segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Fardo Francês!


O futebol é um jogo estranho.
Defrontamos o Braga com as piores individualidades dos últimos 5 anos.
Defrontamos um Braga dirigido pelo que foi o nosso pior treinador dos últimos 12 anos.
Corrigimos o buraco suiço que foi o nosso meio-campo defensivo na 1ª parte do jogo contra o Maccabi.
Vinhamos de 20 vitórias consecutivas em casa, derrubando Chelsea, Benfica, Sporting e Bayern.
A onda era boa.

Nada disto chegou. Porquê?
Porque este Braga não é so Rafa e tem melhores individualidades do que se pensa. Cuidado com aqueles centrais e justiça àqueles dois médios.
Porque este Paulo Fonseca tão mau no Porto tem conseguido construir equipas coesas e competentes em todo o lado que passa, mesmo com aparente excesso de jogadores ofensivos no 11.
Porque este Porto foi uma equipa segura, mandona mas incapaz de meter uma velocidade extra que transformasse boas oportunidades em ocasiões claras de golo. Nunca pedalou uniformemente.

Os primeiros 20 minutos foram Maccabi style. Incapacidade de tomar conta do jogo e dificuldade em o controlar sequer.
Vimos um Braga afoito apesar de não criar perigo e um Porto a apalpar terreno com os 2 jogadores franceses num nivel de meter dó..
Quem agarrou a equipa e a fez puxar para outro nivel foram os jogadores do costume. Os que assumem, procuram o jogo e pelo talento e/ou personalidade não se resignam com o que acontece.
Brahimi e André André.
Puxado, Tello consegue responder e foi atrás. Como peças de dominó o Porto foi-se levantando e começando a empurrar o Braga em direcção a Kritchiuk. Acabou o Braga afoito, começou o Porto controlador e dominador e a criar oportunidades jogando como equipa.

Em quase todas elas esteve o omnipresente André André. Em tabelas, em recargas, em movimentos profundos. Também Layun, Tello, Brahimi e Aboubakar quase que molhavam a sopa perante um Braga que rezava pelo toque do gongue para curar as feridas e não ir ao tapete.

Com este andamento não via forma possível da vitória nos escapar na 2ª parte.

Casillas dormia, tudo morria no eixo central defensivo e mesmo com 2 pesos mortos a tendência era clara.
Lopetegui podia ter mexido logo para tirar o fardo francês de cima mas preferiu dar mais uma oportunidade à equipa



O regresso dos balneários reforçou essa ideia. Danilo, Layun e o próprio Imbula sobem o nivel e parecia que a equipa toda ia remar até ao golo.
O problema do Porto foi o carrossel. Quandos uns subiam de nivel outros desciam.
A equipa estava melhor, com circulação mais rápida e com mais gente a invadir o último reduto bracarense mas os 3 homens do ataque baixaram de nivel.
Aboubakar virou trôpego ansioso, o fundamental Brahimi deixou o talento nas cabinas e Tello – como de costume – esperou que a equipa se lembrasse dele.
Com este figurino viu-se o Porto a empurrar, a jogar melhor mas a ter menos talento no último terço.
Tudo o que foi criado teve mais a ver com qualidade colectiva do que com talento individual. Com passes, recepção e dinâmica de movimentos do que com a capacidade de finalizar bem, fazer aquela finta que desmancha a defesa.
O Porto desta partida teve muitas coisas boas, excelentes movimentos colectivos e individuais, mas nunca conseguiu fazer um cozinhado homógeneo.
Quando os avançados estavam com veia, a equipa não empurrava nem revelava boa dinãmica de movimentação ofensiva.
Quando todo o pack atrasado se revoltou para invadir Braga e procurar o golo faltou-lhes avançados que dissessem presente.
Um Aboubakar dos primeiros 20 minutos ou um Tello/Brahimi dos últimos 25 minutos da 2ª parte chegariam para materializar o amasso quantitativo da 2ª parte.
Lopetegui foi mexendo bem, retirando o fardo francês e dando técnica de passe e chegada à àrea mas nada se alterou. Bueno e Aboubakar foram colocados em boa posição para finalizar mas nunca acertaram de forma decente com a baliza.
Danilo, Layun, André, Indi e Marcano ergueram um muro e deram tudo em velocidade, em aberturas e na garra para que o tempo que faltava chegasse.

