segunda-feira, 5 de março de 2012

EFEITO SURPRESA



Este pode ter sido o jogo. Aquele que perdurará para sempre nas nossas memórias à semelhança do último 3-2 e da explosão de alegria resultante do golo do Timofte.

A crónica de hoje tem que passar pelo jogo. E o que marca o jogo é o efeito surpresa.

O tempo de vida do 1.º efeito surpresa e a reviravolta originada pelo 2.º efeito surpresa.






O Porto de Vítor Pereira entra empatado em pontos com o Benfica. Não estávamos especialmente pressionados para entrar ao ataque e a ter que ganhar fosse como fosse.
Esse cenário era o de há 2 semanas atrás quando pensávamos que mesmo lá ganhando continuaríamos atrás.








Como é que o Porto entra no jogo?


Entra à Porto de Villas Boas naquela 2ª parte do jogo da Taça e à Benfica de Jorge Jesus na 1ª parte do Dragão também no jogo da Taça.
Com linhas subidas, pressionante e asfixiante. Não os encostamos às cordas porque a posse de bola não era massiva mas não os deixamos sair de lá porque não conseguiam sequer fazer saída de bola.
A táctica que eu vi era 4-4-1-1.
O Lucho jogou numa linha à frente de Hulk e Djalma.
Fernando e Moutinho subiram uns passos para que a distância entre Lucho e o meio-campo não fosse colossal.

Escrevo entre Lucho e meio-campo porque o Lucho não tem jogado a médio.
A táctica resulta até ao minuto 22 primeiro graças à qualidade de Lucho na 1ª linha de pressão.
É o nosso jogador mais inteligente e esteja a 50 centímetros ou a 5 metros de Javi Garcia consegue pressionar ao homem ou à zona com a mesma qualidade e o mesmo incómodo para o portador da bola.
Logo a seguir porque a parelha Fernando e Moutinho come metros de relvado com bola ou sem ela tamanha a disponibilidade física. Se a bola passava a linha Lucho não chegava à linha Aimar porque os trituradores tratavam do assunto.
A isto acresce Djalma que sabe jogar em qualquer posição da linha (defesa/médio/extremo) e um Hulk que soube procurar defender como nunca vi.

Esta táctica é boa? Foi. Foi nos primeiros 20 minutos porque surpreendeu toda a gente. Portistas, benfiquistas, sportinguistas. Todos.
Neste grupo estão incluídos o Jesus, o Garay, o Artur e o Javi que com uma parede à frente continuavam a investir furiosamente.

Esta táctica é boa? Tenho dúvidas.

Tenho dúvidas porque transforma o Comandante num jogador que tem como função jogar a 9,5.
99% dos médios colocados a jogar ali sucumbiam porque são retirados do jogo.
Se a equipa não produz ele está demasiado à frente para ajudar. Se a equipa é encostada atrás continua demasiado à frente para pressionar.
O Lucho constrói a sua carreira, o seu espaço e o seu comando a jogar a médio. Hoje, como médio emigrado no último terço do relvado, é competente porque é dos jogadores mais inteligentes que já vi.





Tenho dúvidas porque esta táctica rouba o melhor 6 do mundo. Há um par de semanas atrás o criador deste monstro dizia que ele jogava melhor sozinho e dizia que ele seria tão mais importante quanto menos coisas se propusesse a fazer.
O Porto de Vítor Pereira de 2012 abdica do melhor 6 do mundo procurando que ele seja um braço do duplo pivot. Misto 6, misto 8. Quase um box-to-box.
O que é certo é que por sexta-feira essa discordância tem tudo para ser posta em causa.

O melhor 6 do mundo fez uma das melhores individuais da história do Porto a jogar a 8.






Se vi a equipa a sofrer por não ter 6 o que é certo é que vi a equipa a inaugurar o marcador à bazuca por ter aquele box-to-box e festejei como nunca o golo de James porque o único jogador com o dom da ubiquidade estava lá para tudo fazer.

Eu não sei que preço tem um jogador assim. O valor que dá à equipa é tão grande e o valor que o mercado percepciona tão pequeno face à sua real importância que é difícil ponderar vender um jogador destes. Porque se tiver preço é sempre pequeno.

O Porto de Vítor Pereira de 2012 abdica (AINDA) do melhor Moutinho porque faz um regresso à era losango do Paulo Bento em que o Moutinho parecia um sem-abrigo sem casa onde jogar.
O Moutinho estagna no Sporting porque joga a 6, a 8 do lado direito, a 8 do lado esquerdo e a 10 às vezes nos mesmos 90 minutos. Qualquer substituição que fosse feita mexia com o Moutinho.
Volta a evoluir no Porto porque regressa à sua casa. Ao duplo 8 à frente do doberman.
Em 2012 começa a dormir fora de casa muitas vezes. Na sexta-feira põe mais físico do que inteligência no jogo. Ele, que também é dos que sabe pressionar, como não parece sentir-se tão confortável neste modelo compensa com pernas e suor aquilo que falta por ter um papel que não é bem o dele.

