sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O " Incrível" Hulk






A ideia de escrever uma crónica sobre o Hulk nasce de um anúncio televisivo.
Estava em casa a fazer zapping e no meio duma publicidade vi um anúncio da IZIBUILD.
Pensei para mim mesmo. É ISTO! É ISTO que o HULK não pode ser. 














“Gostaria que ninguém pagasse a cláusula”.


Esta frase foi o soundbyte da entrevista de Pinto da Costa ao Jornal de Noticias.
Este tipo de postura inflexível é óptima para sedimentar a fama de duro negociador mas é, objectivamente, uma mentira.

Não há ninguém na SAD que não gostasse que a cláusula seja activada.
Digo mais. Não há  ninguém na SAD que acredite que alguma vez ela venha a ser activada.
O Hulk neste momento não vale nem 100, nem 90, nem 80, nem 70.

Realço o neste momento porque ele tem potencial para rasgar a barreira dos 50 milhões de Euros.
A diferença entre o Hulk que nos chegou às mãos e o de agora é mais na forma como está mais disciplinado, menos egoísta e mais responsabilizado.


Hoje é muito melhor do que há 3 anos porque encontrou o seu papel na equipa, sabe representá-lo e perde-se menos com pormaiores disciplinares do jogo.
Não me parece que seja ainda um produto acabado.
Não me parece sequer que já tenha atingido o auge da sua carreira. Se atingiu vai ficar a faltar algo. 






Pinto da Costa compara-o muitas vezes a Cristiano Ronaldo.
A comparação é  feliz porque o estilo de jogo de ambos é similar.
Um e outro são uma moeda em que a face da dimensão física rivaliza com a do talento natural.
Um e outro são praticamente imparáveis quando embalados. Um e outro são paráveis quando desperdiçam o embalo.

O Hulk hoje em dia é a estrela da companhia. Qual estrela da NBA, sente que quando as coisas estão difíceis é ele que tem que resolver e é a ele que a bola tem que ser dada.
Mantendo a comparação basquetebolista importa esclarecer que o Hulk não pode ser base.





A ele não se pode dar a bola. A ele tem que se dizer: “Vai buscá-la”.
Ao nosso filho nós damos a bola. Ao nosso cão atiramos: “Vai buscá-la”


O Hulk é um animal (no bom sentido). Tem que ser posto a correr.
Para chegar um dia aos 60,70 e por aí acima não lhe cabe a ele pegar na bola fintar 2 ou 3 e metê-la lá dentro. Isso é coisa de Messi não de Hulk ou Cristiano Ronaldo.
O Hulk pode ter 2,3, ou 4 à frente e passar por eles sem que o tenha que fazer com a bola nos pés. Havendo espaço nas costas ponham o Hulk a correr sem bola, deixem-no embalar e não há 2, 3 ou 4 que cheguem lá primeiro.

Se o Hulk joga em corrida sem ter que começar a passo é intratável.
O golo que ele marca em Moscovo ao Spartak ilustra essa evidência. 
O problema do estilo de jogo do Hulk coloca-se quando joga na sua posição natural.
Hoje em dia o problema é outro e mais grave. Querem fazer dele poste.
Ora, se o Hulk não é base, poste muito menos.

Pior do que dar o Hulk o papel de organizador é o de espectador.
Tirar relvado ao Hulk é como comprar um Ferrari e ir viver para a ilha do Corvo com ele.

O Hulk só pode ser 9 no Porto em 1 de 3 circunstâncias:

- Todos os pontas de lança estarem lesionados ou, se disponíveis, serem medíocres (não é o caso)
- No decorrer do jogo o Porto fica reduzido a 10 (Exemplo: Besiktas – Porto)
- O Porto encare uma partida com a convicção que vai ter pouca bola e que é inferior ao adversário (Exemplo: Barcelona – Porto)  




Há anos que o modelo de jogo do Porto é o 4-3-3.
Jogamos com 2 extremos, o que possibilita uma melhor ocupação de todos os espaços do terreno.
A vantagem deste modelo advém da coerência do mesmo. Há lugar a dinâmicas como a do Álvaro a fazer o corredor ou dos 2 médios poderem ter papéis mais ofensivos num jogo ou mais defensivos noutro sem que se ponha em causa o dispositivo táctico da equipa.





Nas linhas da equipa há 2 peças centrais solitárias. Fundamentais.

Se o Rolando tem o seu parceiro e o Moutinho também na linha do Fernando é só  ele.
Na linha do 9 também.

