quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Liga Europa, Manchester City 4 - 0 FC Porto




Quem mente? O resultado ou Vítor Pereira? Vítor Pereira diz que é o resultado. O resultado, mesmo não opinando, diz que é Vítor Pereira. Poderão estar ambos a mentir? E se sim, quem mente mais mente?

Comecemos pelo resultado. Pode ser classificado como exagerado, hiperbólico e opulento, mas não mente. Pode ser chamado de cínico, já que reflecte aproveitamento máximo do Manchester City de todas as nossas debilidades. Das poucas provocadas pelo Manchester City e das muitas autoinfligidas pelo FC Porto. Ainda assim, não mente. É um resultado fanfarrão? Será, mas fanfarronices à parte, mais golo, menos golo, não mente.





E Vítor Pereira? Esse mente! Começa a mentir de véspera quando afirma: “Vamos procurar jogar sem inventar, fazendo o nosso jogo. Sem fórmulas mágicas, mas com a consistência do nosso trabalho”. Mentira. Inventou, reinventou e não resistiu a nova tentativa alquímica de arranjar uma solução para um problema que só existe na sua cabeça:

Reinventa Maicon a defesa direito, como consequência, reinventa a dupla Rolado e Otamendi. Se Meyong já é difícil de parar, Kun e amigos, não serão mais fáceis. O ressurgir de Sapunaru em Setúbal é arquivado.

Reinventa um 10 posicional, alguém que acelera pelo passe, mas não pelo movimento. O ideal para a dupla de cães de guarda que o Manchester City estaciona à frente da sua defesa.

Inventa James a falso extremo no baptismo em competições europeias de Alex Sandro. Num jogo em que o brasileiro teria pela frente dois jogadores com muitos quilómetros de liga Inglesa e Francesa (Nasri) e liga Inglesa e Espanhola (Silva). Alex Sandro, que mal ainda começou na liga Portuguesa, não poderia contar com James para o ajudar na labuta defensiva, nem no esticar jogo pelo seu flanco e manter Micah Richards em sentido. Vítor Pereira, quando disse que sabia que James não era extremo, mentiu ou disse a verdade?

Decidido na transformação de um qualquer extremo em ponta-de-lança, tal alquimista, Vítor Pereira volta para os vapores da sua retorna e destila Varela na posição 9. Como se a posição 9 não tivesse uma solução no plantel. Nem ficou com o ouro desejado, nem com o latão original, mas com vulgar carvão. Nega à equipa alguém que marque presença na área do Manchester City. Alguém que incomode os corpulentos centrais do Manchester City e que dispute com eles os lances ombro a ombro. Ao mesmo tempo, reza a extrema-unção a Kléber, que agora vê até Varela nas suas zonas de acção. Opções de pastilha elástica.








Mente durante o jogo. Enquanto Mancini mete verdade no jogo, Vítor Pereira mente-lhe. Não dá à equipa o que ela precisa, nem a ajuda a encontrar a melhor opção nem para o momento, nem para o futuro.
Só espero que não tenha mentido, também, no fim, quando afirma: “vamos já no domingo fazer pela vida e pelo Campeonato, que é o nosso grande objectivo”. É que eu lembro-me do que aconteceu em Aveiro frente ao Feirense. Onde o resultado também não foi mentira nenhuma.

Focando o jogo. Como começou, até parece mentira. Mas sim, aos trinta segundos de jogo já estava 1-0. Acontece, dirão alguns. Ao FC Porto acontece quase sempre. Esse é que é o problema. A oferta de golos nos jogos grandes europeus, sobretudo em solo inglês, desafia a lógica ou a compreensão. Já deixou de ser uma curiosidade, mas a ser um facto. Um facto que precisa de solução.







