terça-feira, 6 de março de 2012

O FC PORTO E OS TRI PERDIDOS: De Siska a Pedroto.

Iniciamos aqui uma série de crónicas sobre a história do nosso clube, esperamos que gostem...


Parte 1





Desde a longínqua época de 1940/1941 que o FC Porto sonhava com a conquista do terceiro campeonato consecutivo. Quase 40 anos mais tarde, na temporada de 1979/80, os portistas deixaram fugir de novo o “tri” e, tal como na primeira vez, o Sporting ficou para a história dos números como o clube que impediu a consagração do FC Porto. Em 1986/87, quando os “Dragões” foram considerados a melhor equipa do mundo, o Benfica conseguiu impedir o pleno “azul e branco”. E, em 1993/94, os “encarnados” voltaram a tirar “o pão da boca” do FC Porto.

Em 1997, apesar das inúmeras polémicas levantadas sobre a equipa portista, os técnicos e dirigentes, o FC Porto conseguiu, finalmente, conquistar o tri-campeonato. Não se julgue, no entanto, que este foi o único em que o futebol português, e em particular, a equipa das Antas, viveu sob um clima de densas nuvens Negras. Uma análise mais aprofundada da história das épocas em que o FC Porto falhou a conquista do terceiro título consecutivo demonstra que, em todos esses anos, o campeonato passou por múltiplas agitações.
Alguns dos que viveram de perto essas emoções falavam já de uma espécie de maldição que impediria, para sempre, os portistas de alcançarem o mítico “tri”. Dez anos depois de ter conseguido o título de Campeão Europeu, o FC Porto gravou a ouro mais uma página do seu centenário património.



1940/1941: FPF IRRADIA PRESIDENTE PORTISTA

Depois de ter conquistado os campeonatos de 1938/39 e 1939/40, o FC Porto sonhava, pela primeira vez, com o seu terceiro título consecutivo. Mas já na época do “bi” a prova teve que ser alargada de forma a repor a justiça, após uma decisão da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) contrária à da Associação de Futebol do Porto, que colocava o Leixões no “Nacional”, em detrimento dos portistas. A ilógica da determinação federativa era tal que a formação de Matosinhos recusou o lugar, alegando que a equipa que deveria estar por direito na fase final era o FC Porto. E o FC Porto, com Mihaly Siska no comando técnico, provou, então, que era melhor equipa nacional.

Na temporada de 1940/41, a FPF radicalizou as suas acções de forma a serem mais eficazes. Ângelo César, presidente do FC Porto, utilizava já naquela altura um discurso (idêntico àquele que viria a ser retomado por Pito da Costa) contra os poderes instituídos em Lisboa, contra as arbitragens que prejudicavam constantemente as equipas do Norte, favorecendo, por outro lado, as do Sul. E quando se levantou a grande polémica que marcou a época de 39/40, Ângelo César clamava por justiça, mais do que nunca.
Para não voltarem a ser incomodados e ainda, por cima, obrigados a conceder-lhe razão, os senhores da FPF irradiaram o presidente portista. Os portistas elegiam simbolicamente Ângelo César para presidente da Assembleia Geral, mas o grito da revolta ecoava por toda a cidade. Por coincidência (?), desde que a voz incómoda de César foi amordaçada, começaram então as arbitragens que de forma descarada prejudicavam sucessivamente o FC Porto, como se pode constatar na consulta de qualquer jornal da época.
Logo no primeiro jogo entre os “grandes”, o Sporting recebeu os portistas e ganhou por concludente 5-1. Como se não bastasse o resultado ser tão equilibrado, o sportinguista João Cruz lesionou gravemente o guarda-redes portista Bela Andrasik, que foi evacuado para o Hospital de são José. Henrique Rosa, o homem que de negro vestido, pintou a sua actuação de verde e branco, encarregou-se de consentir o terceiro golo na sequência de um fora de jogo claríssimo e validou o quarto tento, quando o guardião Andrasik se contorcia com dores no chão – graças a duas fracturas nos ossos da face -, depois da agressão de João Cruz.









A guerra Norte-Sul adensou-se ainda mais quando Carlos Pereira, a meio da época, optava por jogar no Unidos FC, um clube de Lisboa que lhe ofereceu o dobro do vencimento que auferia no FC Porto e ainda 30contos (150 euros, na moeda actual) de luvas. A equipa portista, sempre comandada por Siska, anida conseguiria fechar o campeonato com uma vitória de 5-2 sobre o Benfica, mas a derrota consentida no Lima, ante o Sporting tinha-a já atirado irremediavelmente para fora da rota do tri, naquele em que seria mais tarde recordado como o ano em que os árbitros viraram “anjos negros”.








