domingo, 8 de março de 2015

POR CADA DRAGÃO QUE CAI..........

A frase é de um ex-jogador e ex-treinador famoso. Não nos era dirigida, mas dadas as circunstâncias do ano de 2015 penso que a posso roubar.

Acabamos 2014 com o craque Indi na defesa ,o mágico Tsubasa no meio-campo, o mago Brahimi no ataque e o grande Jackson no ataque.

Maicon estava caído em desgraça, Marcano era apenas jeitoso, Casemiro era para devolver à procedência o mais rápido possível, Evandro estava no fundo do banco e Tello era o novo barrete (estilo Jeffren) que o Barça nos tinha enfiado.

Indi caiu da titularidade nos Barreiros, Oliver voltou a deslocar o ombro em Basileia, Brahimi anda fora de órbita desde que voltou da CAN e o grande Jackson acaba de cair em Braga.

Se em Dezembro de 2014 soubéssemos que isto ia ocorrer, o normal é que se pensasse que o arranque de 2015 de Lopetegui estaria na mesma bitola do arranque de 2014 de Paulo Fonseca.
Não.

Lopetegui aprimorou a máquina de pressão alta do Porto.

Maicon está-se a levantar. Primeiro gatinhou, depois cambaleou e parece que voltou a andar.
Marcano está firme e hirto como uma barra de ferro. De pé.
Casemiro está um monstro das bolas divididas e tem começado nele a asfixia de pressão alta que o Porto tem revelado desde Fevereiro.
Evandro é o porto seguro. O Médio essencial para todas as equipas modernas. Arranca, passa, fica, dá linha de passe e pressiona sempre com serenidade.

Jogadores como Maicon, Casemiro e Herrera precisam de ter ao seu lado homens adultos e jogadores feitos como Marcano e Evandro.
E Tello? O jogador que em cada 100 remates não marcava 4. Esse não está de pé.

Levantou voo e lá vamos nós pendurados nas suas asas.

Chegou a tua hora Aboubakar. Tu, que tens passado o tempo sentado no banco estilo guarda-redes suplente tens que te levantar para que este Porto não caia.

Hoje, foi preciso que outro Dragão se levantasse para que o Dragão com tatuagem de leão continuasse a planar bem perto da águia.
Estamos quase a sair vivos deste ciclo infernal. Cheios de baixas, com a enfermaria mais preenchida mas com a confiança que a frase de António Oliveira se aplica a este plantel e a este treinador.

O jogo de Braga estava na lista negra da dificil 2ª volta que tinhamos pela frente.
O último onze que tão boa resposta tinha dado contra o Sporting é repetido com lógica.
A partida começa como é costume. Nota-se que a equipa do Porto está cada vez melhor trabalhada a nível de posicionamento defensivo e na forma como pressiona mas há sempre um período inicial nas partidas onde as agulhas demoram a acertar.

Foi assim em Basileia, foi assim contra o Sporting, não foi tanto assim no Bessa (as agulhas demoraram muito mais tempo a acertar) e voltou a ser assim em Braga.

A intranquilidade de Fabiano deu a única oportunidade de golo ao Braga desperdiçada por Zé Luis. Algumas perdas de bola de Brahimi e Herrera deram espaço a que se pensasse que o ponto forte do Braga ganharia supremacia ao ponto forte do Porto.

Durou pouco essa imagem. As agulhas acertaram mesmo e quando Brahimi começou a vir da esquerda para o meio em movimentos diagonais a máquina ofensiva do Porto começou a carburar ao nivel da segurança defensiva que Casemiro  e a linha recuada do Porto davam.

O Porto empurrou definitivamente o jogo para o último terço do relvado, a linha defensiva acampou no centro do relvado e o Braga foi obrigado a fazer desaparecer do jogo Zé Luis, Rafa e Pedro Santos.

Não foi uma questão de querer defender mais ou menos ou de gostar de implementar a táctica do autocarro. Discordo de Lopetegui quando parece que põe as culpas da pouca ambição ofensiva bracarense a uma questão estratégica.

Quando o Porto acerta agulhas, o adversário fica sem opção estratégica. Não sai da toca porque não consegue sair mesmo que queira. Já são exemplos demais para perceber.

