sábado, 3 de novembro de 2012

FC Porto 5 - 0 Marítimo (Crónica)



Dançar faz bem à alma.

O vídeo promocional do FC Porto para este jogo começa com uma afirmação: “dançar faz bem à alma”. Embora não seja um apreciador da arte do bailar, algum fundo de verdade há-de ter, já que em todo e qualquer ponto do planeta o povo dança. Mais contornos de verdade ganha, quando hoje todos estamos de alma cheia após assistir a um “bailinho de luva branca” ao Marítimo do areias lacaio. São noites destas que entusiasmam as hostes e reforçam a confiança da equipa.





Logo depois, o mesmo vídeo sugeria: “que tal uns passos de samba? Ou tango? Ou até cha-cha-cha?”. Na verdade, o samba foi curto. À meia hora de jogo, já dois dos seus praticantes estavam no banco a fazer gelo vergados pelo tapete verde. O tango foi bom. Ousado e vibrante, mas não levou o público ao rubro. Já o cha-cha-cha hoje esteve imparável, ou não fosse o golo o estilo de dança que o Dragão mais ama. Cha-cha-cha versão morena ou cha-cha-cha versão pálida. A qualidade é suprema e do mais perfumado. Mas no fundo, foi o corridinho algarvio que mais alimento deu à alma.




Vítor Pereira repetiu o onze inicial, pela terceira vez consecutiva. A equipa, montada na sua habitual estrutura táctica, teve dois pilares que sustentaram a exibição colectiva de alto nível. Primeiro, o melhor Moutinho deste ano. Segundo, um Danilo cada vez mais omnipresente e que empurra James para os seus terrenos. Ainda não está no ponto máximo de produção, mas já é o suficiente para consolidar o flanco à sua custa.

A entrada do FC Porto é muito forte. Muita circulação de bola e movimentos verticais com e sem bola.

Para a boa exibição do FC Porto muito ajudou a concretização em golo da primeira jogada de perigo, logo aos 4 minutos de jogo. E que jogada! Todo o meio campo a funcionar ao primeiro toque. Poesia do movimento. Moutinho tabela com Fernando e abre para James na direita. James tabela, de imediato, com Lucho e “el díez” vem receber à sua zona 10, onde, de primeira, coloca um passe a rasgar para a entrada de Jackson. A Jackson, primorosamente isolado na zona central, só lhe faltava tirar o guarda-redes da frente e soltar a festa. Tarefa cumprida a preceito e com estilo de matador. Eis a primeira dose de cha-cha-cha servida às bancadas do Dragão. E logo dupla!

O FC Porto ganha conforto no marcador e balanço na sua dança.

Cinco minutos depois do 1-0, já Varela cavalga solto pelo flanco esquerdo, lançado por Jackson de cabeça, a servir de pivot do ataque. Varela encara o seu adversário, ganha o drible e centra para Lucho na área. O centro sai ligeiramente alto e Lucho não consegue desviar a preceito. Um minuto depois, mais cha-cha-cha. James na zona central a rasgar a defesa madeirense com mais um passe açucarado. Varela, já na área, recebe no peito e roda, mas não consegue completar a acrobacia. Falha o remate e a bola respinga para a linha de fundo. Mais três minutos e o Dragão volta a cuspir fogo. Moutinho isola Varela no flanco esquerdo. Este cruza com conta e peso para Jackson, que só tinha que encostar, mas o lance é bem anulado por fora de jogo milimétrico de Varela.

Aos 20 minutos de jogo, Danilo sobe pelo seu flanco e após tabelar com Lucho, segue para a baliza, fintando quem saia ao seu caminho. Já só com o guarda-redes do Marítimo pela frente, remata forte, mas sem a colocação necessária, o remate é defendido. Um minuto depois, já Moutinho disparava em direcção à baliza do Marítimo. Vendo o movimento de desmarcação de James, tenta colocar a bola no colombiano, mas um corte no último momento de Rafael Miranda bloqueia a acção. Dois minutos depois, é Fernando quem conduz o ataque. À sua frente, duas opções: Jackson e James. Opta por Jackson e coloca uma bola perfeita para a desmarcação do seu companheiro. Erradamente, o auxiliar assinala fora de jogo e o lance é anulado. Mais dois minutos e novo lance de perigo. Novamente, Jackson a servir de pivot do ataque. Recebe do meio campo e distribui para James. Este progride com bola, ataca a área maritimista e à entrada da mesma, dispara. O remate sai colocado, mas encontra o corpo de Lucho e é desviado. Terminam aqui 25 minutos de futebol de excelência.

Após estes 25 minutos de muito boa dança, o FC Porto perde, em 5 minutos, dois executantes por lesão.

