domingo, 8 de fevereiro de 2015

DESFIBRILADOR


Um adversário que estava com um ataque cardíaco. Durante o combate soma ao enfarte a perda de mobilidade de membros.
O Porto responde como se estivessemos no Serviço de Urgência e o nosso papel fosse o de dar vida ao moribundo.

Gel nas placas. Charging! Clear! E aí vai choque.

Mesmo tentando reanimar o moribundo o trabalho ficou feito. A qualidade de jogo foi sofrível, a atitude ainda conseguiu ser pior mas o Porto conseguiu os 3 pontos num jogo em que o adversário jogou sem 5 dos anteriores titulares: Paulinho, Marcelo Oliveira, André Simões, Filipe Melo, Vitor Gomes.

A estes 5 podemos somar mais 2:  Ramon Cardozo e André Marques.

É certo que com o mal dos outros podemos nós bem. O Porto tem o direito a ter uma sorte não forçada ao melhor estilo Miguel Rosa e Deyverson.

O Porto não tem o direito é de abusar da sorte quando já em Barcelos tinha revelado esta estranha forma de viver a urgência.

Somos obrigados a ganhar, não podemos escorregar mas entramos em jogo com toda a calma do mundo e vamos ver no que dá.

E foi assim que o Porto se apresentou, perante uma equipa com um meio-campo esventrado, sem pontas de lança, sem o melhor central e passado pouco tempo sem os laterais titulares.

Se o Moreirense está fraco, ganharemos mais tarde ou mais cedo.

Assim não vamos lá. A equipa tem que mostrar alma de campeã e perceber que não pode descansar ao sol da bananeira. Lembro que quem tem 6 pontos de atraso não tem sombra e precisa de correr atrás.

O jogo começa num ram-ram pastoso. A equipa continua a lateralizar muito mas fá-lo como plano A.  O primeiro passo desejado seria o de mandar no jogo, instalar-se no meio-campo adversário e encurrala-lo através da alternância entre jogo interior e exterior.
Chamar a atenção dos adversários para espaços interiores e aproveitar essa ratoeira para procurar espaços pelas alas.

O que acontece é que o Porto cria e transporta sempre pela ala. PLANO A, mesmo.

Qualquer equipa, minimamente organizada consegue suportar a brisa ofensiva do Porto porque ela é previsivel e mais facilmente controlável.

Sem espaço Tello tem muita dificuldade em ultrapassar o lateral. Quaresma teria, em teoria, mais facilidade mas estamos em 2015 e não em 2007. 

A variação de jogo que o Porto faz é entre o jogo exterior e o jogo exterior quando Oliver tira a bola do flanco esquerdo para o flanco direito ou entre o jogo exterior e o jogo traseiro sempre que após bater no muro há uma tentativa calma, pacata e pastosa de começar tudo de novo.

Os 3 melhores jogadores em campo hoje foram os que habitaram o eixo central. Os que contrariam esta tendência obsessiva de tudo lateralizar como se o caminho mais curto para chegar a uma baliza fosse visto pelo Porto como um empecilho.

Herrera, que foi capaz de ser o médio-centro e médio-centro ofensivo.

Jackson, que foi o avançado-centro e o médio-centro ofensivo nas horas vagas.
Casemiro, que foi o médio-centro defensivo que, desta vez,  quando se moveu não deixou o centro.

Um muito débil Moreirense que, com a sagaz gestão do Mercado de Inverno e o incrivel azar do mês de Fevereiro, se arrisca a passar de pseudo-candidato à Europa a campeão da queda-livre da 2ª volta conseguiu suster sem dificuldade a entrada inicial de um Porto na máxima força e com a máxima urgência.

Ponho as coisas nestes termos: No jogo dos Barreiros o Porto entrou de forma mais digna, mais profissional e mais ciente das suas obrigações.

Num lance ficou a perder 1-0, tremeu, enervou e correr atrás com vontade não chegou.

Ontem entrou de forma preguiçosa, deixa andar e convencida que ganhar seria uma inevitável consequência.

