segunda-feira, 11 de junho de 2012

Kléber o Capixaba.






Capixaba de nascimento, Kléber começa a jogar futebol no Caxias, clube da capital do seu estado – Vitória. Começou aos 14 anos e desafiado de um amigo para fazer um teste. Nem um ano completa no Caxias. Deixa o estado de Espírito Santo para trás e segue para Minas Gerais. É no Fabril de Lavras que prossegue a sua ascensão. O seu talento para os golos salta à vista e transfere-se para o Villa Nova de Nova Lima. 

Já bem mais perto da capital do estado, seria uma questão de tempo para Kléber chamar atenção dos grandes clubes de Belo Horizonte. Aos 17 anos, surge a oportunidade de fazer um teste nos escalões de formação do Atlético Mineiro. Impressiona. É-lhe, imediatamente, apresentado um contracto profissional de 5 anos! Juvenil, mas titular nos juniores, Kléber soma golos e ganha destaque. Ganha os prémios de melhor jogador e melhor marcador em dois torneios na Europa com o Atlético Mineiro (Ennepetal na Alemanha e Terborg na Holanda).





Na equipa principal do Atlético Mineiro, Émerson Leão vive dias complicados com a linha avançada e recorre a Kléber. Aos 18 anos, Kléber chega equipa principal do Galo. Os primeiros tempos são bons. Vai entrando na equipa e marca um golo “salvador” que dá ao Atlético Mineiro o primeiro lugar na fase de grupos do Mineirão. 

 “Apesar da idade, o Kléber chegou aos treinos e apresentou credenciais muito interessantes. Registei dados entusiasmantes em alguns pormenores e decidi dar-lhe uma oportunidade. Era já um futebolista moderno, pouco dado à molenguice e à apatia. Movimentava-se muito bem na frente, detestava estar parado. Nunca foi uma presa fácil para os defesas e não é com a camisola do F.C. Porto que será. Kléber é goleador da cabeça aos pés.”
Émerson Leão, ex-treinador do Atlético Mineiro

Mas o legado de Émerson Leão acabou cedo demais para Kléber. Com Celso Roth nos comandos do Atlético Mineiro, o espaço para um jovem como Kléber diminuiu consideravelmente. Seis meses após a sua promoção à equipa principal, Kléber tem que dar um novo rumo à sua carreira.





Aproveitando um protocolo entre o Atlético Mineiro e o Marítimo, Kléber chega à Madeira por empréstimo e começa por baixo. É na equipa B insular, comandada por Mitchell van der Gaag, que inicia a sua carreira na Europa. Jogo após jogo, começa a bater à porta da equipa principal. Mitchell van der Gaag substitui Carlos Carvalhal no comando da equipa principal maritimista e Kléber sedimenta o seu lugar na equipa principal. Babá é o titular indiscutível da posição, mas vai perdendo terreno, perante a vivacidade e os golos que Kléber traz à equipa. Kléber acaba o ano a titular e termina a temporada como máximo goleador da equipa, mesmo só jogando meia época. 






O seu ponto alto é em Guimarães, no último jogo do campeonato. Vitória de Guimarães e Marítimo ainda disputam a última vaga de acesso às competições europeias. Ao Marítimo, só a vitória em terreno alheio valeria para alcançar esse feito. A equipa da casa até marca primeiro, mas Kléber, com dois golos ao segundo poste, gela Guimarães. Termina o campeonato com estatuto de revelação e é um dos pontas-de-lança mais apetecíveis do mercado.

O FC Porto, atento, aproveita o defeso para tentar chegar a Kléber. A concorrência era forte e revelou-se traiçoeira. Enquanto o FC Porto negociava com o dono do passe – Atlético Mineiro – os da segunda circular, sobretudo do lado vermelho, espicaçavam o clube insular. Estes, tentando chamar seu ao que não era seu, só libertariam a sua opção para mais uma época de empréstimo se o FC Porto abrisse os cordões à bolsa. Começa o braço de ferro. Nem o FC Porto cedia, nem o Atlético Mineiro aturava mais bebedolas arieiros, nem estes deixavam de zurrar, nem os mesmos de sempre deixavam de espicaçar. No meio da novela, Kléber falha a pré-época e entra aos repelões no Marítimo para uma nova temporada de empréstimo. Isto depois de várias ameaças do Atlético Mineiro de não deixar o jogador apresentar-se na Madeira e de levar o caso à FIFA. O caso empolou de tal forma que ficaram prometidas sequelas para as janelas de transferência seguintes. A época saldou-se por 7 golos em 18 jogos. Ainda assim, notável para uma rapaz de 20 anos envolto numa novela contínua que ainda muito haveria de ferver. Em três épocas de sénior, não faz uma época completa e sem sobressaltos!

Novo defeso, mais episódios. Tal era o desespero que se mostraram faxes particulares de datas diferentes e até para tribunais civis se recorreu. Com os de sempre, claro, sempre eles, a espicaçar. Mas quem anda com as costas direitas, prevalece.



Kléber chega ao FC Porto e as expectativas são enormes. Na directa proporção à novela que durou até à sua chegada (e ainda continua). Ainda assim, o jogador de 21 anos vai alimentando as expectativas com uma pré-época de bom nível (1 golo por jogo), enquanto decorre o “sai, não sai” de Falcao. Falcao sai mesmo e não entra mais ponta-de-lança nenhum. De repente, Kléber, que vinha para (finalmente) assentar e crescer, tem que ir para frente do touro e após uma temporada onde o Dragão tinha ganho tudo. O começo é bom: seis golos em treze jogos, sendo que só em 3 jogos completa os 90 minutos. Mas o Dragão continua a suspirar por Falcao.



