segunda-feira, 26 de março de 2012

A teimosia sai cara. Liga Sagres, 24ª Jornada: Paços de Ferreira 1-1 FC Porto (crónica)










Teimosia sai cara. Custa pontos e, quem sabe, a liderança. A factura foi pesada. Até pode parecer injusta, mas é reflexo dos erros que teimosamente perduram na construção desta equipa do FC Porto. Nesta recta final, cada detalhe conta.









O jogo em Paços de Ferreira é daqueles jogos em que a perda de 2 pontos deixa um grande amargo de boca. A vitória esteve mais que ao nosso alcance (na nossa mão!), mas ainda assim, escapou. O Paços de Ferreira teve o engenho de explorar todas as nossas fragilidades (teimosias) para se agarrar ao jogo. Souberam aproveitar tudo o que lhe demos, até o golo.


Com Fernando recuperado, o FC Porto apresenta-se em campo com o meio campo que sofreu a bom sofrer na Choupana. A não titularidade de Fernando (facto que não tem explicação! É um absurdo!), por si só, já é benesse de sobra para o meio campo do Paços de Ferreira, mas a teimosa construção do meio campo do FC Porto oferece o resto. Já se percebeu que Moutinho e Defour como duplo pivot obrigam o nosso meio campo a recuar e a dar espaço de manobra a qualquer meio campo batalhador e dinâmico (como apresentou hoje o Paços de Ferreira). Mas a teimosia supera a lógica. Mais uma vez, o FC Porto perde a batalha de meio campo, não por mérito exclusivo do seu opositor, mas por falta de rasgo de quem comanda o FC Porto. É um erro que teimosamente se repete esta época. Juntemos à equação Lucho. Ora longe deste meio campo, ora fatigado demais para participar na labuta. 






Até quando vamos persistir neste erro? Quantos mais jogos terão que ser sofridos (poucos ganhos e muitos empatados ou perdidos)? Até quando o nosso ataque vai viver à míngua por não termos meio campo? Até quando as nossas fragilidades defensivas vão estar à mostra do adversário porque não temos meio campo que agarre o jogo?







A primeira parte arranca com os jogadores do FC Porto a mostrarem que querem ganhar o jogo, mas cedo a equipa sucumbe às suas teimosas deficiências tácticas. No primeiro quarto de hora, Michel faz três vezes do meio campo defensivo do FC Porto o que quer. A equipa batalha e consegue equilibrar. Hulk, sempre ele, assume as despesas do jogo ofensivo. Com James, uma vez mais, teimosamente engaiolado no flanco esquerdo, o FC Porto coxeava no ataque e só pelo lado de Hulk chegou à frente. É no seu flanco que surge a resposta do FC Porto. Janko e Lucho tiveram nos pés as hipóteses de ganharem vantagem no marcador.
O último quarto de hora da primeira parte arrasta-se, com um FC Porto imerso nas dificuldades de construção do meio campo impostas desde o banco. Um fim de primeira parte muito fraco.

No reatamento, boas notícias. Finalmente, Fernando em campo. A lógica voltou a ser algo palpável. O meio campo reflectiu, imediatamente, o incremento de qualidade. O meio campo e o marcador. O FC Porto ganha vantagem em Paços de Ferreira e ganha alento.

Jogada após jogada e sempre pelo lado direito, Hulk vai falhando e o Paços de Ferreira vai-se agarrando ao jogo. O lado esquerdo do FC Porto é um deserto de soluções, Janko um objecto estranho e Lucho vai-se desligando do jogo na justa medida da sua perda física galopante. No banco do FC Porto não se tomam providências. Hulk há-de resolver isto. Mas não resolveu. Lance após lance, defeito seu ou mérito de Cássio, o 0-1 manteve-se. Tanto golo que fica por marcar. É aqui que o FC Porto precisava de uma boa solução, de uma substituição de treinador. Uma substituição que mudasse o jogo e “curasse” a equipa. Uma substituição que revitalizasse o flanco esquerdo e que, se possível ao mesmo tempo, elevasse a qualidade do nosso jogo na posição 10. Um flanquedor na esquerda e James a 10. Do banco vem a mesma substituição teimosamente infantil e primária: troca de pontas de lança. O problema não era esse, mais que evidente. Tudo ficou na mesma e o Paços de Ferreira aproveitou a corda toda.


Chega o último quarto de hora e já só sobra Fernando e Moutinho a meio campo. Calisto, que já tem muito disto e dois dedos de testa, sabe que a sua única hipótese está no meio campo. Mexe na sua posição 10, aumentando a pressão sobre o nosso meio campo defensivo. Logo a seguir, reforça a sua jogada com a entrada de um flanqueador fresco para os terrenos de Álvaro Pereira. Álvaro já pouco subiu na segunda parte, agora ficaria mais amarrado. Somemos um Sapunaru eminentemente defensivo, o Álvaro com um jogador fresco para acompanhar e um meio campo só com dois elementos perante o meio campo estruturado do Paços de Ferreira e então perceberemos que o cataclismo que se abateu tem alguma razão de ser: porque falhamos muito quando deveríamos ter matado o jogo (na fase de maior fulgor do meio campo) e porque do banco, uma vez mais, não se construíram soluções para a equipa.





Ao minuto 80 todas as teimosias são cobradas. Falha de marcação de Rolando e o Paços de Ferreira chega ao empate num canto. Imerecido e injusto? Não. O Paços de Ferreira aproveitou toda a corda que lhe demos. E continuamos a dar. Só passados 7 minutos do golo do empate é que o FC Porto tentar modificar alguma coisa, metendo um flanqueador.