Primeiro, Fernando é substituído por Defour, depois, Maicon é substituído por Abdoulaye. A equipa reduziu o volume de jogo até incorporar as alterações, mas rapidamente voltou a pegar no ritmo. Quem diria que seria o relvado o nosso maior adversário? Podem invocar o que quiserem. Que teve que ser, que vai ficar tão bom como era, que é preciso mais tempo, etc. A “factura” já a temos. Veremos quanto vai custar.

Aos 33 minutos, o FC Porto volta à dança. Após um canto, a bola ressalta para Lucho que fora da área e de primeira, remata com força, mas sem direcção. A bola, caprichosamente, encontra Otamendi isolado e só com a baliza pela frente. Otamendi faz o impossível e falha!






Não foi desta, seria na próxima vez. E que golo! Aos 35 minutos de jogo, Lucho faz uma enorme recuperação de bola no meio campo a evitar um contra-ataque do Marítimo. No imediato, lança Varela no flanco esquerdo. Varela aproveita o facto de apanhar a defesa em contra-pé, finta dois adversários a progredir para terrenos interiores. Perante a apatia defensiva do Marítimo, saca um remate em arco ao ângulo contrário da baliza de Ricardo. Golaço!




O FC Porto não dava tréguas. Aos 40 minutos é James a recuperar a bola a meio campo e a meter mais um passe açucarado para Jackson na zona central. É por muito pouco que Jackson não chega à bola e não fica, uma vez mais, isolado cara a cara com o guarda-redes. Três minutos depois, é James que, servido por Moutinho, volta a abeirar-se da área e tenta o remate. A bola desvia em João Guilherme e passa rente ao poste. Ainda haveria tempo para mais duas oportunidades. Ambas já nos descontos e ambas por Varela. Primeiro, após um contra-ataque do FC Porto, com James a abrir para a progressão de Lucho e este a centrar para Varela isolado, mas é apanhado em fora de jogo. No último lance da primeira parte, James e Moutinho voltam a combinar com o último a centrar para o coração da área onde aparece Varela a cabecear frouxo e à figura.

Uma primeira parte brilhante, com uma circulação de bola de grande nível e dois flancos funcionantes. Varela inspirado no flanco esquerdo e Danilo com caudal ofensivo para sustentar o flanco direito. Moutinho e James hiper-produtivos e um Jackson que ainda ajudava a criar pontos de fixação à circulação de bola do meio campo. Muito futebol!

A segunda parte seria jogada a um ritmo mais lento. Há um jogo importante para a Champions a aproximar-se e não valia a pena arriscar mais lesões. Foi mais lenta, mas mais mortífera também. A segunda parte é marcada pela cadência dos golos do FC Porto e pelo avolumar do resultado.

O primeiro lance de perigo é para o FC Porto. Minuto 51 e Lucho abre na esquerda para a progressão de Varela. Varela centra com rigor para Jackson que, isolado e de frente para a baliza, chuta por cima. Um minuto depois, o Marítimo cria o seu único lance de algum perigo de todo o encontro.

Aos 60 minutos, o FC Porto atinge os 3-0. Moutinho assume a posição 10 e desmarca Jackson com um passe vertical. Mais uma vez, só com o guarda-redes pela frente, Jackson cumpriu e lançou a festa. Faz um drible simples, mas bonito, sobre Ricardo e chuta para a baliza deserta.

Dez minutos depois, Danilo deriva para a zona central e do meio da rua remata com violência à baliza do Marítimo. Ricardo defendo com dificuldade, mas evita o avolumar do resultado.

Dois minutos depois, novamente Moutinho na posição 10 e nova assistência. Tabela entre James e Moutinho, com o último a fazer um passe de morte para a progressão do primeiro descaído pela direita. Perante Ricardo, James não falhou e alcançou o 4-0.

Após a festa, mais uma substituição por lesão. Helton cede o seu lugar a Fabiano e completa o trio de substituições forçadas. Mas cinco minutos depois, há mais dança no Dragão. Defour recupera uma bola e progride verticalmente para a baliza. Perto da área dá para a desmarcação de James, que ganha a zona frontal da baliza e remata. O remate é desviado em João Guilherme, mas desta vez, toma o rumo certo e acaba no golo! 5-0!!!

Aos 84 minutos, num contra-ataque, Varela isola James, mas este estava em fora de jogo. Pouco depois, Lucho lesiona-se, mas o capitão ainda regressa ao jogo. Até que, no último minuto da partida, James cobra rapidamente um livre e Jackson com tudo para marcar, atira por cima!






Foi uma noite de total harmonia futebolística e muito cha-cha-cha. Um meio campo bem em cima do adversário, com muito “rendilhado” ao primeiro toque, o que se revelou desconcertante para as marcações adversárias. Ainda por cima, sempre que proporcionava (e este jogo foram muitas as vezes) James ainda vinha fazer das suas à zona central. E logo quem!





