quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Liga dos Campeões. FC Porto - Lille 2-0: FAÇAM FILMES!

#LigadosCampeões #Lille #FCPorto #Brahimi #Casagrande






Dia D. Era hoje que tudo se decidia.
A equipa está demasiado mudada, com muito talento mas muito jovem.
Por isso é uma confiança nervosa. Pressionados e ansiosos.




Lopetegui decide bem. Olha para as deficiências que sabe que a equipa tem e vai pela segurança. Se em Lille conseguimos tomar conta disto jogando desta forma vamos pelo mesmo caminho. Jogar como se não estivéssemos em casa, a céu aberto e com um tapete verde a sério. Entrar com um espirito de 0-0.
Esquecer o golo de Herrera mas ter sempre presente que era o Dia D.
Se a equipa ainda cambaleia dada a juventude vamos fazer tudo para que ela se sinta cómoda e segura.

O Porto entra muito bem. Há 6 jogadores que inundam o relvado tamanha a intensidade colocada. A organização é simples: Dois Centrais posicionais, Um talento livre, um ponta de lança e os 6 da vida airada. Run Forrest, Run. Que belo filme!!!

Não é o talento superior nem a tactica magistral que fazem a diferença. É a disponibilidade para correr até cair, de dobrar o próximo e ajudar o seu, a alegria da juventude e a frescura própria da vontade que empurram o Lille lá para trás e descansam Fabiano.

Lopetegui conseguiu. A equipa não joga um grande futebol mas tem um coração imenso e os jogadores comportam-se como se tivessem assistido de cachecol ao pescoço às 18 presenças na Champions. Com uma energia sofrega, uma vontade a roçar o portismo e com a organização dada por quem no banco sua tanto quanto eles e parece sofrer tanto como nós.

Esta força não chega para criar oportunidades de golo. O Porto chega com bola dentro da grande área mas depois faltam os jogadores definidores.





Podemos dizer que aquelas bolas que Oliver e Herrera tiveram na ala esquerda do ataque deveriam estar nos pés de Tello ou Quaresma. É verdade que eu naquele momento preferiria ter um desses ali. Acontece que para se chegar ali é preciso muito antes. O jogo é um processo que vive cada vez menos de momentos.




Os jogadores que não entram dentro da dinâmica colectiva da equipa ou são verdadeiros predestinados ou ser-lhe-ão dados minutos proporcionais ao tipo de jogadores que são. De momentos.

Este entusiasmo, este coração e este pulmão não se esgotam mas o jogo é demasiado longo para que possam dele tomar conta por completo. A partir do minuto 25 o Porto chega menos mas continua com o mesmo estado febril de tanto querer. Passamos a perder a bola com facilidade porque depressa e bem há pouco quem. Sucedem-se as jogadas em que da recuperação à perda passam menos de 10 segundos.

 Aí nota-se a falta de liderança que há em campo. No meio-campo. Não há quem perceba o que está a acontecer e peça um time-out no decorrer da partida.

Quem obrigue a equipa a passar 1 minuto a trocar a bola inutilmente estilo Paços de Ferreira mas que sinalize os companheiros e os adversários que o mau momento já vai longe. Ninguém diz STOP.

Continua tudo alegremente a querer mostrar que o erro da jogada anterior não se vai repetir.
São miúdos que não fazem filmes. Vivem o momento e parece que já não viram disto antes.

Num desses lances Casemiro quase enterra Rúben Neves. Passe na queima para uma zona proibida e as dificuldades fisicas e de reacção do jovem talento vêm ao de cima. Gueye segue isolado para a baliza e surge o momento da eliminatória.


A fase da inocência pueril tem o preço. Gueye segue isolado em direcção a Fabiano e Maicon estica-se todo tentando com a perna evitar o que parece certo.
Aí joga-se a eliminatória.
Se não chega, a probabilidade do Lille marcar e ficar com grande ascendente psicológico é grande.
Se não chega e acerta na perna de Gueye tudo ficará perto da derrocada. Seria penalti e expulsão.
Se chega, protege a inocência pueril da dura vida real e dá-nos tempo para fazer filmes e descer à terra.


Maicon chega.

Chega e os putos olham uns para os outros assustados.
Não basta a alegria, a vontade, a energia vibrante e a confiança contagiante. É preciso ter presente que a racionalidade não pode ser posta de lado. O cérebro também joga e é bom que faça filmes.

