sábado, 18 de agosto de 2012

Figuras menores




O bom soldado é aquele que nunca aspira a ser general. A frase carrega-se de uma fatalidade exasperante. Mas é verdadeira. O bom soldado faz o que tem a fazer, mas sabe que o seu nome não perdurará na história. Para ele as medalhas são uma raridade, para o general são abundância.



No xadrez o peão é a peça menos protegida e a menos preciosa. Será verdade? Permitam-me citar um dos grandes deste mundo:

“A força do peão aumenta  na proporção da diminuição do número de peças sobre o tabuleiro." – Capablanca.

No futebol a realidade é semelhante. Um plantel tem oficiais e praças. Se assim não fosse, não existiria equilíbrio nem harmonia. Se os generais empolgam as bancadas com génio, os peões trabalham para os resultados não fujam da senda das vitórias.

Bem sei que é uma opinião pessoal, mas sempre achei que um dos segredos do nosso sucesso é a forma como acarinhávamos os nossos soldados e peões. Era algo intrínseco a ser FC Porto!
As nossas vitórias dependiam disso.

A memória no futebol é muito volátil. Proponho percorrer páginas recentes da nossa história.

21 de Maio de 2003, Sevilha – O FC Porto volta às finais Europeias, 15 anos depois. Mourinho monta a sua teia para caçar a mosca de Glasgow. Dez minutos de jogo e Costinha sai por lesão. E agora? Mesmo com um 6 no banco (Tiago), Mourinho é pronto na decisão. Avança o peão. Ricardo Costa entra em campo. Um central que nunca deslumbrou o Dragão. Cumpre e o FC Porto ganha. Alguém se lembra dele nessa final?

24 de Maio de 2004, Gelsenkirchen – De volta à final da liga dos Campeões, 17 anos depois. Moutinho volta a tecer uma teia para a mosca do principado dos Grimaldi. McCarthy e Alenitchev no banco. A titular aparece Pedro Mendes. O seu papel no controlo de jogo a meio campo é decisivo. Faz os 90 minutos e é campeão Europeu. No fim dessa época, sai para o Tottenham como moeda de troca. O FC Porto, para lá de uns bons milhões, entrega ao clube inglês o passe do seu bom “soldado”. Em troca, recebe um Postiga fora de forma e bem pago.

12 de Dezembro de 2004, Yokohama – De volta ao Japão, 17 anos depois. Nuno Valente não estava disponível e Areias não era solução. Quem avança para defesa esquerdo? A solução é uma repetição de Sevilha. Ricardo Costa cerra os dentes e sofre pela equipa. O penalti decisivo, com olhar de matador, é cobrado por Pedro Emanuel. Nunca foi internacional e não era um titular absoluto no FC Porto. Pouco sobrava de Ricardo Carvalho, Jorge Costa, Pepe e Bruno Alves. Alguma vez nos falhou?

8 de Abril de 2005, Lisboa – FC Porto vai a Alvalade jogar o jogo do título. No onze aparece Jorginho. Aos 84 minutos, marca o golo da vitória. Está ganho! Em campo, já estava Adriano. O suplente de um McCarthy desejoso de ir conhecer a rainha de Inglaterra. Pouco mais de um mês depois, seria Adriano a marcar o golo que selaria a dobradinha frente ao Vitória de Setúbal.

13 de Maio de 2007, Paços de Ferreira – No ombro a ombro com a equipa de Paulo Bento, o FC Porto tem uma deslocação difícil à Mata Real. A vitória é o objectivo, mas não perder é imperioso. O jogo começa mal. O Paços ganha vantagem no marcador aos 20 minutos. O FC Porto ganha um precioso ponto. No último quarto de hora do jogo, Adriano marca o golo do empate. Um ponto precioso. Foi por essa margem que o FC Porto ganhou esse campeonato.

6 de Novembro de 2007, Porto – Frente ao Marselha, o FC Porto jogava a passagem na fase de grupos da Champions. Deste jogo perdurará o golo de Tarik. De quase dispensado a arma secreta do ano. Passagem garantida e passo decisivo para ganhar ao grupo ao Liverpool, finalista da Champions no ano anterior.

24 de Janeiro de 2009, Braga – Pedro Emanuel fazia o que podia a defesa esquerdo. Mas era por demais evidente que aquele era o ponto fraco da defesa. Em Janeiro, chega à cidade do Porto um defesa esquerdo quase desconhecido, comprado por uma ninharia em Setúbal. Aly Cissokho estreia-se, no campeonato, pelo FC Porto frente ao Braga de Jorge Jesus. O FC Porto ganha e o futuro clube de Jesus empata em Belém. O FC Porto salta para liderança e nunca mais a larga. No final do ano, Cissokho parte para Lyon por um balúrdio. Mas quanto pontos desse campeonato estão no suor de Pedro Emanuel, mesmo jogando fora de posição?


Podíamos continuar pela utilização de Sereno por Villas-Boas, numa fase em que não tinha lateral esquerdo ou lateral direito disponível. Podíamos usar o exemplo de Djalma com Vítor Pereira nos jogos de decisivos em Donetsk ou no salão de festas para o título.

Ainda não são memórias sedimentadas. São dois jogadores de saída do FC Porto. Um dia olharemos para trás, como no exercício anteriormente proposto. Um dia iremos reconhecer o valor destes jogadores.

Há jogadores para os quais o FC Porto não é porta de entrada ou trampolim para nada. Mas as bancadas não suspiram por eles. Há jogadores que não falam pelos empresários ou pelos progenitores. Mas não são os craques. Há jogadores que não usam as redes sociais para pressionarem o clube e dar matéria à comunicação social hostil. Mas não são esses que fazem parte do 11 ideal.

Soldados e generais. Peões e rainhas.


Por: Breogán
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