O jogo do FC Porto beneficiou muito de ter conseguido abrir os dois flancos. Varela em noite sim e um Danilo já produtivo qb, tornaram o campo mais largo, evitando, assim, o afunilamento do jogo. Por último, Jackson com todos estes predicados tácticos a jogarem a seu favor, revela-se ainda mais ponta-de-lança. Marca e dá pontos de fixação à equipa, com boa cobertura de bola e uns pés abançoados. Cha-cha-cha!

Quanto ao Marítimo, leva o avião cheio e muitas explicações a dar ao tio Alberto. A bazófia com que vieram jogar ao Dragão é a cara chapada do presidente. Falam muito antes, jogam muito pouco durante e saem com o rabo entre as pernas no fim.

E agora Kiev! Sem medo, mesmo com possíveis baixas. Temos equipa para eles!


Análises Individuais:

Helton – Jogo sem história. No único lance de perigo do Marítimo não fica muito bem na fotografia. Lesionou-se pouco depois.

Danilo – Não foi uma exibição brilhante. Ou melhor, ainda não foi. Ainda não foi uma exibição que acalmasse espíritos mais desassossegados. Do ponto de vista físico, está quase no topo da sua forma. Falta ganhar confiança futebolística. Falta que o seu jogo ganhe densidade. Ainda assim, fez um bom jogo defensivamente (Sami?) e foi competente qb no ataque. Pelo menos perante este Marítimo, manteve o flanco aberto e permitiu a James fugir para onde joga mais.

Mangala – Meteu Heldon num bolso e ainda tentou dar uma perninha no ataque. Está a tornar-se mais sólido na posição e mais solto no seu futebol. Nota-se que joga com maior tranquilidade e sem tentar arrasar todos os lances. Está em franca evolução.

Maicon – Estava a fazer um bom jogo, sério e autoritário, até sair por lesão.

Otamendi – Pegou nos galões de Maicon e liderou a defesa. Impecável a defender, embora o Marítimo fosse uma inexistência. O seu maior pecado foi a atacar. Nem um central tem permissão para falhar um golo daqueles!

Fernando – Grande arranque no jogo. Pressão e mais pressão sobre o meio campo do Marítimo. A tal ponto, que chegou a ser ele a conduzir movimentos ofensivos. Saiu por lesão, sendo aquele cuja ausência poderá ser mais castigadora na deslocação a Kiev.

Moutinho – Jogaço! Mostrou porque é um dos médios mais completos do mundo. Intratável a defender e mortífero a atacar. No meio de tanto cha-cha-cha, acaba por ser ele o melhor em campo! Feliz a equipa que tem um médio assim! É jogar com mais um.

Lucho – Grande jogo do capitão, embora mais discreto que os outros elementos do meio campo. Fez um trabalho sombra de grande qualidade com recuperações de bola decisivas. Sempre disponível para atacar e com assinalável frescura física. Também sai tocado deste jogo.

James – Abriu a “via verde” para Danilo e foi para o seu posto. Ali, naquela posição, é um mago. Golos, assistências, mais uma finta de corpo, ou um cruzamento. Tanto futebol brota daqueles pés. Está a amadurecer a uma velocidade assustadora. E não digam que não defende!

Varela – Marcou um golaço. Mas isso não é novidade. Golaço ou golinho, Varela quase sempre marca. O que é novidade é a profundidade que deu ao flanco esquerdo. Bem sei que Briguel é jogador de distrital e só joga onde joga porque é sobrinho do outro, mas este Varela foi o “antigo”. Aquele que arrancou no FC Porto e não o que estacionou. Resta saber se dura.

Jackson – Os números são muito bons e indesmentíveis. Mas a frieza dos números tapam outros detalhes. É um ponta-de-lança moderno, condição física de excelência, tecnicamente soberbo (aquele pé direito é tremendo! E o jogo aéreo é muito bom) e que não se furta de jogar para a equipa. O detalhe no segundo golo é delicioso. Aquele drible é visualmente simples, mas é tecnicamente difícil. Que talento este rapaz tem! Falhou dois golos? E daí? Quem não falha?


Defour – Incorporou-se bem no meio campo e manteve a bitola. Acaba o jogo com uma nota ainda mais positiva, com a forma como constrói o quinto golo. Sentiu-se a falta de Fernando, claro, mas soube fazer o lugar e mantê-lo vivo. Fazer isso após Fernando em jogo não é fácil.

Abdoulaye – Foi um bom jogo para ter uma estreia a frio. O adversário foi manso e resolveu tudo a bom termo. Alguns lançamentos longos falhados, mas um pequeno detalhe numa boa exibição. Tal como Defour, manteve a bitola.

