terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Mourinho e o Chelsea



São muitos os que se interrogam sobre o que aconteceu com José Mourinho, o altivo, soberbo e poderoso português que chegou ao Chelsea para marcar uma era, obreiro de uma equipa desenhada para impor um domínio hegemónico. Tinham técnica, físico, velocidade e juventude, mas a viagem terminaria abruptamente. Mourinho deixou os 'blues' aliviado mas ao mesmo tempo aborrecido.

A vida de um treinador, numa grande equipa, significa ir descontando cada dia, restar as jornadas que faltam para se ir embora. Ninguém se salva, o fim aproxima-se, o tempo esgota-se, devorando até, sem contemplações, os grandes “dinossauros”.
Com José Mourinho, o que atrás foi dito, cumpre-se à risca: ninguém queima etapas mais rápido do que ele. A forma como protege as suas equipas não encontra paralelo em qualquer outro colega de profissão: enquanto os outros defendem os seus jogadores evitando conflitos, perseguindo a paz social, Mourinho sempre faz questão de carregar aos ombros todas as batalhas, provoca as lutas, chama a si a atenção do público, imprensa e adversários. Com ele ninguém questionava donde apareciam os golos de Drogba ou como Makelele conseguia superar-se. A estrela, a pressão, eram suas.






O coração do Chelsea, os Lampard, Terry, Makelele, Drogba ou Essien, também. Adoravam-no, precisavam dele. A sua partida deixou o bloco fragilizado. O Chelsea sentirá sempre a sua falta. Houve e haverá contratações, de jogadores e de treinadores, mas Mourinho só há um.

José Mourinho aposta tudo no hermetismo. União indivisível, é a palavra de ordem. Lançada para o êxito, a sua equipa não admitia agentes externos, a porta do balneário estava fechada. Era assim no FC Porto, foi assim em Londres. Mas em Inglaterra e com Abramovich, também ele ávido de protagonismo, tudo acabou. Como é óbvio, a relação entre os dois começou a deteriorar-se: os jornais falavam do português arisco, prepotente, irresistível, e não do magnata russo. Eis-nos chegados ao principio da grande queda do provocador Mourinho. Mas para se poder falar de grandes quedas tem que se falar, também, de glória.

O Chelsea de Mourinho: o contra-ataque mais rápido que vi desde que me conheço. Rigidez defensiva, controle táctico de todas as situações. E velocidade: vê-los jogar era uma experiência incrível. O 4-3-3 na sua máxima expressão: o espectáculo defensivo. Conseguir marcar um golo ao Chelsea era uma quimera, superar a distância perfeita e a sincronização entre as suas linhas era quase impossível. O domínio sobre todas as vertentes do jogo era invejado por toda a Europa, e todos os especialistas diziam que o Barça de Ronaldinho teve o azar de coincidir no tempo com uma equipa perfeita. Com o rigor a triunfar e a baliza a zero, pensava que os 'blues' levantariam o caneco da Champions League antes do que ninguém, mas não contava com outra verdade: quem com ferros mata, com ferros morre, e apareceu o Liverpool de Rafa Benítez. Não era superior, mas tiveram a sorte nos momentos determinantes. Foi o pesadelo do Chelsea.



Aquele Chelsea mantinha uma pressão asfixiante em três quartos do relvado. Todos os seus elementos tinham a noção exacta do seu papel: uma máquina. Não era o FC Porto de Mourinho, mas um “monstro”de outra dimensão. José Mourinho era, juntamente com Benítez, o melhor treinador táctico de Europa, mas com uma simplicidade de processos arrepiante. O espanhol, no Valência, perseguia o futebol total, o Chelsea de Mourinho era um “assassino” frio e calculista. Versado em encontrar o ponto mais débil do adversário, assestava punhaladas mortais. Os seus jogos eram um desfile de gestos constantes, de golpes certeiros. Era assim que ganhava facilmente em Inglaterra, foi assim que eliminaram o grande Barça de Rijkaard. Até ao dia em que lhe apareceu pela frente o Liverpool. O futebol não é precisão, não é matemática: pode-se visualizar, mas é difícil acertar, há demasiados detalhes. Que o Liverpool ganhasse a Liga dos Campeões e o Chelsea ficasse pelo caminho, ainda hoje, passados que estão mais de seis anos, era impensável.

Desde então, foram precisamente esses pequenos detalhes que “atraiçoaram” Mourinho. Benítez foi Campeão Europeu com Traoré a lateral, Mourinho não foi capaz de o ser com Asier del Horno. O nascimento da estrela Messi afundou o Chelsea no ano seguinte: um erro na política de contratações, trazer o basco para ser titular, fê-lo tropeçar nos oitavos de final. A partir daí, o Chelsea, nunca mais foi o mesmo.









