domingo, 24 de agosto de 2014

Primeira Liga, 3ª Jorn - P. Ferreira 0 - 1 FC Porto - A VOZ É QUE PAGA!

#FCPorto #PrimeiraLiga

Este jogo era um ponto de orgulho para os sócios e adeptos portistas. Ganhá-lo de forma clara e por KO ao 1.º assalto daria razão a quem pensa que foi só Paulo Fonseca a travar o caminho para o tetra e que caso outro cá estivesse o destino seria o do costume.

A realidade do jogo mostrou-nos que não há destinos traçados. Para se ganhar é sempre preciso muita inteligência e trabalho, algum talento e uma pitada de sorte.

Lopetegui entra para o jogo fazendo prevalecer o espirito de plantel. 4 jogadores que ainda não tinham sido titulares em jogos oficiais fazem a sua estreia: Ricardo na defesa, Evandro no meio e Adrian e Tello no ataque.

Na 1ª parte o Porto joga de uma forma estranha.
No 1.º terço do relvado é passe, passe, passe, passe. Repetem-se as jogadas em que a bola vai do defesa esquerdo, ao defesa direito sem que nenhum jogador dê um passo em frente e tente progredir com bola mesmo com espaço.

É estranha esta unitilidade de passes porque nesta altura o Paços nem pressiona muito à frente.

Quando a bola chega aos pés de Casemiro após o minuto de passes da ordem o jogo vira NFL.

O Quarter Back Casemiro despeja, com critério e alguma precisão, bolas para o último terço do relvado. De muito engonhar atrás, vai-se directo para a frente. Tello que corra, Jackson que aguente e Adrian.....Adrian que assista.

Esta estranha forma de jogo faz com que Rúben Neves e Evandro pareçam corpos estranhos. Só não o são na sua totalidade porqueparticipam no único factor que considero positivo na 1ª parte: A pressão alta.

A inoperância do Paços faz parecer que jogando assim estamos perto do 1-0. A defesa pacense demora a adaptar-se ao jogo NFL de Casemiro e deixa espaço nas costas que Tello poderia ter aproveitado se não se tivesse lesionado.

Aí a coisa complica. Com Rúben Neves e Evandro voluntariamente atirados para fora do jogo de construção, sem velocista para aproveitar a profundidade, sem Adrian que voluntariamente assiste ao jogo, não se perspectivava nada de bom. Valia-nos o Paços que com 0-0 desliga os motores cerebrais e assiste ao que (não) se passa de forma confortável e estática.

Evandro ajuda a descomplicar. Faz o que um jogador de equipa grande deve fazer quando o jogo não lhe corre de feição. Procura-o. Dá 3 passos atrás, vem buscar jogo, deixa de jogar demasiado pelo centro-esquerda e participa em toda a fase de construção seja ao lado de Casemiro como em triangulações com Ricardo e Quintero.

A entrada de Quintero acaba por constituir outro importante contributo porque o perfil de ala direito muda. Se antes tinhamos que jogar com o espaço agora seria obrigatório fazê-lo com bola. Esse factor empurra Ricardo e Ruben Neves a participarem mais no jogo de construção e Casemiro a meter folga na sua função de quarter back.

Se a qualidade de jogo melhora a criação de oportunidades nem por isso. Sucedem-se cantos atrás de cantos e só mesmo por essa estatistica se poderá dizer que o Porto merece ganhar ao intervalo.

Num deles a bola é despachada e Alex toma o lugar de Casemiro e sai bilhete preciso para Quintero. O colombiano mostra a qualidade de mira do seu pé esquerdo e Jackson tira muita uva de quase nenhuma parra. 1-0 e tudo parece estar bem demais ao intervalo.



Saímos do Intervalo e tudo muda. O Porto entra mais activo no jogo e o Paços também. Com os 2 lados a se quererem mexer a minha perspectiva é a de que o Porto tenha mais espaços para mostrar criação ofensiva.

