sábado, 3 de março de 2012

Saímos do salão de baile líderes isolados. Liga Sagres, 21ª Jornada: Benfica 2 - 3 FC Porto (crónica)








Mais uma visita ao salão de baile, mais música no ar (cúmbia de Colômbia!) e James foi quem mais dançou. Um luxo de suplente. James tem esse dom dos grandes jogadores. Mudar a corrente do jogo, a polaridade da vitória. Aquilo que parecia ser uma derrota do FC Porto, acaba como uma vitória retumbante e categórica. O alicerce desta vitória é a sua entrada em jogo, a coragem de Vítor Pereira em assumir o risco e dar a oportunidade à equipa de correr atrás do resultado.






Saímos do salão de baile líderes isolados. Mas mais que isso. Colocamos a mácula nos resultados caseiros para o campeonato do clube visitado, aprofundamos a crise de resultados dessa agremiação ( já os espera novo jogo decisivo), ganhamos o confronto directo (o que nos dá 4 pontos de vantagem sobre os visitados) e saímos por cima para o que resta de campeonato, pontualmente e animicamente.

O jogo começa com o FC Porto a todo o vapor e com o clube visitado atónito. É um FC Porto personalizado, fluente e mandão que arranca no jogo. Do lado dos visitados, o espanto é evidente. Habituados que estão a arrancarem nos jogos perante adversários que entram em campo já com o joelho dobrado em sinal de deferência. Os nossos, não! Corriam a todas as bolas e, superiormente comandados por Fernando desde trás, colocávamos o nosso meio campo bem em cima da saída de bola dos visitados. É um arranque à FC Porto. Um arranque de quem veio para ganhar.

É com esta afirmação no jogo que o FC Porto recebe o seu prémio. Hulk fuzila as redes de Artur que, qual Roberto, nem percebe bem por onde a bola passou. Um golo de talento e de uma brutidade que só está ao alcance de muito poucos. O FC Porto não desacelera e continua a porfiar. O jogo está controlado, mesmo tendo os visitados duas situações de perigo a seu favor, mais consentidas que construídas. Acaba por ser o FC Porto a ter duas grandes oportunidades para colocar o jogo quase inalcançável para os visitados. Primeiro, é Janko a falhar na cara do golo, com tempo e espaço, após excelente abertura de Lucho e, depois, é Moutinho que, de livre directo, mete a bola na trave dos visitados. Falhado o assalto ao 0-2, por manifesta falta de sorte, são os visitados que, injustamente chegam ao golo. Mais um lance mais consentido que construído. Após um canto defensivo, Lucho não é firme na disputa de bola com Maxi, permitindo o seu remate. Após uma série de ressaltos, a bola encontra Cardozo que, aproveitando a passividade de Janko no respeitar da subida da linha de fora de jogo, remata para golo. É após a igualdade e até ao intervalo que o FC Porto, que entra no seu pior período no jogo. O meio campo fractura-se e a construção de jogo ofensivo é nula. Lucho é facilmente manietado pelo meio campo defensivo dos visitados e o meio campo recua, ficando cada vez mais distante da linha avançada. O meio campo do FC Porto fica exposto às ofensivas dos visitados.




Após o descanso, o FC Porto não entra na segunda parte, como tinha entrado no início do jogo. Proença transforma um corte limpo e na raça de Djalma numa falta a favor dos visitados. Na cobrança, após erro fatal de Otamendi, Cardozo factura o 2-1 e estava feita cambalhota no resultado. Seguem-se 10 minutos de letargia do FC Porto, onde já parecia que a vitória não estaria ao nosso alcance. Até que Vítor Pereira mostra arrojo e clarividência. Alguma vez tinha que ser! Mete o maior talento do campeonato em campo e não faz a substituição mais fácil (saída de Djalma). Reinventa a equipa. Djalma passa para lateral direito, Maicon para central e Rolando sai para dar lugar a James. É uma substituição tremenda. Tem um aporte colossal de talento ofensivo (James), dá profundidade ofensiva aos dois flancos e faz controlo de danos na zona central da defensiva, onde Rolando mostrava dificuldades com as trocas posicionais do trio que sustentava Cardozo. Maicon Chegou e ganhou todos os lances.




