sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Chiclete




Existem, neste momento, mil e uma razões para se dizer que Vítor Pereira não pode ser treinador do Futebol Clube do Porto. Algumas são legítimas, outras nem por isso.

O nosso treinador teve ainda há pouco tempo declarações interessantes sobre as quais quero reflectir. 

“Não se pode liderar uma equipa segundo o princípio da chiclete. Colocamos um atleta a jogar, ele corresponde e depois, porque tínhamos outro disponível e o sabor acabou, pomos o outro a jogar. (…) 
 (…) Os jogadores não são chicletes para utilizar e deitar fora. Só porque aparece outra com sabor total, não deito uma fora e uso a outra. É muito fácil dar lições a partir de fora, mas cá dentro há homens que é preciso liderar, motivar e envolver. As coisas são diferentes.”




Ora bem, eu quando estou com uma chiclete na boca, se ela perde o sabor, deito-a fora. Não crio falsas expectativas, sob a possibilidade de me vir a arrepender.

Tem que se ser coerente e, principalmente, saber o que se dizer, quando se dizer e como se dizer. 
Como o próprio o diz, é preciso “liderar, motivar e envolver” os jogadores. Um grande treinador é um grande manipulador de emoções, de sentimentos dentro e fora no balneário. Conhece as virtudes físicas dos jogadores e apela às mentais como ninguém.



A 1ª falta de coerência surgiu aquando da sua afirmação, em que diz que sabe que o James rende mais a 10. Vá-se lá saber porquê, joga a extremo.

Seguidamente coloca, mal eles chegaram, de início o Lucho e o Janko, relegando para o banco o Defour e o Kléber e profere estas declarações que vieram no contexto da hipótese James em detrimento do Varela, antes do 1º jogo com o City.



Não é que não concorde com as alterações:

- A 1ª deu mais imprevisibilidade ao nosso meio-campo, que ainda podia ser maior se o nosso treinador se ouvisse a si próprio. Uma coisa também é verdade: não podemos jogar com 4 médios.   

Solução: Jogarmos como nos primeiros 25 minutos do jogo com os Citizens, complementando o esquema com um ponta-de-lança digno de seu nome. O Kléber, por exemplo.  
O James a descair mais para o meio e o Hulk mais para a ala, além de confundir marcações, dá outra fluidez ao nosso esquema táctico fazendo chegar mais bolas ao avançado. Bolas em condições.

Isto tudo só é possível, porque temos, actualmente, o melhor 6 da Europa e um box-to-box que lhe dá um apoio fenomenal. Quer pelo meio, quer pelas laterais, para evitar descompensações. Vocês sabem de quem eu estou a falar.  


- A 2ª foi quase por obrigação. O Kléber estava a ser completamente massacrado e não é com assobios que ele vai lá, que acontece o clique. Aquele clique que o Maicon fez agora. Aquele que o Falcao e o Lisandro fizeram.
O Janko para já tudo o que faz, é bem feito. Faça golo ou não. 
É por isso, que o Kléber vai ter que ir entrando aos poucos, preferencialmente se já tivermos a jogar futebol durante 90 minutos. Ele vai explodir certamente. É impossível adivinhar-se o momento do clique, mas com ajuda certa quer do público, quer do treinador, o “cronómetro” consegue ser reduzido.

Para que tivéssemos uma mínima hipótese de ir discutir o jogo a Manchester, o Kléber tinha que jogar. Era prioritariamente prioritário.







Quantas jogadas o Hulk conseguiu realizar pela ala, com consequente cruzamento para a pequena área? Quantas vezes os portentosos Lucho/Moutinho abriram espaços pelo meio à espera da desmarcação final do avançado centro? Quantas, quantas!!!
Se já com este 11 realizamos uma boa exibição, o que não seria com uma referência na área. Mas agora é tarde demais e apesar de termos perdido a eliminatória, sinceramente, ganhamos uma equipa.






O Varela por muito bom rapaz que seja, por muito esforçado que seja, nunca pode desempenhar o papel do James durante os tais galopantes 25 minutos do jogo com o City. (E se é assim que jogamos melhor, porque não jogar sempre desta maneira?)
Jogou na posição habitual do Hulk, que descaiu para a posição “9”. Porque aquilo não é um 9 puro, um Janko, um Kléber, um Falcao. 
A função do Hulk no centro do terreno foi como a de um perdigueiro na ajuda ao caçador. Abrir o terreno necessário para que o objectivo se cumpra. Massacrar os defesas dos ingleses para que se abra um ínfimo espaço aproveitado pelos lançamentos do Lucho/James ou pelas incursões no ataque do Moutinho. 


Agora, nesta última jornada que nos devolveu um certo ânimo (que diga-se, estávamos a precisar!), apesar do tranquilo triunfo em terras sadinas não posso deixar de denotar mais um indício que me deixa algo preocupado.        

Porventura o único jogador que teve durante este ano alguma evolução – ganhou muita confiança aquando da sua estadia em terrenos não conhecidos -, o Maicon estava a revelar-se um central seguro, veloz e preparado para dar o salto exibicional.
No jogo com o Setúbal, o nosso treinador decidiu apostar (novamente) no Otamendi que se tem revelado algo fraco nas antecipações e na leitura de jogo (quando e como fazer falta). A léguas do Rolando, Maicon e Mangala. Mas a léguas!

Espero que tenha sido só uma rotatividade ocasional, porque estamos a entrar num período onde todos os jogos são umas finais.




Fazendo outra retrospectiva, a chiclete podia servir de referência ao próprio Vítor Pereira. Uma espécie de defesa metafórica. 
Ele sabe que tem o lugar em risco, que as críticas vão se acumulando e, por mais que sacuda, não se consegue ver livre delas. Por isso, defende-se a si e aos jogadores, referindo apenas os segundos. Não falo disto como um acto de cobardia, nada disso.
É apenas um sinal da enorme pressão que um treinador do Porto se sujeita durante todos os dias.

Mais: Este último fim-de-semana, por ironia do destino, trouxe mais uma oportunidade ao nosso treinador de fazer algo da época, de ficar na história do clube. O caminho é difícil, mas não impossível.



Estamos fora da Europa, mas não com a época perdida. Tirar ilações positivas desta derrota, reunir as nossas “inner strength” e lutar, lutar, lutar!

O próximo jogo é com o Feirense e não com o Benfica. Cerrar fileiras para este jogo, que agora é o mais importante.

Sê coerente, sê incisivo. Não compliques o que não é complicado.


O nosso caminho é a vitória e não a rendição. 




Por: Dragão 14
Enviar um comentário
>