sexta-feira, 22 de maio de 2015

VELHOS NO RESTELO!




O tiro de partida para o par de jogos que faltavam para consumar o título do Benfica havia sido dado por Lopetegui na conferência de imprensa de rescaldo da vitória sobre o Gil Vicente quando ficou explicita a raiva, a revolta e a denúncia do que tinha sido este campeonato e como o manto protector tinha aconchegado aquilo que o colo tinha começado a erguer.

Lopetegui percebeu tarde o que a casa gasta. Neste caso “a casa” é a luta interna entre o Porto e o Benfica pela conquista de títulos.
Quem já cá está há mais de 30 anos sabe de trás para frente e da frente para trás “o que a casa gasta”. Apesar de saber mais do que o papa permanece no silêncio por conforto ou cansaço.

Vai daí, o basco teve que pedalar a nossa bicicleta sozinho e, qual deputado sem grupo parlamentar, fazer erguer a sua única voz contra o manto protector da comunicação social maioritariamente afecta ao Benfica, contra o benfica, contra Vitor Pereira e contra os árbitros.
O politicamente correcto que era a sua imagem e a sua forma de estar no futebol tiveram que ser abandonados em nome do que viu e aprendeu enquanto cá esteve.

Esse espirito de revolta comunicacional é o tom certo para quem se preocupa exclusivamente em ganhar não se importando com o preço reputacional que ficará para sempre colado à sua pele.

O protesto, a revolta e o queixume poderia servir como factor agregador da massa adepta e dos jogadores..
Podia ser uma manhosice de Lopetegui. Disparar para o ar para desviar as atenções do que se passa em terra. Podia, mas eu vejo autenticidade na revolta.

Autenticidade e razão para a revolta. O Benfica foi levado ao colo na 1ª volta e esconder isso é aceitar que a quem trabalha no Porto não basta ser melhor.

Pode-se ser melhor e perder. Perdendo, fica-se com o ónus de qualquer perdedor. A incompetência, o nervosismo, a incapacidade de responder à pressão, a incompleta aprendizagem , a falta de unhas para comandar o clube.
Quando se sente que a impotência é mais forte do que a competência há um claro risco de desânimo.
No rescaldo da excelente conferência de imprensa de Lopetegui era fundamental ganhar a derrota.
No final da jornada 32 todos sabíamos que perder o campeonato era uma inevitabilidade.
No final da jornada 32 foi passada uma mensagem fortissima por Lopetegui que ficou na agenda mediática e se prolongou pela semana apesar da tentativa de ridicularização pelo Benfica e seu manto protector.

O campeonato de 2015/16 já se tinha começado a jogar ali. A história do colinho e do manto protector seria tão longa consoante a capacidade que o Porto teria de ganhar a derrota.

Sejamos claros:  Um bom discurso político de um qualquer treinador numa altura em que se está em competição precisa de ser consequente. 

Que a equipa de futebol consiga amplificar o que foi dito em vez de colocar duas almofadas nas colunas da denúncia.
No Restelo o que aconteceu foi que o Porto conseguiu viver um dia tão triste como viveu em Munique ou no Estádio da Luz.
Na Alemanha fomos humilhados. Na Luz perdemos o campeonato de vez.
No Restelo mostramos o que somos. Uma equipa velha de alma, incapaz de ser solidária e que envergonhou todos os que viveram aquela tarde embalados pela esperança de ver o palco do Marquês desmontado por uma semana.  
O discurso de Lopetegui foi soterrado. Aquilo que no fim da jornada 32.º parecia vindo da boca CheGuevara virou José Manuel Coelho. Boçalidades.

A exibição daquela equipa roubou-nos o direito de nos revoltarmos por uma injustiça.
Quem sente vergonha dos seus silencia-se mesmo quando está carregado de razão.
Quem sente vergonha dos seus questiona qualquer verdade.
Se não confio na comunicação social, nos arbitros, na APAF, no Benfica, na Liga e na FPF tenho mesmo é que pôr a boca no mundo.
Se não confio na comunicação social, nos árbitros, na APAF, no Benfica, na Liga, na FPF e............NOS MEUS JOGADORES sou obrigado a estar calado. Só e em silêncio.

O desespero de Lopetegui nos 90 minutos simboliza bem o que qualquer portista sentiu.
Depois de tudo o que passamos fazemos isto? Não há respeito pelo que vivemos?
Como é que somos nós a dar o COLO final ao Benfica 6 dias depois do MANTO PROTECTOR?
Vergonha.

Durante os 90 penosos minutos, o que vimos aquele grupo de 14 Velhos no Restelo fazer é similar ao que se assiste quando as selecções sul-americanas se deslocam a LA PAZ para enfrentar a Bolivia.

Velocidade nem vê-la. Agilidade nem cheiro. Vontade zero. Fadiga de quem está lá dentro e náuseas de quem assistia à forma como o Porto se exibia.

