quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Champions League; Lille - FC Porto 0-1: XADREZ DE TRELA CURTA

#FCPorto #ChampionsLeague #Lille #França #Herrera #RúbenNeves


Antes de analisar o jogo relembro um parágrafo da crónica do jogo da passada 6ª feira.

“O trio de meio-campo do Porto teve tanto de engenhoso como de pueril. O Lille joga com um bicho que se chama Mavuba. Com uma motocicleta quadrada chamada Balmont. Com um lavrador como o Gueye.
Stallone, Van Damme e Schwarzeneger é capaz de ser demasiado rijo de engolir para 2 Mac Gyvers e 1 Zorro. Jogo de Champions não deve servir para experimentalismos utópicos.”

Há treinadores que se agarram a filosofias, ADN´s e outros chavões do género para se esquecerem que existe Mundo.

Eu saio sempre à rua de manga curta e não olho para a temperatura.
Eu entro no Porto pela Ponte da Arrábida e nunca ouço o trânsito.




Por trás do meu aviso de Stallones e McGyvers estava o medo que eu tinha que o Lopetegui fosse um desses. Alguém que pensasse demasiado no potencial que se tem e desvalorizasse os defeitos que existem, persistem e o contexto em que iriam ser expostos.


O mundo Portista não jogaria com 4 médios. Nós somos melhores que eles CARAGO!
Andamos a fazer caixinhas o jogo todo e devíamos era ir para cima deles com Tello e Quaresma nas alas e Brahimi no meio. Cagavam-se todos!!!
Para quê tanto medo se somos superiores?

Lopetegui não foi por aí. Treinou a equipa como o Martins Indi joga. À Patrão e sem riscos.
Trela curta para toda gente. Não é hora para explosões. Nem vai explodir o potencial que existe nem irá ficar à vista as debilidades que temos.
O Lille não nos vai apanhar com as calças na mão. Lopetegui decidiu e assim foi.
O Lille não vai ter grande espaço nas costas para nos surpreender. Lopetegui decidiu e agiu.
Se 2 Mac Gyvers e 1 Zorro não chegavam para Stallone, Van Damme e Schwarzeneger junta-se a esses três mais um Bicho.

Passeamos com o Lille pelo relvado mas sempre com garantias. O controle é nosso e eles não podem ir para longe. Isto é Champions.

No relvado a equipa aparenta jogar em 4-1-4-1.
Oliver começa sobre a esquerda e Brahimi sobre a direita. Casemiro faz de trinco e Ruben Neves acompanha Herrera mais à frente.
A estratégia é fugir à trituradora dos Stalones. A forma como o Lille entra em campo mostra que Lopetegui pensou bem. Acampam no seu meio-campo,colocam Kalou, Origi e Corgia a postos e esperam pelo tiro de partida.

O tiro de partida ocorreria quando o Porto tentasse furar pela trituradora.
O Lille mostrou que estava disposto a esperar.
Temos tempo, pareciam eles dizer. Deixa-os vir.

O Porto não foi. Lopetegui respondeu na mesma moeda.
Se vocês têm tempo nós também.E se esperássemos os 2?
Vocês esperam que nós entremos na trituradora e nós esperamos que vocês percebam que vão morrer nos blocos porque não vai haver tiro de partida.

Não nos vamos atirar para o ataque e desproteger a defesa. Não vamos entrar na trituradora.
O que vamos fazer é esperar que vocês abram um espaço.  Esperar, mas com a bola.
  




O jogo começa e anda assim. Trela curta do Porto ao Porto e trela curta do Porto ao Lille.
Lille colado aos blocos à espera do dia de São Nunca à Tarde.





Para um amante de futebol que se entedie com tacticas e estratégias o jogo é uma valente seca. Carradas de jogo passivo, centenas de passes aparentemente inuteis e dezenas de ataques que não visavam a baliza.
Hoje era para ser xadrez e não ping pong.

Na 1ª parte, Fabiano e a totalidade da equipa do Lille incluindo Enyeama são espectadores enquanto o Porto tricota, vira o jogo obrigando os trituradores a bascularem e espera que algo aconteça da cartola de Brahimi e Jackson.

O pensamento estratégico tem como risco o instinto. Há jogadores que sabem que jogar xadrez é a ordem mas não resistem ao ping pong.

