sexta-feira, 1 de maio de 2015

MINUTO 93



O pontapé desesperado de Moutinho. A luta incessante em fast forward de Varela. O passe e desmarca de Kelvin. O passe à penalty do Bayern de Liedson. E o golo que valeu um camponato.

Há uma linha que separa esse desespero do minuto 92 com a calma tranquila do minuto 93 Luz.

A bola está nas mãos de Helton que a entrega rapidamente a Alex.

Alex avança furiosamente para o meio-campo adversário e para. Para e faz um passe recuado para Marcano.

Marcano lateraliza para Maicon. Maicon lateraliza para Danilo.

Danilo faz um passe para a frente na direcção de Jackson que tinha vindo cá atrás cansado que estava de pedir que batessem a bola na frente.

Jackson dá a Quaresma. Quaresma recua para Danilo.

Danilo lateraliza para Casemiro e Jorge Sousa apita. Este é o MINUTO 93.

Se eu não soubesse o resultado diria que ou estávamos a perder 3-0 ou estávamos a ganhar 2-0. Jamais pensaria que havia porque correr e tanto para correr atrás.

Como Moutinho, Varela, Liedson, Kelvin e todos os outros correram.

Se o Minuto 93 é dos mais degradantes da história do Porto do Século XXI por representar um baixar de braços quando a luta ainda não está terminada, o minuto 94 e 95, já depois do apito final de Jorge Sousa, ainda acentuou a incredulidade de ver uma equipa com mais vontade de parabenizar o adversário entre abraços e sorrisos rasgados do que de lutar até ao limite das suas forças enquanto era tempo.
Quem tivesse aterrado em Portugal no minuto 93,94 e 95 daquele jogo diria cabalmente que estava encontrado um campeão justo e um vice-campeão que não merece nem se preocupa em merecer estar no lugar mais alto do pódio.

Já sabemos como este campeonato foi enviesado na 1ª volta. E que se um campeão a quem lhe são dados 8 pontos consegue vencer por apenas 3 é capaz de ter tido um empurrãozão.

E o comportamento do Porto do minuto 1 ao 92 no jogo da Luz? Como foi?

O onze de Lopetegui surpreende tudo e todos. O que seria esperado e compreensível era escolher a equipa-tipo com a tactica-tipo no mais importante desafio do ano.

Não se sabe se quis ser cauteloso porque o Benfica costuma ser uma máquina de ataque quando joga em casa ou se quis garantir que o meio-campo do Porto tomaria conta do jogo e, partindo dessa realidade, abalançar-se para a vitória.

Aos 5 minutos de jogo já se tinha percebido que aquele Porto com um 4-3-3 semi-manco com Oliver a extremo não deixava o Benfica jogar. O Benfica com a sua dupla de avançados, com Gaitan, Pizzi e Talisca não entrou para defender ou renunciar ao ataque.

O Porto consegue tomar conta do jogo e o Benfica tem as dificuldades que nenhuma equipa lhe conseguiu colocar em pleno Estádio da Luz.

Jonas e Lima estão para lá do jogo e da bola. Pizzi e Samaris parecem os ucrânianos a tentar defender a Crimeia perante o exército russo do Dragão.

Se foi essa a intenção de Lopetegui foi bem sucedido. O Porto mandou no jogo durante toda a 1ª parte graças à superioridade numérica que Evandro, Rúben, Casemiro e Oliver(quando descaía) garantiam.

Mandar no jogo é um excelente 1º passo para ganhar. Aquele Porto de Lopetegui conseguiu.

Sucede que ninguém anda só com o 1.º passo. Andar implica o 1.º, o 2.º e mais passos sequenciais.

O Porto manda mas engasga. Continua a não ser capaz de ferir de forma grave qualquer defesa bem organizada seja ela do Arouca, do Boavista e do Benfica.

Domina várias vertentes do jogo de posse mas tem um jogo interior mediano e passa tempo trocando a bola entre jogadores sem que haja um movimento vertical que procure agredir o adversário. 

Na 1ª parte os jogadores que mais tentaram passes verticais foram Maicon e Rúben Neves.

Na 1ª parte dos jogadores que mais passes falharam foram Maicon e Rúben Neves.

Quem jogou mal? Quem falha passes ou quem tem medo de falhar passes?

