terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

PALMINHAS!




Batam palminhas. Ontem foi noite de chapa 5 graças à pior equipa que se apresentou no Dragão esta temporada.

O Paços de Ferreira de Paulo Fonseca abordou o jogo de ontem no Dragão utilizando a versão 2.0 do Harakiri de Lopetegui naquele período Braga, Sporting, Bilbao.

Versão 2.0 mas para pior. 

Eu percebo e gosto da diplomacia de Lopetegui na abordagem e nos comentários aos jogos. 

O que diz das equipas adversárias e a forma inteligente como as consegue sempre louvar sem parecer falso. Guardiola é da mesma casta. Não há antevisão do jogo em que ele não discrimine os pontos positivos do Energie Cottbus tal como tudo o que ele dizia na véspera de um jogo fazia parecer o Almeria um potentado.

Essa é uma boa medida de gestão interna porque mais do que ser simpático para fora, visa ter os de dentro sempre alerta. Uma das tarefas mais difíceis de treinador de equipa grande é manter os seus jogadores atentos, em alerta e focados. Quem fala assim fica mais perto de o conseguir.

O elogio de ontem no final do jogo assustou-me. Assustou-me porque não percebi se continuava no domínio da diplomacia e da focalização dos seus ou se era completamente sincero.

Sincero porque o estilo de jogo do Paços que vimos ontem no Dragão aproxima-se perigosamente do pior Porto que já vimos de Lopetegui.

Trocas de bola suicidas cá atrás com 2 médios com cultura de passe a jogar à frente dos centrais. Só Seri com a sua cultura de passe suicida isolou 3 jogadores do Porto na cara de Defendi.

Quase todos os passes eram curtos o que facilita a pressão do adversário.

Pressão no meio-campo adversário inexistente com defesa subida.

Multiplicidade de passes sem qualquer sentido de baliza. Cada jogador do Paços tinha como único objectivo passar a bola para o seu companheiro. Cumprido esse desiderato descansava o que obrigou Fabiano a ter tanto trabalho como Helton na 1ª parte.
Velocidade inexistente. Não era nem querida nem requerida. Edson Farias deu ares de querer mas olhou ao seu redor e percebeu que não era dia para isso.

PALMINHAS! 

É estranho estar num blogue portista e perder mais tempo a analisar o Paços do que o Porto mas a verdade nua e crua é que os 5-0 de ontem não são filhos de uma majestosa exibição do Porto nem reveladores da grande forma em que estamos.

Em termos de evolução da equipa e de resposta aos desafios que temos pela frente este jogo diz pouco ou nada perante uma oposição tão patética.

E estava a ouvir o Lopetegui a elogiar este estilo do jogo e fiquei nervoso. 

Nervoso porque tenho esperança de chegar aos Quartos da Champions.

Nervoso porque, se lá chegarmos, o normal é levarmos com um colosso que faça de nós o Paços e deles o Porto.

Nervoso porque não discerni a fronteira entre a diplomacia e a sinceridade e imaginei-nos a enfrentar um desafio assim com a mesma cultura de inutilidade de passe, de ingenuidade de bloco alto e a falta de pés de ferro que se preocupem mais em lutar do que em jogar.
No meio deste caldo falta falar do jogo.

Os primeiros 5 minutos são bons. Com abébias do adversário ou mérito nosso  a verdade é que o Porto arranjou forma de romper pela grande adversária e conseguiu somar oportunidades de perigo.

A partir daí juntou-se o nu com o roto e o jogo viveu um período em que a inutilidade da posse encontrou terreno fértil. O Paços saía a jogar como se estivesse no campo do Pedras Rubras.

O Porto roubava a bola sem grande dificuldade nem necessidade de ser agressivo (Casemiro à parte porque esse não sabe ser doce).
Depois disso Maicon, Marcano, passa para o lado e para trás e um buracão enorme em zonas interiores. Enorme.

