domingo, 15 de setembro de 2013

Liga Zon/Sagres 4ª Jornada: FC Porto 2 - 0 Gil Vicente

Fractura

É um jogo com uma fractura enorme. Sim, aquilo não foi um intervalo, mas uma fractura enorme entre o que parecia dois jogos diferentes.



É lógico que a equipa sinta o conforto do resultado e tente dosear o seu desgaste, tentando, desde já, equilibrar o esforço entre as diferentes competições. É aceitável que, perante um jogo já com uma vantagem algo confortável no marcador, a equipa pense de imediato na outra frente e no que aí vem e tente oxigenar ao máximo para enfrentar o próximo desafio. É, até, muito aplaudível a decisão de Paulo Fonseca de começar a fazer alguma rotação no plantel, sobretudo nos jogos em casa, para dividir o esforço entre todos e manter as tropas em prontidão. Nada se pode apontar nestes aspectos. Bem sei que queremos mais e mais. Ganhar por mais, mais espectáculo e mais emoção. Legítimo. Mas a liderança técnica tem que olhar mais além e não só para a finitude destes 90 minutos.



Mas há aqui um senão. E penso ter sido claro nas declarações pós-jogo de Paulo Fonseca. Uma coisa é gerir, outra é adormecer. Uma coisa é abrandar o ritmo, outra quase é abandonar o ataque à baliza contrária. É esta fractura enorme no jogo, entre uma parte e outra, que precisa de ser corrigida. Mas também não vale a pena fazer disto um bicho-de-sete-cabeças. É necessário corrigir, só isso.

Relembremos: o campeonato parou, jogos das selecções, treinos no Olival para “meia dúzia”, viagens transatlânticas, treino com todos só de véspera e um jogo que o FC Porto tornou fácil. Tudo isto pode resultar numa segunda parte de gestão, se o resultado estiver encaminhado (como estava) e se ainda somarmos o que está para vir: Champions.

Estes jogos são traiçoeiros. Ficam quase no meio do nada, entre uma fase e outra, com muita gente a ir e vir de cá para lá e entre outras preocupações competitivas que não os interesses do FC Porto e com pouco tempo para “reconcentrar”.








O jogo trouxe uma nota bem positiva, sobretudo nos primeiros 30 minutos. O FC Porto entra com dois extremos bem abertos e um 10. Só a estruturação táctica dá logo vantagem ao FC Porto. A fluidez desses 30 minutos é evidente. O 2-0 no marcador acaba por ser lisonjeiro, não fosse algumas jogadas perderem-se por detalhes.





Sublinho o lance do segundo golo. É uma maravilha. Largura e profundidade. Jackson combina com o seu 10 na zona central. Juntos e ambos entre linhas. Abertura de Quintero em profundidade para Varela. Largura e profundidade imediata. Pecks lá salva o Gil Vicente, mas Danilo ganha a segunda bola e cruza para a diagonal de Licá e Jackson mete a recarga. Velocidade, largura e profundidade. E assim como este lance, muitos outros existiram nos primeiros 30 minutos, que por isto e aquilo não tiveram o mesmo sucesso. Tudo isto deu uma sensação de controlo ao FC Porto. O 2-0 à meia hora, a facilidade com que o FC Porto atacava, aberto e com criatividade na zona 10 e um Gil Vicente perdido e sem soluções que nem o meio campo passava. Puro controlo.
Foi um FC Porto absoluto. Como deve ser.

A segunda parte é o resultado de tudo o que atrás de expôs e mais alguma coisa. Essa outra coisa veio do banco do Gil Vicente. João de Deus dá algum critério à equipa quando, ainda na primeira parte, coloca Bruno Moraes a 9.






Continua a introduzir valor na equipa quando refresca a ala com Pitbull e assim segue ao retirar o vagaroso César Peixoto para colocar em campo o irrequieto Avto. O Gil Vicente vai sempre melhorando. Já o FC Porto vai em sentido inverso. A entrada de Lucho não trás mais dinâmica à equipa, nem mais solidez. Afasta, ainda mais, o meio campo do ataque e desvia Quintero para uma ala, quando já não tinha forças. Se a transição ofensiva do FC Porto já era algo soluçante, pior ficou. Defour já não dava dinâmica e o meio campo Gilista avança.




Passamos por um ou outro calafrio, é verdade. Mas nunca o Gil Vicente perigou a vitória do FC Porto.

Fica o aviso. A equipa não pode baixar tanto as rotações, mesmo percebendo e anuindo com todas as condicionantes que levaram a este desfecho. É preciso perceber que há mínimos a cumprir e puxar do banco quem traga ao jogo espertina e não sonolência. Mantém a rotação e traz fluidez à equipa.



Análises Individuais:

Helton – Uma primeira parte tranquila e relaxante contrasta com uma segunda parte onde o trabalho foi crescendo com o correr dos minutos. Acaba ligado ao lance de maior perigo do Gil Vicente, mas nem isso mancha uma exibição que transpira segurança.