Pode uma equipa estar mais centrada no passe do que na baliza adversária? Exclusivamente no passe?
Enquanto o Porto trocava a bola, rondava a área adversária mas não conseguia ferir a baliza de Júlio César o Benfica assistia sereno na defesa e totalmente impotente no ataque
.
Se eu pensar na 1ª parte do Boavista-Porto vou encontrar mais semelhanças do que diferenças da 1ª parte do Benfica-Porto.
A equipa que joga em casa subjugada e incapaz de trocar 3 passes e a equipa que joga fora sem rasgo nem talento para criar oportunidades de golo.

Na realidade, só quando Danilo e Alex invadiam o meio-campo adversário é que ficava a percepção que era possivel marcar.
Num desses lances Brahimi atrai 3 defesas, dá para Danilo que cruza de imediato. No meio de 2 ressaltos a bola sobra para Jackson que com a baliza mercê atira por cima antes de levar patada de Luisão.

Aplicando o jargão “A haver um vencedor da 1ª parte....” toda a gente sabe quem seria.
Merecíamos? Depende da benevolência do analista.
Quem manda no jogo merece. Quem se engasga com bola não.

Ao intervalo a segurança do “mando” e da boavistização do Benfica não sossegava o portismo. 

Lopetegui sente o mesmo e tenta, mantendo a tactica, um meio-campo com maior verticalidade. Entra Herrera para ocupar a função de 3.º médio anteriormente ocupado por Evandro que desce para o lugar do substituído Rúben Neves.

Os primeiros sinais parecem confirmar a ideia mas o efeito é muito curto. A equipa continua sem conseguir chegar à área e vai perdendo agressividade na luta pela bola e na pressão permitindo que o Benfica consiga fazer mais do que os 3 passes habituais.

Aí, Lopetegui gasta uma substituição de forma desnecessária não mexendo na tactica nem no perfil dos jogadores ao trocar Brahimi por Quaresma.

O declinio de mando não é estagnado por aí e a bola continua longe de Jackson e Quaresma. Se a bola não chega tanto faz quem lá está porque não é aí que está o problema.

Impaciente e com noção do que se estava a perder Lopetegui esgota as substituições em pouco mais de 15 minutos. Mexer muito indicia que o treinador tinha noção que o tempo corria contra nós e era preciso procurar qualquer coisa que nos permitisse dar uma chapada no jogo e relançar o campeonato.

Mexer muito não implica mexer bem. Neste caso Lopetegui experimenta atacar os últimos 30 minutos (com descontos) com a velha fórmula da 2ª volta do campeonato.

Está lá a defesa tipo. Está lá o meio-campo tipo. E no ataque só falta Brahimi que já se via e tem visto que não está em forma.
A realidade é que o Porto-tipo, com a estratégia-tipo foi o pior Porto da Luz.

Tirando os vergonhosos minutos já criticados não se pode dizer que a equipa não quis ganhar o jogo e que é por falta de atitude que saímos da Luz a zero.

O que é verdade é que não conseguiu jogar com a qualidade ofensiva suficiente para sequer beliscar um Benfica que à medida que o jogo avançava percebia, ao contrário do Porto, que quanto mais segura a equipa estivesse atrás mais perto ficaria de ganhar o jogo e matar de vez um campeonato que já não respirava.

Fejsa e André Almeida foram entrando, segurando a equipa atrás e batendo forte nos tornozelos e canelas dos jogadores do Porto.
Aí sim, faltou atitude à Porto. O benfica é hoje em dia uma equipa mais madura, mais manhosa e mais capaz de jogar em todos os tabuleiros. Bate forte, pressiona alto o arbitro quando o jogo está parado e aproveita-se do espirito pouco guerrilheiro e colectivo que o Porto tem quando a partida se joga após as paragens no jogo.

Naquela 2ª parte se Fejsa fosse jogador do Porto teria sido expulso porque nenhum jogador do Benfica ficaria quieto depois de assistir aos pisões e entradas karatecas. Seriam uns 4 ou 5 a rodear o árbitro, o adversário e a criar o clima propicio ao condicionamento arbitral.

Se Jackson fosse jogador do Benfica jamais ficaria sozinho depois de aproveitar um deslize na marcação de uma falta defensiva.
Não basta pressionar alto de forma competente quando o tempo de jogo é útil. O Porto e os seus jogadores não se podem retirar do jogo e da pressão colectiva no tempo de jogo inutil.

Útil ou inutil o tempo de jogo é sempre jogo. O Benfica liderado pelo Luisão sabe disso.