O Porto jogou muito pela ala porque na 1ª parte tinha um defesa direito, um médio direito e um extremo direito. Do lado oposto igual. 6 jogadores em 11 actuavam mais pela banda do que pelo eixo.

Tirando a trivelaça de Quaresma num bom comportamento colectivo e génio individual as oportunidades de golo do Porto nasceram sempre quando alongamos o jogo e nos deixamos daquela construção inútil e interminável.

Quando se utilizou o passe longo para rasgar as lesmas amarelas. Jogar contra lesmas doces e moles não nos desobriga de acelerar.
Se tivesse que avaliar a exibição do Porto até ao 1-0 seria Médio Menos.

Boa entrada e preguicite aguda até ao golo caído das mãos de Defendi.

Se tivesse que avaliar a exibição do Porto até ao 3-0 seria Médio Mais porque quem vê um golo daqueles não pode ser “agarrado”.

A 2ª parte não tem grande história. Parecia um daqueles jogos treino que o Porto faz ao Sábado de Manhã em semana de selecções.

O Paços esticou-se, o Porto foi-se espreguiçando e deu para Fabiano aquecer e para quase todos os jogadores do ataque do Porto terem oportunidade de brilhar seja por acção própria (Tello, Jackson, Quintero) ou por prenda alheia (Oliver).

Foram 3 pontos importantes, um lance de génio que nos avivou o saudosismo, 90 minutos perdidos na evolução da equipa e um temor face àquilo que Lopetegui deseja que o Porto venha a ser.

Se todas as equipas jogassem como este Paços de Ferreira do Paulo Fonseca seria tempo de resgatar os livros de apontamentos de treinadores que deram cartas na década de 70 e 80.

Se é para jogar futebol de há 30 anos atrás procurem-se treinadores actualizados com o passado.



Análises Individuais:

Fabiano – Teve o trabalho de Helton na 1ª parte e consegui aquecer e mostrar-se felino na 2ª parte.

Danilo – O orgulho de sempre. Orgulho porque joga e comporta-se como se fosse igual o Pero Pinheiro e o Chelsea. Se alguém aterrar em qualquer jogo aos 65 minutos e não souber o resultado da partida é impossível descobri-lo olhando para a cara, a atitude e as expressões corporais do Danilo. É sempre a rasgar.
Tem 20% da sociedade que deu origem à trivelaça mágica mobilizando adversários para libertar Quaresma.

Alex Sandro – É, com distância, o melhor defesa esquerdo da Liga. Se um dia apanhar um Diego Simeone pela frente poderá virar melhor defesa esquerdo do Mundo.
É forte nos duelos individuais defensivos quando não facilita, tem técnica, passe, cruzamento, velocidade. Falta-lhe foco, garra e  intensidade competitiva e nunca subestimar adversários.

Maicon – Jogo fácil e simples. Gostei desta dupla que pareceu mais móvel, mais rija no contacto que se faz à distância e não no corpo a corpo e mais ambiciosa obrigando a equipa a esticar-se com passes longos.

Marcano – Jogo fácil e simples. Das melhores contratações do Porto. Não tem medo do choque mas procura-o sempre sem Casemiradas. Joga com inteligência, tem bom passe, cultura táctica e a sobriedade que fez escola em antigos centrais do Porto.

Casemiro – É uma bênção em jogos destes. Critico o seu posicionamento, o seu descambar para a agressividade violenta mas há partidas em que o seu comportamento/temperamento fazem de despertador.
Companheiros! Isto não é jogo treino!
Dava ideia que companheiros e antagonistas olhavam para ele de lado. Para quê entrar assim num jogo calmo e de passe?
Era a sério. Convém que ninguém se espreguice em campo e perca tempo precioso dos 90 minutos não correndo atrás.
Casemiro é daqueles que mesmo quando se espreguiça atinge alguém quando levanta o braço.