Acontece que Paulo Fonseca estuda bem a lição e percebe que pode pressionar um bocadinho mais alto. Pode subir mais a defesa que não há quem no Porto possa ou queira ir buscar este espaço. Mesmo sem Hurtado e só com Minhoca é possível tentar, com bola, encostar o Porto atrás.

As alas defensivas da sua ex-equipa são vulneráveis. Uma delas está a ser guardada pelo seu ex-extremo e o seu ex-número 10.

Lopetegui responde mal a essa alteração de perfil do jogo. Se diz que a equipa estava cansada pelos jogos de 3 em 3 dias não podia ser Evandro a sair.

Se ficou sem voz no final do jogo por tanto gritar “JUNTOS”, “JUNTOS” não podia ser Herrera a entrar. É a cerebro que pode juntar a equipa e não o galope de transição.

Há 2 jogadores que estavam claramente a mais aos 45 minutos. Adrian e Ruben Neves.

Ruben diferenciava-se do espanhol pelo facto de mostrar qualidade sempre que a bola lhe chegava aos pés. O problema é que chegava pouco e ele também se chegava pouco até ela.

Escolhe o médio que estava a ser mais associativo para sair. E faz entrar o médio do plantel que mais rasga e menos associa.

O jogo duma fase entretida passa para uma fase descontrolada. Descontrole com o Paços a ser a única equipa a criar perigo real.

Depois de substituir mal, Lopetegui lê bem o jogo do banco. Tanto que grita com a voz para ver se junta aquilo que tinha ajudado a separar com a substituição.

Vendo a casa próximo de arder Lopetegui faz na 3ª substituição o que devia ter feito na 2ª.

Ruben era quem estava mais cansado e era Oliver que tinha que entrar. Acontece que na altura da 3ª substituição o jogo tinha adquirido um cariz diferente do da 2ª substituição.

Com o jogo descontrolado daquela forma e com uma alma perdida em campo já não era Rúben que devia sair. Justificava-se, no meu entendimento, regressar aos 4 médios para estancar o entusiasmo do Paços sem que com isso se retirasse poder ofensivo ao Porto porque Adrian pouco ou nada fazia.

Rúben, mesmo desgastado para o pressing, estava melhor na 2º parte do que na 1ª e poderia com a qualidade de teleguia que tem fazer descansar a equipa com bola.

Outro erro que aponto a Lopetegui foi o timing da substituição. Sou dos que pensa que em jogos apertados, finais e partidas do género o que desequilibra muitas vezes a balança é a inferioridade numérica seja por motivos fisicos ou disciplinares.

Se me disserem que Evandro saiu porque estava em risco do 2.º amarelo eu entenderia e defenderia a substituição mesmo pensando que, naquela altura, era o melhor médio do Porto.

Por maioria de razão acho um risco excessivo esgotar as substituições ao minuto 65. Se a equipa está cansada a probabilidade de acontecer a um dos dez o que sucedeu a Tello no início do jogo é muito maior.

Com a entrada de Oliver o fogo ficou mais controlado. Nunca deu a sensação de estar extinto mas devolveu o fôlego que a equipa precisava.

Lembro que nessa fase da partida Quintero já estava morto defensivamente e Adrian ainda permanecia no ventre da mãe. Era Jackson o avançado que mais ajudava a defender.

O jogo termina e a alegria pelo apito do árbitro é maior do que tudo. Dá para esquecer tudo porque temos 6 pontos, porque ganhamos em Lille e porque temos ainda em Agosto um dos três jogos mais importantes da época.

Neste contexto tudo se aceita e tudo se compreende. Foi assim o ano passado quando ganhamos também por 1-0 ao Paços fora de casa, também no inicio da época e também jogando aquém do que temos que fazer.

Cabe a Lopetegui esquecer-se do contexto, esquecer-se de compreensão e perceber o que o levou a ficar sem voz.
Lá diz o ditado: Quando a cabeça não tem juízo a voz é que paga!