Não deu. Este não foi dos jogos onde se pudesse apontar alguma coisa à equipa tirando o espirito amorfo dos primeiros 20 minutos.
Este não é um dos jogos em que se diga que podíamos estar 2 horas que o golo não surgiria.
Este é daqueles jogos que se empata merecendo ganhar e que se ganharia voltando a jogar da mesma forma.
Jogamos pior e merecemos menos ganhar nas partidas contra o Estoril e o Maccabi, por exemplo. Defendendo muito pior e revelando muito mais dificuldades em atacar como equipa e sem excessiva dependência do talento individual do jogador A ou B.

É necessário apenas tirar o fardo francês da engrenagem e ir experimentando se a equipa consegue manter a segurança que hoje revelou com um jogador como Bueno nas costas de Aboubakar.
A equipa está a ser construída e há cada vez menos dúvidas de como bem funcionar.
Falta descobrir um categórico 3.º médio (Rúben ou Bueno?) e definir se se confia na velocidade de Tello ou no superior talento de Corona.


ANÁLISES INDIVIDUAIS

Casillas – Comigo na baliza tinha ficado 0-0 na mesma. Gostei de o ver a sair a um cruzamento e felizmente não o vi fazer mais nada porque não teve trabalho.

Layun – Uma primeira parte murcha à excepção daquela incursão à grande área adversária que terminou com um remate a rasar o poste.
Na segunda parte soltou-se, esqueceu-se que era um rookie e sentiu que tinha que fazer alguma coisa pela equipa como se fosse um capitão com 5 anos de casa. Atirou-se para a frente pelo centro-direita, correu, fez assistências e deixou a pele em campo.
Não foi por ver Layun jogar que Maxi veio a lembrança.

Indi – Foi o mais médio dos centrais. O que mais subiu com bola, o que mais saltou sobre quem recebia a bola de costas no nosso meio-campo. Nunca ficou para trás quando se aventurava nessa pressão alta colando-se ao adversário de modo a evitar surpresas.
Um jogo seguro quer a central, quer a defesa-esquerdo.

Marcano – É raro o Porto disputar uma partida contra 2 avançados em cunha. Marcano e Indi responderam bem com agressividade, dureza QB e foram insuperáveis em qualquer bola dividida.
Na 2ª parte o Espanhol deu ares de Maicon e tentou acelerar a construção de jogo com maior rapidez e mais aberturas de 30 metros.
Boa partida.

Cissokho – Nunca voltes ao lugar onde parece que foste feliz. Cissokho é limitadissimo e mesmo o seu único pé fica áquem do nivel exigivel para o Porto.
Mete o corpo, corre e passa para quem está perto e é isto. Se tivesse a inteligência e o sentido de equipa e das suas limitações como Layun poderia disfarçar.
Assim é mediano demais para ser simpático.
Arrisco dizer que o francês não seria titular indiscutivel em mais do que 5/6 equipas da 1ª liga.


Danilo – Começou mal a partida falhando alguns passes e não complementando a capacidade de recuperação com a imperiosidade de sair a jogar limpo e rápido.
Demorou pouco tempo a recompor-se e fez um jogo em crescendo, varrendo tudo à sua volta no eixo defensivo, libertando André André ao mesmo tempo que o auxiliava na construção com rapidez e qualidade de passe.

André André – AMVP. Always Most Valuable Player. A extremo, a 10 e hoje a 8. Lopetegui ficou escaldado pela 1ª parte do jogo com o Maccabi e achou que aquele meio-campo tinha que ter o melhor 6 defensivo e o melhor 8 defensivo.
André André provou ser o melhor 8 defensivo, mas não atacou menos do que quando joga a 10 e não apareceu menos na área do que quando joga a falso extremo.
Consegue dar rigor defensivo, sem que se sinta falta da carequinha no ataque.
Somado a isto tudo é o piloto mais rápido em pista com bola. Nos pés de Brahimi, Imbula, Aboubakar a bola demora mais 2 segundos por volta do que nas botas de Ivan de La Peña. Acelera e verticaliza o jogo como ninguém.

Imbula – Um dos elos mais fracos da equipa na 1ª parte. Lopetegui tirou-o da zona onde a sua lentidão aquando do inicio de construção é mais preocupante. Deu-lhe área e trabalho de pressão ofensiva mas nada mudou. Se André André é o piloto mais rápido em pista, Imbula é o mais lento. Demora muito tempo a pensar e quando começa a executar a defesa do Braga já recuou uns 10 metros. Não dá tempo para fazer passes profundos nem tão pouco para embalar.
Começa a ser um estorvo para a dinâmica do meio-campo como foi Herrera no inicio da temporada. Na 2ª parte melhorou um pouco mas não o suficiente para que se cogitasse qualquer outra substituição quando Bueno despiu o fato de treino.

