defeituosamente, Jackson sem pressão aproveita e, de forma implacável, remata com violência, de fora da área, para o ângulo da baliza de Beto. Golaço! O jogo acaba com os festejos do FC Porto!

Há quem lhe chame sorte. Na Colômbia diz-se talento. No FC Porto, também. Dois golos de predestinados que aguentaram o jogo todo à procura de uma nesga. Nunca esmoreceram e quando a tiveram, facturaram. Talento.

Este jogo era um obstáculo imenso para o FC Porto. Foi ultrapassado. Este Braga voltou à raiz do seu jogo que apresentou nas últimas épocas para travar o FC Porto. Fechou-se e contra-atacou. Até Peseiro negou-se a si mesmo. Ele que costume ver o ataque em primeiro e a defesa só depois.

É uma vitória brilhante e ganha no xadrez das substituições. Até por isso, merecia ser brindada com mais assertividade e alegria no final do jogo.

As dificuldades de construção de jogo, sobretudo nos jogos fora, revelam-se quase sempre. Já está mais que sublinhada a causa. Este Braga, até pela qualidade que tem, voltou a reforçar a ideia, sobretudo, na segunda parte. Em Janeiro é algo que deverá ser corrigido.

Uma nota para um adversário. Éder podia ser do FC Porto a custo zero. Podia, mas algum “novo-riquismo” assim não o permitiu. É pena. Que sirva de lição.




Análises Individuais:

Helton – Voltou a ser decisivo. Um punhado de grandes defesas a segurar o 0-0. Uma ou outra bola que deveria ser agarrada, mas quando a equipa precisou meteu toda a sua qualidade. É isso que importa.

Danilo – Bom jogo defensivamente, com alguns cortes decisivos, dos quais se destaca um sobre Éder. Foi pelo seu flanco que Peseiro montou o assalto, mas Danilo soube bloquear Mossoró. A atacar está longe de fazer o que fazia no Santos. Nem é avassalador nas suas poucas acções ofensivas, nem a equipa o solicita em quantidade. Ainda não elevou o seu futebol a um nível que obrigue a equipa a jogar para ele. A falta de um extremo no seu flanco também não o beneficia.

Alex Sandro – Algumas dificuldades perante Alan e muito distante do ataque. Varela não esticava jogo e Alex Sandro não se aventurou. Percebeu-se que ainda procurar recuperar o ritmo após a lesão.

Otamendi – Dois momentos de susto que quase borravam a pintura. Tirando essas duas situações, esteve muito bem perante Éder, numa marcação muito complicada perante um avançado que sabe usar o corpo e é muito forte a proteger a bola. Nunca desesperou e soube esperar pelo momento de corte.

Mangala – O melhor em campo. Intratável no um para um e na velocidade perante Éder. Tal como Maicon, aproveitou o “serviço obrigatório” a lateral para crescer. Já doseia melhor a agressividade que disputa o lance e mostra-se bem mais confortável com bola. Grande jogo.

Fernando – Não deu qualquer hipótese a Rúben Micael, ainda assim, não foi o jogador que costuma ser. Nota-se que ainda está a recuperar ritmo e não conseguiu empurrar o meio campo do FC Porto. A sua missão principal cumpriu a preceito. Faltou aquilo que o torna um jogador especial.

Moutinho – Foi um trabalhador incansável para a equipa. Tentou assumir o jogo, mas as coisas a meio campo não estavam tão operacionais como de costume. Além disso, a réplica do meio campo do Braga era forte e a entrada de Amorim ainda mais dificultou a vida. Não é de ferro e foi bem substituído.

Lucho – Das poucas vezes que subiu à zona de finalização, falhou. Não virou a cara à luta no meio campo e trabalhou muito para a equipa, mas raramente chegou a Jackson. A sua substituição permitiu que James ocupasse mais o espaço interior e que Jackson se soltasse mais no jogo.

