quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Champions League; FC Porto 1 - 2 Atlético de Madrid: Harakiri!








A história deste jogo parece um daqueles filmes em que a história dá uma volta tão grande lá pelo meio, que o fim e o princípio do mesmo são completamente dissonantes. Sentimo-nos perdidos e, por vez até com vergonha, perguntamos a alguém o que aconteceu naquela cena para que o fim da película seja tão obtuso!






Primeiro, para ser rigoroso e honesto, quando olhei para o onze inicial, algo deu uma volta nas minhas entranhas. Confesso a minha total rejeição ao onze apresentado e a meu negativismo na abordagem ao jogo. Procurei no onze largura e só encontrava um Varela que nos últimos jogos não é mais que um espectro. Procurava criatividade e resignei-me em aceitar o voluntarismo do Comandante e os movimentos interiores de Josué.

Felizmente, o arranque do FC Porto no jogo provou que estava errado e que o futebol não é, de facto, uma ciência exacta. O ambiente, a motivação (onde andam estes profissionais nos jogos da liga?) e até uma dose surpreendente auto-confiança catapultaram o FC Porto para a sua melhor meia hora da temporada.

Mas algo se passou ali para o meio. Entre esta e aquela cena, onde a história levou uma volta e o fim é antagónico ao princípio. Se pudesse dar um título a este filme, colocaria: “O jogo que o Atlético não quis ganhar, mas ganhou!”. E o actor principal, digno de um Óscar da Academia, é um treinador de equipa pequena mas que está no papel da sua vida.





Primeiro, entremos na cabeça de Simeone. Dever cumprido na primeira jornada da Champions. Já tem vantagem sobre um dos clubes que disputam a qualificação e vem, agora, discutir a liderança a casa do outro. Este outro tem algo de diferente do Zenit. Somos a equipa do pote 1, logo, teoricamente, mais complicados. Ainda por cima a equipa vem de um jogo desgastante no Bernabéu, bem ganho, diga-se! Somam-se alguns lesionados, sobretudo na frente de ataque. Muito bem, isto é uma maratona e não um sprint, não perder no Dragão é um bom resultado. Plano de jogo traçado.




Agora entremos na cabeça de Paulo Fonseca. Trouxemos 3 pontos da Áustria, não interessa como. Temos dois jogos seguidos no Dragão contra as equipas que disputam o apuramento connosco. O que nos interessa? Ganhar. Ganhando estes dois jogos, não só o apuramento fica quase selado, como o primeiro lugar fica à nossa mercê.

Mas eis a primeira dissonância com a equipa de Simeone. O Atlético tem uma estrutura e modelo de jogo. Já há uma hierarquia no plantel. Já há lances estudados. Já se sabe qual o melhor onze e quem pode dar algo extra em função do adversário. No FC Porto ainda parece pré-época.








Focando no jogo, o FC Porto entra bem, até para meu (alegre) espanto. Não havia muita precisão de passe, mas o FC Porto pressionava alto e o meio campo do Atlético recuava. De repente, os avançados do Atlético nem a bola cheiravam, fruto de todo o voluntarismo do meio campo do FC Porto. O FC Porto pressionava muito, mas não criava jogo. E vou parar neste ponto. Creio que muita gente não percebeu durante o jogo a diferença entre estas duas coisas. O FC Porto pressionava, mas não criava. Não tinha largura (como poderia?!), nem muita criatividade no meio campo. Pressionávamos, abafávamos, mas faltava veneno.






O Atlético soube baixar a cabeça. Aguentar o esforço inicial portista, na tentativa de passar incólume. Baixou as linhas e tentou abrir os seus avançados nos flancos para explorar os corredores.

Mas a energia portista era imensa e enquanto as pilhas durassem ou que a ordem fosse para avançar, o FC Porto estaria por cima. Muita posse de bola, muita recuperação de bola, mas pouco futebol ofensivo. Para lá do golo, nascido de uma boa jogada que dá origem ao livre, o FC Porto só por duas vezes entrou na área do Atlético, na primeira parte. Ambas por Varela e ambas desperdiçadas (a mais flagrante no fim da primeira parte).

Dir-me-ão que o Atlético não fez melhor. Correcto. Mas a obrigação era mais nossa que deles e tenho para mim, que eles esperaram para ver até onde ia o nosso gás ou o nosso afoito.

E é aqui que a porca torce o rabo. O FC Porto mostra muita alma até ao golo de Jackson, mantém-se dominante até ao minuto 30, embora já perdendo gás, até que recua e desmorona.

Simeone percebe o ponto fraco do FC Porto. Começa a entrar no jogo, por volta do minuto 30, quando ordena a Raúl Garcia vir mais para dentro e Gabi mais para o flanco. O ex-Osasuna é muito mais físico, muito mais seguro no transporte de bola e mais dinâmico na saída para o ataque. Foi assim que Simeone meteu o pé na porta.

Mas Simeone só mete o pé na porta para que esta não feche. Nem ousa tentar abrir!