Não é preciso um grande meio campo para bater o pé ao FC Porto. Basta saber aproveitar tudo o que o FC Porto oferece e juntar uma pitada de arreganho.
A teimosia sai cara. E chamo-lhe teimosia, para não chamar outra coisa.

Nos últimos 4 jogos, ganhamos um e às três pancadas. Ou arrepiamos caminho e deixamos teimosias, estatutos e devaneios de parte, ou o final deste campeonato será igual ao de todas as outras competições nas quais participamos este ano.



Análises Individuais:

Helton – Não teve nenhuma intervenção de grande relevo. Atento e seguro, procurou ser um líbero para ajudar a equipa a subir.

Sapunaru – Um jogo à sua imagem. Mediano a defender Melgarejo (valeram muitas dobras de Rolando) e sofrível a atacar. Sempre em esforço, sempre com abnegação, mas com pouco talento.

Álvaro – Na primeira parte ainda subiu e ajudou os processos ofensivos. Na segunda parte, raramente subiu (excepto na fase do desespero), sobretudo após o colapso físico do meio campo ofensivo. Anda longe do Álvaro de outras épocas.

Otamendi – Sai de campo com a melhor exibição do sector defensivo. Certinho a defender, não deu um palmo de terreno a Michel. Sóbrio na antecipação e rápido no corte.

Rolando – Falhou no golo do empate do Paços de Ferreira. Não há como fugir a isso. Tirando o minuto 80, fez um grande jogo, mas a nódoa é indisfarçável. É um erro individual de um sintoma colectivo mais grave. As bolas paradas defensivas são um problema no FC Porto. A 6 jogos do fim ainda iremos a tempo de corrigir?

Defour – Não é a sua posição. Não tem rotina para aquela função. Ainda assim, não sai de um registo mediano. Não faz nada de relevante, nem traz qualquer ponto de interesse ao jogo. Entrega-se à luta, mas não basta. No FC Porto não basta. Passou muito mal com os primeiros 15 minutos do Michel.

Moutinho – Diminuído no seu futebol pela disposição táctica que lhe é imposta desde o banco. Ainda assim, é o primeiro a querer empurrar a equipa para a frente. É um 8 com uma qualidade assombrosa, pelo que, é lesa futebol o tempo que passa a 6. Muito sofremos com isso. O Paços de Ferreira e outras equipas agradecem.

Lucho – Fez uma boa primeira parte, onde revelou a qualidade de passe que lhe é reconhecida. A equipa precisa dele um pouco mais atrás e cabe-lhe saber dar isso à equipa, mesmo que seja contra instruções tácticas que lhe são passadas. A segunda parte é marcada pelo vertiginoso declínio físico que apresentou que condenou o jogo a meio campo da equipa. Futebol no pé é com ele (grande assistência para um falhanço clamoroso de Hulk), mas as exigências do futebol competitivo são mais vastas. A sua actual condição física não lhe permite ser titular no FC Porto. Lucho é Lucho, mas a verdade do jogo não se compadece com estatutos. Sobretudo, quando não há capacidade interventiva no banco.

James – Assim, mais vale ser suplente. Não é extremo. Já está mais que batido. Vítor Pereira sabe, ou diz que sabe. Sem alegria e amarrado à esquerda é uma sombra do jogador que pode ser. Até dói tanto desperdício de talento. Dá Deus nozes...

Hulk – Falhou muitos golos. Alguns por falta de sorte, outros por causa de Cássio e outros ainda por ser demasiado convencido. Jogou quase sozinho, foi a fonte de quase todo o perigo, falhou e acertou. É esta acentuada dicotomia que impede que cresça como jogador. Tem que ser um jogador mais constante, mais eficaz, mais regular. Desperdiça muito do que faz. Esta época sente em demasia o peso da equipa. Tacticamente a equipa não funciona, Hulk assume o jogo e tenta resolver por si. Tem nome de herói, mas não se pode ficar sempre à espera que resolva tudo. Nem é bom para a equipa. Fica cada vez mais dependente do que Hulk faz no jogo. Um sintoma mais do muito que há para resolver.

Janko – Não é um grande jogador. Não é novidade. É jogador de pequena área, de preferência só com a bola e o guarda redes pela frente. É a sua especialidade. Fez um jogo de sofrimento. Nada mais é exigível. Só Hulk e alguns passes de Lucho. Muito pouco serviço para quem muito precisa.


Fernando – A sua não titularidade é um mistério sem compreensão. É um devaneio sem sentido, uma aberração. Foi entregar 45 minutos de vantagem, algo que o Paços de Ferreira soube aproveitar. Nem com o colapso físico do meio campo ofensivo perdeu o Norte.
De uma vez por todas, Fernando NÃO PRECISA que Moutinho pegue no jogo tão atrás.

Kléber – É muito mais jogador que Janko, mas não é milagreiro. Muito menos esta época e nesta fase. Era ele que ia resolver os problemas ofensivos do FC Porto? Era ele que iria fazer que o FC Porto não fosse só Hulk à frente?

Varela – A sua entrada ao minuto 87 e 7 minutos após o empate só pode ter uma explicação: já ninguém pode acusar Vítor Pereira de não ter usado a terceira substituição para tentar ir buscar os 3 pontos a Paços de Ferreira. Entrou tarde, demasiado tarde. Já deveria ter entrado bem antes do empate, quando o colapso físico do meio campo ofensivo estava eminente.




Por: Breogán
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