Com o 4-3-3 tipo o Porto perdeu todo o comando que tinha na 1ª parte e continuou sem criar perigo.

Pelo contrário na 2ª parte Helton teve bem mais sustos do que Júlio César e a haver uma equipa que cheirou o golo foi o Benfica.
Esta análise crua e dura permite-nos concluir que Lopetegui tinha razão quando preparou a equipa para jogar daquela forma e não como todos queríamos.

Quando jogamos como queríamos, com uma equipa mais ofensiva, estivemos perto de perder.

Quando jogamos como Lopetegui escolheu, com uma equipa mais defensiva, estivemos mais perto de ganhar.

De uma forma ou de outra a verdade é que o resultado justo do confronto de Domingo foi o empate. Não tivemos a frescura, a competência e a inteligência de tentar todas as estradas para chegar ao golo.

Esta equipa só tem Plano A.

  

Análises Individuais:

Helton – Uma exibição à medida do que precisávamos. Transmite a todos os jogadores, adeptos e sócios a segurança e tranquilidade necessária para jogos deste nivel.
No minuto 94 e 95 abandonou a tranquilidade e serenidade para dar azo à alegria e ao humor junto do seu compatriota Júlio César o que é perfeitamente compreensivel. Todo o mundo portista fica com vontade de rir, brincar e saltar dois minutos após perder um campeonato.

Danilo – Na 1ª parte há uma diferença entre o Porto engasgado e o Porto que quando ataca parece que pode chegar. Essa diferença dá-se quando Danilo sprinta, se desmarca ou faz o passa e vai.
O ataque sem que os laterais se envolvam não chega a ser ataque.
Na 2ª parte não consegue subir tanto e a equipa ressente-se por ficar sem soluções para cumprir o Plano A.

Maicon – Teve uma distracção indesculpável num lançamento lateral que ia isolando Gaitan na 1ª parte. No resto do jogo foi seguro e agressivo não dando hipóteses ao ataque benfiquista.
É responsável por muita bola perdida em chutão à jogador de raguebi para o meio-campo adversário mas depois de mais de 30 segundos a trocar bolas inofensivas fico sem moral para criticar quem tenta fazer um passe que aproxime a equipa de Júlio César.

Marcano – Tem estado intratável nos duelos, na atenção e na agressividade. O seu perfil discreto desvia as atenções da grande 2ª volta que tem feito.
Tivesse Marcano um penteado à David Luiz e o seu rendimento não passaria incógnito como hoje se vê.
No Domingo esteve como de costume. Muito bem.
Alex Sandro – Na 1ª parte foi outra vez ele o único a transportar a bola de um lado ou outro. O Porto deve ser a equipa no Mundo que mais depende dos seus laterais para conseguir atacar bem. Esta realidade devia pôr os cabelos em pé à SAD que já vendeu um e não conseguiu renovar com outro e a Lopetegui que nem Plano A passará a ter com a ausência dos laterais determinantes.
Na 2ª parte desce de rendimento porque a estrutura de meio-campo lhe dá menos liberdade para subir.

Casemiro -  O único jogador que joga à Porto naquele sentido de WILD WILD WEST das décadas de 80 e 90. Mete medo a toda a gente e não tem medo de nada nem de ninguém.
Entra duro, combate muito e lavra todo o seu território dando descanso aos centrais e tempo aos seus companheiros de meio-campo para construir.
O grande problema é que para o resto da equipa nunca há urgência de tempo. As bolas roubadas por Casemiro são desaproveitadas pela paciência ofensiva da equipa.

Rúben Neves – Há uma diferença entre a exibição da 1ª parte de Alvalade e a exibição da 1ª parte da Luz. Em Alvalade vi um menino perdido sem saber para onde ir, o que fazer e como fazer. A equipa foi passada a ferro e Rúben não sabia onde se meter.
Na Luz vi um homem com pé de chumbo na disputa bela posse de bola, com agressividade a rodos e sem medos. Foi pela proactividade defensiva de Rúben que o Porto esteve muitissimo bem na pressão pós-perda.
Essa proactividade defensiva foi complementada pela proactividade ofensiva. Tentou desmarcar os avançados e teve mais baliza do que bola na sua cabeça.
Desentendeu-se com a equipa por causa dessa disparidade de pensamento e falhou muitos passes ao ponto de chegarmos ao intervalo a pedir a sua saída.
Passaram 15 minutos e julgo que os que pediam a saída perceberam que Rúben estava a ser mais importante do que errático.