Paremos no minuto 1 e vejamos o jogo pelos olhos do Manchester City. No Porto, vão a perder para o intervalo. Saltam para a segunda parte e apanham um adversário que abdica do ataque e tenta segurar-se a um magro 1-0. Não só isso, como, logo a seguir, oferece um auto-golo. Já com a eliminatória a seu favor e jogando fora, é o Manchester City que mais tenta chegar à vantagem. Porfiam e conseguem-no a 5 minutos do fim. Saem do Sá Carneiro com dois golos fora para gerir e uma vitória ao “intervalo”. Chegados a sua casa, ainda nem os seus adeptos estão bem sentados e já o FC Porto oferece mais um golo. Que fazer a seguir? Com um campeonato de Inglaterra, finalmente, ao seu alcance; com caminho desbravado na Liga Europa e com o campeão em título a dar brinde atrás de brinde? Que fazer? Fizeram o óbvio. Sentaram-se à espera do próximo brinde. Deixaram-nos jogar até onde queriam, com o nosso “ponta de lança a carvão” a fazer cócegas e à espera de nova benesse nossa. Haveria de chegar, mais cedo ou mais tarde.

Dirão que a reacção do FC Porto ao golo foi boa. Sim, foi. Foi boa até onde o Manchester City deixou ser e/ou até onde a equipa do FC Porto podia ir com as suas limitações. Os jogadores são briosos e há talento no FC Porto. Mau era se assim não fosse. Hulk tentava carburar, James fugia da ala para dar criatividade em movimento pelo centro e Varela falhava na cara do guarda redes.






Ainda assim, na primeira parte, são do Manchester City os lances de extremo perigo. Sempre isolados e sempre em decurso de brindes concedidos pelo FC Porto. Valeu Helton, valeu a barra e valeu eles não estarem para se chatearem. Haveríamos de falhar outra vez. Uma defesa que não se fecha sobre si mesma, vai falhar. Os laterais a não fecharem o espaço entre si e os centrais e centrais que repelem-se. Os extremos não se juntam aos médios na altura de defender. Está servido o cocktail.

Veio o descanso. Mancini diz a verdade. Por eles, estava tudo bem. Eliminatória quase fechada, jogo controlado, descanso activo que Domingo há jogo.





Vítor Pereira mente. Tudo na mesma, como a lesma. Falta um ponta-de-lança, mas o que está no banco fica bem esquecido. Falta-nos um extremo no flanco esquerdo, alguém que ganhe as costas a Richards, que apanhe os centrais pelo flanco e que liberte Alex Sandro da pressão de Nasri. Faltar até falta, mas a coisa vai arranjar-se por si.

Entram as equipas em campo. O Manchester City impõe-se. Mostra logo quem manda. Só para ter a certeza que não nos tínhamos esquecido. Jogadores sempre a receberem em velocidade, tabelas em progressão, movimentos verticais ou diagonais. Depois da lição relembrada, vão dormir. O FC Porto aproveita e volta a entrar em jogo. Sempre em esforço individual, sempre com recepções paradas e sem progressão. Mesmo assim, o FC Porto chega ao golo, que seria anulado por fora de jogo. Mancini inquieta-se e mete logo verdade no jogo. Chama Milner para aumentar a rotatividade do meio campo e retira um dos cães de guarda da sua defesa. Com Milner, a bola circula em velocidade pelo meio campo do Manchester City e Lucho é varrido do jogo. Vítor Pereira reage e mente. À substituição de Otamendi por lesão, adiciona a de Rodríguez por Varela. Nem ficamos com o ponta-de-lança que necessitávamos, nem com o ala precisávamos.

Mancini repara na mentira de Vítor Pereira. Volta a meter verdade em jogo. Tira Nasri, puxa Milner para o flanco direito (aumenta o tormento de Alex Sandro, sozinho e frente a um jogador fresco e muito rotativo), baixa Touré e coloca Kun Agüero nas costas de Dzeko, o ponta-de-lança. Mancini, na frente da eliminatória e do jogo, faz o que Vítor Pereira não faz. Meter um ponta-de-lança.

Com tanta mentira, teria que vir o castigo. Mais um brinde e este com extra. 2-0 para o Manchester City e Rolando expulso por protestos (o que para um capitão da equipa é brilhante).
Fartos de mentiras? Só mais uma para rematar, pode ser?
Eliminatória perdida, 10 minutos para jogar, 10 jogadores em campo. Que fazer? Salvar a cara? Tentar ficar com este resultado?