Oliver – Continua indiscutível. Tem qualidade em tudo o que faz. Na crónica de hoje quero destacar a perspicácia de Oliver quando é obrigado a fazer de médio esquerdo.
É muito bom nos movimentos interiores para a grande área e uma auto-estrada de luz para Tello quando ele tem um lateral pela frente.
Oliver movimenta-se sempre de modo a dar uma linha de passe limpa e profunda para Tello.
Se o pequeno Tsubasa tivesse a qualidade de finalização de um Guarin era menino para fazer mais de 10 golos por época porque as assistências que recebe dentro da grande área são geradas pela sua esplendida movimentação sem bola.
Quando crescer (idade e corpo) e (se) ganhar killer instinct vai ser TOP Mundial.
Que vai crescer não tenho dúvidas. O killer instinct é mais difícil olhando para o típico médio espanhol que passa, gira e cria muito melhor do que finaliza.
Em qualquer caso acho que é um desperdício para os movimentos colectivos da equipa encostar Oliver na linha. Em jogos a doer precisamos mais do que a qualidade de movimentos sem bola. Precisamos de um maestro que pegue na equipa. Num médio líder.

Herrera – Fica um pouco perdido quando o jogo de triângulos abandona o centro para a ala.
Quando ele faz trio com Oliver e Casemiro tem mais apoio e mais campo para correr.
Quando os parceiros são Danilo e Quaresma a parcela de terreno é menor o que obriga a mais tabelas e passes curtos sobre pressão que o obrigam a jogar em toque.
Os períodos melhores do Herrera coincidiram com os momentos em que se libertou desses trios que criam crateras no eixo. O Mexicano é bom como 2.º avançado e a galope.
Para jogo de trote de toca e vai, estará sempre limitado.

Quaresma - Um jogo tranquilo, responsável e sem grandes ondas até ao momento que nos fez recordar aquilo que pensamos já não poder reviver.
Quaresma tentou bem a trivela porque os adversários e Danilo lhe deram espaço para isso.
Quaresma fez um grande golo porque ainda tem talento para o fazer. Valeu o bilhete!
Espero que o lance de ontem nos seja favorável no futuro. Tal ocorrerá se os adversários passarem a temer que Quaresma repita a graça o que libertará companheiros.
Se Quaresma pensar que merece repetir varias vezes um lance daqueles porque já provou que é capaz de o fazer, aí o génio de ontem pode prejudicar o futuro.
A linha de Quaresma deve ser a da tranquilidade e responsabilidade tentando o génio sempre que tiver espaço.
Se o génio for forçado então reviveremos a triste sina das bolas paradas em que Quaresma bate todo o tipo de livres sem que Maicon, Brahimi, Danilo, Quintero e Tello (todos eles marcaram golos de livre há menos tempo) tenham oportunidade de sequer tocar na bola.

Jackson – Simply the Best. Eu venho num crescendo de entusiasmo ao vê-lo jogar. Não há ponta de lança no Mundo que se adapte tão bem a qualquer estilo seja ele de toque, de profundidade, jogando fora ou dentro.
Não tem o killer instinct nem o jogo aéreo de Falcao, o génio de Ibrahimovic mas é o mais completo de todos.
Faz tudo. Tabela, ganha em corrida, faz de médio n.º 10, faz de extremo.
MVP. Olho para ele, Danilo, Alex e Oliver e às vezes penso que é possível o milagre.