Num lance de génio da dupla Herrera e Jackson ficou a ganhar 1-0, continuou convencida, não saiu da preguiça e permaneceu na ideia que a vitória era inevitável.

Uma ou outra aceleração de Tello, um ou outro cruzamento de trivela de Quaresma que gerou um bruá mas o ram-ram jogo exterior/jogo-exterior e jogo exterior/jogo traseiro continuou a imperar durante praticamente toda a partida.

Surge o 2-0 com naturalidade numa boa jogada de insistência como poderia ter aparecido o 1-1 num dos lances em que o Moreirense conseguiu abordar o último reduto de Fabiano.

É impossivel que o Porto seja campeão se não revelarmos outro espirito de conquista e se não acertarmos esta debilidade táctica em que julgamos que podemos estar por dentro da competição jogando sempre por fora.

O Porto está a precisar de jogo interior. Mesmo quando se faz o obrigatório e se retira um dos extremos (Tello) o que se segue revela a força da doutrina ao ver Oliver a jogar colado ao banco do Porto.

Assim podemos ficar a 3 pontos.
Assim podemos ter a oportunidade de discutir a passagem aos Quartos com o Basileia.
Mas assim não vamos lá.




ANÁLISES INDIVIDUAIS

FABIANO – Um posicionamento estranhissimo na 1ª parte quando abre a baliza do seu lado direito para Arsénio. Felizmente que por falta de visão ou pé esquerdo a opção foi vir para dentro o que escondeu o destempero momentâneo do guarda-redes.
Na 2ª parte vimos o Fabiano do costume. Gato a sair dos postes e a impedir o golo de João Pedro.

DANILO – Exibição uns furos abaixo da bitola habitual. Ainda com 0-0 teve um momento à Casemiro correndo desnecessariamente a uma bola pós canto ofensivo o que abriu uma cratera cá atrás.
Fez um jogo muito de toque, de passe. A locomotiva não funcionou, o passa e fica foi a regra do jogo. Esteve na linha do ram-ram pastoso que imperou em Moreira de Cónegos.

MAICON – Fez um bom jogo. Maicon e Marcano são mais inseguros e menos matreiros do que Bruno Martins Indi que sabe defender e defender-se mais.
Indi é como o Casillas dos defesas-centrais. Se puder esperar pela bola aconchegando-se nas costas do seu marcador directo é o que fará.
Maicon ataca mais vezes a bola e aposta mais na antecipação. Quando o resultado dessa opção fosse maioritariamente positivo a equipa ganha com esse tipo de postura.
Ontem correu bem.

MARCANO – Agressividade na disputa pela bola e calma aparente na forma como joga.
Aprecio este cocktail que Marcano vem revelando jogo após jogo. Entendeu-se bem com Maicon e teve a sorte de levar com avançados tenrinhos Taça da Liga style.

ALEX SANDRO – Dos 6 jogadores que andam pela linha neste Porto versão Fevereiro de 2015 é o que a melhor transporta em progressão. Se continuarmos a jogar com esta profusão lateral Alex acabará por ter a responsabilidade na condução de jogo ofensivo que normalmente os médios-centro têm.
Fez um bom jogo manchado pelo habitual facilitismo do drible desnecessário que gera sempre 1 ou 2 contra-ataques perigosos para a baliza de Fabiano.

CASEMIRO – Um dos melhores jogos ao serviço do Porto. Onde doseou melhor a agressividade violenta e revelou maior inteligência de desposicionamento.
A sair do lugar que o faça na vertical e não na horizontal.
Gostei.

OLIVER – É dos jogadores mais prejudicados com a lateralização do futebol do Porto. Encostado à ala esquerda perdemos a vantagem da condução, da amplitude de espaço aos seus olhos. A sua qualidade de passe associou-se à cratera no eixo central para termos a oportunidade de ver variações de flanco com precisão de cientista.