Quem lhe dá mais folga é Paulo Fonseca que, maravilhado por estar a ganhar 1-0 à equipa que havia derrotado o Real Madrid, começa o seu lento recuo da equipa. Cada vez mais distante de Jackson. Cada vez mais distante do golo.

Até ao intervalo, a equipa de Simeone aproveita para crescer e deixa a primeira parte com 3 avisos à baliza portista. O último dos quais, com Helton aos papéis, Godín ao barulho e salvo pela barra, seria um aperitivo para o que aí vinha.

A segunda parte trás um FC Porto a defender o resultado. Totalmente recuado e apático no jogo. Até que, Godín e Helton decidem refazer a cena da primeira parte, desta vez, com bola na rede do FC Porto. Estava feito o empate e entramos na fase (trágico)cómica do jogo.

Simeone satisfeito. Paulo Fonseca perdido. Simeone pronto para descansar, trabalho feito, vamos aguentar. Paulo Fonseca perdido.

Ao intervalo, já Simeone havia prescindido de Villa, optando pela entrada de Rodríguez para dar largura à equipa.






O FC Porto acusa o empate e torna-se mais nervoso no jogo. E o foco cai logo em Josué. Com um Howard Webb complacente com o Atlético mas duro com o FC Porto. A excepção acaba por ser Josué, na origem do golo empate do Atlético, safa-se do segundo amarelo. A partir daqui, Howard Webb ignora toda a pancadaria do Atlético, em particular do seu trinco, que dizem jogar com pezinhos de lã!






Paulo Fonseca não ignora o perdão de Howard Webb a Josué e trata logo de o substituir. O desconforto de Josué decorria de estar a jogar no flanco. Tal como Raúl Garcia, por exemplo, também ele muito mais faltoso no flanco do que quando ocupou uma zona central.

A decisão havia sido tomada. Paulo Fonseca retira Josué de campo e, com ele, alguma da magia que havia sido criada. Coloca Licá em jogo, na esperança de ter mais profundidade.

O FC Porto volta a ter um curto período de domínio no jogo, mas o Atlético, já ciente das manhas a meio campo e respaldado pelo não apito de Webb, volta quebrar o ímpeto portista.

O jogo encaminha-se para um empate. Simeone satisfeito, mas Paulo Ferreira decide fazer qualquer coisa. E tenta insuflar o que havia retirado: magia. Mete Quintero, mas tira Lucho. Meteu magia, tirou sustentação. Perdeu-se. Estes jogos o comandante a 8 é mandatório. A equipa parte-se e Simeone, que até estava feliz com o empate, decide tentar a sorte, já que assim o convidavam.

Povoa o seu meio campo, primeiro com a entrada de Koke para falso 9 e, pouco depois, num acto de inteligência, retira um esgotado Raul Garcia e coloca em campo um mágico: Torres.

O FC Porto jamais se aproximaria alguma vez da baliza contrária e seria sempre o Atlético mais perigoso.
Até que, ao minuto 86, mais uma infantilidade e mais um erro arbitral. Estava a reviravolta consumada num jogo que Simeone até nem fazia questão de ganhar.

Depois vem sempre o desespero. E é em momentos como estes que se descobrem no banco jogadores esquecidos, com um tal de Ghilas. Demasiado tarde. À equipa pequena, mesmo!

Merecia o Atlético ganhar este jogo? Não.

Merecia o FC Porto perder este jogo? Não.

Se a arbitragem teve influencia no resultado? Tenho quase a certeza que Turan está fora de jogo e que webb fez muita vista grossa e sarrafada do Atlético.




Tivemos uns bons trinta minutos iniciais, com os primeiros 15 de elevado nível, embora sem construção. Depois um curto período de domínio após o empate, abafado pelo harakiri de Paulo Fonseca. Primeiro, retira magia, para depois, voltar a meter, mas tirando o alicerce. Perdeu-se. E acaba em desgraça. A perder, a dois minutos do fim, tirar um central para meter um avançado centro, já não se usa. Nem em equipas pequenas. Precisavamos de controlo a meio campo ou de revitalizar um flanco e não de uma monte de jogadores lá à frente.





Análises Individuais

Helton – Helton na Champions é pato na certa. Podiam ter sido dois. Diria até que seriam gémeos, tal a semelhança. Espero que acabe por aqui o aviário. Salvou-nos de um 1-2, não nos salvou do segundo.

Danilo – Bom jogo, sobretudo no plano ofensivo, nos primeiros 15 minutos. Com o Varela a servir de rolha, nem no plano ofensivo se notabilizou na segunda parte.

Alex Sandro – Jogo muito mortiço. Tinha à sua frente o flanco mais débil do Atlético. Não tinha um extremo para marcar e Juanfran é fraquito. Nem foi sólido a defender, nem útil a atacar. Muito errático no passe.

Mangala – Mais uma vez, comido pelas suas paragens cerebrais e faltas tontas. A este nível, tudo se paga. Não é admissível ainda estar neste estado. Falta de orientação e de trabalho específico. Na marcação esteve muito bem, mas lá vem aquele lance em que não tem travão ou massa encefálica.