Já depois do árbitro ter feito vista grossa a um penalti sobre Jackson após puxão de Basa o instinto de Casemiro e Maicon dá o tiro de partida.

Jackson remata e Enyeama defende. Saída de bola curta e Ruben Neves faz a pressão alta natural tentando incomodar o inicio da construção do Lille. Até aí tudo bem.
Ruben fica para trás e Casemiro acelera para a ajuda de forma extemporânea deixando os 4 de trás sem ninguém à frente.

O Lille entra no meio-campo do Porto só com uma barreira pela frente.
Aí nasce o segundo erro.
Maicon salta do seu lugar e vai dobrar Danilo quando Danilo ainda não tinha sido ultrapassado.
Nesse 1.º instante Martins Indi bascula para defesa central direito e Alex Sandro para defesa central esquerdo. Há uma cratera do lado direito do ataque e o esbracejar de Kalou e Corchia para a demora de Origi é revelador. “Rápido que eles caíram na esparrela.”

Origi demora agora, mas passados uns segundos consegue ultrapassar Maicon. A coisa piora porque aí Indi tem que abandonar o posto de defesa central direito ficando quase só Alex e Brahimi como os centrais de ocasião.

O Dia de São Nunca à Tarde tinha chegado. Felizmente o milagre aconteceu e a dupla de centrais improvisada (Alex e Brahimi) por culpa de Casemiro Ping e de Maicon Pong consegue incomodar Corchia que falha um golo cantado.

Fim da 1ª parte e todos pensamos: Será que vale a pena perder tempo para correr o risco de morrer num só golpe?




Lopetegui não duvida. Paciência de chinês que temos tempo.
É para continuar com Trela Curta e esperar.






Em jogos deste tipo, com o passar dos minutos o desgaste fisico e mental acaba por diminuir a densidade populacional do relvado.  Vamos ter bola, vamos procurar e vamos ter calma.
Nós a agir e a esperar. Eles a ver e a esperar. Bora ver quem desespera primeiro.

A substituição de Brahimi por Tello é mais um sinal do jogo de tabuleiro. Sem mesa mas sempre, sempre com a rede dos 4 médios.
Logo a seguir o lance do golo é divino. 4 jogadores ao mais alto nivel.
Tello em esforço a evitar de cabeça um lançamento lateral para o adversário sprintando logo a seguir como se estivesse a ver algo que ninguém percebe.
Ninguém percebe, vírgula. Ruben Neves percebe e teleguia a bola para Tello.
Enquanto a bola não sai, vai e vem, há um Potro que cavalga pelo campo fora. Para quê? Para marcar um golo estilo barriguinha do Jorge Perestrelo.

Tello continua a brilhar. Sprintando, temporizando, cruzando.
Jackson mostra o que vale e Enyeama faz o que parecia ser um milagre não fosse a barriguinha do Jorge Perestrelo.

Chega o potro e a cavalgada inútil vira lance em que “Assim até eu marcava com a minha barriguinha.”

Gente que vê à frente como Tello e Herrera, gente que pensa sempre à frente como Ruben Neves e gente que é um puto de um avançado de mão cheia. GOLO!!!!!!!!!!

Com 1-0 o Porto tenta não defender e continuar no controle. Aí nota-se que falta calo.
Falta tarimba e manhosice. O que aparenta faltar quando estamos à frente dá razão ao Trela Curta de Lopetegui. Ele sabe os miúdos que tem, sabe o longo caminho que está pela frente e percebe que nada se constroi sem segurança. Entra Evandro mas não chega.

O Lille não massacra mas sente-se no ar que se tivessem estudado o Porto tão bem como Lopetegui estudou o Lille poderiam ter pisado na ferida escondida.
Se apostam no jogo feio e directo com balões de área a área teriam condições de avançar a trituradora e ganhar a 2ª bola.
Maicon e Indi limpavam com naturalidade a 1ª mas deu sempre a sensação que a 2ª bola caía numa zona não segura. A zona central à entrada da área não foi explorada e ainda bem que não foi.





Gosto de mobilidade no trio de ataque. Quem tem por missão desequilibrar ganha com o efeito surpresa, com o inesperado. Com o oras estás tu, ora estou eu, ora estamos os dois, ora não está ninguém.