Tello - Um jogo intranquilo até respirar com aquele fabuloso livre. Fabuloso porque teve técnica, direcção e força.
Na 1ª parte teve 2 armas para se tentar em exibir em bom plano. A velocidade que o distingue em qualquer lado e em qualquer desporto e o Encarregado de Educação Oliver Torres que lhe ia tirando de aflições sempre que não era hora nem havia tempo para correr.
“Estou sempre aqui Cristian! Não tenhas medo!”
Precisa de se sentir cómodo para poder estar no Recreio do Dragão sem protecção porque olhamos para as pinceladas de Tello e percebemos que se tudo se misturar num só jogador teremos um pintor daqueles.
O problema é para se ser pintor não basta pincelar bem.
Para início de conversa seria bom que Rui Barros ou alguém “MARCA DA CASA” lhe dissesse ao ouvido que mesmo que pareça inútil jamais deve desistir de perseguir uma bola no Estádio de Dragão.
Se o fizer vai ganhar inimigos para a vida e terá que marcar 3 livres daqueles por jogo para se livrar do cadafalso.
Como formação em sala não ficava mal mostrar-lhe aquele lance em que Lisandro Lopez persegue Cristian Rodriguez pelo campo como se ele lhe tivesse acabado de agredir a esposa num jogo em que o Benfica era o de Chalana e o campeonato já estava no bolso.


Rúben Neves - Entrou porque o “mal comportado” Casemiro já tinha distribuído a lenha do dia e era hora de alguém mais calmo tomar o seu ligar.
Foi o período em que o Paços se esticou mais não tendo sido possível detectar se foi por haver mais espreguiçar colectivo ou menos lenha individual.
É bom que vá somando minutos num lugar que esperamos que venha a ser dele por muitos anos.

Quintero – Jogos destes são a praia de Quintero. Ele brilha porque não há como não brilhar quando há espaço para receber e campo para olhar, pensar e definir com classe.
Um dos pontos positivos de Lopetegui é a forma como eu penso que ele olha para Quintero e percebe que sempre que pode tem que lhe dar tempo e minutos à espera que o colombiano tenha um click que o afaste definitivamente de um jogador de futsal que faz tudo bem mas quer um campo curto. Pela cultura e pelo estilo de jogo que cultiva Lopetegui será o último dos treinadores a desistir de puxar por Quintero.
Oxalá tenha sucesso.

Evandro – Se o estilo de jogo derivar para as trilogias laterais com o extremo e com o lateral Evandro ganha por KO a Herrera.
Deve ser o jogador do Porto que eu penso que merecia ter mais minutos.
Numa equipa tão jovem e algo imatura ter um jogador com a qualidade e a mentalidade veterana de Evandro não seria mal pensado.



Ficha de jogo:
 
FC Porto 5 - 0 Paços Ferreira
Primeira Liga, 19ª jornada
Domingo, 1 Fevereiro 2015 - 20:15
Estádio: Dragão, Porto
Assistência: 24.309


Árbitro: Marco Ferreira (Madeira).
Assistentes: Nélson Moniz e Sérgio Serrão.
4º Árbitro:
José Rodrigues.

FC Porto: Fabiano, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Herrera, Óliver Torres, Quaresma, Jackson Martínez, Tello.
Suplentes: Helton, Quintero (69' Quaresma), Reyes, Evandro (82' Herrera), Ricardo, Rúben Neves (65' Casemiro), Aboubakar.
Treinador: Julen Lopetegui.

Paços Ferreira: Rafael Defendi, Rodrigo Galo, Ricardo, Romeu, Hélder Lopes, Minhoca, Seri, Sérgio Oliveira, Vasco Rocha, Edson Farias, Cícero.
Suplentes: António Filipe, Bruno Moreira, Jaílson, Nélson Pedroso, Hurtado (67' Cícero), Fábio Cardoso (83' Edson Farias), Rúben Pinto (63' Minhoca).
Treinador: Paulo Fonseca.

Ao intervalo: 1-0.
Marcadores: Jackson Martínez (29'), Quaresma (40'), Quaresma (44' pen), Herrera (46'), Tello (83').
Disciplina: cartão amarelo a Jackson Martínez (28'), Hélder Lopes (39'), Casemiro (61'), Romeu (79').Segundo amarelo e vermelho a Romeu (81').


Por: Walter Casagrande
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