É neste momento que o futebol do FC Porto entre noutra dimensão. Uma nova dimensão de velocidade, objectividade e capacidade finalizadora. Cinco minutos após a substituição, Vítor Pereira recolhe os efeitos do terramoto que provocou. Sim, porque tudo começa ao minuto 63. O FC Porto cerca o clube visitado na sua grande área. Os visitados ganham a posse de bola e arrancam para mais uma transição ofensiva. Otamendi arrisca tudo num corte de carrinho e perde. Os visitados ganham vantagem, arrancando para o nosso meio campo com 4 jogadores e só com Maicon pela frente. Maicon aguenta muito bem o lance, nunca caindo na tentação de apostar tudo num corte. Ganha tempo para a equipa recuperar e atrasa o contra-ataque dos visitados. Djalma e Fernando acorrem em seu auxílio. Entre os três matam a jogada e é Fernando que executa o alívio já na área de Helton. Os visitados recuperam a posse, mas Fernando volta a sair-lhes ao caminho e, na raça, ganha de novo a posse da bola no nosso meio campo defensivo. James aproveita o momento, pega na bola nos pés de Fernando e arranca em posse directo à grande área dos visitados. Aí chegado, tabela com Fernando, faz mais uma finta de corpo, culatra atrás e prime o gatilho. Está feito o 2-2 no marcador e são dois minutos para mais tarde recordar. Talento e raça de braços dados. Maicon, Fernando e James, os três melhores em campo no lance que muda o jogo. É um lance de tal forma demolidor, quer a destruição do contra-ataque dos visitados, quer a construção do golo, que arrasa com o jogo dos visitados. A partir daqui, só deu FC Porto.




Aos 77 minutos, Hulk ganha a frente de Émerson, que só em falta o consegue travar. Segundo amarelo e uma oportunidade de ouro para o FC Porto ganhar o encontro. Vítor Pereira ainda demora, sobretudo após ver Djalma a expor por completo o flanco esquerdo dos visitados, mas volta a responder com arrojo. Tira Moutinho e mete Kléber, para formar dupla de torres de assalto na frente. Justamente, volta a ter os frutos do seu atrevimento. James ganha uma falta no flanco direito. Na transformação do livre indirecto, mete a bola na cabeça de Maicon, que vence a oposição dos seus marcadores e de um novo Roberto, para nas alturas assinar o golo da vitória do FC Porto.

O jogo estava feito. O FC Porto congelava à bola. Do lado dos visitados, já sem futebol para mostrar desde o lance monumental do 2-2, retrocederam àquilo que realmente são. Trauliteiros da pior espécie. Pantufada, sarrafada e pancada. Resume-se a isto os últimos 25 minutos dos visitados. Duas notas cómicas finais. Uma para Maxi Pereira, que parece não gostar da valsa que Janko lhe ensinou. A segunda para Jorge Jesus, que tal é o desnorte a ver-se perder 2-3 em casa, com menos um e sem conseguir fazer chegar a bola à sua linha ofensiva, ao minuto 90 tira Javi Garcia (bem praticou jiu-jitsu sobre Lucho e James) para colocar Nélson Oliveira. Acaba com um homem no meio campo (Witsel) e três pontas-de-lança em campo. Loucura.





Saímos direitos Mestre! E voltamos a apagar a luz.



Análises individuais:


Helton – Duas defesas importantes no melhor período do FC Porto na primeira parte. De resto, foi um espectador. Até nos golos, onde nada poderia fazer. Voltou a dizer presente a um livre de Nolito quase no fim.

Maicon – Exibição de gala. De volta a defesa direito, passou algumas dificuldades inicias com Nolito. Rapidamente acalmou a acabou inibindo, por completo, o espanhol. A sua coroa de glória é a sua passagem para central. Tornou-se um colosso na defesa, matando todas as jogadas. Foi à frente fazer o 2-3 e ser, uma vez mais, decisivo no caminho do golo e da vitória.

Alvaro – Maicon e Émerson pouco subiam. Era no flanco esquerdo do FC Porto e no flanco direito dos visitados que estavam todas as fichas. Divide com Djalma o trabalho de formiga de desmantelamento do flanco mais perigoso dos visitados. Não teve uma primeira parte muito dinâmica, mas soube defender o seu reduto. Na segunda parte, carrilou muito jogo e acaba em cima de um desorientado e “neandertalizado” Maxi.

Otamendi – Incrível a forma como deixa solto Cardozo para o 2-1. Voltou a apostar demasiado em alguns lances e alguns dos cortes foram pavorosos. Ainda assim, subiu muito de rendimento com Maicon a seu lado e acaba o jogo uns bons furos acima de onde andou a maior parte do tempo.

Rolando – Cardozo não é um jogador muito móvel, mas revelou dificuldades com os seus movimentos. Mais dificuldade tinha com as penetrações dos jogadores que jogavam nas costas do ponta de lança dos visitados. Não jogou mal, mas a equipa ganhou com o aumento de rapidez e tenacidade no centro da defesa imprimido por Maicon. E nisso Vítor Pereira acertou, era Otamendi mais capaz de seguir as pisadas de Maicon que Rolando.