Danilo – Exibição positiva, embora demasiado intermitente. Faltou-lhe ser mais autoritário a nível defensivo e mais consequente com algumas das suas acções ofensivas. Ainda assim, participou com frequência nas acções ofensivas e é seu o cruzamento perfeito para a entrada de Licá que dá origem ao segundo golo.

Alex Sandro – Defensivamente esteve muito bem. Brito nem se viu e só Avto lhe causou alguns problemas. Esteve algo apagado ofensivamente, mas sempre que subiu foi com perigo. Ainda não chegou à sua plena forma, onde carrila um enorme volume de jogo pelo seu flanco. Mais uma vez, sai do jogo com pinceladas de qualidade técnica invulgares para um lateral.

Maicon – O azar persegue. Entrou bem em jogo, com uma autoridade absoluta na sua zona de acção. Sobe à área contrária e, num canto, ganha a luta a aérea e mete a bola na zona de “morte”, onde Varela aparece para fazer o primeiro. Pouco depois sai por lesão. Pareceu mais por precaução (com uma boa solução no banco não faz sentido arriscar) que pela gravidade da mesma. Assim seja.

Otamendi – Jogo sólido, com um ou outro corte com risco em demasia. Na segunda parte, chegou a ser determinante a sua liderança na defesa no melhor período do Gil Vicente. Nem Bruno Moraes o incomodou em sobremaneira. Faltou, tão só, mais critério nas disputas de bola em lances perto do meio campo. Cede muitas faltas, o que permite dar um ponto de fixação do jogo ao adversário e obriga o FC Porto a recuar. Ser mais paciente e limitar-se a não deixar o adversário virar, permite manter a pressão sobre o transportador da bola adversário e abafar a saída de bola, com o FC Porto subido no terreno.

Fernando – Voltou a assumir por inteiro a função de 6. No plano defensivo, esteve intratável, mostrando que, naquela posição, poucos existem que lhe sejam comparáveis. César Peixoto nem se aproximou da linha ofensiva do Gil Vicente. Faltou-lhe mais calma e mais acutilância na saída de bola. Algo que vai acontecer com o tempo e com a maior rotina com o novo 8 (já a tinha com Moutinho). Penso ser este último aspecto o mais determinante. A dinâmica imposta por Moutinho no jogo, nomeadamente nas transições ofensivas, facilitava a saída de bola de Fernando.

Defour – Bom jogo, sobretudo na primeira parte. Teve mais espaço pela fixação imposta por Quintero os médios do Gil Vicente. Maior certo no passe e maior perspicácia no ataque ao espaço entre os médios do Gil Vicente. Na segunda parte, quebrou o ritmo e permitiu a subida do meio campo do Gil Vicente, sobretudo de algumas investidas de Vilela. Onde Defour precisa de trabalhar é o ritmo que imprime ao jogo. Ainda pára muito quando recebe a bola. Não pode diminuir a velocidade do jogo, mas aumentar. Quando recebe deve correr ou passar de primeira e não parar. São pequenos detalhes que podem elevar o seu jogo.

Quintero – A sua exibição, tal como o jogo, é marcado pela fractura do intervalo. Boa primeira parte e uma segunda parte vulgar. Primeiro, temos que perceber que é um menino que está a chegar a patamares de exigência de uma equipa de topo. Segundo, acusou as viagens transatlânticas e o “chegar e jogar”. Terceiro, ainda está a perceber que não vai ter espaço que deseja para jogar, sobretudo com a sua fama em crescendo nos relvados nacionais, mas que tem que trabalhar para fugir à marcação e sofrer para ganhar a melhor posição. No entanto, convém sublinhar que a sua primeira parte é bem boa, a ganhar muitas vezes o espaço nas costas do médio defensivo do Gil Vicente e, por vezes, inteligente a cair na ala em trocas posicionais. Teve lances de génio onde faltou melhor conclusão alheia e outros onde pensou bem, mas a execução falhou por milímetros. Casou o pânico no meio campo defensivo do Gil Vicente na primeira meia hora do jogo e através disso o FC Porto foi absolutamente dominador do jogo. Quebrou na segunda parte e quando passou para o flanco desapareceu.

Varela – Lá está o golo da ordem. Nisso não falha. Não foi uma exibição de encher o olho, mas deu mostras de estar perto da titularidade. Falhou em demasia no um para um e não deu muita largura à equipa, mas soube dar o espaço para Danilo subir e aparecer em zonas interiores para desequilibrar. Demonstrou abnegação no golo, ao aguentar a carga de Pecks e manter a postura para o remate e para a recarga. Ainda lhe falta velocidade de ponta para ser mais determinante no um para um. Tal como quase toda a equipa, desaparece na segunda parte.