Fabiano – Chamado a frio, pouco mais teve que fazer que repor umas bolas em jogo e jogar aqui e ali com os pés. Ou seja, nem foi testado. Mas mesmo com a falta de algo palpável, pressinto que o FC Porto tem em Fabiano e em Stefanovic soluções bem mais interessantes e consistentes para a suplência do guarda-redes titular que nos últimos anos (desde que Helton foi suplente de Vítor Baía).


Ficha do Jogo:

FC Porto-Marítimo, 5-0
Liga portuguesa, oitava jornada
2 de Novembro de 2012
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 27.609 espectadores


Árbitro: Cosme Machado (Braga)
Assistentes: Alfredo Braga e Nuno Eiras
Quarto árbitro: Pedro Vilaça

FC PORTO: Helton; Danilo, Maicon, Otamendi e Mangala; Fernando, João Moutinho e Lucho (cap.); James, Jackson e Varela
Substituições: Fernando por Defour (28m), Maicon por Abdoulaye (32m) e Helton por Fabiano (74m)
Não utilizados: Castro, Kleber, Miguel Lopes e Atsu
Treinador: Vítor Pereira

MARÍTIMO: Ricardo; Briguel (cap.), João Guilherme, Roberge e Rúben Ferreira; Semedo, Rafael Miranda e João Luiz; Sami, Danilo Dias e Heldon
Substituições: Sami por Fidelis (intervalo), Semedo por Olberdam (intervalo) e João Luiz por David Simão (70m)
Não utilizados: Welligton, Márcio Rozário, Luís Olim e Ytalo
Treinador: Pedro Martins

Ao intervalo: 2-0
Marcadores: Jackson (3m e 59m), Varela (35m) e James (72 e 77m)
Cartões amarelos: Roberge (53m), Otamendi (63m), João Luiz (66m) e Danilo Dias (83m)



O que disseram os Intervenientes:

Vítor Pereira:

"Conseguimos uma exibição excepcional"

No final da goleada sobre o Marítimo, Vítor Pereira revelou dificuldade em escolher o melhor jogo do FC Porto na época em curso e, até, o melhor momento vivido no Dragão. Reconheceu a qualidade excepcional da exibição, estabeleceu um paralelo com a vitória sobre o PSG, mas admitiu que espera desfrutar de “coisas muito maiores”. Já nesta temporada.

Qualidade a todos os níveis

“Não há muito a dizer sobre o jogo. Fizemos um jogo de grande qualidade a todos níveis e não permitimos os momentos de transição do Marítimo, que é uma equipa perigosa. Fomos consistentes e fizemos algumas coisas que agradam a todos os que gostam de futebol. E sempre sustentado num colectivo forte.”

Treino e talento

“As jogadas dos golos, e outras, é trabalho de treino e talento dos jogadores. Quando bem combinados os dois factores, resulta em situações bonitas de se ver.”

Excepcional

“Só este ano, já vi a minha equipa a fazer várias exibições que me agradaram muito, mas posso dizer que conseguimos uma exibição excepcional, como já tinha sido aquela que nos permitiu vencer o Paris Saint-Germain. Também estivemos muito bem contra o Beira-Mar e o Guimarães.”

As lesões

“Ainda não me inteirei do grau de gravidade das lesões do Fernando, do Maicon, do Helton e do Lucho. Em breve, me debruçarei sobre o assunto e em encontrar soluções para os substituir em Kiev, se for caso disso. O grupo tem qualidade.”

Equipa mais ligada

“Espero ter momentos melhores do que este, porque, neste momento, não ganhámos nada. Mas reconheço que a equipa está mais ligada e identificada com aquilo que pretendemos. Eu estou mais experiente e não tenho problema nenhum em assumi-lo. Tudo isto faz parte de um crescimento natural. Espero vir a desfrutar, este ano, de coisas muito maiores.”


Varela:

«O mais importante é que a equipa está bem, está a atingir os seus objetivos, a ganhar, e quando é assim o valor individual surge mais. Temos a consciência que não podemos baixar os braços, temos de lutar em todos os jogos para conseguir os nossos objetivos. Temos sido uma equipa séria, muito humilde, com entreajuda. Os resultados aparecem. Penso que é um momento bom, tenho de aproveitar, mas o mais importante é que a equipa está a ganhar.»

Sente-se num bom momento? 

«Tenho a confiança da equipa técnica, de toda a equipa e sinto-me bem. Já tivemos momentos muito bons mas agora estamos a atravessar um período fantástico, estamos a ser muito regulares e esperamos manter.»

Sobre as lesões? 

«Há que lamentar as lesões que tivemos neste jogo, espero que eles recuperem o mais cedo possível. O relvado está complicado a levantar.»

Como vai ser defrontar de novo Miguel Veloso? 

«Falei com ele no final do último jogo, deu-me os parabéns, mas amigos, amigos, negócios à parte. » 





Por: Breogán

Enviar um comentário
>