Fernando – Qual é o jogador que vem em corrida desde o meio campo para ganhar uma bola na sua grande área, alivia e volta a ganhar a posse de bola dois segundos depois, num corte de raça e talento no seu meio campo defensivo, entrega a bola redonda no arranque de James, acompanha a cavalgada de James para, ainda, tabelar na perfeição na entrada da área dos visitados? Tudo isto compactado em dois minutos. Quem é? Um dos melhores do mundo.
Podia-se falar na abertura magnífica para Hulk no 0-1 (sim, faz DUAS assistências o jogo de hoje!!!). Podia-se falar de 20 minutos iniciais de tremenda qualidade técnica e táctica.
Mas para Fernando, bastam dois minutos: 63 e 64.

Moutinho – Acompanhou muito bem Fernando nos primeiros 20 minutos e jogou muito para Lucho. Batalhou imenso com Witsel pelo domínio do meio campo. Ressentiu-se com a quebra de Lucho e o arranque da segunda parte foi algo complicado. Voltou a carburar com James em campo e a fazer, competentemente, o trabalho de ligação defesa-ataque no meio campo. Sai extenuado pelo que o jogo exigiu de si e pelo que já tinha dado à selecção.

Lucho – A mais frouxa das exibições do meio campo. Teve uma grande abertura para o desperdício de Janko, mas pouco mais fez ofensivamente. Defensivamente, fica manchado no 2-1, na forma como não mete o pé para disputa com Maxi. Foi o lance mais visível, de alguns outros. Falta-lhe capacidade física e não conseguiu lidar com as artes marciais de Javi Garcia.

Djalma – A última vez que foi titular foi na anterior visita ao outro lado da segunda circular a 7 de Janeiro. De então para cá esteve na CAN e teve 35 minutos de utilização como suplente em dois jogos para a liga. De volta à titularidade e logo num jogo desta magnitude. Começa a extremo esquerdo e com Álvaro vai desmantelando o flanco preferencial dos visitados (Maxi dá-lhe uma pantufada logo aos dois minutos de jogo). Com a desvantagem no marcador, vai para lateral direito. De uma ponta à outra. Com um cartão amarelo no cadastro, controla Nolito e é o primeiro a dar profundidade ao flanco quando o FC Porto fica em vantagem numérica. Acaba a extremo direito por poupança de Hulk. Dois meses depois, titular e 3 posições num só jogo. Faltou-lhe rasgo e confiança. Normal. O que não é normal é passar por 3 posições e acabar o jogo com nota tão positiva.

Hulk – Um golo à Hulk, um portento daqueles só Hulk. Meio espaço, meia bola e um remate bruto teleguiado. Deu água pela barba a Émerson nos minutos iniciais. Mostrou alma de guerreiro e deu algumas ajudas preciosas a Maicon. Nunca deu descanso a Émerson e ganhou-lhe vários lances. Faltou-lhe consistência no jogo, mas foi fundamental ao expulsar Émerson na enésima bola que lhe ganhava.

Janko – Uma noite não deslumbrante. Falhou um golo que não pode falhar. Ali, tem que ser golo. Seja contra os visitados ou outra equipa qualquer. Falha porque a sua recepção de bola nesse lance é fraca. No resto, deu muita luta aos centrais contrários e foi uma carraça bem chata que ali andou a ganhar espaços para a entrada de quem subia do meio campo.

James – Um golo que muda a corrente do jogo e afunda a equipa contrária e uma assistência para o golpe de misericórdia. Coisa pouca para um talento quase sem medida. O seu golo é uma obra de arte em movimento. O auto-controlo no lance é assombroso. Cada vez que pegava na bola os visitados tremiam e Jorge Jesus ganhava mais cabelos brancos. Rebentou com Javi Garcia e colou o meio campo do FC Porto em seu redor. Um jogador que consegue mudar o curso de um jogo desta magnitude, é um grande jogador. Tem que jogar mais e mais. De preferência, onde vinca diferenças: no centro do terreno.

Kléber – Uma boa entrada em jogo. Pereceu vivo e com vontade de mostrar serviço. Soube adaptar-se a uma posição mais recuada após o 2-3 e ainda ficou a conhecer o jogo maldoso de Miguel Vítor.

Sapunaru – Entrou para fechar a porta. Hulk já tinha terminado a sua prestação, Djalma era uma adaptação e os seus centímetros poderiam ser preciosos para segurar os 3+1 pontos.








Por: Breogán
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