quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quando Domingos pôde ser “Bota de Ouro” sem ser “Bola de Prata”








Uma das muitas "habilidades" do jornal «A Bola»

Termina a época 1990/91. Domingos, oficialmente afastado da conquista da “Bola de Prata, em Portugal, poderia ter sido internacionalmente reconhecido como vencedor da “Bota de Ouro”, o prestigioso troféu instituído pelo semanário “France Football” e que, anualmente, distingue o melhor marcador europeu.










Com efeito, segundo a classificação semanalmente atribuída por aquela publicação francesa, o jogador do Futebol Clube do Porto terminou o campeonato com 25 golos marcados, exactamente o mesmo número atribuído a Rui Águas. Assim sendo, os dois futebolistas surgem empatados na classificação geral daquele troféu. Por acaso, havia pelo menos três jogadores (o turco Colak, o checoslovaco Danek e o jugoslavo Pancev) com mais tentos obtidos nos respectivos campeonatos. Se assim não fosse teríamos assistido a uma situação de enorme gozo e extremamente caricata.

Os senhores da “Bola” não atribuíam a Domingos o troféu de melhor marcador português, mas o “France Football” atribuía-lhe a “Bota de Ouro”, símbolo de melhor goleador da Europa. Seria, porventura, uma situação única na história do futebol mundial. Um jogador não consegue ser reconhecido como o melhor marcador do campeonato do seu país, mas é internacionalmente glorificado como o melhor goleador do seu continente. Isto só mesmo em Portugal.

Como é óbvio, o dito jornal entrega o troféu a quem muito lhe apetecer. Isso não impedirá nunca que, para os desportistas isentos e com suficiente independência e capacidade de visão, Domingos tivesse sido, de facto, o melhor marcador do Campeonato Nacional de futebol da I Divisão, na época 1990/91.






Estava tudo muito calmo, porque já estaria dado como adquirido que Domingos nunca conseguiria recuperar o atraso em que se encontrava. A atmosfera tornou-se densa, negra, no decorrer do ultimo jogo , frente ao Guimarães, dado que Domingos encetou uma recuperação espectacular e conseguiu quatro tentos, passando a totalizar 25 golos. Na Luz entraram em pânico. Para ultrapassar o avançado portista, Rui Águas teria de marcar três tentos, já que, em caso de igualdade, a vitória seria atribuída a Domingos.






Quando 21+4 é igual a 24!

O benfiquista conseguiu dois golos, mas pôde descansar, porque os amigos são para as ocasiões. A “Bola” já se tinha encarregado de atribuir a Semedo (jogo com o Beira Mar) um golo que fora de Domingos, pelo que tudo estava certo. Esqueceram-se, porém, não só que muita gente viu o jogo e o golo (e não apenas o jornalista do jornal lisboeta), como ignoraram o facto de a televisão ter mostrado imagens que não deixaram margens para dúvidas.



O próprio comentador da RTP, na noite de 12 de Maio de 1991, atribuiu o golo a Domingos. No final do “Domingo Desportivo”, em que é apresentada a sequência dos golos da jornada, o golo continuou a ser atribuído ao dianteiro portista e, na semana seguinte, a lista dos marcadores contabilizada pelo “Domingo Desportivo” indicava 23 golos para Rui Águas e 21 para Domingos e F. Gomes. Ninguém contestou – parece – que Domingos conseguiu quatro tentos frente ao Guimarães. Uma simples operação aritmética permite concluir que quatro, somados a 21, é igual a 25.




Mas não é. Quatro, mais 21, igual a 24, nas contas da RTP. Quem o disse, sem pestanejar, foi o apresentador do “Domingo Desportivo”,, que anunciou Rui Águas como vencedor da “Bola de Prata”, com 25 golos. Ou seja, exactamente os mesmos que conseguiu Domingos. Numa situação como esta, o regulamento é claro: será vencedor o goleador que tiver sido utilizado menos tempo. Mais um facto que jogava a favor de Domingos, porque efectuou muito menos jogos que Rui Águas. Mas, se se mantivesse a igualdade, o troféu era atribuído à equipa pior classificada. O FC Porto ficou atrás do Benfica, logo, Domingos receberia a porcaria do troféu. Uma outra hipótese de desempate era a idade dos jogadores. Mais uma vez o avançado do FC Porto estava em clara vantagem. Era muito mais novo e pode ter sido determinante. É que Águas, com a idade que tinha (31 anos), poderia não ter outra oportunidade para se classificar como melhor marcador. Domingos, felizmente, era muito novo (22 anos) e ainda teve tempo para ser o rei dos marcadores em Portugal na época 1995/96, curiosamente com o mesmo número de golos (25) que em 90/91. Com ou sem acordo do dito jornal.



Foi muito positivo, de resto, que o jogador, no final do encontro com o Guimarães, se tivesse assumido como o melhor goleador. “Estou satisfeito – disse Domingos - por ter sido o melhor marcador do Campeonato Nacional. Os meus colegas ajudaram-me muito e é com muita alegria que vivo este momento. Não é todos os dias que se chega a esta meta. Acreditei ser possível igualar o Rui Águas. Se há dúvidas sobre um anterior golo meu, não tenho culpa disso. Considero-me o autor do 1º golo ao B. Mar, rememorando a jogada, lembro-me que o Kiki foi à linha e cruzou para o primeiro poste. Eu desvio a bola e ela ainda toca na cabeça de um jogador. E entra. Mas sou eu que desvio a bola para a baliza. Não percebo como, entre 10 ou 15 jornalistas que fizeram o comentário ao desafio, só um não concedeu o tento. O que eu sei é que fui o melhor marcador do Campeonato, independentemente de “A Bola” me atribuir o golo ou não. É bom para um jovem de 22 anos, conquistar a “Bola de Prata”, se ma entregarem. Com troféu ou sem ele, é uma alegria grande para mim ser o melhor marcador. Estou muito satisfeito”.



A última jornada da época 1990/91, rendera 33 golos, quatro dos quais marcados pelo Domingos, frente ao Guimarães, e dois obtidos por Rui Águas perante o Beira Mar. Já agora a classificação final dos melhores marcadores dessa época:

1º Domingos (FC Porto)    25 golos
2º Rui Águas (Benfica)    25
3º F. Gomes (Sporting)    22
4º Ricky (E. Amaora)    15
5º Yekini (V.Setúbal    13
6º Jorge Andrade(Boavista)    13
7º Geraldão (FC Porto)    12

É grotesco mas é verdade.

Fonte: Revista dos Dragões 



Por: Nirutam
Enviar um comentário
>