O modelo 4-3-3 albergando dinâmica e estimulando a polivalência precisa de coerência e de um fio condutor.

Essa coerência consegue-se pela exigência do 6 e do 9 serem jogadores mais posicionais. Um dos defeitos do Kleber quando aparece a titular no Porto foi a excessiva vontade que o levava a correr a tudo e a todos e a querer desposicionar-se tamanha era a fome de bola.
Um 6 e um 9 têm que ser pacientes, mordedores.
Têm que ser tão bons com bola como sem ela. Não é suposto nem desejável que ganhem as estatísticas de quilómetros corridos.
Não é suposto que sofram quando se isolam do jogo. Têm é que estar prontos para actuar.
São os únicos que podem tocar na bola residualmente e serem dos melhores em campo.

A forma como o Moutinho defende ou pressiona é em função de quem ele sabe que está atrás. Se “conduz” o adversário driblador para a ratoeira Fernando ou se o convida a ir para ala.
As opções que o Álvaro tem quando sobe são maiores se há a noção de um 9 posicional.

O cruzamento atrasado não deve ser um Plano A sem alternativa.

Os 6, como o 9 são referências no nosso modelo de jogo. São pilares da nossa casa. 
O Hulk nasceu para participar no jogo. Para desiquilibrar o jogo.
Para dar golos ao Varela como nos jogos com o Benfica e Braga no Dragão.
Para dar golos ao Falcao como no jogo com o Villareal.
Não nasceu para ser paciente. Para sofrer. Para estar sem bola 5 minutos e quando ela chega a devolver de pronto para se reposicionar no habitat do ponta de lança.
Colocar o Hulk a 9 no modelo Porto 4-3-3 é achar que o Red Bull do Vettel ganha o Rali da Falperra.
É desperdiçar a possibilidade de rentabilizar estratosfericamente o passe de um talento.
É sonegar à equipa, nos 90 minutos uma mais-valia fortíssima. 







Quando um dia algum comentador iluminado se lembrou de dizer que jogar sem avançado era óptimo porque tirava as referências aos centrais nunca imaginou que essa frase perduraria pelos tempos. É utilizada hoje de forma massiva sempre que se pretende explicar o inexplicável. 
Se o Porto tem ganho em Coimbra no jogo da taça algum comentador se teria lembrado de inventar uma nova máxima: “Não rematar à baliza na 1ª parte é positivo porque o Guarda-Redes adversário é apanhado a frio na 2ª”
  






Pergunta ingénua: Será que um modelo de jogo de anos, maduro não sofre com a perda dessa referência? 


Será que referência por referência somos nós que ficamos a perder?

A perturbação no jogo do Igor Pita, do João Guilherme e afins por falta de referência compensa a perturbação por ausência de referência no jogo do Belluschi, do James, do Alvaro? No jogo do Porto? 

Eu se jogar xadrez com o Kasparov não me importo de perder a minha Rainha se ele perder a dele. Não me importo de perder as Torres, os Bispos e os Cavalos se ele também ficar sem eles.
Sou capaz de eliminar todas as minhas referências ao limite. Fica um Rei para cada um.
Faço-o porque a politica de terra queimada me convém.
Quanto mais caótico e desorganizado for o jogo melhor para mim. Porque sou mais fraco e porque quero desestruturar a força dele. 
Sem ser crente acredito que é possível desorganizar as defesas adversárias sem que isso se faça à custa da nossa própria desorganização.

Já tivemos experiências repetidas nesta época que demonstram que os adversários ganham com anaquias tácticas. Com a desestruturação do modelo.

O 6 móvel em que o Fernando era dispensável morreu. Bendita morte. 





Sábado vamos jogar com o Hulk a 9. É óptimo porque os centrais do Sporting não têm pernas?
Só é óptimo se o Domingos for burro. Ele não vai jogar com a equipa tão subida como tão bem fez na Luz. Ele sabe onde o Hulk é perigoso e o Cardozo não.
Eu preferia ver o Hulk a demolir pela ala (lembram-se daquele golo na Taça?).
A passar por cima do Insua e cortar a direito na direcção do americano que não saberia se ficava com a “referência” Kleber ou se ia apagar o incêndio Hulk. 



O Hulk é um animal. Tem um motor imenso que não pode ser enclausurado em meia dúzia de metros quadrados com uma cerca à volta. 



Percebem o anúncio?


Por: Walter Casagrande
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