A 1ª parte foi tenebrosa. Para além dos defeitos habituais do rame-rame ofensivo vimos um laxismo na pressão e uma vontade de aproveitar o quentinho do sol que abriu crateras na defesa para Sturgeon, Camara & Ca.

Já passava dos 25 minutos de jogo e o placard era elucidativo:

Belenenses – 2 OPORTUNIDADES CLARAS DE GOLO + 1 LANCE DE PERIGO
Porto – 562 PASSES

Já nem questiono a ignorância do contexto daquele jogo. Fiquei sem perceber se quem estava lá dentro sabia quais as regras do jogo. O Belenenses via aquele rectangulo verde e jogava Snooker. O Porto via aquele rectangulo verde e só pensava no Bilhar às 3 tabelas.

Oliver parecia ser o único que percebia que a bola tinha que ir para perto duma baliza e ao raiar da meia-hora de jogo isola Herrera dando um sinal ao Mundo que podia haver esperança.

Logo a seguir Sturgeon surge isolado na cara de Helton e ficou claro que o 0-0 era uma bençao divina e que até uma desvantagem de 1-0 já seria lisonjeira para o que se estava a passar em LA PAZ.

E do céu, ou da altitude, cai uma estrela. O velho Alex sobe de andarilho ao ataque e cruza para a estrela Jackson facturar. O Bicampeonato do Benfica estava com o carimbo de adiamento.

Estava-se a escrever certo por linhas tortas. É torto ganhar um jogo quando não se merece mas também me parecia certo que o COLO da 1ª volta sofresse mais uma semana.

A 2ª parte começa e Lopetegui desiste da equipa. Viu a injustiça de uma Equipa de Velhos estar a ganhar sem vontade de se mexer e percebeu que nada ia mudar.

Se no ínicio se pode questionar a competência de Lopetegui para fazer passar o seu discurso de conferência de imprensa para o comportamento dos seus jogadores no relvado, será mais fácil de entender a desistência após aqueles 45 minutos iniciais e o inicio da 2ª parte.

“Estes velhos não se mexem para a frente. Estes velhos não tapam atrás. Não vale a pena.”

Aí fez o que grande percentagem de treinadores faz. Procurar um restauro do sistema para um momento de sucesso para ver se o desastre anunciado é evitado.

O que fiz em Setúbal?

“Tirei um extremo e meti um médio. Não joguei cheta mas o Setúbal pouco fez. Dada a 1ª parte da Bolivia e a vontade geriatrica dos meus jogadores é capaz de ser bom negócio arranjar uma forma de matar o jogo.”

E assim foi. A segunda Parte do Restelo foi igualzinha à segunda parte do Bonfim. Bola cá e lá, abre a boca e estica os braços, está um calor do Diabo e quanto está em Guimarães?

A degradação comportamental de quem já não era inferior ao adversário mas não tinha nenhum interesse em ser superior. Como foi possível, Porto?

Não há aqui uma questão tactica a discutir, se devíamos ter mais ou menos avançados ou mais ou menos médios. A atitude foi sempre má, a descontração e a distracção foram sempre a nota dominante. O que interessa o 4-4-2 ou o 4-3-3 quando é este o padrão?

Na 2ª parte o Belenenses já não conseguiu ser perigoso mas foi suando a camisola e fazendo pela vida. Tal como o Setubal há 15 dias também conseguiu sacar uma oportunidadezinha de golo e voilá!

Indi procurava os óculos de sol, Maicon rodava a anca à velocidade de uma lesma cansada e Tiago Caeiro faz um golo JUSTISSIMO que castigava a degradação moral e comportamental daquela equipa velha de alma e sem vontade de ser feliz.

Nos poucos minutos que faltam novo curto-circuito entre quem nunca sabe se está a jogar Snooker ou Bilhar às 3 Tabelas. Não fossem 1 ou 2 bolas paradas que fizeram acumular os jogadores de rosa no ataque e teríamos revivido o momento constrangedor dos passa tempo enquanto passa bolas.

Quem joga contra equipas cujo passatempo é passar bolas nem precisa de queimar tempo.
Adrian inventou um cruzamento perfeito para Jackson. Minuto 92.

A sorte só protege os audazes. Os incapazes ficam orfãos. E bem!



ANÁLISES INDIVIDUAIS:

Helton – Nada a apontar na partida do Restelo. Helton esteve atento e competente mantendo a bitola com que nos habituou desde o regresso.
A Flash é inenarrável.

Danilo -  Este é daqueles que nos habitua a ver sem fôlego após corridas vertiginosas para cima e para baixo. Em La Paz foi mais um para quem correr era um despautério. Fez a ala direita com velocidade à Pirlo. Não se percebe.

Maicon – Ai que me dói as Cruzes. Rotação, agilidade e focalização são coisas de outro planeta. Jamais esquecerei o golo de Tiago Caeiro.

Indi –  Tentou ser sério mas jogou com a mesma sonolência competitiva dos companheiros conforme se pode comprovar no golo do empate.