James – Já se sabe que naquela posição James não faz um jogo de produção contínua. Ainda assim, foi a principal fonte de perigo para o Braga. Já solicitou mais as subidas de Danilo, mas ainda não é suficiente. Quando veio para a sua posição, nos minutos finais, fez logo a diferença e abriu logo distância no marcador. Mais eloquente que isto é difícil. Mas está condenado a ser 10 só na camisola.

Varela – Presa muito fácil para Salino. Fácil demais. Não foi o desequilibrador pelo flanco que a equipa precisava. Não deu profundidade ao seu flanco, o que ajudou Alan a fazer a vida difícil a Alex Sandro.

Jackson – Foi uma ilha isolada no ataque, excepto nos minutos iniciais e finais. Obrigado a jogar bem fora da grande área, revelou dificuldades, sobretudo no arranque para a baliza. Precisa de melhorar esse aspecto do seu jogo. Nos últimos 10 minutos, chegou-se à equipa e não a equipa a si. Beneficiou com a entrada de Kléber. Ganhou espaço e viu James aproximar-se. O seu golo é uma demonstração de talento. Felino e eficaz. Golaço!


Atsu – Não fez melhor que Varela, o que não é francamente abonatório. Perdeu-se nos seus próprios dribles e não revelou as limitações de Salino a lateral direito.

Defour – Refrescou o meio campo e trouxe disponibilidade quando já faltavam as forças. Esteve seguro no passe e mostrou capacidade para dar verticalidade ao jogo. A sua entrada foi decisiva para o assalto final às redes de Beto.

Kléber – Libertou Jackson e baralhou as marcações no centro da defesa bracarense. Jackson aproveitou para matar o jogo, logo, a sua entrada foi útil.


FICHA DE JOGO:

SC Braga-FC Porto, 0-2
Liga portuguesa, décima jornada
25 de Novembro de 2012
Estádio Municipal de Braga
Assistência: 17.251 espectadores

Árbitro: Carlos Xistra (Castelo Branco)
Assistentes: Nuno Pereira e Jorge Cruz
Quarto árbitro: Manuel Mota

SC BRAGA: Beto; Salino, Douglão, Nuno André Coelho e Ismaily; Custódio, Hugo Viana e Rúben Micael; Alan (cap.), Éder e Mossoró
Substituições: Hugo Viana por Rúben Amorim (67m), Rúben Micael por Djamal (86m) e Custódio por Carlão (90m+1)
Não utilizados: Quim, Paulo César, Hélder Barbosa e Elderson
Treinador: José Peseiro

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando, João Moutinho e Lucho (cap.); James, Jackson Martínez e Varela
Substituições: Varela por Atsu (69m), João Moutinho por Defour (80m) e Lucho por Kleber (88m)
Não utilizados: Fabiano, Castro, Miguel Lopes e Abdoulaye
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 0-0
Marcadores: James (90m) e Jackson (90m+3)
Cartões amarelos: Fernando (39m), Custódio (52m), Varela (63m), Ismaily (72m), Salino (87m) e Helton (90m+3)
Cartões vermelhos: nada a assinalar

Análise dos Intervenientes:

"Foi difícil e suado"

A união foi o ponto comum das curtas declarações de Vítor Pereira e James Rodríguez logo após a vitória em Braga. Um e outro admitiram que a coesão da equipa ditou o desfecho na "Pedreira", com o treinador a fazer ainda questão de endereçar os parabéns aos jogadores e aos adeptos do FC Porto.

Vítor Pereira

"Foi uma vitória difícil, suada e há que dar os parabéns aos jogadores e os parabéns aos adeptos. A equipa tem carácter, como tem demonstrado sempre, está unida e deu mais uma demonstração cabal disso mesmo. Parabéns aos jogadores, pois são eles que ganham os jogos, por toda a união demonstrada."

James

"Fico muito feliz. Penso que o FC Porto está a jogar para ser campeão. Sabíamos todos que o Braga é uma grande equipa e conseguimos um bom resultado, para podermos continuar a lutar. Estamos bem, estamos a passar um bom momento, mas sabemos que devemos seguir passo a passo e continuar por este caminho. Somos unidos."




Por: Breogán
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