segunda-feira, 12 de dezembro de 2016



Quantas mãos levantam um troféu?


Emanuel Leite Jr.

Reza a lenda que, em 1823, um jovem chamado William Webb Ellis, que defendia a Rugby School, teria pego a bola com a mão e corrido com ela até a linha de fundo. Este ato infracionário teria, de acordo com o mito, dado origem a uma nova prática desportiva, o râguebi. A verdade é que apenas em 1863 houve a formalização das regras do futebol, com a criação da Football Association, codificando o desporto em sua forma moderna. E neste código, não era permitido aos jogadores, com exceção do guarda-redes, jogar com as mãos. Em 1871, então, foi fundada a Rugby Football Union. Mas por que inicio o texto relembrando esta cisão do século 19? É que a julgar por dois dos três clássicos já disputados na Liga Portuguesa 20016/17, os árbitros portugueses aparentam desconhecer a regra fundamental que gerou ao mundo dois desportos distintos: o uso da mão. Em ambos os clássicos, o Sporting esteve presente. Porém, na soma das duas ocasiões, foi o Porto que saiu prejudicado.


Não deixa de ser irônico que o Sporting tenha perdido para o Benfica no dérbi da Segunda Circular muito por conta de dois lances em que os jogadores de vermelho usaram as mãos - o que é proibido no futebol, recordemos. É porque no clássico com o Porto, os sportinguistas venceram os Dragões muito à custa de duas bolas: no braço de Gelson Martins (este, a propósito, após um ressalto de um lance livre originado de uma falta que sequer existiu) e na mão de Bryan Ruiz.

A ironia não para por aí. Se em Alvalade o Sporting venceu por 2x1, na Luz o clube treinado por Jorge Jesus perdeu pelo mesmo placar diante do Benfica. O comandante leonino, que após o triunfo sobre os portistas não se queixou dos lances de Gelson e Ruiz, fez questão de apontar o dedo à arbitragem na justificativa da derrota que fez sua equipa cair para a terceira colocação. E com razão, diga-se. Afinal, o primeiro golo benfiquista surge de um contra-ataque que se inicia logo após um penálti cometido por Pizzi, que jogou a bola com a mão dentro da área encarnada. E ainda ficou um segundo penálti por assinalar a favor do Sporting, desta feita por mão na bola de Nelson Semedo.

Feitas as contas, às mãos e aos pontos, o Sporting somou três pontos sobre o Porto. O Benfica somou outros três frente ao Sporting. Se os dois golos sportinguistas tivessem sido devidamente invalidados - como diz a regra, afinal estamos falando de futebol, e não de râguebi -, o Porto teria saído de Alvalade com três pontos do clássico. Já se os dois penáltis tivessem sido assinalados a favor do Sporting - é futebol, e não râguebi -, muito provavelmente teriam sido os leões a somar três pontos na Luz e não os vermelhos. 

Olho para os dedos das mãos e faço um cálculo básico. Somo três pontos ao Porto. Subtraio três ao Benfica. Espreito, então, a tabela de classificação da Liga Portuguesa e como a veria?

Porto 31
Benfica 29
Sporting 27


O que me faz perguntar. Quantas mãos são necessárias para levantar um troféu?


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