domingo, 29 de julho de 2012

Valência 1-1 FC Porto (2-0 nas G.P.) (CRÓNICA E APRECIAÇÕES INDIVIDUAIS)


Um jogo de pré-época nem é um drama na derrota, nem uma celebração na vitória. É uma aferição. Uma oportunidade de reforçar as virtudes da equipa e de corrigir os seus defeitos.






Mais uma pré-época que o FC Porto cumpre “entalado” em condicionantes que limitam o seu trabalho. Navega entre a disponibilidade dos seus jogadores e os seus compromissos internacionais (Euro 2012 e Jogos Olímpicos) e a perene ameaça de um mercado ainda longe do seu fim a de 31 de Agosto. É um FC Porto de improviso, em constante adaptação às circunstâncias que o rodeiam, o que limita o trabalho, a evolução da equipa e a sua produção.






Ontem, o FC Porto cumpriu o seu jogo teste mais complicado. Jogou fora, perante um adversário com qualidade, sobretudo, no meio campo. Foi teste que mostrou onde estão as debilidades do FC Porto, mesmo as que passaram, disfarçadamente, pelos testes anteriores e onde o FC Porto não pode continuar a adiar decisões difíceis. Também mostrou onde a equipa tema sua força e onde precisa de investir para evoluir.

O jogo foi quase sempre dominado pela equipa Valenciana. Só um breve período após o 0-1 é que o FC Porto tomou as rédeas do jogo. Em abono da verdade, só o desacerto dos avançados do Valência e algumas defesas de Helton evitaram que o Valência saísse bem na frente neste jogo. O epicentro das nossas limitações esteve sempre no meio campo: Fernando, muito limitado fisicamente, joga muito em cima dos centrais e a equipa cede terreno a meio campo; Defour que tenta ser “Moutinho” e corre muito, compensa as subidas dos companheiros, mas esquece-se de jogar futebol, raramente transporta a bola ou faz um passe vertical; Lucho não consegue ser referencial criativo da equipa e acaba a fazer o trabalho de Defour, sendo mais um jogador transporte de bola que de toque “visionário” entre a linha média e defensiva do adversário.

Com a saída, por lesão, de Fernando, nova debilidade é afirmada. Sem um 6 no banco, Vítor Pereira opta por uma solução de duplo pivot com Moutinho e Castro. O meio campo recua ainda mais, fixando dois jogadores à frente da defesa que, raramente, se libertam. O ataque do FC Porto é votado a sobreviver de lances individuais para tentar levar perigo à baliza contrária.

Vítor Pereira tem que tomar decisões a meio campo. Há uma estrutura a cumprir e não pode condicionar essa estrutura a individualidade. Quer a defesa (subprotegida), quer o ataque (subalimentado) estão dependentes da capacidade decisora a meio campo.




No plano defensivo, nem sempre houve qualidade, mas sempre existiu vontade. A equipa foi solidária, mas expôs-se muito ao perigo. Uma linha defensiva tão subida, com um meio campo que não consegue impor-se ao adversário, é um risco tremendo. Só não o pagamos o justo valor porque os avançados do Valência não estavam em noite de cobrança.


Sofremos um golo num lance de bola parada, com um central adversário a saltar sozinho à entrada da pequena área. As bolas paradas defensivas estão a ser um dos pontos fortes nesta pré-época, foi pena que o primeiro golo sofrido nesta pré-época tenha surgido por um erro neste capítulo.



Por fim, os penaltis. Ir para uma série de penaltis e falhar todos é anedótico. Não é grave, no sentido da real dimensão que este jogo tem. Mas é um aviso a ter em conta.

Entendo a opção de dar os 3 primeiros penaltis a jovens sem peso na equipa. É uma responsabilização e um teste de maturidade. O resultado foi o previsível. Mas só terá utilidade se tiver continuidade. Ou seja, se o trabalho de treino puxar pela responsabilização dos jogadores. Já a opção por Moutinho é mais discutível. Mais uma vez, não é grave, mas era escusado correr o risco de criar um facto que terá ligação imediata ao que ocorreu no Euro 2012.



Análises individuais:

Helton – Primeiro jogo completo, após os testes de Vítor Pereira sobre quem será a sua sombra. Começou gripado, com más reposições e defesas incompletas. Logo depois, surgiu ao seu nível e segurou o FC Porto no marcador. Nos penaltis, não defendeu nenhum e uma cobrança esteve ao seu alcance.

