terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Os divinos favores




Desde há muito tempo que uma certa agremiação da Segunda Circular, constrói a sua identidade sobre a impaciente (e setressada) convicção de que lhe devem alguma coisa – títulos - que, por um discutível desígnio divino, lhe pertencem. O FC PORTO, no pólo oposto, vive os seus triunfos como milagres. E, para os tornar realidades terrenas, luta para que o triunfo não desgaste a ilusão que precisa para continuar a ser competitivo. Dito de outra maneira: quando o "mais grande" clube da Segunda Circular ganha, é dado a entender que se fez justiça (divina), se o mesmo acontece quando o FC PORTO ganha (ou empata), assiste-se a despudoradas tentativas de demonstrar que o resultado é um roubo ou fruto de uma conspiração de malvados hereges.




Afortunadamente, o futebol é blasfemo e ímpio. Lembro, por exemplo, um episódio ocorrido na época passada, quando André Villas-Boas disse uma quantas verdades sobre o catedrático treinador de um certo clube da Segunda Circular, os jornalistas transgrediram a sua deontologia e atacaram-no, mais pela rivalidade desportiva do que mediática. Não entendem, ou não querem que, quer seja na Segunda Circular ou no Porto, contra a Académica o contra o Sevilha, no campo o na sala de imprensa, o erro ou a derrota, devem ser entendidos como regras do jogo e não como delitos tipificados por um código mediático e cada vez mais inquisitório, anti-desportivo e mentalmente desequilibrado.






Lamentavelmente, a competição desportiva continua envenenada no contexto mediático. Qualquer declaração de alguém ligado ao FC PORTO, por muito fútil que seja, alimenta uma hostilidade que responde a modelos diferentes, consoante o nome do clube envolvido. Tendo visto todos os jogos do FC PORTO e alguns de um certo clube da Segunda Circular, nos últimos tempos, sou levado a concluir que existe uma divergência religiosa entre ambos.






Quando a pessoa mais séria e impoluta deste país anunciou aos quatro ventos, com pompa e circunstância, que ia evangelizar o planeta e galáxias circundantes com a causa de um determinado clube da Segunda Circular, estava a aplicar uma estratégia “católica”. Qual herdeiro de uma dádiva faraónica, esse mesmo clube da Segunda Circular parece que vive escravizado pela sua (pretensa) devoção a uma grandeza divina que, tal como o novo “catolicismo” anunciado, desdenha, por falta de sacrifício e de pureza vocacional, o dia-a-dia do trabalho e a honestidade como caminhos da virtude cristã.



Pelo seu lado, o FC PORTO, esse demónio que devia ser excomungado, interiorizou os valores (“protestantes”, como oposição à estratégia “católica) do seu fundador e dos seus profetas mais pragmáticos (José Maria Pedroto) e criativos (Jorge Nuno Pinto da Costa). A opinião reinante é a de que se pode salvar a alma trabalhando muito e correndo mais. Com a tranquilidade dos êxitos obtém-se, normalmente, como resultado (quando todos se esforçam, seja em que actividade for, e por muito insignificante que pareça) o passaporte para a glória. Evitando-se, assim, derramamentos de idolatria e, a partir do compromisso individual, fortalece-se a identidade colectiva.

 Resultado: o céu deixa de ser uma sala VIP e abre as portas aos que, a partir da humildade e perseverança, trabalham não tanto para o alcançar mas sim para o merecer.




Por: Nirutam

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