Licá – O melhor em campo na primeira parte. As suas diagonais fizeram mossa e sempre que ataca a área causa perigo. Mostrou o seu bom pontapé e que é uma solução a ter em conta para o jogo aéreo. Falta-lhe ser mais ambicioso nas transições. Aliás, tem que ser muito mais ambicioso nas transições. A equipa ganha a bola na defesa e mete em Licá. Este tem que partir para cima, atacar o seu opositor e acelerar. O Licá quase sempre fixa o jogo e entrega para zonas interiores ou para trás. Atrasa a nossa progressão e concede tempo para o adversário para se organizar. Tem que apostar mais, mesmo correndo o risco de apanhar o FC Porto em transição e desprotegido. É um risco que tem que correr. De resto, agressivo no ataque à bola e à área do adversário. Sempre em velocidade e inteligente no seu posicionamento. Bem substituído, pois sofre um desgaste enorme nos jogos e é preciso um Licá fresco para entrar bem na Champions.

Jackson – Picou o ponto e enquanto Quintero esteve dinâmico, os dois causaram muitos problemas de marcação à defesa do Gil Vicente. Combina a preceito com o talento de Quintero e sabe aproveitar as diagonais de Licá. Enquanto a equipa manteve o pé no acelerador, Jackson esteve activo dentro do jogo. Mas quando a primeira meia hora de jogo passou, gradualmente, foi entregando-se à marcação e esvanecendo do jogo. Ainda não está no seu momento de forma ideal e acusa algum cansaço na parte final do jogo. As viagens transatlânticas também lhe pesam, embora seja bem mais experiente que Quintero a ocultar essa situação. Na segunda parte, é prejudicado pelas alterações introduzidas na equipa e é só na recta final do jogo que volta a surgir na partida.


Mangala – Não é fácil entrar a frio. Mesmo assim, foi algo errático demais no jogo. Levou um cartão amarelo para o qual já não tem qualquer desculpa. É algo que já devia estar ultrapassado no seu jogo. É óptimo que Mangala leve para jogo toda sua impetuosidade, mas saber onde deve meter aço e onde não deve é ainda mais importante que a sua superioridade física. À custa de algum destempero, deu algum espaço a Bruno Moraes e a Avto.

Lucho – Entrada morna em jogo. Trouxe (ainda mais) distância em relação a Jackson e o meio campo não ficou mais sólido com a sua entrada. Não jogou mal, mas não trouxe a dinâmica que a equipa havia perdido, nem maior solidez ao meio campo. Foi o período onde o Gil Vicente mais subiu no terreno, em especial com os seus médios centro.

Ricardo – Entrou na pior fase da equipa e não conseguiu deixar a sua marca no jogo. Mostrou vontade de esticar o jogo pelo flanco, mas o meio campo do FC Porto há muito havia adormecido. 




FICHA DE JOGO

FC Porto-Gil Vicente, 2-0
Liga, quarta jornada
14 de Setembro de 2013
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 36.517 espectadores

Árbitro: Hugo Pacheco (Porto)
Assistentes: Alexandre Freitas e Pedro Miguel Ribeiro
Quarto árbitro: Manuel Oliveira

FC PORTO: Helton (cap.); Danilo, Maicon, Otamendi e Alex Sandro; Fernando, Defour e Quintero; Varela, Jackson Martínez e Licá
Substituições: Maicon por Mangala (17m), Licá por Lucho (62m) e Quintero por Ricardo (77m)
Não utilizados: Fabiano, Josué, Ghilas e Carlos Eduardo
Treinador: Paulo Fonseca

GIL VICENTE: Adriano; Gabriel, Peck’s, Luan e Luís Martins; Keita, César Peixoto (cap.) e João Vilela; Draman, Brito e Diogo Viana
Substituições: Draman por Bruno Moraes (34m), Brito por Pitbull (62m) e César Peixoto por Avto (77m)
Não utilizados: Caleb, Vítor Vinha, Vítor Gonçalves e Nélson Agra
Treinador: João de Deus

Ao intervalo: 2-0
Marcadores: Varela (8m) e Jackson (27m)
Cartões amarelos: Mangala (41m), Luís Martins (62m) e Varela (76m)
Cartões vermelhos: -




Análise do treinador:

“Tivemos momentos brilhantes na primeira parte”

“Nunca procuro desculpas quando as coisas não correm bem. Fizemos uma grande primeira parte, na qual tivemos momentos brilhantes, mas não soubemos gerir o jogo da segunda, na qual podíamos e devíamos ter feito mais”, começou por afirmar o técnico dos tricampeões nacionais, que sublinhou a sua satisfação por um resultado que considerou justo.

“Estou naturalmente satisfeito pela vitória. Aliás, vencemos todos os jogos oficiais até ao momento, algo que era um dos nossos objectivos, porque queremos vencer sempre. Esta vitória, que não sofre qualquer contestação, assume particular importância por ser no início de uma semana difícil, em que iniciamos a nossa participação na UEFA Champions League”, considerou Paulo Fonseca.

“O que o Defour tem feito pela equipa é grandioso mas nem sempre é valorizado. É um jogador muito importante e, ao mesmo tempo, muito diferente do João Moutinho. Tenho a certeza que a equipa saberá responder à altura”.





Por: Breogán
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