Miguel Lopes – Teve momentos bons e maus. Com uma semana de trabalho, há alguma ferrugem a remover. Deu algum espaço a Guardado e não foi autoritário no seu flanco. Ofensivamente, esteve em bom nível, embora insuficiente para um James que abandona o flanco à sua sorte ofensiva e defensivamente.

Sereno – Com Sereno o empenho é garantido. Poucas hipóteses deu a Feghouli e nos primeiros 20 minutos ainda esticou jogo pelo seu flanco. Cumpriu bem o seu papel a defesa esquerdo. Passou maiores dificuldades quando passou para defesa direito, mas Guardado e Mathieu tinham uma dinâmica bem maior que Feghouli e João Pereira.

Otamendi – Bola nas suas costas é um terror. Soldado em três tempos tirou-lhe logo a pinta e percebeu a sua maior debilidade. Usou e abusou, mas ontem não quis nada com a baliza, felizmente. Otamendi não tem a culpa toda. A defesa joga demasiado subida, tendo em conta a ineficácia táctica do meio campo. Esteve bem nas dobras a Sereno e Addy.

Maicon – Um bom jogo para meter os pés no chão. Está um senhor central, mas não dá para tudo. Só não fez um grande disparate por milímetros. Um Soldado com maior rotação e chegava aquela bola bem antes da sombra de Otamendi. Um grande central não põe o pé em ramo verde. Não joga roleta. Chuta para fora do estádio, se preciso for, mas nem dá esperanças ao avançado contrário que pode vir a dar uma bola de graça. No jogo aéreo, imperial, como sempre.

Fernando – Ainda longe da sua melhor forma, Fernando recua em demasia. É verdade que lhe falta Moutinho (que diferença que isso faz) e que não tivemos uma ameaça séria no meio campo ofensivo que chegasse o meio campo do Valência para trás. Tino Costa fez muito transporte de bola e Gago passes de 30 metros para os extremos. Fernando ainda parece movido a um motor a diesel e a sua lesão não vem ajudar ao apuramento da sua forma. Pior ainda, foi sem Fernando. Então sim, tempo e espaço para o Valência circular bola a meio campo. Faz falta um 6 no plantel para concorrer com Fernando. A nível doméstico, o duplo pivot desenrasca, mas lá fora, seremos caçados.

Defour – Trabalha que se desunha, mas até se esquece de jogar futebol. Não é ameaça ofensiva suficiente para assustar os adversários. Corre mais alegremente para o flanco para compensar a subida do lateral, que com a bola levando o FC Porto para o ataque. Arrisca muito pouco, quase nada e são raríssimos os seus passes verticais. Tem mais futebol? Acredito que sim. Mas não se vê, nem se nota. Para ser opção tem que meter muito mais futebol em campo.

Lucho – O 10 que carrega nas suas costas nestes jogos de pré-época é mais estilo que outra coisa. Marcou um golo à 10, mas não joga à 10. A equipa precisa de mais velocidade, de mais vertigem, mais improviso e menos futebol matemático. Mais risco e menor previsão. Lucho a cada jogo é mais 8 que 10, já o tinha escrito antes. Esta nuance táctica de James fugir para o centro, Lucho ficar a 8 e o flanco ficar entregue ao lateral limita a capacidade ofensiva da equipa. Até Vítor Pereira perceber isso, o FC Porto está a autolimitar-se 

James – Joga num limbo. Fica entre o flanco e a zona central. Numa posição híbrida na qual não rende o que pode. Dir-me-ão que Hulk também não é extremo. Correcto, mas Hulk dispara para área e com isso arrasta a equipa para o ataque. Tem a mira na baliza, explode em direcção a ela e cabe a equipa tentar acompanhar. Vertical! James não arrasta a equipa. James vem para o seu habitat natural e integra-se no meio campo. A equipa não estica e fica sobrepovoada no centro e desertificada no flanco. Compreende-se a tentação de tentar colocar os melhores no 11. Não se pode martelar e ficar à espera que resulte. Não resultará. James é 10 e é aí que deve jogar.