A chegada do maior troféu da UEFA a Stamford Bridge, era, mais do que nunca, uma dolorosa miragem e a contagem decrescente para Mourinho tinha começado. A agressividade verbal contra Messi, a famosa acusação de teatro, não agradou a Abramovich, nem a Peter Kenyon. Começaram a afastar-se de Mourinho: tinham-lhe posto demasiado dinheiro nas mãos, demasiadas contratações, para se deixarem cegar com a cortina de fumo do treinador português. Chega o Verão seguinte e a obsessão comum de Roman e Mourinho (pelo êxito) bifurcou-se: cada um escolheu o seu caminho. Abramovich queria Roberto Carlos, era tentado por Ballack, precisava do seu grande amigo Shevchenko. Mourinho não queria a nenhum dos três, talvez o alemão, apesar de temer que sua chegada prejudicasse Lampard e alterasse o equilíbrio do balneário. Conseguiu trocar Roberto Carlos por Ashley Cole e teve que “engolir” o ucraniano. Qualquer tentativa de política salarial saltou pelos ares, o controle e o hermetismo de Mourinho foram postos em causa, a unidade começou a apodrecer. Sheva era o menino bonito de Roman, a sua amizade com o Big Boss era olhada com receio por todos os colegas, que o acusavam de fazer chegar as suas vidas privadas e as borgas, aos ouvidos da direcção.





Abramovich queria a Champions. Mourinho também, mas tinha que esmagar o Barcelona. Montou uma equipa com esse objectivo, mudou o sistema procurando um férreo 4-4-2, que tanto incomoda(va) os catalães. Desde que o eliminaram, devolvendo-lhe a moeda do ano anterior, a sua obsessão foi passar por cima dos “azulgrana”. Quis o destino que o sorteio os colocasse frente a frente na fase de grupos, o que, como é evidente, entusiasmou o setubalense: a desforra estava a chegar. É a vingança que alimenta a sua grandeza, é a sede de desforra o que faz de Mourinho um vencedor.

Com uma equipa galáctica monta o tal 4-4-2, mas tem problemas para jogar pelas alas e perde a velocidade supersónica no contra-ataque. Atacam todos pelo centro, aumenta a posse de bola, mas o Chelsea transforma-se numa equipa emperrada, aborrecida, tosca. Em muitas fases das partidas, os jogadores parecem não saber o que lhes é proposto fazer. As vitórias começam a aparecer através de duas opções: a triangulação curta pelo centro, com entrada na segunda linha, e a estratégia das bolas paradas, onde Terry é fundamental. Os magros resultados de 1-0 sucedem-se. Os adversários já não caem no tapete por KO, e acreditam num bom resultado até ao último minuto. Os adeptos contestam. As vitórias são sofridas.
O Chelsea perde critério, identidade. Lançamentos longos para Drogba à procura da segunda jogada. Demasiado limitado para o investimento feito, muitos milhões mas pouco jogo. Algo que não se admite com semelhante plantel, nem com aquele treinador.





Para compor o ramalhete chegam as lesões. Mourinho pede urgentemente reforços em Dezembro de 2006. Mais duas frentes de batalha: a procura de reforços e a “bomba” Shevchenko que, à frente dos jornalistas, afirma estar pronto para se ir embora. Um mês mais tarde não só não se retracta como continua a remexer na ferida aberta, afirmando ser "o bode expiatório”, e sentir-se atacado por todos os lados. Uma situação que não pode ser consentida nem pelo treinador, nem pelos colegas, mas Andrei tem o respaldo de Abramovich e isso em Stamford Bridge conta e muito. A guerra está aberta e Roman puxa pela sua grande arma: o dinheiro. Fecha a torneira a Mourinho, as contratações não chegam, as baixas de Terry, R. Carvalho e Cech não são colmatadas. Mourinho lança nomes para a mesa: Buffon, inclusive Trezeguet para reforçar o ataque... mas nada.





O clube já está dividido em dois grupos: o “coração” do balneário, com Mourinho, e “os russos”. Peter Kenyon navega em duas águas, Ballack está desfasado, não se integra na equipa e não tem o protagonismo que necessita, com demasiadas obrigações defensivas que não são do seu agrado. Um “gigante” Lampard sacrifica-se por ele, mas não chega. Drogba lança achas para a fogueira, quando pede a Shevchenko, que pense mais na equipa. Mourinho, orgulhoso dos seus favoritos, defende-os publicamente quando Terry, Lampard ou Drogba negoceiam as respectivas renovações: "Estes são os meus homens", diz Mourinho. O multimilionário divórcio de Abramovich é mais uma pedra no caminho.