Brahimi – Não vale a pena estarmos com irritações. Precisamos tanto dele que se pode dar ao luxo de errar, decidir mal e forçar uma finta para a vaia.
Viu-se isso na 1ª parte. A equipa vivia das pinceladas de Aboubakar até aos 20 minutos mas a partir dai foi Brahimi que pegou na equipa e a fez levantar para uma parte final agradável que merecia a vantagem.
Brahimi é o extremo que se dá ao jogo, que não se esconde mesmo quando tem um defesa-esquerdo frágil. Nessas circunstâncias é necessário dar logo linha de passe para não haver problemas. Isso, para além da capacidade de desiquilibrio individual dá um lugar diferenciador a Brahimi.
Na 1ª parte estava com veia mas na 2ª uma má recepção estraga a assistência de Layun e logo a seguir Boly fecha-lhe a porta e fá-lo sentar no relvado.
Foi pena. Precisávamos do Brahimi da 1ª parte para o assalto final. Arrisco dizer que teríamos ganho.

Tello – Até esteve a um bom nivel na 1ª parte mas sente-se sempre que perante blocos baixos não nos pode ser muito útil.
Já se sente mais confiante para meter a velocidade sem medo de rasgar mas é a equipa que tem que puxar por ele e não o contrário. É essa realidade que lhe dá um mar de distância face a um jogador como Brahimi e nos deixa ficar com um amargo de boca quando pagamos a peso de ouro um bom elemento de plantel como podem ser Varela e Hernâni.

Aboubakar – Espectaculares primeiros 20 minutos, com dribles, passes de letra e instinto de baliza próprios de quem concorre à Bola de Ouro.
Essa foi a pior fase da equipa e a melhor de Aboubakar. A partir daí os  percursos foram opostos.
Enquanto o Porto ia melhorando paulatinamente, Aboubakar deixou o nivel World Class Player e foi rematando frouxo quando podia passar e tornou-se um pouco trengo na recepção.
Se o bom Porto e o nivel WCP de Aboubakar se tivessem encontrado o resultado teria sido outro.

Corona – O Porto precisava de Brahimi. O mexicano demorou a entrar na partida e apesar de mexido e de capaz de se envolver em tabelas com André André não foi o abre-latas necessário para desmontar o castelo erguido pelo Braga.

Bueno – Fez sentido a sua entrada e mostrou o que pode dar como 2.º avançado. Tem tecnica, tem visão, tem baliza mas ainda parece que não atingiu o ponto de intensidade necessário para poder discutir um lugar em vez de esperar por uma oportunidade.

Rúben Neves – Faltou tempo para que o efeito de colocar um jogador de eleição no passe se fizesse sentir. A substituição é bem feita mas quando a equipa se acomodou ao novo e melhor posicionamento já estava em profundo stress com a eminência de 2 pontos a fugir pelos dedos da mão.
A clarividência de Rúben não conseguiu temperar a sofreguidão dos últimos minutos.
Julgo que Lopetegui tinha pensado nesta alteração para o meio da 2ª parte mas a lesão de Brahimi e a vontade de ter alguém mais próximo de Aboubakar atirou-a para 3ª plano.


Ficha de jogo:

FC Porto 0-0 SC Braga
Primeira Liga, 8ª jornada
Domingo, 25 Outubro 2015 - 19:15
Estádio: Dragão, Porto

Árbitro: Artur Soares Dias (Porto).
Assistentes: Bertino Miranda e Rui Licínio.
Quarto Árbitro: Daniel Cardoso.

FC Porto: Casillas, Miguel Layún, Marcano, Martins Indi, Cissokho, Danilo, André André, Imbula, Tello, Aboubakar, Brahimi.
Suplentes: Helton, Rúben Neves (76' Cissokho), Dani Osvaldo, Evandro, Herrera, Corona (58' Brahimi), Alberto Bueno (62' Imbula.
Treinador: Julen Lopetegui.

SC Braga: Kritciuk, Baiano, Ricardo Ferreira, Boly, Djavan, Alan, Vukcevic, Mauro, Rafa, Rui Fonte, Stojiljkovic.
Suplentes: Matheus, Wilson (84' Alan), Luiz Carlos (67' Vukcevic), Crislan, Aaron, Arghus, Marcelo Goiano (17' Djavan).
Treinador: Paulo Fonseca.

Ao intervalo: 0-0.
Disciplina: cartão amarelo a Vukcevic (13'), Marcano (44'), Cissokho (68'), Ricardo Ferreira (73').

 Por: Walter Casagrande





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