Como o basco é vivo e esperto confio que vamos ter conferência de imprensa na 3ª feira sem rebuçados e com as cordas vocais em pleno.


Análises Individuais

Fabiano:  Teve pouco trabalho mas continua a dar sinais de insegurança. Aquela pseudo-intervenção na 2ª parte após cruzamento vindo da direita podia trazer-lhe(nos) problemas.

Ricardo: Empenhado, lutador mas sem a qualidade defensiva de Danilo. Tem como atenuante ter levado com Tello e Quintero como parceiros de sector. Na 1ª parte Ruben ainda ajudou mas na 2ª parte foi duro levar com  Minhoca.

Maicon:  O mais seguro e interventivo do sector. Patrão por estatuto e por rendimento. Muito bem.

Martins Indi: A bitola geral é boa e nada que ponha em causa a contratação e a titularidade mas desta vez somou ao menor brilhantismo alguma tremideira. Lances de cabeça em que sai e não ganha e alivios que vão para o lado errado.

Alex Sandro:  Voltou ao velho Alex. Sabe jogar, tem qualidade em tudo o que faz mas é sobranceiro. Na 2ª parte perde (ou dá!) duas bolas ao adversário por categoria a mais.
Pede-se que não tenha vergonha de mandar a bola para o mato quando é preciso. Quando adquirir essa competência e a souber utilizar ficará melhor jogador.

Casemiro:  Quarter Back. Não sei se por opção ou por irritação ao ver os seus companheiros da defesa a jogarem ao meinho imaginário durante 2 minutos resolvia atalhar logo que a bola lhe chegava. Chega, olha e dispara. Corre Tello, Segura Jackson, Acorda Adrian.
Discuta-se a estratégia mas o que é certo é que foi o jogador do Porto sempre presente. O médio mais agressivo na luta pela bola e o médio que mais lutou por fazer algo que fizesse perigar a baliza de Defendi.
Com o recuo de Evandro e a saída de Tello o Quarter Back foi posto a dormir e Casemiro soube integrar-se noutro perfil de jogo.
Na 2ª parte não conseguiu juntar a equipa quando o meio-campo se partiu.

Rocket Neves:  Jogo dificil para ele. Na 1ª parte ficou entalado numa parcela de relvado em que a bola não chegava. Conseguiu ter alguma utilidade apenas na pressão e no auxilio defensivo a Ricardo.
Depois enfrentou médios adversários que devem ter algum ressabiamento por estar a ver no Ruben o que podia ter sido o seu futuro. Levou com essa agressividade em cima e não conseguiu ultrapassá-la.
O talento está lá e isso vê-se quando a bola lhe cai nos pés (o lance que dá origem ao canto em que nasce o golo é um exemplo) mas será necessário aprender a fugir à adversidade do jogo. Evandro soube fazê-lo ainda na 1ª parte. Quando Rúben estava a tentar ir pelo mesmo caminho na 2ª já não tinha pulmão.

Evandro:  Intermitente. Fora do jogo por culpa alheia nos primeiros 20 minutos da partida mas completamente dentro a partir daí. Sabe dar ao jogo aquilo que ele lhe pede e sabe procurar aquilo que lhe parece passar ao lado.
Com 3 passos atrás mexeu os cordelinhos na primeira parte.
Foi mal substituido porque quando sai a equipa parte-se. É por culpa da sua saída do relvado que Lopetegui ficou sem voz.

Tello:  O jogo estava para ele. Paços adormecido e Quarter Back Casemiro com olhos no flanco direito. A saída prematura roubou o foco de perigo do início de jogo e obrigou o Porto a reformular a estratégia.