Esse susto desliga a equipa da corrente. Se no inicio do jogo esse ritmo frenético nos tinha ajudado a encostar o Lille lá atrás, a partir dos 25 minutos essa correria histérica e vontade descontrolada tinha conduzido a partida para o campo do Lille. Eles sabiam que só em manha nos poderiam superar. A estratégia do Lille foi sempre a mesma.
Subir a montanha para a Champions na nossa roda e esperar um desfalecimento ou harakiri.

O intervalo é um balsamo. A equipa precisava de parar e de falar com o treinador. Há lideres dentro de campo mas jogam ou demasiado à frente ou demasiado de lado para que a sua voz se possa ouvir na Casa de Máquinas (plágio de Luis Freitas Lobo).

Esta equipa precisa tanto de treinador! Os Olivers, os Herreras, os Casemiros, os Brahimis, os Rubens, os Alexs. Alguém que os oriente e que os conduza. Precisam de alguém a mesma alegria de viver como eles mas com mais experiência de vida e de futebol do que eles.

Ao contrário do normal vejo necessidade de muita conversa não tactica. Para lá do fecha ali ou cobre acolá. É preciso muito “Pensa” “Calma” “Tranquilo”...muita conversa da treta que acondicione as doses industriais de energia que os miúdos têm lá dentro e que estão mortos por gastar seja de que forma for.

Na 2ª parte o Lille muda. Tenta apertar um bocadinho mais em cima.
Na 2ª parte o Porto muda. Mais brain, menos histerismo.

A mudança do Lille tinha em mente o filme do final da 1ª parte. A mudança do Porto permitiu que esse guião fosse interrompido.

Aí e só aí aparece o talento. Um momento, um jogador com momentos e que tenta encaixar no processo. Brahimi. Livre soberbo e Enyeama entre o mal colocado e o escorregadio não chega nem cheira. O 1-0 é redentor. Todo o stress acumulado liberta-se com aquele golo.

Tanto que a equipa volta a ligar a ficha do entusiasmo descoordenado. Nos 5 minutos após o golo do Porto o Lille chega com perigo varias vezes. Livre de Corchia, isolamento de Origi.

Este é mais um filme que esta juventude não tem na memória. Não há jogos ganhos nem momentos em que se possa perder o foco e a organização.

A situação é preocupante porque o Lille volta a acreditar e o Porto apesar de mais responsável está também muito débil na zona do meio-campo.

Oliver já não se desmultiplica, Herrera desgastado e Rúben Neves de gatas. Casemiro está de pé mas o esforço retira-lhe capacidade de reacção e clareza de passe.

Estes 4 jogadores estavam com mais de 6 kms ao intervalo. É um ritmo alucinante e bem acima do normal nivel Champions. Quem joga assim e quer jogar assim tem que ter um plantel com profundidade.
Lopetegui não conta – e bem – com Brahimi e Quintero para a contabilidade dos maratonistas de 12 Kms que têm que varrer o relvado de uma ponta à outra.

Lopetegui quer ter – compreensivelmente – 3 a 4 maratonistas em campo em jogos deste nível.
Lopetegui planeia – e bem – meter uma intensidade fisica brutal a campo inteiro em jogos deste perfil.

Neste momento o Porto tem 5 médios e 1 deles é um ex-juvenil que está a dar os primeiros passos em jogos de 90 minutos.
Os 5 têm sido chamados a jogo nestes 4 jogos oficiais. Se mais tivéssemos não era Ricardo Pereira a entrar no lugar de Casemiro.
Se é para estes 5 jogarem literalmente até cair (Ruben, Casemiro, Herrera, Oliver e Evandro) é preciso pelo menos mais um guerreiro maratonista sob pena de sofrermos no final dos jogos ou em semanas de 3 partidas.





Lopetegui faz o que todo o estádio já percebeu. Rúben, pela primeira vez, parece um juvenil a jogar no meio de Homens. Juvenil não por deficit de inteligência ou de qualidade mas por incapacidade de responder fisicamente às exigências do jogo.




Entra Evandro e a equipa melhora num ápice. O Lille é posto em sentido e são dados mais minutos de vida aos maratonistas que já estavam nas lonas.

