quinta-feira, 12 de março de 2015

ANIMALES

ANIMALES


Entre 14 de Abril e 26 Abril temos 12 dias. 4 Jogos. Dois com Bayern / Barcelona / PSG / Real Madrid e afins, a recepção à Académica e para terminar o jogo do ano: a ida à Luz.

O momento de maior alegria da época e que nos deixou a todos orgulhosos do que esta equipa conquistou, pode significar, numa análise realista e racional, que ficou quase impossível transformar este orgulho numa conquista de vulto na época de 2014/15.

É isto que eu penso. Olho para estes jogos de intensidade máxima, deparo-me com a época já avançada e percebo que o desgaste acumulado e as casualidades de cada jogo vão fazendo tombar os nossos melhores.

Penso em 2 jogos com um Dortmund tendo a Académica pelo meio e imagino como chegará esta equipa ao Palco da Luz. Com Gaitan´s, Salvio´s fresquinhos que nem alfaces. 

Com o inevitável andor. Com a obrigatoriedade de ganhar.

Como chegaremos a um desafio destes. Como e quem chegará a um desafio destes?

Este preâmbulo que começa por pintar de negro uma noite de sonho serve apenas para escrever o seguinte:

MESMO COM ESTAS DIFICULDADES E CONDICIONAMENTOS, MESMO SABENDO QUE A CONQUISTA DO CAMPEONATO FICA MAIS DIFICIL:

VALEU A PENA! CLARO QUE VALEU A PENA! NÓS VIVEMOS PARA ISTO! NÓS QUEREMOS VIVER ISTO!

Para correr para os sites de viagens no dia 20 de Março. Para correr para as bilheteiras do Dragão, para guiar furiosamente no trânsito, para chegar a horas de ver o jogo  e sofrer à frente de qualquer TV.

 Foi uma noite de sonho. Queremos viver mais. VAMOS VIVER MAIS!

O Basileia tinha a lição melhor estudada do que o Braga e o Sporting.

A lição n.º1, 2 e 3 é pressionar alto e aproveitar o dogma do sair a jogar e em posse em que o biqueiro à salgueiral é expressamente proibido.

3, 4 e 5 jogadores a morderem os defesas portadores. Pressão total nos que têm maior dificuldade em decidir quando em situações de aperto (Maicon, Fabiano) e naquele que age como nenhuma situação pudesse ser de aperto (Alex Sandro).

O acertar de agulhas demora como é costume. Essa é uma altura em que paira o temor que quando as agulhas se acertassem, a eliminatória já pudesse estar em risco por erro na saída de bola.

Tudo isto termina quando os 2 melhores jogadores em campo têm uma intervenção decisiva que nos coloca em vantagem.

Não sei o que foi melhor. Se o carrinho espectacular de Casemiro, se a forma rápida como ele se levanta ou o passe rápido a isolar Tello.

Brahimi tem o seu momento de redenção. Nós já sabíamos que ele pinga bem a bola por cima da barreira. Já está!

O temor inicial desaparece e as agulhas acertam mais cedo do que o habitual.

Aí entra o pânico. O choque, o gesticular de árbitros e jogadores que faz o silêncio cortante invadir as bancadas do Dragão e bombeiros a sprintar entre o relvado e a linha lateral.

As agulhas desacertam pela parte psicológica e pelas mudanças tacticas que mexem demais com uma equipa que exige muito de quem constrói atrás.

Danilo é o mais linear dos defesas quando a bola lhe cai nos pés. Se tem linha passa, se não tem não inventa.

Alex é o mais talentoso dos defesas quando a bola lhe cai nos pés. Gira, dribla, transporta, passa. O arsenal só não é completo porque falta ter medo. O medo evita irresponsabilidades.

Muda tudo. Alex fica semi-cego. Parece que não se posicionava como um lateral. Jogava meio de lado ficando com as costas numa diagonal em direcção à baliza.

Indi fica mais à vontade mas não é Alex.

Metade da defesa é transformada. O redes transtornado.

 Este é o único período em que se sente que a eliminatória pode ser discutida.

O animal Casemiro, o bordadeiro Brahimi e o relógio Evandro ajudam a evitar que o jogo descaia para a grande área portista e acaba por não se vislumbrar que o 1-1 esteja mais próximo do que o 2-0.

Chegados ao intervalo, tudo muda.

Corre a notícia que Danilo está bem. O animal Herrera saliva e junta-se ao animal que nunca tinha hibernado chamado Casemiro.
Lopetegui acerta ou acerta-se com Alex Sandro e o Porto passa a ter um defesa com quem contar e não desconfiar.