HERRERA – É dos jogadores menos prejudicados com a lateralização do futebol do Porto.
Herrera é selvagem e se do lado esquerdo os 3 jogadores estão sempre lá, no direito ficam apenas 2 porque a atracção que o mexicano tem pela baliza e por Jackson é demasiado sedutora.
Felizmente para o Porto que Herrera pisa os terrenos que pisa e ontem foi ele o MVP que com passes de Michael Laudrup resolveu um jogo que tinha tudo para ser o símbolo de uma época perdida.

TELLO – Dentro da sua limitada capacidade de enfrentar e superar o lateral quando tem bola no pé e dentro da sua total incapacidade de decidir o que melhor fazer quando está na cara do redes acabou por ser o jogador do ataque Porto que mais perigo causou.
A velocidade de ponta que tem é uma arma tão poderosa que garante, só por si,  situações para a equipa poder resolver o jogo.
O problema para Tello é o que ele tem feito com estas situações.
O problema para Tello é que o Porto tem alguém no plantel tão rápido e mais barato.
Tem que acordar.

QUARESMA – O já esperado ocorreu. Depois do fabuloso golo de trivela aumentou em 400% o uso desse recurso durante uma partida de futebol.
O inesperado também ocorreu. Depois do fabuloso golo em lance individual Quaresma não deixou de ser um jogador colectivo que em bola corrida já não pensa ser o Messias.
Envolveu-se naquele futebol de posse pastoso melhor do que Tello porque domina melhor a bola e sabe passá-la com mais qualidade.
Teve 2 ou 3 cruzamentos que podiam criar o perigo que nasceu pelos pés de Herrera no golo de Casemiro e tentou ser o 4.º médio numa equipa que faz por esconder o 2.º e o 3.º.

JACKSON – Hoje não foi o MVP porque Herrera deu os dois golos. Não ser MVP já é noticia nos dias de hoje.
Não sendo o MVP teve tempo para marcar um golo de classe em que vai do pé direito para o esquerdo e do esquerdo por cima de Marafona. Simples.
Teve tempo, como sempre, para ser o médio que a equipa precisa que seja. Num desses lances à Quintero isola Tello com um passe de classe.


EVANDRO – Quando o Moreirense cheirou o 1-1 já tinha sentido a necessidade da cultura tactica e de passe do brasileiro.
Entra com o resultado já definido mas a equipa não melhora como deveria porque Oliver é desterrado de vez para extremo o que mitiga os efeitos positivos no controle de jogo.

BRAHIMI – Jogou uns minutinhos para aquecer os motores e para deixar no ar que a titularidade terá que ser sua porque consegue ser tão desequilibrante como Tello (embora por motivos diferentes) e ser tão ou mais associativo do que Quaresma.

ABOUBAKAR – Jogou uns segundinhos.




Ficha de jogo:

Moreirense 0 - 2 FC Porto
Sábado, 7 Fevereiro 2015 - 20:15
Competição: Primeira Liga
Estádio: Com. J. Almeida Freitas (TV: SportTV)
Árbitro: Carlos Xistra (Castelo Branco)
Assistentes: Paulo Soares e Jorge Cruz
4º Árbitro: Luís Máximo

Moreirense: Marafona, Coronas , Anilton (c), Danielson, André Marques, ( Elízio 35´),  Djibril, Diogo Cunha ( Lucas 78´),  Battaglia, Arsénio, Ramón Cardozo ( Leandro 7´),  João Pedro
Suplentes não utilizados: Gideão, João Pedro, Patrick, Gerso
Treinador: Migue Leal

FC Porto: Fabiano, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Herrera,  Óliver Torres (Brahimi 82´), Quaresma, Jackson Martínez (c) (Aboubakar (90+1' ),  Tello (Evandro 75´)
Suplentes não utilizados: Helton, Martins Indi, Rúben Neves, Quinter
Treinador: Julen Lopetegui

Disciplina: Cartões Amarelos; Coronas, Diogo Cunha para o Moreirense
Golos: 28'  Jackson Martínez (c)  59'  Casemiro 

 Por: Walter Casagrande
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