A partir da meia hora da 1ª parte o Porto arranca para um segundo terço do jogo em que asfixia o Braga e coloca fora de jogo os avançados adversários sem que o arbitro auxiliar precisasse de levantar o braço.

Aparece Brahimi, continua Evandro, mantem o nivel Tello e Herrera vai-se libertando de Casemiro para se chegar perto de Jackson.

No final da 1ª parte a cara de Sérgio Conceição é um poema. Grita baixinho para a 1º parte acabar depressa e mostra que tem razão quando Tello pela direita em escassos 2 minutos tem 2 oportunidades de golo.

A cara da 2ª parte é a mesma. O Braga a querer que ela nunca mais comece com esperança que a equipa do Porto tivesse desligado o chip e o Porto agarrado aos tornozelos com os dentes bem cravados.

Nada muda. Evandro esperto aproveita que o mundo está a dormir e lança Alex para mais uma jogada de perigo que Aderlan resolve in extremis.

O primeiro a desesperar é Sérgio Conceição. Se os seus avançados estavam fora de jogo o que um treinador tem que fazer é procurar devolver-lhes o jogo. O problema estava no meio-campo que estava encostado às cordas (leia-se centrais).

O facto de entre a dupla Aderlan/Pinto e a dupla Tiba/Danilo não existir nada obriga os médios a encostarem-se demasiado atrás sempre que uma equipa que lhes é superior toma conta da partida.

Substituir Zé Luis por Eder ou Rafa por Agra é pedir à sorte que resolva um problema que requeria trabalho.

Casemiro, Evandro, Herrera e até Brahimi, Alex e Jackson eram força a mais para 2 homens. Era essa a força que subjugava o Braga.
Em vez de passar a ter 2 avançados em jogo, Conceição teimou em manter 3 de fora.

Lopetegui responde mal. A equipa estava colectivamente bem, a apertar o Braga e o curso do jogo fazia crer que Fabiano continuaria a olhar para as pedras do Estádio enquanto o Braga ia sendo empurrado para cada vez mais perto de Matheus.

Lopetegui pensou que compensava perder o controle se com isso ganhassemos uma pitada de criatividade.

Eu não penso assim. Se pensasse quem iria para ali era Quintero e não Brahimi.

Quintero é melhor 10 que Brahimi especialmente se estivermos no minuto 60 de jogo.

Perde menos bolas e é mais maestro do que interprete a solo.

A partir desse momento o jogo fica estranho e salpicado por uma série de acontecimentos em que se destaca a lesão do melhor jogador do Porto e do campeonato.

Quaresma não consegue entrar bem no jogo mas o Braga não consegue aproveitar a abébia do Porto que dá uma ligeira folga ao nó que lhes apertava o pescoço.

O jogo sai do último terço do meio-campo do Braga mas não entra no nosso.

Até que numa reposição de bola de Matheus, Alex Sandro ganha o lance áereo e Tello imediatamente liga o chip baliza que tem no cerebro. Na recepção, no passe a Aboubakar e na aceleração.

Aboubakar responde mobilizando Aderlan e soltando o passe na hora certa para que o Bolt Tello ajeitasse o corpo à batedor de raguebi para se enquadrar com a baliza e finalizar com suavidade e classe.

Conceição é mais rápido a responder ao 0-1 e planta Pardo em cima do amarelado Alex Sandro. Lopetegui vacila uns minutos mas é obrigado a dar mais um médio à equipa para que o previsivel caudal ofensivo bracarense não deitasse por terra aquilo que os Dragões que se teimam a levantar tinham conquistado.

Como Rúben Neves tem um perfil diferente do de Herrera, Oliver ou Evandro naqueles últimos momentos acontece à dupla Neves/Casemiro o que tinha acontecido à dupla Tiba/Danilo.

O Porto é encostado atrás mas a linha defensiva responde bem às ténues tentativas dos 9 arsenalistas e do Joaquin Cortés que procurou fazer um espectáculo de bailado nos minutos finais.

Esta vitória saiu-nos das entranhas.

O mês de Março vai-nos dizer se conseguimos sobreviver à queda do nosso melhor Dragão.
So far so good!
 