Otamendi – Reapareceu. Seguro e autoritário. Fez um jogo tranquilo, embora seja bem batido por Godín no empate.

Fernando – Jogaço. E só não jogou mais porque o meio campo não avançava. Sente muito a falta de um 8 capaz de fazer jogar a equipa.

Defour – Não jogou mal. Defour é a imagem deste FC Porto. É bonzinho, mas não é o suficiente. Lutou, correu, esforçou-se, mas foi por ele que o Atlético se salvou. Quando Raul Garcia caiu na sua zona, Simeone mete o pé na porta. Quando Lucho sai e Defour fica, Simeone pergunta-se se afinal, não quer ganhar o jogo.

Lucho – Voltou a uma posição que não é sua. Labutou, tentou dar o último passe ou aquele remate para golo, mas essa já não é a sua função. A espaços recuava para transportar bola, a sua vocação. Quando sai, o FC Porto perde sustentação.

Josué – Sofre muito a falso extremo. Repito-me, não tem velocidade, não tem espírito de sacrifício (vai e vem), não tem arranque. Como tal, cai num jogo faltoso que vira num perigo eminente de expulsão. Simplesmente, porque não é posição para si num grande clube. Ainda assim, saíram algumas bolas bem redondas daqueles pés e mostrou o quão fraco aquele Juanfran era. Tivéssemos nós extremo para o esgalhar!

Varela – Quinze minutos agradáveis, com vontade e estaleca. Os restantes 75 minutos foram deploráveis. Como se mantém na equipa é algo que nem Paulo Fonseca consegue explicar, com certeza! É que nem a defender ajudou!

Jackson – Golo oportuno e muita vontade de fazer a equipa chegar até si. As palavras do presidente devem ter caído bem. Depois faltou equipa. Extremos nada, criatividade nada e quando houve, não havia transporte de bola. Morreu lá na frente.


Licá – Ganha um lance ao tal Juanfran logo a abrir e saca-lhe o amarelo. E pronto. Mais nada. Zero. À Varela.

Quintero – Estamos na fase em que é arma secreta. O tal: “quando vem do banco é que faz diferença”. Aposto que ainda vai passar a falso extremo à James. Em vez de ser enquadrado e integrado o mais rapidamente possível, é mais um que anda a ser cobaia de laboratório. Para se chegar a conclusão alguma.

Ghilas – Um tipo está no banco, olha para o que Varela faz no jogo e só pode fazer uma pergunta: “que raio faço aqui?”. Parece que só conta para as sobras de Jackson ou para o desespero, como hoje. Servia para muito mais que isso. Então com a pobreza que vai nas nossas alas!




FICHA DE JOGO

FC Porto-Atlético de Madrid, 1-2
UEFA Champions League, 2.ª jornada
1 de Outubro de 2013
Estádio do Dragão, no Porto
Assistência: 33.989 espectadores

Árbitro: Howard Webb (Inglaterra)
Assistentes: Michael Mullarkey e Darren Cann
Assistentes adicionais: Michael Oliver e Michael Jones
Quarto árbitro: Stephen Child

FC PORTO: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando, Defour e Lucho (cap.); Josué, Jackson Martínez e Varela
Substituições: Josué por Licá (60m), Lucho por Quintero (68m) e Mangala por Ghilas (89m)
Não utilizados: Fabiano, Fucile, Maicon e Herrera
Treinador: Paulo Fonseca

ATLÉTICO DE MADRID: Courtois; Juanfran, Godín, Miranda e Filipe Luís; Tiago, Gabi, Raul García e Arda Turan; Villa e Baptistão
Substituições: Villa por Cristian Rodríguez (46m), Baptistão por Koke (73m) e Raúl Garcia por Torres (79m)
Não utilizados: Aranzubia, Alderweireld, Insúa e Guilavogui
Treinador: Diego Simeone

Ao intervalo: 1-0
Marcadores: Jackson (16m), Godín (58m) e Tuaran (86m)
Disciplina: Cartões amarelos a Josué (29m), Tiago (55m), Juanfran (62m) e Mangala (85m)




Análise do Treinador:

"É um resultado extremamente injusto"

“Este resultado é extremamente injusto para aquilo que o FC Porto fez e produziu. Estivemos melhor na primeira parte, mas não quebrámos o rendimento na segunda e soubemos reagir depois de sofrer o primeiro golo. Defrontámos uma grande equipa, que lidera em Espanha e que ainda não perdeu. Houve mais mérito do Atlético de Madrid do que demérito nosso”, afirmou o treinador dos Dragões, que garante a ambição de sempre para os jogos que restam nesta fase de grupos.

“Não podemos estar satisfeitos com este resultado, mas está tudo em aberto. Como sempre, o FC Porto vai entrar em qualquer jogo e em qualquer estádio para ganhar. Continuamos a depender de nós próprios e acreditamos no nosso trabalho”, concluiu Paulo Fonseca.



Por: Breogán

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