Naquela altura Evandro tem uma velocidade acima nas pernas e na agilidade mental. Quando a bola para ele se dirige o pescoço já tinha rodado em direcção a Brahimi e atalhado o trabalho do pé. Está a ir, está a vir. Um toque.





Brahimi recebe e é hora do diferencial de talento entre Porto e Lille. Combinação com Cha Cha que chuta com o pé que tem mais à mão com tudo o que tem.
Estádio vem abaixo e é um misto de alegria e alivio.




Estamos onde pertencemos e fizemos o que era obrigatório.
Temos um Porto com a fibra, a vontade e o caracter dos velhos Portos.
Temos um Treinador Basco que ainda não sabemos bem como responderá a nivel de competências e conhecimentos futebolisticos mas que já percebemos que tem o carisma e a personalidade que são timbre do Porto de sempre.
Está a fazer coisas por nós e connosco.
Está a fazer por nós o que devíamos ter feito o ano passado e não fizemos por desleixo ou comodismo: Educar Quaresma, reeducar público e ressalvar o colectivo como prioritário.
Está connosco no desafio de mostrar na Europa que por alguma razão estamos no Pote 1 e de mostrar em Portugal que odiamos perder.

Estou a gostar do filme. Continua, por favor.

RUN FORREST! RUN!




Análises Individuais

FabianoFez o que o consagrado Enyeama não fez. Colocou-se melhor no livre da 2ª parte e defendeu a bola de Corchia.
A equipa está a conseguir protegê-lo da insegurança que teima em revelar aqui e ali como quando larga uma bola fácil após cruzamento.

Danilo: Tem espirito de Dragão sem juras de amor facebookianas e é capitão sem braçadeira.
O Universo Portista não percebeu que está aqui um dos poucos estrangeiros que cá chegados percebe tintim por tintim onde se meteu. Ele percebe a importância que isto tem para nós, portistas. Ele percebe a importância que ganhar tem para o Porto. Ele percebe a importância que o Porto tem na Europa. Percebe qual o espirito do Dragão. Percebe o antes quebrar que torcer.
A partir daí joga com todo esse conhecimento e vê-se um brazuca a festejar um corte como se fosse um defesa grego do Otto Rehhagel.
A partir daí vemos um sprint à Usain Bolt aos 89 minutos para reposicionamento depois de uma falta tactica e com um jogo mais do que ganho.
Consequência disso vemos um jogador de cócoras a recuperar fôlego ao minuto 93 para conseguir festejar depois.
Se as pinceladas de génio de Brahimi merecem o preço do bilhete a atitude à Porto de Danilo justifica o lugar anual.

Alex Sandro: Estava no mesmo comprimento de onda de Lille. Poderoso defensivamente e no vai-vem pela ala. Fez muitissimo bem em pedir para sair mesmo perto do intervalo. Não vale a pena arriscar agravar a lesão ou enganar a equipa que conta muito com ele.

Maicon: Que me perdoe Brahimi. É MVP! Se penso que o momento da eliminatória é aquele corte tenho que premiar quem foi fundamental.
Estou convencido que teríamos boas hipóteses de passar se aquele livre vai para fora.
Se Maicon não intercepta ou faz falta naquele lance teríamos boas hipóteses de ir para a Liga Europa.
Está em crescendo e a assumir-se como o patrão da defesa e o Central n.º1. Fantástico.

Martins Indi: Enquanto esteve a central exibiu-se dentro do padrão habitual. Regularidade, consistência. Certinho e direitinho.
Quando é obrigado a jogar a defesa esquerdo marcou demasiado ao homem. Seguia o seu opositor directo para onde fosse abrindo crateras nas costas que nem sempre foram aproveitadas.

Casemiro:  Como joga e vive o jogo transmite a ideia que está a gostar de está por cá. Nós também gostamos de o ter. Quer bola, quer ser protagonista mas tem o espirito colectivo à Porto. Num desses momentos quando vê Brahimi a fazer um sprint longo para dobrar Danilo bate palmas ao companheiro e recompensa-o moralmente pelo esforço.
Foi o último Homem a cair. O médio que esteve num padrão de intensidade mais linear.
Como aos seus parceiros de sector falta-lhe calo e sobra-lhe imaturidade. O lance em que faz uma tocaia a Rúben Neves está nos limites do imperdoável.
Tudo somado merecia uma grande salva de palmas na substituição o que não foi possível porque muitos dos adeptos que foram ao Dragão não sabem distinguir o Hino da Champions da música oficial do Big Brother.