Detesto demasiada mobilidade no trio do meio. Quem tem por missão equilibrar tem que criar rotinas, tem que se alimentar da monitonia. Não podemos ter Ruben, Casemiro e Herrera a pisarem todos os terrenos. Vi Herrera a sair a 6, Ruben a 6 e a extremo, Casemiro a correr a todas.

Tem que existir estabilidade no meio para que os centrais tenham uma rede de protecção.

Isso não aconteceu e o empate podia ter caído mais por imaturidade nossa do que por mérito deles.
Estamos à frente. Como disse Lopetegui: fizemos um jogo sério.
Eu fiquei a pensar que temos um treinador sério que tem a ratice que a equipa ainda não pode ter.
Só assim a protege e só assim a pode fazer crescer. Na Champions de preferência.



Análises Individuais

FabianoMal. Teve pouco trabalho e quando foi chamado a agir deu um claro sinal de insegurança. Fora e dentro dos postes.

Danilo: Parece o veterano do grupo. É quem melhor percebe o jogo. Leva um amarelo cedo e encaixa-o com inteligência. Tenho que participar mas estou limitado.
Joga simples, joga feio mas dá o que aqui precisa. Atacou pouco porque era do seu lado que estava o médio que ou não defendia ou desajudava perdendo a bola em zonas que desequilibravam a equipa.

Maicon:  Tem as caracteristicas fisicas e técnicas para ser dos melhores. Falta-lhe o que o Danilo tem. Percebe-se pior a ele e ao jogo. Deixa que o instinto possa pôr em causa tudo o que faz e sabe fazer. Forte no 1 vs 1, autoritário no jogo áereo. Impecável não fosse o desvario da 1º parte.

Martins Indi: Se continuar neste estilo em que nunca é o melhor em campo mas nunca será o pior em campo ganha um fã. Gosto de jogadores que actuam como se fossem mineiros.
Tenho hora e meia de trabalho pela frente e bora lá pegar no batente. Parece molenga mas quando sente que é preciso dar um encostão aqui vai disto. Passa bem, é calmo e transmite confiança. O Alex deve estar nas nuvens com o Patrão do lado que joga à Patrão.

Alex Sandro:  Melhor em campo. Ter Indi ao lado ou atrás e Oliver à frente é o Euromilhões porque permitiu ao futuro lateral do escrete ser o Red Bull em campo. Tinha asas e voava de área a área. O lance em que Balmont invade confiante a grande área e leva com um Alex a ligar o DRS para o fazer comer pó é revelador.
Soube ser mais um médio de transporte e ser um dos poucos alas do jogo. Esteve em todo o lado e sempre bem. Brutal.

Casemiro: Do lote de talentos jovens do Brasil é mais estilo Alex do que Danilo. Tremendo talento, confiança suprema nas suas capacidades mas com aquela ginga brasileira que tem um entendimento do futebol muito próprio e pouco europeu.
Qualidade de passe curto, longo, rasteiro e aéreo muito acima do normal. Vira o jogo com a facilidade de quem vira frangos. Muito bom no choque e competente nas bolas divididas.
Só não o ponho nos píncaros porque quem joga à frente da defesa pode fazer isto tudo e não convencer. A palavra chave é: cultura posicional. Saber que terrenos pisar e que terrenos nunca abandonar. Tem que aprender essa vertente jogando. É titular indiscutível.

Rocket NevesTemos médios que são ou serão grandes jogadores de futebol. Ruben provou issso hoje. Este menino não passa. Teleguia. Este menino não cruza. Teleguia.
A utilização abundante do verbo teleguiar no mundo do futebol vai ser patenteada pelo Ruben Neves.
Fez um grande jogo mais à frente no terreno. Esteve em mais sitios e de forma mais intensa do que no jogo de 6ª feira. Durou mais tempo.

A análise de Casemiro e Ruben Neves faz-me a discordar com Lopetegui na ordem das peças. Casemiro é claramente mais forte no choque, na intensidade e nas bolas divididas. No capítulo do passe curto, médio e longo estão ela por ela. Na cultura posicional Ruben está à frente.
Esta análise comparativa entre os 2 leva-me a dizer que devemos posicionar os jogadores nas posições onde são melhor protegidos dos defeitos que têm.