Mancini levanta logo o dedo e diz logo de sua verdade. Sai Agüero e mete Pizarro. Chegados aqui, vamos lá ver até onde isto vai! Deve ter pensado o Italiano. Vai na volta, ainda goleamos e ganhamos mais um jogador para a luta no plantel.
Vítor Pereira, claro, mente! Tenta trancar a porta. Dá as voltas à chave, mas esquece-se de, em primeiro lugar, fechar a porta! Tira James e entra Defour. Continua Lucho, já há muito ausente. Sai o falso extremo, expondo Alex Sandro à descarada.






O 3-0 nasce em desespero de Alex Sandro e o 4-0 no ridículo em que o FC Porto havia se transformado. Perdidos entre as tabelinhas dos jogadores do Manchester City e a incapacidade de lidar com a loucura táctica que os comandava. Os jogadores do FC Porto acabam, pateticamente, a defesa de um título brilhantemente conquistado na temporada passada. O 6-1 final, de uma equipa que começa a sua jornada Europeia no pote 1 da Champions, é devastador. Dignidade? Perdeu-se.


Fernando Pessoa que me permita:

“Vítor Pereira é um fingidor.
Mente tão completamente,
que chega a fingir que é treinador,
a mentira que deveras sente.”


“Vamos já no domingo fazer pela vida e pelo Campeonato, que é o nosso grande objectivo”.
Assim espero. Que não seja mentira.



Análises Individuais:

Helton – Levou quatro. Podiam ser mais. Podiam ser menos. Sem culpas nos golos e ainda tirou um certo a Touré que seguia isolado.

Maicon – Leva o prémio de menos mau da defesa. Cumpriu a defesa direito e a central. Teve erros (como no segundo golo), mas hoje, passar sem erros seria milagre.

Alex Sandro – E que tal ser empurrado de um avião com um guarda-chuva a servir de pára-quedas? Tentou dar qualidade ofensiva, mas optou quase sempre mal. A defender passou as passas do Algarve. Culpa sua e de quem não o ajudou em campo e no banco.

Otamendi – Primeiro toque na bola, “bazucada” na eliminatória. A seguir, 20 minutos a perder lances para Kun Agüero. Estabiliza. Ganha confiança. Acaba a primeira parte a desperdiçar uma excelente oportunidade. Começa a segunda parte ao nível do início da primeira e, no último acto, sai por lesão. Um pesadelo. Mangala e Maicon já estão à sua frente. Desde há muito.

Rolando – Está visto, não consegue ser o porto de abrigo da defesa. Não consegue serenar, nem orientar. Acaba expulso por protestos. Para um capitão é terrível.

Fernando – Tal como no primeiro jogo, labutou com Moutinho frente ao meio campo do Manchester City enquanto pode. Foi um dos melhores em campo e acaba a central. Com a sua ida para central o meio campo sucumbe.

Moutinho – Deixou perfume em Manchester. Qualidade ofensiva e trabalho de sapa. Pode ser que Mancini estivesse distraído.

Lucho – Não é titular do FC Porto, muito menos, nestes jogos com uma vertente física acentuada. Muito posicional e lento na progressão. Não consegue ganhar as costas aos médios defensivos contrários e ainda soma perdas de bola (como no lance de Kun Agüero à barra). A classe está lá, falta motor.

James – Fugiu sempre que pode para zonas interiores. Foi um dos principais criadores de jogo. Mas enquanto for isto, ou seja, nem carne, nem peixe, não vai ajudar a equipa, nem quem depende do seu jogo.

Hulk – Muito a solo. Foram nos seus pés que nasceram os lances de maior perigo, mas Hulk joga quase sozinho. Sem ninguém na área para fixar adversários, sem ninguém com quem tabelar, sem ninguém para encostar nos seus centros/remates. Precipita-se num jogo individual. Pudera.

Varela – Ponta- de-lança à pressão. Sem arte ou capacidade para a função. Nem com confiança para tais andanças. Esta época, Varela tem vivido numa mediania exibicional, não seria a ponta-de-lança que iria brilhar. Mais vítima que réu.


Sapunaru – Entrou e, rapidamente, afinou pela mediocridade defensiva da equipa. O corte/assistência que faz no 4-0 é bem demonstrativo.

Rodríguez – Tenacidade? Sim. Qualidade? Nem um pingo. Nada.

Defour – Substituição errada e que teve a factura devida. Não foi culpa dele.








Por: Breogán
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