Naquela altura, o russo decide deixar de se sentar na tribuna presidencial. Mourinho rompe relações com Frank Arnesen, o dinamarquês encarregado de controlar as promessas mundiais. A equipa entra em queda livre e os grandes títulos começam a fugir por entre os dedos. As lesões continuam, os inimigos de Mourinho crescem. Mourinho já não quer nada que tenha a ver com Abramovich, e novamente, como grande provocador que é, desafia o patrão através da imprensa com estas palavras: "Se me despedes receberei uma indemnização milionária. Viverei como um rei o resto da minha vida. Não tenho nada a perder".

Termina a temporada e Mourinho não quer Shevchenko e Ballack no clube. O primeiro tem que ser substituído pelo emprestado Hernán Crespo: Mourinho diz que o jogador faz parte dos quadros do Chelsea e que precisa de um goleador. Outros nomes: Daniel Alves, Alex, outra vez Buffon, Malouda. E o objectivo número um para o meio-campo: Deco. Um novo Chelsea. Mas Mourinho está distraído, a guerra afasta-o do futebol e se não pensa em futebol não é ninguém. Esquece-se que a equipa terá um problema sério quando chegue a Taça de África. Continua sem conseguir dar uma solução ao jogo pelas laterais. Quer voltar ao 4-3-3, onde Ballack não tem lugar e Shevchenko idem aspas. Tic tac, tic tac... aproxima-se o fim.

Abramovich continua a movimentar-se para encher o balneário com gente da sua confiança. O israelita Avram Grant é o seu penúltimo amigo a aterrar e o novo treinador. A sua carreira não parece justificá-lo: treinou todos os Maccabis conhecidos e desconhecidos, foi seleccionador de Israel... e pouco mais. Muito precoce, com 17 anos, já treinava camadas jovens, mas carece de projecção e experiência internacional que justifiquem a sua contratação. Chega ao Chelsea como director técnico, hierarquicamente abaixo de Kenyon... mas é para acompanhar a equipa, metido com calçadeira para controlar Mourinho. Um espião.

Pré temporada da época 2007/2008, e as primeiras chispas em Los Angeles: Mourinho diz que o contrato de Grant é claro quanto às suas funções e que para ele isso não constitui nenhuma preocupação. Mas o desgaste é terrível, o ambiente irrespirável, e, em mais um passo em direcção à guerra absoluta, Mourinho deixa Shevchenko fora da equipa. A 6 de Setembro Sheva diz que não entende o porquê de Mourinho não querer que ele jogue. O treinador diz que Shevchenko está lesionado, mas o ucraniano joga pela sua selecção. Caso Ballack: o Chelsea tem de entregar a lista com os jogadores que participarão na Champions League. Mourinho inclui nessa lista mais jogadores de que aqueles que são permitidos, sublinhando os intocáveis. Kenyon tem uma lista que não cumpre os requisitos da UEFA e Ballack, que nesse momento está lesionado, fica de fora. O comboio do despedimento avança a todo o vapor. Através de terceiras pessoas, nunca cara a cara mas por meio de mensagens encobertas, Abramovich ameaça o seu treinador com despedir os seus fiéis colaboradores Baltemar Brito, Rui Farias e André Villas-Boas. Não o fará com Steve Clarke (o escocês que juntamente com Grant acabou por treinar a equipa) que é outra das “toupeiras” de Abramovich no corpo técnico. Mourinho sente o seu poder enfraquecer, o futebol da equipa não ajuda, afoga-se, lentamente. Continua a ser difícil de bater, mas está em franca decadência.








Tudo acaba no dia 18 de Setembro de 2007, num jogo a contar para a 1ª jornada da Liga dos Campeões: Abramovich impõe Shevchenko no onze titular, o Rosenborg mostra-se um osso muito duro de roer, em Stamford Bridge e, durante muitos minutos, consegue mesmo manter-se (0-1) na frente do marcador. Findo o jogo, que termina empatado 1-1 com o golo do Chelsea a surgir, ironicamente, dos pés de Shevchenko, Mourinho afirma que o resultado justo teria siso o 7-1! Gasolina para o incêndio, procura a saída imediata pois sabe que o seu crédito está esgotado. Um gabinete de crise, formado por Peter Kenyon, Roman Abramovich, Eugene Tenembaun (mão direita do russo) e Bruce Bucks, presidente honorário do clube, decide que Mourinho seja despedido.





Nesta passagem de Mourinho por Inglaterra, ficará sempre na memória de todos a metodologia de treino, os seus ensinamentos tácticos, os seus contra-ataques furiosos e a ira desatada e contundente do seu primeiro Chelsea. Serão sempre lembradas as suas variações da defesa à zona para marcar Crouch, o seu excepcional trabalho de estratégia. Desde os tempos de Cruyff, que ninguém tinha sido tão inteligente a manobrar e controlar a imprensa em benefício próprio e da equipa. Mestre entre bastidores, mago das cortinas de fumo e único dentro e fora do campo até Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, se rendeu à sua figura, na hora do adeus ao futebol inglês: "Vai-se embora uma das grandes personalidades deste desporto". 

Por: Nirutam
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