Esta tripla mudança (Lucho, Moutinho e Fernando), para mim criticável, foi um sucesso até ao minuto 20.

E depois?

Depois, do lado de lá perceberam que mais vale contornar a parede do que ir contra ela.
A bola começa a viajar e o Porto sofre. Se a bola não chega lá abaixo a passear é hora de a pôr a viajar.
O Benfica estica o jogo abdicando da passagem pelo meio-campo e a estratégia de sucesso começa a estourar por todos os lados.
Na 1ª parte a bola chega poucas vezes ao nosso último terço mas sempre que chega é um AI JESUS!




Nos últimos 20 minutos na 1ª parte eles têm o golo, 2 livres do Cardozo frontais, o cabeceamento do Aimar e aquele lance em que directamente da pequena área o Cardozo passa a bola ao Helton.
Os amarelos a Álvaro Pereira e a Djalma acontecem em desespero porque a equipa estava sem o seu doberman.
Quando a bola viajava iludindo as zonas de pressão a equipa via o seu doberman demasiado à frente, demasiado caído nas faixas e os centrais tinham que cobrir espaço que não costuma ser deles e que hoje em dia não têm pernas nem qualidade para o fazer.
Com Fernando a 6 o Djalma não era obrigado a fazer aquela entrada desesperada sobre o Witsel porque a equipa não tombava TODA para o lado direito.
Com Fernando a 6 a equipa não roubava a bola tão à frente para a bazucada do Hulk.




Esgotado o efeito surpresa cheguei ao intervalo do jogo pensando que a continuar assim íamos perder o jogo.
Achava demasiada valentia do treinador e tinha demasiada desconfiança na sua competência para que as fragilidades defensivas não levassem a melhor nesse braço de ferro.

Nos 2 minutos antes do 2-1 pareceu-me que havia mudança. Não posso jurar mas pelo posicionamento da equipa deu a entender que aquele 4-4-1-1 da 1ª parte tinha passado à história.
Que Fernando tinha voltado a ser 6 e que Lucho tinha baixado para a linha de Moutinho.

O jogo não permitiu que se tirassem conclusões sobre essa mudança. O Benfica marca expondo as dificuldades que temos tido no jogo aéreo e a partida entra em semi-hibernação.
É o período menos táctico e mais caótico do jogo. Entre o golo do Benfica e a entrada de James Porto e Benfica não percebem o jogo e não jogam consoante os seus interesses.
O jogo hiberna porque Aimar e Garay entregam a alma ao criador. O jogo parte-se porque o Benfica não tem a sagacidade de jogar à Manchester City e o Porto aposta no tudo por tudo demasiado cedo com um mundo de tempo pela frente, um adversário pior fisicamente e com defesas (Álvaro e Rolando) com quilómetros nas costas e um amarelo no bucho.
Num desses lances de loucura táctica e desnorte defensivo Rolando tenta um carrinho desesperado para evitar que Rodrigo dispare isolado em direcção a Helton.
Dessa vez corre bem. Podia ter dado ou isolamento ou 2.º amarelo. Resulta em corte.
Vítor Pereira percebe o risco e decide aí quem sai.
Estando em modo de roleta-russa resolve forçar a nota e diminuir a probabilidade do 2.º amarelo.
É uma substituição para ficar na história. Fosse Mourinho a fazê-la num Barça-Real com estes resultados e a lenda do melhor treinador do mundo ganharia um dos mais importantes capítulos.
Esgotado o efeito surpresa nos primeiros 20 minutos, Vítor Pereira lança mais um que apanha todos desprevenidos e que decide o jogo.
Djalma contava sair. Ao ficar e ainda por cima com amarelo leva um sinal de confiança e de reconhecimento da sua importância para virar o jogo.
Otamendi não contava ficar se fosse um defesa a sair. Sente-se com naturalidade o elo mais fraco.
Rolando não esperava sair. EU????

Surpresa absoluta, substituição ousada e de líder.

Todos os outros perceberam que era mesmo para ganhar. Era para jogar como se estivéssemos 5 pontos atrás. Eles são a lebre e nós o cão. A ELES!!!! gritou o Chefe Pereira.