Análises Individuais:

Fabiano – Uma equipa que está encostada às cordas e não pode sequer empatar jogos com equipas com o poderio do Braga não se pode dar ao luxo de ter um redes que tem saídas extemporâneas daquelas.
Uns 10 cm ao lado e o título seria visto por um canudo devido à encarnação de Krajl em Fabiano.

Danilo – Um jogo certinho. Duro Q.B na pressão, deu profundidade Q.B pela ala e soube defender com a limitação do amarelo da 1ª parte.
É um orgulho vê-lo com a braçadeira.

Alex Sandro – Mais em jogo que Danilo. Com mais trabalho defensivo e com mais responsabilidades no transporte e no desenvolvimento do jogo ofensivo.
Só é possível jogar e amarrar os jogos como o Porto  faz com laterais como estes. São médios, são alas, são defesas. São tudo.

Maicon – Foi o mestre a interromper as transições mais perigosas do Braga na 1ª parte. Está a subir de rendimento de jogo para jogo roçando o nivel do inicio da época quando parecia que era ele que protegia Indi.

Marcano – Perfeito. É o mais calmo, o mais reservado e o mais seguro mas isso conta pouco quando a bola vai no ar. É o 1.º a atacar a bola, o espaço, o adversário. Na disputa desses lances temos o vigor de Fernando Couto na cabeça de Aloisio.
Depois do golo de Tello foi o lider da defesa e o chefe que agarrou a equipa e ajudou Alex Sandro.

Casemiro –  Foi o MVP daquela primeira meia hora enquanto o Porto não acertava agulhas com carrinhos e cortes providenciais.
A sua importância relativa foi diminuindo à medida que a equipa foi crescendo. Esse é o espirito de um 6. Estar lá quando é preciso, saber apagar-se estando lá quando não é tão preciso e ressurgir quando é obrigatório.
Casemiro foi isso na pedreira. Responsável e intransponivel. 

Evandro – O primeiro passe que Evandro falha é aos 55 minutos e na meia-lua adversária. É o melhor a tirar a bola da zona de pressão. É rápido a perceber o que tem que fazer e a 1ª opção é sempre a entrega da bola redondinha a um parceiro livre.
Nesse aspecto tem caracteristicas similares às de Rúben Neves e Oliver.
Quando não há parceiro livre Evandro vai à sua mochila de Sport Billy e arranca com bola de forma vertical (à Herrera) dando origem a livres ou oportunidades de golo (como a do Tello no final da 2ª parte).
Quando o jogo parece que está morto a sua cabeça está bem viva. Baiano ajoelhado a pedir desculpa a Brahimi, metade da equipa do Porto a espreguiçar-se à espera que o jogo retomasse e a equipa toda do Braga com vontade que a 2ª parte ainda não tivesse começado.
Na cabeça de Evandro o jogo não para. Corre Alex.
Isto não é falta de fairplay como acusou Sérgio Conceição. É foco. É a mentalidade de um jogador que nunca hiberna e percebe que em cada segundo há uma oportunidade.
Eu tinha saudades de ver um cheirinho de Lucho na equipa.
Precisa que percebam a importância que tem. Precisa de se achar mais para que jogos como o que ele fez contra o Braga tenham o reconhecimento devido.
Foi mal substituído. Titular de caras na 3ª feira.

Herrera – O acertar de agulhas de que falei na crónica passa muito por Herrera. Quando o mexicano percebe que terrenos deve pisar, quem pressionar e entende o cariz do jogo o Porto instala-se e começa a apertar o nó.
Este perfil selvagem de Herrera precisa de companhia responsável ao lado que lhe dê o tempo que ele precisa para se adaptar ao jogo.
O melhor Herrera foi o do melhor período do Porto (entre os 30-60 minutos). Fica por perceber quem é que puxa por quem.