Parte 2


1979/1980: “CONTRA” MANACA, NEM BIFE NEM OLIVEIRA


Já na era de José Maria Pedroto e depois de ter sido quebrado o mais longo jejum de títulos do clube, o FC Porto preparava-se para conquistar o “tri”. A luta entre Norte e Sul estava outra vez reacesa, pois nas Antas estavam de novo homens que não se calavam ao poder instituído na capital. A dupla Pedroto/Pinto da Costa (ainda chefe do departamento de futebol) iniciara uma nova etapa no FC Porto, só interrompida quando Américo de Sá pretendeu livrar-se de tão perturbadora presença. O carisma destes homens, no entanto, fez com que fosse o presidente de então a perder uma “guerra”, em que até os jogadores se ofereceram como “voluntários”.






Nas épocas 77/78 e 78/79, o FC Porto consegue sagrar-se campeão nacional, com Pedroto no comando técnico e Pinto da Costa ao leme da nau do futebol Profissional portista. O efeito da tenacidade e até mesmo a agressividade oral desta dupla começou, porém, a ter alguns reflexos negativos, vindos, uma vez mais, da FPF. Era um inicio conturbado da temporada de 79/80, que se previa ser uma das mais inflamadas.
José Maria Pedroto e Mário Wilson, seleccionador nacional, tornaram-se verdadeiros inimigos figadais. Pedroto não aceitou que a FPF tivesse marcado um jogo com a Espanha, oito dias antes de uma jornada de competições da UEFA. O FC Porto não gostou da proximidade de datas, agravada pelo facto do adversário da segunda eliminatória da Taça dos Campeões Europeus ser o poderoso AC Milan. Mário Wilson, para incendiar mais a fogueira, optou por convocar nove jogadores portistas. Inédito.
Pedroto, inflamado, apelidava Wilson de “palhaço”e, quando em Outubro, recebeu o castigo da FPF que o suspendeu por 30 das e o multou em 500 escudos, foi ainda mais violento. O técnico portista pediu desculpa aos palhaços, pois não era sua intenção ofende-los, e adianta mesmo que se a FPF considerou uma injúria deveria tê-lo castigado com 30 anos de suspensão.







Pinto Da Costa não ficou na sombra enquanto o seu treinador andava na “guerra”. À ordem de convocatória dos futebolistas do FC Porto, na estação de Campanhã, às 14 horas, de 24 de Setembro de 1979, Pinto da Costa, já depois de ter garantido que não dispensaria os seus atletas, convencera uma multidão de sócios a receber a comitiva da selecção a Campanhã. Quando o comboio chegou, em vez dos jogadores convocados, estava Pinto da Costa a comandar uma manifestação de desagrado aos dirigentes da FPF e a Mário Wilson. Era a primeira grande onda de apoio popular a Jorge Nuno Pinto da Costa.

Com um começo de época tão agitado e depois de Oliveira, um dos futebolistas que havia contribuído para o “bi”, ter abandonado as Antas para encetar uma experiência relâmpago no Bétis de Sevilha, o FC Porto dava o primeiro tropeção na carreira para o “tri”ao perder por 1-0 em Alvalade, logo no primeiro fim-de-semana de Dezembro. O árbitro foi, então, severamente criticado por não ter assinalado uma grande penalidade contra o Sporting. Pinto da Costa, demonstrava o que lhe ia na alma, chamando abutre a César Grácio, um homem que era funcionário do Sporting e secretário na FPF e que havia nomeado um árbitro sportinguista para o encontro de Alvalade.

Um mês depois, Bife; um avançado brasileiro, reforçava o plantel do FC Porto, e para gáudio dos portistas, António Oliveira regressava da Andaluzia, para as Antas, ainda a tempo de defrontar o Benfica. O FC Porto conquistava os dois pontos no jogo com os homens da Luz e, pouco tempo depois, ao ganhar em Setúbal, a formação de Pedroto isolava-se no comando do campeonato, apesar do avançado Duda ter ficado gravemente lesionado.





A alegria, porém, seria efémera, pois a 2 de Março o Rio Ave conseguia empatar nas Antas, embora a equipa de Vila do conde ainda só tivesse conquistado sete pontos em 20 jornadas. Um outro empate na Póvoa do Varzim, primeira filial dos portistas, colocava o Sporting a caminho do título, apesar de ter ainda, na penúltima jornada, a difícil deslocação a Guimarães. Aliás, este era ainda o último sopro de um sonho “azul e branco” que começava a esfumar-se.

Na cidade “berço”, no entanto, Manaca, o defesa direito do Guimarães e ex-jogador do Sporting, marcava um auto-golo que, para além de dar a vitória aos “leões”, destruía o “tri”do FC Porto.
Nas Antas, poucos acreditaram na inocência e na infelicidade de Manaca. Pinto da Costa e Pedroto nunca se terão convencido.





Fonte: "Jornal OJogo"


Por: Nitutam
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