Na 2ª parte foi como ANIMALES. À bruta. À bomba. Sem dó nem piedade.

Correrias desenfreadas, pressões loucas, mais o bordadeiro, mais o relógio. Foi um vendaval de loucura e talento em cima de uma equipa que tentava nadar perante um tsunami. 

Pareciam ANIMALES picados antes da reentrada na arena .

Parecia que estávamos por baixo da eliminatória e aqueles 45 minutos finais eram os últimos do resto das nossas vidas.

Brahimi tricota pela esquerda como umA serpente que encanta  dois ou três defesas e um dos ANIMALES de serviço lança a primeira marrada. 2-0 e estava quase.

Pouco depois surge a prova que o público também joga. O 3.º golo é muito nosso. Das bancadas.

Perante uma lesão de um jogador do Basileia assiste-se a uma troca de passes consciente dos suiços passando a bola com o objectivo de visar a baliza de Fabiano. Só 2 ou 3 jogadores é que pediam para a bola ir para fora de modo a que a equipa médica pudesse entrar.

Todos os outros viram e ignoraram. Vamos mas é jogar.

Frustrada a tentativa de ataque suiço, o Porto recupera a bola que para nos pés de Tello. O espanhol arma-se em bom samaritano e prepara-se para destruir uma jogada de ataque em nome de um suposto fairplay.

Aí, os ANIMALES fomos nós. O Bruá das bancadas foi de tal forma agressivo com Tello que ele lembrou-se que no Dragão não podem morar tolos. Só ANIMALES.

Arranca, leva troçada, confusão, Marcano de fora da 1ª mão dos Quartos de Final.

Abram alas. O REI DOS ANIMALES que joga com sangue a pingar pelos dentes faz-nos reviver os tempos de Celso e Geraldão e sai um coice de mula que testa a resistência das redes.

Estava feito. À Bomba, com marradas, coices e bordados.

Parecia que estava feito. Nesta selva do Dragão havia outro ANIMALE que estava enjaulado há tanto tempo que se instalou a dúvida se já saberia caçar presas.

Aboubakar já tinha mandado uma paulada na 1ª parte. Na 2ª soltou um cacete furioso e o Coliseu de Roma foi teletransportado para o Estádio de Dragão.

ANIMALES. IRRACIONAIS. Coices,marradas, pauladas, carrinhos, cacetadas.

Não saiem daqui vivos! Parecia ser esse o espirito que baixou naquela equipa doida e furiosa que passou a ferro um pobre Basileia.
Quando esta irracionalidade visceral tem um relógio a marcar as horas e o compasso e um bordadeiro de elite não há equipa que saísse viva do Coliseu.

BRAVO!
 


Analises individuais:
 
Fabiano – Quer cumprir o papel de redes do Porto mas nota-se que não está completamente confortável com essa obrigação. Na dúvida, avança como ANIMALE.
Esteve muito bem dentro dos postes e fora dele varreu tudo a eito. Mesmo tudo.

Danilo – Não teve tempo para passar nada até ao minuto fatídico. Gelou o estádio na 1ª parte e incendiou o balneário e os ANIMALES na 2ª com a sua melhoria.

Maicon – Cresce de jogo para jogo ao lado de Marcano. Não tem medo de jogar prático mesmo quando o jogo está controlado. Isso é um sinal muito importante para quem procura um defesa central auto-confiante e que não pense que tem que fazer bonito em todos os momentos.
O seu papel é (ajudar) a fechar a baliza e isso é que interessa. 

Marcano – O espanhol é como um actor que só brilha quando lhe é atribuído o papel principal. Deixou de ser o coadjuvante de Indi para ser o pai de Maicon.
Ajudou o filho a crescer e é o líder efectivo da defesa portista.
Sobriedade, eficácia, responsabilidade, inteligência e agressividade.
É do tipo de jogadores que fazem voar com quem ele joga.
Muito, muito bem.