Entra o nosso Messi. É Messi não pelas jogadas à Maradona mas porque quando ele está toda a equipa passa a jogar melhor. É o maestro que coordena a orquestra.
A diferença entre James e Hulk não se mede em talento. Mede-se no facto de quando um brilha é quase impossível que o faça sozinho.
Obriga a equipa a acompanhá-lo. É um talento diferente.







Entra James e voltamos ao ponto da 2ª metade da 1ª parte. Porto subido, defensivamente desorganizado com Fernando subido mas com quatro vantagens:

a) James está lá

b) O Benfica sabe que a bola tem de viajar mas rompe fisicamente

c) Sem Fernando a doberman está lá o Central mais veloz e actualmente mais capaz para compensar a ausência de 6

d) Profundidade nos dois flancos e pressão acrescida em Emerson com Djalma + Hulk


O jogo continua partido, o Benfica ignora as suas limitações físicas e aceita a roleta russa.

Aumenta o caos e a intensidade e aparece Fernando e James. Vale a pena ver e rever a jogada do 2.º golo para se perceber como é ténue a linha que separa o sucesso do fracasso.

Ter um jogador como Fernando engrossa a linha tornando-a numa ponte. James vomita todo o talento nessa ponte construída com Fernando e fica feito o 2-2.



Entre o 2-2 e a expulsão de Emerson reaparece outro actor:  Lucho.

Percebe o que está em jogo e começa a pôr a bola teimosamente do lado direito. Uma e outra vez.
Hulk percebe o desafio e o que tem que fazer. Mais talento bruto em cima do “tirem-me deste filme” chamado Emerson.

Contra 10 jogadores de rastos o Porto encosta às cordas o Benfica. Rodando a bola dum lado ao outro vai torturando o adversário tal era o domínio do jogo e a posse de bola.
Dava toda a ideia que a estocada estava próxima. E que os 15 a 20 minutos que faltavam eram uma maratona para o Benfica a aguentar.
Jogávamos de forma consistente e sádica.




No banco, estranhamente, vem mais um sinal dum chefe insaciável.
A equipa encurralava a presa mas ele queria matá-la já. Já e depressa.

Eu não concordei com a última substituição. Não concordei porque achei que estávamos a fazer o que era preciso para ganhar e a fazer o que era preciso para não ter a mínima hipótese de perder.

O que eu sei é que o Chefe Pereira estava doido e queria sangue rápido custasse o que custasse.

Aquela última dezena de minutos fez-me recuar uma volta. Gaitan empata com um Porto a jogar com 11 mas absolutamente de rastos. Quem estava a ver aquela 2ª parte percebia quem é que podia ganhar o jogo com 2-2 se se esforçasse por isso.

O que fez Jesus? Olhou para a histérica claque embriagada com a possibilidade de conquistar 1 ponto no Dragão em vez de perceber o contexto do relvado.

Perante um adversário moribundo com 22 pernas em campo mas só com 16 com capacidade para correr fecha a porta e mete Matic. 2-2??? MARAVILHA!

O que faz Vítor Pereira? Com um extremo a fazer de defesa e um meio-campo já desgastado tira Moutinho e aposta em 2 pontas de lança.
Lembro que o 2-2 mantinha o Porto líder e que a eventualidade de perder 3-2 a jogar contra 10 arrebentava de vez com o título.

2-2??? NEM PENSAR!!! É para matar ou morrer.


Certo ou errado o que é certo é que a diferença de mentalidade de clube e neste caso de treinador marca a diferença no confronto directo.
Se penso que Jorge Jesus é melhor treinador do que Vítor Pereira não posso deixar de reconhecer que o Benfica não ganha no Dragão porque Jesus tem medo e o Porto ganha na Luz porque Pereira mostra big balls.

Para que a noite seja perfeita marca golo quem, Fernando à parte, mais merecia.

Maicon. Está a jogar como o melhor Pepe quando a bola anda pelo chão e como o melhor Bruno Alves quando a bola anda pelo ar.






Esta vitória poderá valer um título e é uma vitória de clube, de um treinador que, com erros ou acertos tácticos, encarnou naqueles 90 minutos o espírito de clube e pareceu ser o portista com mais vontade de ganhar aquele jogo. Mais do que eu.
Para ele era ganhar ou ganhar. Ganhou!

Se algum benfiquista lê estas linhas fique sabendo que SABE MESMO BEM mostrar que SOMOS MELHORES.





Não há volta a dar amigos. Mesmo quando nós pensamos (como eu) que não fomos suficientemente bons durante o ano para vos merecer ganhar o que aparenta ser curto chega.

Quando vocês estão por cima contentam-se com pouco. Aquele 2-2 no Dragão…..

Quando nós estamos por baixo vale a resiliência e o espírito de campeão.


QUE BEM QUE SOUBE!




Por: Walter Casagrande
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