Rocket NevesMuita calma nesta hora. Jogaste mal mas passamos.
Lopetegui tem tentado não desperdiçar um talento. Lançar Pepas, Brunos Gamas, Nélsons Oliveiras qualquer 1 faz. Continuidade ao mais alto nível é o que separa o Pai de um Padrasto afastado.
Lopetegui está a tentar que Rúben não desligue. Que não saia deste filme de sonho que nos está a ser oferecido e que o desânimo não desça à terra.
Hoje correu mal porque já não houve talento, inteligência e maturidade que compensasse o desgaste e diferecial fisico de quem está nisto há 2 dias.
Já é uma certeza no plantel.

HerreraAté à exaustão. Esteve melhor do que em Lille e foi obrigado a mais do que em Lille porque Oliver e Rúben desligaram os motores na 2ª parte.
É um jogador com muito rasgo, muito pulmão mas que terá sempre que ser considerado como um desequilibrador para ser importante na equipa. Se quisermos ver nele um equilibrador teremos o Herrera de Paulo Fonseca de volta e o do Mundial do Brasil a milhas.

Oliver: É o simbolo do novo Porto. Talento, juventude, irreverência, alegria, qualidade de passe, boa gestão da posse, inteligência e fôlego na pressão.
Ele quer ser feliz e procura o protagonismo. Foi o grande impulsionador no Porto bom da primeira parte. Conseguiu fazê-lo partindo da ala onde teria à priori menos condições para o fazer.
Na 2ª parte o motor gripa e o ritmo que tinha oferecido não é possível de replicar. O talento de Brahimi e a ajuda de Evandro ajudaram-no a esconder essa quebra.

Brahimi: Tocou os violinos de Jaime Pacheco com a nota artistica de Jorge Jesus. Mágico.
Olhei para a camisola dele e pensei várias vezes na palavra “calcanhar”.
Aprendeu com o falhanço de Lille e foi aquilo que a equipa precisava que fosse. Continua a ser o homem que vira o tornozelo à Iniesta e que agora marca livres à Zidane e assiste à Michael Laudrup.
Fez isto tudo e ainda tocou os bombos de Jaime Pacheco ganhando o respeito dos maratonistas cá de trás.

Jackson: O nosso farol. Mais comprometido do que nunca com o talento e o instinto matador de sempre. Este Homem vale mais do que se pensa. Marca muitos golos em equipas que produzem pouco ou nada.
O golo é à João Pinto. Com a mesma crença das mãos que não largavam a taça e com o pé que tinha mais à mão.


Reyes: Engolimos em seco quando ele entrou. Sustemos a respiração quando a bola lhe chega aos pés. Tememos o pior quando tem que intervir. Sentimos isto tudo sabendo que ele é bom porque pensamos que ele nunca vai “crescer”.
Eu acredito que o Reyes vai “crescer”. A competência revelada em jogos como o de hoje é o caminho para lá chegar. Esteve muito bem.

Evandro: Desde a pré-época que tenho batido na tecla do crime lesa-patria ao se equacionar se ele vai ou fica no plantel. Quem faz esse tipo de equações ou não percebe de matemática ou não vê futebol.
A única dúvida relativamente ao Evandro é a de saber se joga ou vai para o banco. É o mais cerebral dos médios, o mais equilibrador e o que já viu mais filmes.
Entrou e a diferença foi da água para o vinho. Bate à porta da titularidade.

Ricardo PEREIRA: Resolvi escrever PEREIRA com letras maiusculas. Gosto de jogadores que saibam distinguir o Hino da Champions da música oficial do Big Brother.



Ficha do jogo:

FC Porto:  Fabiano; Danilo, Maicon, Martins Indi, Alex Sandro (Reyes 39'); Casemiro (Ricardo Pereira 85'); Rúben Neves (Evandro 61'), Herrera; Brahimi,  Jackson Martínez, Oliver

Lille: Enyeama; Béria, Kjaer, Rozehnal e Souaré; Balmont, Mavuba e Gueye(Delaplace 76'); Corchia (Marcos Lopes 71'), Roux (Ryan Mendes 64')  e Origi


Golos: Brahimi (48') Jackson (68')



Por: Walter Casagrande
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