Brahimi – Um inicio de jogo ao nível do pior Brahimi que vimos. Perdas de bola em zonas perigosas e fintas inconsequentes.
Quando Lopetegui dá Alex e Evandro a Brahimi o argelino pega na equipa e começa a criar perigo mais para o adversário do que para o Porto.
O melhor Brahimi também coincidiu com o melhor período do Porto. Neste caso não tenho dúvidas que o argelino puxa pela equipa, sobe-lhe 2 ou 3 niveis e faz com que a habitualmente inofensiva construção ofensiva se torne potencialmente perigosa.
Eu tinha saudades desse Brahimi. Não precisa de fazer slaloms à Messi. Basta que cumpra o papel de 4.º médio, que seja um foco de perigo que obriga a que 2 ou 3 defesas se juntem à sua volta.
No meio? Não, obrigado. Ele é pior ali, há jogadores melhores que ele ali e quem for fazer o seu papel na ala é pior do que ele. A equipa fica pior.

Tello – Se Tello se lesionar amanhã por 4 meses e o Porto for campeão todas as resenhas que se façam em Junho devem colocar o espanhol como um dos obreiros do título.
Bessa, Dragão, Braga. Se estamos na luta depois deste ciclo infernal a ele o devemos.
Tem sido letal na cara do redes. A jogar assim valeria 50 milhões porque só lá para os 30´s é que vai perder esta aceleração que mata qualquer defesa que não jogue montado numa mota.
A forma como ele se posicionou para bater Matheus foi à Johnny Wilkinson. Espectáculo!

Jackson – Que desgraça, Meu Deus! O pior que nos podia acontecer. Quando Jackson caiu no terreno todo o mundo portista sentiu uma tristeza superior à do golo do Basileia por exemplo.
Vai ser muito dificil que a equipa sobreviva à forma como Jackson joga. Aboubakar é bom mas é muito diferente e não é certo que a equipa perceba e saiba conviver com essa diferença.
Não podemos jogar da mesma forma. Isso é certo.


Quaresma – Entrou mal no jogo. Perdeu-se em alguns individualismos desnecessários mas fico sem perceber se o menor rendimento de Quaresma face aos últimos jogos se deve apenas a ele ou ao facto de ter sido enquadrado num esquema menos propicio (meio-campo partido) ao seu potencial.

Aboubakar – Fundamental nesta vitória. Foi de tal forma perfeito no lance do golo que nem Jackson faria melhor.
No resto da partida tem pormenores que mostram que há ali diamante e movimentações sem bola capazes de levantar os cabelos a um treinador dos juniores.
Aquele lance em que Tello dispara verticalmente em direcção à baliza e Aboubakar responde lá na frente disparando, à defesa central, em direcção a Tello é assustador.

Rúben Neves – Não há jogo em que o portismo não implore pela sua entrada. E o que é engraçado perceber é que não é por portismo que o portismo o pede. São as suas qualidades futebolisticas que a equipa precisa a gritos no decorrer das partidas.
Nessa altura eu não penso na nacionalidade, na idade ou na formação. Quero aquele n.º 36 lá dentro.

 
Ficha de jogo

SC Braga - FC Porto, 0-1
Primeira Liga, 24ª jornada
Sexta-feira, 6 Março 2015 - 20:30
Estádio: Municipal de Braga

Árbitro: Jorge Sousa (Porto).
Assistentes: Álvaro Mesquita e Bruno Trindade.
4º Árbitro: Manuel Oliveira.

SC Braga: Matheus, Baiano, Aderlan Santos, André Pinto, Tiago Gomes, Danilo, Pedro Tiba, Rúben Micael, Pedro Santos, Zé Luís, Rafa.
Suplentes: Kritciuk, Sasso, Salvador Agra (67' Rafa), Éder (59' Zé Luís), Alan, Mauro, Pardo (75' Pedro Santos).
Treinador: Sérgio Conceição.

FC Porto: Fabiano, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Herrera, Evandro, Tello, Jackson Martínez, Brahimi.
Suplentes: Helton, Martins Indi, Quaresma (61' Evandro), Quintero, Hernâni, Rúben Neves (78' Brahimi), Aboubakar (65' Jackson Martínez).
Treinador: Julen Lopetegui.

Ao intervalo: 0-0.
Marcadores: Tello (73').
Disciplina: cartão amarelo a Danilo (38'), Rúben Micael (60'), Alex Sandro (61'), Fabiano (89'), Danilo (90+4').


Por: Walter Casagrande
 
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