Alex Sandro – Se pensarmos em todos os atributos técnicos que um defesa-esquerdo deve ter não conheço nenhum no mundo que tenha um arsenal tão vasto.
Dribla parado e em velocidade, fintas com bola ou só com o corpo, velocidade, jogo áereo QB, cruzamento, capacidade de fechar por dentro, forte nos duelos individuais, condução segura com bola.
O nosso Alex tem lugar em qualquer equipa do Mundo e temo pelo dia em que um qualquer jornalista do AS ou da Marca se lembre de dizer que o Tubarão Y o quer.
Rezo para que ele não marque nenhum golo ou faça uma jogada espectacular em jogos da Champions. TEM QUE RENOVAR PRIMEIRO. JÁ A CORRER MUITO.
Na fase em que a equipa demora a certar agulhas é ele o principal transportador. O que conduz a bola para o ataque.
Foi isso que aconteceu até à lesão de Danilo. A partir desse momento a 2ª parte é feita em sofrimento porque tenta posicionar-se para utilizar o seu pé em vez de defender como seria suposto.
Na 2ª parte atina e cavalga no facto de poder alvejar a baliza com outra facilidade fazendo movimentos interiores.

Casemiro – O REI DOS ANIMALES. É uma massa quadrada, com uma condição física invejável, com metade dos fusíveis do cérebro avariados e com os dentes a pingar sangue.
Há um antes e um depois do rendimento da equipa do Porto com este Casemiro completamente avariado do capacete mas intratável.
Se o Porto conseguir ter este Casemiro até aos 70/80 minutos sem amarelo vai enterrar muitos adversários no relvado.
Critiquei-o por não estar no lugar obrigatório da posição 6. Zona central, cabeça de área.
Eu não acho que ele tenha aprendido e que tenha ganho serenidade, cultura ou capacidade de jogar sem bola.
Na realidade este Touro tem cada vez menos paciência para estar quieto. Não há alma que passeia naquela zona central alargada que não leve com os pés, bafo, dentes e cornadas de Casemiro.
Ele avia toda a gente que por lá passe. Salta para uma pressão medonha em qualquer lugar.
Se o passe o engana, a massa quadrada gira e ataca a presa onde ela estiver.
Toda essa agressividade, loucura e sentimento de ter uma energia que não acaba nunca intimida qualquer adversário.
Um médio-centro normal tem medo de invadir certas zonas do terreno porque está lá o Fernando, o Javi Garcia ou o Matic. “É melhor escolher outros caminhos” .
Qualquer médio que jogue contra esta massa quadrada alucinada e assassina não tem um cantinho do relvado onde se possa esconder. Em qualquer caminho ele ataca. Não quer saber de nada e parece possuído pelo DEMO.
Se do ponto de vista estratégico esta irracionalidade é perigosa o que é facto é que me pareceu que a dada altura se um jogador do Basileia via a massa quadrada numa corrida desenfreada em sua direcção só pensava em se livrar da batata quente.
FOGE QUE O GAJO É MALUCO.
Para além de empurrar a pressão do Porto para a frente descarregou a fúria também na bola.
Que tiros MEU DEUS! Que bazucadas! Que ANIMALE!

Herrera – Demora o mesmo tempo a engatar do que a equipa. Depois vê a massa quadrada que esmaga adversários em acção e junta-se à festa em correrias pelo campo fora. Defendendo, atacando, pressionando e em estado puro e selvagem como ANIMALE que é.
Como a energia parece igual ao minuto 1 ou ao minuto 87 acaba por fazer sempre 2ªs partes demolidoras porque quando os adversários estão a vestir o pijama para fazer Ó-Ó o ANIMALE Selvagem está bem acordado e na hora do almoço.
O 2.º golo mostra que há ANIMALES com classe. O 4.º golo mostra que daqueles dentes também pinga sangue.

Evandro – Fundamental, Imprescindível, Essencial, Insubstituível, Único.
O futebol tem coisas estranhas. Por vezes vemos grandes equipas e tentamos adivinhar quem é o responsável por aquilo tudo.
O Paços de Ferreira fica em 3.º lugar e é essencial perceber quem é o herói. É o treinador? O goleador? O redes?
Passa-se o mesmo com o Guimarães. É o André André? É o Bernard? Era o Hernani? Serão todos?
É verdade que há treinadores que fazem qualquer jogador voar. O Porto de Mourinho era assim com Paulo Ferreira, Maniche, McCarthy e afins.
Há treinadores fundamentais na especialização de jogadores. Jesualdo Ferreira com Falcao por exemplo.
Há também jogadores com esse dom. Capazes de fazer voar companheiros que não têm asas ou que não têm potência para o fazer.
Eu vejo as vendas de Licá, Carlos Eduardo, Jefferson, Steven Vitória, Carlitos, Gonçalo Santos…..Quase todos os jogadores do Estoril pareciam craques. Seriam craques?
Era o Marco Silva que os fazia voar?