Oliver:  Uma equipa que queira pressionar alto tem que ter Oliver. À qualidade de posse e ao critério de passe soma a supremacia face aos companheiros na forma como pressiona.
Um ser franzino mas que sabe como roubar fingindo que nunca lá chega.
Um ser franzino que sabe manter-se de pé com bola fingindo que não acabou de ser atropelado por um camião. Para mim fez um jogo enorme. Nada de muito bonito nem de relevante para o resumo na TV mas fundamental para a equipa e para ganhar o jogo.

Herrera:  Parece desenquadrado da equipa. A equipa queria calma, posse e tranquilidade mas essa língua ele não domina. É só toque e nada de galope? Passa o jogo todo dando a sensação de que é um erro de casting.
Lopetegui faz a primeira substituição e deixa-o lá ficar. Um minuto depois o galope dá sentido ao toque e faz-nos pensar porque é que um jogador com claras dificuldades no “pass precise” de Bobby Robson parece indiscutível neste Porto.
Será que não há toque sem galope? Herrera e Tello têm a resposta. Lopetegui a chave.

Brahimi: Fez um jogo fraco. Os bons pormenores em que mostrou todo o talento foram anulados pelos lances em que perde ou corre o risco de perder a bola em zonas proibidas.
Lopetegui colocou-o sobre uma ala e mesmo assim foi visivel o perigo que o argelino pode ser se algum dia lhe derem a batuta do meio-campo.
Percebe-se a titularidade porque com bola é um Iniestazinho sem tornozelos, potente mas com menos visão de jogo.
Tem que fazer mais treinos a 2 toques para largar o vicio e potenciar a equipa.

Jackson: Outro grande jogo. Está habituado e calejado a jogos destes em que tem que lutar abandonado e desesperar por serviço de qualidade. Por isso não treme, não se desconforta e além de saber jogar e esperar com o tempo,  percebe que pode ir ajudando a equipa de outras formas enquanto “as horas passam”.
No fim da partida uma imagem a reter. Olhando para os companheiros apontava para as bancadas. “Temos que lá ir agradecer”. À VICE-CAPITÃO.


Tello:  No minuto 0 ou ao minuto 60 entra sempre com uma fome doida. Aqueles segundos em que o Tello liga a tomada relembram a entrada dum touro na arena. Antes do repouso malandro é a todo gás e saiem marradas para toda a gente.
O Souaré estava habituado às rendas e ao futebol pastoso e quando lhe aparece este Touro leva uma marrada e nunca mais se levanta. 112 a caminho.
Foi protagonista de um lance que pode valer à equipa 11 milhões e que lhe pode valer um lugar no 11.

Evandro: A equipa pedia a gritos a sua entrada. Apesar da disponibilidade não teve forças para compensar a fase negativa do pós-golo. Não entrou mal mas foi menos influente do que o esperado.

Quaresma: Lopetegui foi imprudente. Bastava ver a expressão facial de RQ7 enquanto recebia as instruções ao minuto 85 para perceber que aquela entrada em nada ajudaria o Porto naquele jogo. O que importava ali era o Lille-Porto e não o futuro.
Não era este o momento para fazer testes de carácter e de personalidade porque já toda a gente sabe que o Quaresma faz parte daquele tipo de jogadores que prefere perder 2-1 e marcar um golaço do que ganhar 1-0 e jogar 5 minutos.
Quem tem este espirito não valoriza o resultado do jogo no momento em que entra.
Quem não valoriza o resultado do jogo que a equipa construiu não dá tudo pela equipa.
Apito final e passo apressado para o balneário. O capitão de equipa amuado depois de uma vitória fundamental na Champions. Lopetegui com a substituição de hoje e toda a Estrutura com a nomeação de Quaresma para capitão brincaram com o fogo. Agora aguentem!



Ficha do jogo:

FC Porto:  Fabiano; Danilo, Martins Indi, Maicon e Alex Sandro; Casemiro, Rúben Neves (Evandro 73'), Herrera; Óliver (Quaresma 87'), Jackson Martínez, Brahimi (Tello 60').

Lille: Enyeama, Béria, Kjaer, Basa e Souaré; Mavuba,  Balmont (Marcos Lopes 62') e Gueye; Corchia, Origi (Ryan Mendes 71') e Kalou (Roux 76')

Golos: Herrera (61')


Por: Walter Casagrande
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