Adrian: Parece que o jogo nunca estará para ele. Não pode jogar a 9. Não pode jogar preso à ala. Não pode......
São demasiados “não podes”. Vejo em Adrian a capacidade de ser um 2.º avançado. Não quero que ele faça jogadas à Tello como em Paris nem danças à Brahimi como no Dragão.
Há um bom lance na 2ª parte que me exaspera. Quintero e Ricardo combinam bem e cruzam para a zona de perigo. Jackson ataca o primeiro poste a a bola atravessa toda a área. Nessa alturo procuro com sofregamente Adrian com os olhos. Aparece!
Adrian fica colado à linha lateral esquerda e o que faz é pressionar o defesa que, já fora da grande área, intercepta a bola.
Se Adrian for capaz de encher a área neste tipo de lances todos os outros “não pode..” conseguirão ser esquecidos.
Enquanto a exibição de ontem for a regra o “Não pode” passar a ser utilizado ao lado de outras duas palavrinhas: “ser titular”

Jackson:  Craque. Jackson já provou e continua a provar que é ponta de lança para equipa grande que cria poucas oportunidades.
É capaz de estar fora do jogo porque a equipa não se estica e não lhe chega mas jamais desliga. Está sempre atento, sempre focalizado e consciente do que tem que fazer.
É  a estrela da equipa. Indiscutível e indispensável.

Quintero: Entrou bem. Dá a equipa o que todos sabemos que é capaz. Passe, toque, visão de jogo. Todo o ataque funciona melhor quando há jogadores com o talento e o olhómetro Quintero.
Soube incorporar o seu novo papel no Porto de Lopetegui. Parte da ala direita para o meio o que lhe rouba espaço para ir à linha a cruzar mas dá o mundo de oportunidades de remate, cruzamentos ou assistências com o seu brilhante pé esquerdo.
Defeitos: defende mal e ofensivamente não dura muito tempo.

Herrera: Entra quando o Porto está a ganhar 1-0 mas ainda está no controle. As suas arrancadas desestabilizam o jogo que passa a estar totalmente descontrolado. Há mais buracos a meio-campo e uma cratera entre os sectores médio e defensivo.
Foi participativo e empenhado mas a equipa piorou.

Oliver: Entrou para ser bombeiro. Para tentar juntar o que tinha sido separado com a saída de Evandro. Foi competente nessa tarefa e mostrou a sua melhor faceta. Procura o jogo e quer participar nunca se escondendo.
Ainda assim o Porto não voltou a transmitir a sensação de que tudo estava controlado. Quando se dá a oportunidade de o adversário perder o medo e se sentir capaz fica muito mais dificil voltar a metê-lo na toca.


Ficha do Jogo:

FC Paços Ferreira 0 - 1 FC Porto
Primeira Liga, 2ª jornada
Sábado, 23 Agosto 2014, 18:00
Estádio: Capital do Móvel, Paços de Ferreira
Árbitro: Manuel Mota (Braga)
Assistentes: Paulo Vieira e Jorge Oliveira
Quarto Árbitro: Cosme Machado

PAÇOS FERREIRA: Rafael Defendi, Jailson, Ricardo Ferreira, Ricardo, Hélder Lopes, Seri, Sérgio Oliveira, Minhoca, Manuel José, Cícero, Hurtado.
Suplentes: António Filipe, Flávio Boaventura, Valkenedy, Nélson Pedroso, Vasco Rocha (72' Manuel José), Barnes Osei (30' Hurtado), Rúben Ribeiro (80' Minhoca).
Treinador: Paulo Fonseca.

FC PORTO: Fabiano, Ricardo, Maicon, Martins Indi, Alex Sandro, Casemiro, Rúben Neves, Evandro, Cristian Tello, Jackson Martínez, Adrián López.
Suplentes: Andrés Fernández, Marcano, Brahimi, Quintero (18' Cristian Tello), José Ángel, Herrera (57' Evandro), Óliver Torres (65' Rúben Neves).
Treinador: Julen Lopetegui.

Ao intervalo: 0-1.
Marcadores: Jackson Martínez (40').
Disciplina: Seri (5'), Hélder Lopes (15'), Evandro (23'), Manuel José (36'), Alex Sandro (53'), Ricardo Ferreira (56'), Minhoca (61'), Maicon (64'), Óliver Torres (79'), Sérgio Oliveira (88').



Por: Walter Casagrande

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