terça-feira, 21 de agosto de 2012

PAPOILAS SALTITANTES




Hoje vou falar da comunicação social e da forma como ela tenta “informar” imparcialmente os adeptos do futebol.  O que nos vendem, porque nos vendem e como nos vendem a dita informação e debate.

E escrever sobre um episódio que ilustra tudo isto ocorrido entre o Chefe de Vendas e um vendedor.
O programa Zona Mista é apresentado como um espaço de análise e comentário desportivo onde os comentadores têm total liberdade.









Vai recomeçar, desta vez com António Tadeia e Nuno Farinha. O perfil escolhido dos comentadores é a de jornalistas que confiram ao programa uma aura de credibilidade e de isenção. Quem escolhe tem a presunção de passar ao telespectador essa convicção.

Sabemos que tipo de programas são o Trio de Ataque, o Dia Seguinte e o Prolongamento. É suposto que os comentadores sejam parciais e que revelem o seu clubismo.









O programa Zona Mista visava o contrário. Era suposto que os comentadores fossem independentes sem serem parcialmente clubistas. Era essa a ideia que queriam vender ao telespectador. 
Ora, todos sabíamos que o João Gobern era benfiquista. Sabia o jornalista Carlos Daniel que o convidou, sabiam 95% dos telespectadores, sabíamos todos.

Gostando ou não do que lá se dizia e da maior ou menor capacidade que o João Gobern tinha para se comportar como o Seara ou o Júlio Machado Voz todos sabíamos que o homem era benfiquista.
Quem o escolheu sabia. Quem o escolheu deve-lhe ter pedido para se tentar comportar à sua semelhança. Já estou a ver a cena: 

“João! É possível termos clube, falar de futebol e ser imparcial. Olha para mim!”

O pobre do João dava nas vistas. Não conseguia comportar-se à semelhança do Homem que o convidou.
O Homem que o convidou é um optimo jornalista, com enorme cultura geral e, presumo eu, que tal não seja possível sem estar dotado de inteligência acima da média.

Imagino eu que, para um tipo medianamente inteligente era expectável que um Homem com o perfil do João Gobern desse nas vistas mesmo que, não querendo ser mal intencionado, de início se lhe tivesse sido formalmente pedido para não o fazer.

Um homem como o Carlos Daniel sabia que o João Gobern daria nas vistas. Sabia.







95% dos telespectadores percebia o que lá se passava mas, para a RTP, não havia problema. 95% dos telespectadores sabem qual é o clube do Pedro Ribeiro, do Toni ou do Mozer no programa Mais Futebol. Eles não o escondem, a direcção do Programa também e não é suposto que eles estejam lá na pele de analistas imparciais. Arrisco-me a dizer que eles poderiam ter a espontaneidade de festejar um golo do Benfica sem que fossem “despedidos” (as aspas não são lapso).

O pobre do João podia dar nas vistas. A continuidade da sua presença no programa indiciava que tal era recompensado. Ter ao lado um jornalista desportivo como o Bruno Prata ajudava a dar credibilidade à coisa. Nunca pareceu ser um debate entre um benfiquista e um jornalista desportivo. Era mais a discussão entre a emoção de quem dava nas vistas e o homem que queria pôr o debate mais racional. Até que……..





Até que, para mal de quem o convidou, o João que gosta e vibra com o seu benfica como um simples e normal adepto teve um gesto. Festejou um golo fundamental da sua equipa e foi apanhado pela camara.
À hora que o programa ia para o ar até podia ser recorrente esta coincidência. Só que os festejos do João, do conhecimento do Bruno, do Carlos e dos moderadores nunca apareciam.

O Carlos Daniel que sabia que ele era emocional, sabia que ele dava nas vistas com as suas opiniões pejadas de benfiquismo (quem não se lembra da boca do “eu não fujo para Espanha” própria de um Pragal Colaço) e que, arrisco-me a dizer, com ele já tinha festejado golos das “Papoilas Saltitantes” ficou sem chão.

“Não vai dar mais para aguentar!” A Mais-Valia que o João Gobern representava para a RTP num programa daquele perfil teria que acabar.

A explicação oficial dada por quem não o convidou – Nuno Santos – foi esta:
“Quebra de confiança com o espectador”. “A liberdade de cada um de nós termina quando conflitua com a de alguém.”

Que confiança pergunto eu? 95% dos telespectadores tinham a certeza que ele era benfiquista e que era nesse pele que se manifestava semana após semana através de todo o tipo de comentários. 

Um adepto de futebol festejar em OFF mas apanhado em ON conflitua com a liberdade de alguém.
Um comentador que diz em ON “Eu não fujo para Espanha” num programa supostamente independente não conflituava com a liberdade dos telespectadores.

A conclusão de tudo remete-me para um artigo de opinião do Ferreira Fernandes no Diário de Noticias.
Quem convida e depois não deu a cara quando “despede” é favorável à tese do Clubismo Encapotado.
O João Gobern foi convidado porque tinha clube e dava nas vistas e foi “despedido” no exacto momento em que os 5% que tinham dúvidas se juntaram aos 95% que sempre souberam.

Foi “despedido” porque deixou de poder representar o papel para o qual tinha sido convidado: o do Clubismo Encapotado.

Depois do “despedimento” João Gobern escreve no seu facebook uma comovente despedida. Permito-me citar o Ponto 10.