Evandro – Continua a fazer tudo bem. O problema de Evandro não está na qualidade do que faz mas na quantidade de vezes que tenta fazer.
Defensivamente faz o que é preciso mas ofensivamente não se dá e não se compromete como a equipa precisa que faça.
Ele passa bem, arranca bem, sabe desviar a bola dos adversários, sabe proteger a bola e sabe posicionar-se.
Precisa de ir além do saber. Fazer mais. Arriscar mais. Deixar de sentir que é um jogador do Estoril a jogar no Porto ou um suplente a jogar a titular.
É jogador do Porto e tem qualidade para poder ser (ou pelo menos lutar) pela titularidade.

Oliver -  O que a equipa ganha em controle de jogo, capacidade e linhas de passe, Oliver perde em rendimento individual.
Ficamos neste limbo sem saber se o que ganhamos colectivamente não é desperdiçado ao castrar o rendimento individual de um jogador tão importante para o colectivo.
Oliver não jogou mal porque não o sabe fazer mas não conseguiu ser protagonista nem a falso extremo nem quando regressou à sua posição natural.

Brahimi – Jogo após jogo Brahimi vai pondo pedras em cima de tudo o que mostrou no arranque da época.
Para Brahimi passar uma bola de primeira a um colega é como ter um Ferrari na garagem e andar de Fiat Uno. Um desperdicio.
Para Brahimi aliviar uma bola quando está sobre pressão na sua grande área é como roubar a carteira dos pais. Uma indignidade.
Na cabeça do argelino actuar como um verdadeiro e responsável jogador profissional de futebol é um desperdicio e uma indignidade.
Fintemos contra o desperdicio e driblemos contra a indignidade.

Jackson -  Mais um jogo inglório em que é um avançado que se tem que encolher até ao meio-campo porque os médios jamais se conseguem esticar para o ataque.
A equipa é ligada mas em contra-mão ao verdadeiro sentido de condução. O da baliza.
Teve oportunidades de aproximar a equipa da vitória mas não conseguiu ser eficaz. Notei falta de frescura que o impediu de estar a pelo menos 80% das suas capacidades.


Herrera – Entrou com o espirito, o compromisso e a velocidade de pernas necessária. Essa entrada foi um balão que esvaziou tão rápido que nem chegou a encher.
Quanto pior a equipa jogava mais discernimento era preciso para voltar a coloca-la nos carris. Herrera não foi jogador para isso o que não é de admirar.

Quaresma – Entrou mal no jogo e não conseguiu fazer melhor que Brahimi. Tem como atenuante ter entrado para uma equipa em perda de rendimento e de frescura que não conseguia chegar junta mais à frente.

Hernâni – Tentou mexer-se e mexer com o jogo mas não conseguiu mais do que um ou dois pormenores técnicos de qualidade e de que um ou dois sprints consequentes.
A atenuante de Quaresma serve também para si. Quando a equipa tentou tapar os pés despatou-se até à cintura.



Ficha do Jogo:

Benfica-FC Porto, 0-0 Primeira Liga,
30ª jornada Domingo, 26 Abril 2015 - 17:00
Estádio: Luz, Lisboa
Assistência: 63.534

Árbitro:
Jorge Sousa (Porto).
Assistentes: Bertino Miranda e Álvaro Mesquita.
4º Árbitro: Manuel Oliveira.

BENFICA: Júlio César, Maxi Pereira, Luisão, Jardel, Eliseu, Pizzi, Samaris, Talisca, Gaitán, Jonas, Lima. 
Suplentes: Paulo Lopes, Lisandro López, Fejsa (64' Talisca), Rúben Amorim, Derley, Ola John (90+2' Jonas), André Almeida (81' Pizzi). 
Treinador: Jorge Jesus.

FC PORTO: Helton, Danilo, Maicon, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Rúben Neves, Evandro, Óliver Torres, Jackson Martínez, Brahimi. 
Suplentes: Fabiano, Martins Indi, Quaresma (55' Brahimi), Herrera (46' Rúben Neves), Hernâni (64' Evandro), Ricardo, Aboubakar. Treinador: Julen Lopetegui.

Ao intervalo: 0-0.  
Disciplina: cartão amarelo a Eliseu (19'), Gaitán (24'), Danilo (47'), Quaresma (59'), Jackson Martínez (61'), Marcano (72'), Fejsa (77'), Maicon (90').



 Por: Walter Casagrande
Enviar um comentário
>