Não sei a resposta. O que começo a suspeitar é que este relógio brasileiro é dos que enchem o cofre do clube que representam sem saírem do sítio.
Evandro tem a qualidade de passe mais próxima de Oliver.
Evandro tem a capacidade de transporte em progressão mais próxima de Herrera.
Evandro tem a capacidade para definir linhas de passe ofensivas e defensivas mais próxima de Lucho.
Passa, barra, temporiza, arranca, espera, dobra, preenche.
É tudo racional e nada, nada, nada ANIMALE.

Evandro é o Encarregado de Educação da bicharada (Casemiro, Herrera &friends) que devora os adversários à dentada e à cacetada.
Evandro dá sentido à irracionalidade dos companheiros. Dá liberdade às suas loucuras.
Na NBA valoriza-se muito a QUIMICA DA EQUIPA. Evandro é daqueles que realça esse conceito.
Evandro é um relógio. Grandíssimo jogo.

Brahimi – Este Porto só pode sonhar com altos voos na Champions se tiver este Brahimi.
É o MVP da partida porque é ele que está nos momentos que definem de vez a eliminatória.
A mestria do golo, a infernização dos defesas com tricots para aqui e para acolá.
A sedução para a degola de Herrera.
Está no 1-0. Está no 2-0, é o líder do ataque da equipa que todos procuram e foi merecedor da salva de palmas à saída.
Já todos suspeitávamos que ele tinha lugar cativo mesmo com os motores a meio gás.
Acabaram as suspeitas.

Tello – Já chegava de protagonismo. Não fez um jogo de capa de jornal mas percebeu-se que o facto de ter conquistado estatuto dentro da equipa lhe permitiu jogar de uma forma mais adulta.
Experimentou as arrancadas para os passes mortais do ANIMALE mexicano, mas também soube vir para dentro, segurar bola e fazer um jogo mais estilo médio-ala à Gaitan.
O lugar é dele.

Aboubakar – Outro ANIMALE. Inferniza a vida a qualquer defesa esteja em forma ou numa fase (como agora) em que o ritmo parece não ser o adequado.
Senti que não está a 60% do que pode ser quando arranca estilo comboio.
No que toca a milhos e cacetes o ritmo já conta menos. Bola à mercê com a baliza à vista e alguém corre o risco de se aleijar.
Podia ter marcado um golão na 1ª, faz um golão na 2ª e só não bisa porque Quaresma quis homenagear o Batatoon.

Indi – Entrou bem. Ele sabe jogar ali, tem manha, é duro sem se chatear com ninguém, sabe posicionar-se, sabe passar.
Quando saiu Danilo não foi por ali a insegurança na componente defensiva. Perdemos um pouco na capacidade de transporte (não há ninguém como Alex) mas ficou claro que Indi é jogador de Champions e vai continuar a sê-lo.

Rúben Neves – Lopetegui entendeu dar ao Relógio Evandro um auxilio no enquadramento dos ANIMALES sanguinários que lavravam por todo o lado. Cumpriu.

Quaresma – 2 ou 3 arrancadas à Quaresma e 2 ou 3 patetices à Quaresma.



Ficha de jogo:

FC Porto 4 - 0 Basileia
UEFA Champions League, 1/8 final, 2ª mão
Terça-feira, 10 Março 2015 - 19:45
Estádio: Dragão, Porto
Assistência: 43.108


Árbitro: Jonas Eriksson (Suécia).
Assistentes: Mathias Klasenius, Daniel Wärnmark; Martin Strömbergsson, Markus Strömbergsson.
4º Árbitro: Mehmet Culum.

FC Porto: Fabiano, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Herrera, Evandro, Tello, Aboubakar, Brahimi.
Suplentes: Helton, Martins Indi (22' Danilo), Quaresma (79' Evandro), Quintero, Óliver Torres, Rúben Neves (74' Brahimi), Gonçalo Paciência.
Treinador: Julen Lopetegui.

Basileia: Vaclík, Xhaka, Schär, Walter Samuel, Safari, Frei, Elneny, Zuffi, Derlis González, Streller, Gashi.
Suplentes: Vailati, Traoré, Philipp Degen, Ajeti, Kakitani (63' Frei), Embolo (57' Schär), Callà (77' Gashi).
Treinador: Paulo Sousa.

Ao intervalo: 1-0.
Marcadores: Brahimi (14'), Herrera (47'), Casemiro (56'), Aboubakar (76').
Disciplina: cartão amarelo a Gashi (30'), Derlis González (38'), Walter Samuel (49'), Marcano (55'), Safari (55'). Segundo amarelo e expulsão a Walter Samuel (90+1').



Por: Walter Casagrande
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