“Tendo reconhecido o erro, tendo lamentado o sucedido, há uma pessoa que me obriga a ir mais longe. Por ter apostado em mim quando nada o obrigava, por me ter brindado com este desafio e porque o capítulo final é tão murcho, resta-me pedir desculpas ao meu amigo Carlos Daniel. Garantindo-lhe que há casos em que a memória funciona mesmo.”





O Carlos apostou nele quando nada o obrigava. 
O Carlos sabia que o João era benfiquista dos 4 costados e que não o conseguia disfarçar.
O Carlos ouvia semana a semana as bocas do “Eu não fujo para Espanha.”
Ainda assim, o Carlos quando se abre um lugar pela saída do António Pedro Vasconcelos achou que o João Gobern tinha mais perfil de Zona Mista do que de Trio de Ataque.
O Carlos não imaginava que o João fosse apanhado a festejar um golo.  
Quando tudo estava a correr tão bem este ultimo capitulo, murcho, estragou tudo.






Só que, o emocional João não é burro. Ele vê à frente. Ele sabia que a memória funcionava. Tão rápido funciona que nem era preciso invoca-la. Não deu tempo para esquecimento.

O Carlos, contrafeito com o capítulo murcho, tem memória, é grato mas sabe que a partir do momento em que o seu amigo João é apanhado deixa de ter espaço no Zona Mista.
No Zona Mista não há espaço para benfiquistas declarados. Só camuflados.

Aqui o velho ditado aplica-se. Fecha-se a porta mas abre-se uma janela. Porque a memória funciona e as papoilas não saltitam só no relvado.

Imagino a conversa entre os 2:

Carlos: “ Agora que foste apanhado escusas de estar com coisas. És benfiquista e passas a encaixar num programa enquanto tal!”
João: “Passar de um lado para o outro não dá demasiado nas vistas?”
Carlos:  “És capaz de ter razão. Olha. Tive uma ideia! E se fizesses uma recauchutagem no Euro 2012?”
João: “A ideia não é má mas eu não tenho grande perfil para isso. Sabes que eu acompanho mais a bola nacional e o nosso benfica.”
Carlos: “Não faz mal. Eu falo com o António e quando for para falar do Dario Srna ou do Milan Baros ele orienta a coisa para mim. Quando for da selecção, do Paulo Bento e afins és chamado à liça. Que tal?”
João: “Devo-te tudo meu amigo Carlos. Muito obrigado.”

Esta 4ª feira, com pompa e circunstância, foi feita a passagem de testemunho. 

Não tenho metade do conhecimento do Carlos Daniel seja a nível futebolístico como a nível cultural. Ele é talvez o único jornalista português capaz de entrevistar com a mesma competência e conhecimento um escritor, um governante ou um jogador de futebol.

Ainda assim arrisco deixar um conselho:

A independência, a isenção não se demonstram só quando eu dou a cara ou quando digo que X é bom e Y é mau ou o árbitro X esteve bem ou mal.
Esse critério será demasiado redutor para qualquer inteligência.
O Vitor Serpa não transformou um histórico jornal desportivo pró-Benfica numa Benfica TV em formato panfletário à conta do que ele disse ou escreveu em editoriais.

Fê-lo à conta do critério editorial, das peças que eram ou não editadas, de quem era convidado para lá escrever ou deixar de escrever e dos temas que lá eram amplificados ou camuflados.
Fê-lo à conta duma agenda. Hoje quem vê o jornal Abola nas bancas pensa o mesmo que quando, sentado no sofá, era brindado com os comentários do Gobern ao sábado à noite.

Há, contudo, uma nuance. A agenda de quem define critérios editoriais e alinhamentos de programas numa estação pública não pode ser fruto de paixão individual.

O Carlos Daniel pode vir a ter a mesma função que o Júlio Magalhães. 
O Carlos Daniel pode ter uma paixão clubista tão ou mais forte que o Júlio Magalhães.
O Carlos Daniel não pode compatibilizar a sua paixão clubista com o cargo que exerce ao contrário do Júlio Magalhães.
O Carlos Daniel não pode transformar a RTP como o Vítor Serpa transformou a BOLA.

Quem faz escolhas nos gabinetes tem minuto a minuto a mesma exigência do que quem comenta no Grande Área.
Pode ser benfiquista mas não pode fazer a MEMÓRIA FUNCIONAR à conta dessa paixão.
O saltito que o João Gobern dá em 2 meses depois de, segundo o Director de Programação, ter atentado à liberdade do telespectador é a prova que na RTP há uma agenda.

Depois do conselho fica o recado:

Tenho a certeza que o Carlos Daniel nunca dirá em programas desportivos frases que o veículo João Gobern dizia camufladamente no Zona Mista e declaradamente no Trio de Ataque.

O respeito pela imagem imparcial que acha que granjeou não permitiria que tal ocorresse.
Só que o futebol vive-se com emoções. Nesse domínio até um bom camuflado pode ser apanhado.
E quem gosta e vibra com o futebol como ele arrisca-se a um destes dias não conseguir esconder um gesto como o do Gobern.

Por isso espero que o alinhamento do Grande Área nunca coincida com jogos do Benfica. Se há um azar e o telespectador vê a sua liberdade conflituada ficava difícil para o Carlos continuar a falar daquilo que o apaixona.
A menos que a memória deixasse de funcionar e ocorresse nova troca de papoilas no Trio de Ataque. 

P.S. Espero que o profissional da RTP que (in)voluntariamente apanhou o João Gobern e aquele gesto não tenha saltitado. Às tantas até saltitou.


Por: Walter Casagrande
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