Atsu – Num jogo de maior exigência revelou temeridade. É normal. Ainda assim, chegou e sobrou para meter a cabeça em água a João Pereira. O que é normal, também. Melhorou quando veio para o flanco direito. A auto-confiança virá com o tempo. Talento tem, humildade para crescer, também.

Jackson – Seria fácil atribuir a Jackson a menor produção do ataque. Voltou a mostrar qualidade e limitações de quem esteve parado e começou a trabalhar há pouco tempo. Jogou muito afastado da baliza e isso prejudica-o. O meio campo nunca produziu jogo e recuava e nos flancos James não estava e Atsu ainda está a crescer. Não há ponta-de-lança que resista! Até o FC Porto estruturar o seu meio campo, a defesa e o ataque vão sofrer, sendo o ponta-de-lança uma ilha esquecida na frente.


Moutinho – Formou com Castro um duplo pivot que nunca resultou. Num meio campo com Castro e Kelvin, nem a sua qualidade o conseguiu sustentar. Ainda por cima, O Valência mete Jonathan Vieira em campo, um jogador muito móvel e técnico, o que para uma vigilância partilhada é um tormento. O duplo pivot será sempre uma solução mais fraca que um 6 coma responsabilidade de vigiar aquela zona.

Rolando – Passou discreto pelo jogo. Deixou escapar Alcácer um par de vezes.

Addy – Tenrinho quanto baste, passou dificuldades perante Hernández. Esteve mais à vontade ao soltar-se para a frente que na altura de defender.

Mangala – A melhor entrada em campo. Já começa a colher os frutos das privações que passou a defesa esquerdo. O único defesa que conseguiu acompanhar o Jonathan Vieira.

Castro – Muito esforço e muito empenho. Um voluntarismo absoluto, mas o futebol apresentado é demasiado curto para o FC Porto. Está no coração dos adeptos, mas ainda longe da qualidade pretendida no meio campo portista. Pragmaticamente, Castro assim está longe de ser solução para o FC Porto.

Djalma – Enquanto esteve a extremo, meteu Mathieu no lugar (o único período do jogo em que não passou da linha de mio campo) e falhou um golo que não pode falhar! A lateral direito, passou dificuldades com Bernat pela frente e a ajuda de Mathieu. Desenrasca a lateral, mas não é solução.

Kelvin – É um talento. Atrevo-me a escrever que dos meninos, é o que faz da bola o que quer. É muito pouco objectivo e cai com demasiada facilidade. Está aqui um bom desafio ao FC Porto. Com trabalho, é um jogador de classe mundial, sem amparo, é um brinca na areia. Emprestar ou ficar? Não sei. O seu penalti mostra o seu potencial e a sua inconsequência.

Varela – Totalmente a leste do paraíso. Zero de produção. Nada.

Kléber – Anda sem vontade e a confiança foi a que se viu no penalti. Mas sofreu da mesma ostracização que Jackson sofreu. Agravada pela anarquia táctica que se apoderou da equipa após as substituições. Não há avançado que resista. Kléber tem que rever a sua posição. Ou vai à luta, ou se é para desistir, mais vale sair!

Iturbe – Uma arrancada, muitas perdas de bola e um penalti que nem na baliza acerta. Pelo meio, a partilha com Addy de um flanco que se transformou numa passadeira para o Valência.


Ficha do Jogo:

Valência-FC Porto, 1-1 (2-0 nos penaltis)
Estádio Mestalla, em Valência
Assistência: cerca 30 mil espectadores

Árbitro: Mateo Valero


VALÊNCIA: Diego Alves; João Pereira, Victor Ruiz, Ricardo Costa e Mathieu; Parejo, Tino Costa, Feghouli e Guardado; Soldado e Jonas.
Jogaram ainda: Bernard, Pablo Hernandez, Vieira, Gago, Barragán, Paco Alcacér
Treinador: Mauricio Pellegrino

FC PORTO: Helton; Miguel Lopes, Maicon, Otamendi e Sereno; Fernando, Defour e Lucho; James, Jackson Martínez e Atsu.
Jogaram ainda: João Moutinho, Rolando, Mangala, Addy, Castro, Djalma, Kelvin, Kléber, Varela e Iturbe
Treinador: Vítor Pereira

Ao intervalo: 0-0
Marcadores: Lucho (57m), Jonas (63m)
Cartão amarelo: Sereno (77m)




Por: Breogán
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