A equipa é a mesma, só falta Falcao, mas há Kléber. No entanto, este FC Porto não joga ao mesmo nível que jogava o FC Porto no ano anterior. Entre incompetências, amuos e pouca alma competitiva, o futebol do ano passado esfumara-se. No Dragão reina a incredibilidade. Mas então a equipa é a mesma, só falta Falcao?! Estava criado o bode expiatório perfeito. É a campanha na Champions que precipita o turbilhão. Em São Petersburgo, o FC Porto perde o jogo, perde Kléber por lesão no ombro aos 33 minutos e este perde a possibilidade de se mostrar a Mano Menezes que o chamara à selecção Brasileira. Mas o verdadeiro desastre estava ainda para acontecer. Após os dois jogos com a equipa do 4º pote (APOEL) o FC Porto estava encostado às cordas. A incapacidade confrangedora para ganhar esses jogos levaria a mexidas. Kléber sai do onze titular e é experimentada a versão ofensiva B já testada por Villas-Boas no ano anterior: Hulk a 9.

A partir daqui a queda é a pique. Kléber vira o suplente assobiado preferido do Dragão. Nem mesmo nova chamada de Mano Menezes para a selecção Brasileira levanta moral. A situação bate no fundo num jogo para a taça da cerveja em Janeiro, frente ao Estoril, com Kléber fortemente vaiado pelo Dragão ao intervalo. James e Vítor Pereira amparam a saída de Kléber para o intervalo, mas 45 minutos depois Vítor Pereira admite que Kléber “não teve uma noite feliz”. Se o Dragão já estava encrespado, agora estava caustico, ainda por cima, com a autoridade moral reforçada. Curiosamente, ganha a titularidade de novo no seu ponto mais baixo, de tal forma o barca andava sem rumo. Mas seria o estrebuchar do morto. Novo desastre colectivo em Barcelos (com Paixão no seu melhor!) e eis que surge Janko no plantel. Com Janko o Dragão não franze o sobrolho e Kléber entre terapia de banco e bancada faz a sua travessia do deserto. Até ao final do campeonato só volta a ser titular em 3 jogos. Todos fora (coincidência?). Só no último é que Kléber volta a mostrar o que vale com o hattrick em Vila do Conde, num jogo já sem pressão competitiva. Se tivesse sido sempre assim!



Acaba a época com 10 golos marcados em 33 jogos oficiais. Não vale a pena entrar na aritmética e comparar números com outros pontas-de-lança que passaram no FC Porto. Há quem tenha feito melhor (uns mantiveram, outros desapareceram) e há quem tenha feito pior (uns mantiveram, outros explodiram). O que interessa é perceber o jogador: o seu potencial de crescimento e perspectivar a sua capacidade de resposta. O FC Porto não pode ser impaciente com quem tem claras demonstrações de talento, mas que ainda sucumbe aos seus 22 anos e a épocas sucessivas com pouca estabilidade. O FC Porto sempre foi paciente, sempre foi essa uma das suas forças. Será assim de novo?




Espero que sim.


Por fim, deixo algumas citações sobre Kléber:

“Kléber é um grande jogador, tem uma margem de progressão enorme e vai-se tornar numa referência no futuro. Não tenho dúvidas nenhumas. É bom recordar que os pontas-de-lança que saíram do FC Porto como grandes referências do futebol europeu, não eram esses jogadores quando chegaram ao FC Porto.”
“É um jogador de qualidade que vai provar a sua qualidade aqui no Porto. Vejo-o a trabalhar motivado, a querer evoluir nos comportamentos. Estou satisfeito com o empenho e entrega dele.”
“A qualidade do FC Porto permitirá esse trabalho, com certeza que faremos do Kléber um grande ponta-de-lança, uma referência no futuro.”
Vítor Pereira, treinador do FC Porto

“Ele ainda vai fazer muito pelo clube, só foi pena que tivesse dificuldades físicas para ter de sair. Mas é um jogador com grande potencial e não sou eu que o digo, é o seleccionador do Brasil.”
Pinto da Costa, Presidente do FC Porto

“Trata-se de um jovem com um bom futuro pela frente, mas tem de trabalhar muito. Só com trabalho e suor poderá ultrapassar essa situação e dar ao FC Porto tudo o que os adeptos esperam dele.”
Falcao, ex-jogador do FC Porto

“Ele é um atacante destro, chuta bem e também pode cabecear com qualidade. Apesar do tamanho, a sua agilidade chama muito a atenção. O Kleber não fica apenas dentro da área, tem mobilidade e pode cair pelos lados do campo.”
André Figueiredo, director das categorias de base do Atlético Mineiro

“Ele cresceu muito depressa e, ao contrário do que costuma suceder com os jogadores altos, começou a mostrar uma técnica individual soberba. Era forte na recepção e no drible. Sempre soube como marcar. E isso não se ensina.”
Marcelo Oliveira, treinador de Kléber nos juniores do Atlético Mineiro

“Pessoalmente é um ano um pouco negativo, porque esperava ter mais golos. Acredito que posso render mais com a camisola do FC Porto. Agora, todos os jogadores têm um momento menos bom na carreira e são também coisas que têm vindo a acontecer fora de campo, mas vou ultrapassar isso e voltar a jogar o meu futebol.”

“Admito que a camisola do FC Porto tem peso, mas não para mim e sim para os adversários. Quando entro em campo, sinto orgulho e não o peso da camisola.”
“Eu, afinal, tenho só 21 anos. E estou feliz. Sei que estou evoluindo. É que as coisas sempre aconteceram rápido demais para mim. Nenhuma fase dura mais de um ano até que já venha uma grande mudança.”
Kléber



Por: Breogán
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