Alex Sandro  - Tô Nem Aí! Tô Nem Aí! Não me chateie que eu agora não te quero ouvir!
Ao ver Alex Sandro a jogar lembrei-me da letra desta música brasileira. Ver este defesa-esquerdo de nível mundial a jogar com a mentalidade amadora e altiva de quem se acha sempre mais importante do que 90 minutos revolta-me.

Rúben Neves – Estou preocupado com Rúben. A 1ª volta foi melhor do que a 2ª volta.
Na 1ª senti sempre que havia valor acrescentado na utilização de Rúben Neves a titular ou a suplente. Na 2ª volta o “senti sempre” passou a “raramente senti”.
Rúben ganhou peso e massa muscular mas a qualidade de passe ficou curta para quem perdeu agilidade e capacidade de reacção.
Na verdade, hoje vejo o Rúben Neves a jogar a 6 como vejo o Quintero a jogar a 10.
Só é possível em momentos curtos de jogo e de início só em jogos com equipas declaradamente mais fracas. Estão muito bons com bola mas sem bola ocupam uma parcela de terreno reduzida. Casemiro chega a todo o lado e lavra tudo e todos. É como uma pegada de elefante. Neste momento o rasto de Rúben Neves é de formiga.

Herrera -  O que foi aquilo? Stevie Wonder deve ter baixado em Lopetegui para que o mexicano errante se tenha aguentado 90 minutos.
Está há mais de um mês de rastos fisicamente. Como tecnicamente não é grande espingarda o somatório dessas duas realidades diz tudo sobre a sua recente qualidade exibicional.

Oliver -  O puto reguila no Lar de Idosos. Não sabe jogar sem alegria de quem gosta de bola e se diverte a jogar. Deve ser dificil remar sozinho quando não há água debaixo do barco.

Brahimi – Ainda não tinha começado a partida e já Brahimi estava a esticar a camisola porque lhe apertava o pescoço. Mister! Posso tira-la? Praia a sério tem que ser em tronco nu!
Outra exibição horrivel cheia de piruetas e contra-piruetas. Se a maior parte da ala geriátrica que se apresentou no Restelo confundia Snooker com Bilhar aqui o argelino estava  numa de ginástica ritmica.
Um jogo pavoroso. Ao nível de Herrera e Rúben Neves. 

Quaresma -  Foi bem mais proactivo que Brahimi e isso é positivo para quem joga em La Paz.
A vontade de fazer não impediu displicências próprias de quem faz atrasos de cabeça desde o meio-campo. Há um mitico de Abel Xavier para Neno no Estádio Mario Duarte em Aveiro. Ainda bem que Camara não é Dino.
No resto da partida ficou a ideia que era o único capaz de pegar na bola e tentar arrancar com ela sem fazer o obrigatório passe de 1 metro.

Jackson – O lutador costumeiro que marcou um golo improvável e falhou outro obrigatório.
Não consigo ter moral para lhe fazer uma critica justa depois de tudo o que fez no campeonato.

Evandro – Tentou entrar no jogo mas o peso em La Paz é contagiante. O golo do Belenenses começa numa luta por ele perdida no meio-campo. Mesmo com esta marca negativa está bem à frente do  Herrera dos últimos meses.

Hernâni -  Trapalhão e com vontade de fazer a 100 Km/h tudo o que lhe aparece à frente mesmo que sejam curvas apertadas. 

Adrian – Aquele cruzamento fez-lhe merecer a utilização à frente de Aboubakar.


Ficha do Jogo 

Belenenses-FC Porto, 1-1
Primeira Liga, 33ª jornada
Domingo, 17 Maio 2015 - 18:00
Estádio: Restelo, Lisboa
Assistência: -

Árbitro: Rui Costa (Porto)
Assistentes: Miguel Aguilar e Tiago Costa
4º Árbitro: Jorge Tavares

BELENSES: Ventura, Nélson, João Afonso, Gonçalo Brandão, Filipe Ferreira, Pelé, Dias, Carlos Martins, Sturgeon, Camará, Fábio Nunes.
Suplentes: Matt Jones, Tiago Caeiro (72' Dias), Tiago Silva (80' Tiago Silva), Dálcio (57' Sturgeon), Bruno China, Diogo Ribeiro.
Treinador: Jorge Simão.

FC PORTO: Helton, Danilo, Maicon, Martins Indi, Alex Sandro, Rúben Neves, Herrera, Óliver Torres, Quaresma, Jackson Martínez, Brahimi.
Suplentes: Andrés Fernández, Quintero, Reyes, Evandro (62' Brahimi), Hernâni (68' Quaresma), Adrián López (86' Óliver Torres), Aboubakar.
Treinador: Julen Lopetegui.

Ao intervalo: 0-1.
Marcadores: Jackson Martínez (44'), Tiago Caeiro (85').
Disciplina: cartão amarelo a Jackson Martínez (42'), Camará (90+2'), Ventura (90+2').


Por: Walter Casagrande


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