quarta-feira, 11 de junho de 2014

Helton: Violão de Guanabara.



O Homem e o seu percurso:

Com a baía de Guanabara como fronteira, São Gonçalo espreita para o Rio de Janeiro na margem errada. Tão perto e tão longe. É em São Gonçalo que Helton começa a botar os olhos para as belezas da baía de Guanabara e para a ponte Rio-Niterói como o cordão umbilical que liga os seus sonhos de menino ao futebol de gigantes do Rio de Janeiro.

Aos 6 anos, Helton começa a jogar futsal no bairro de Alcântara em São Gonçalo num clube chamado Marajoara. O ala direito não mostrava muita vontade para correr e o talento com o pé era suficiente, mas não deslumbrava. A solução que restava era testar as mãos, poderia ser que os membros superiores fossem mais abençoados. A baliza, para Helton, foi como violão afinado. Só podia sair bom samba.








Com 11 anos festejados, Helton começa a atravessar a ponte Rio-Niterói para perseguir o seu sonho de menino: tentar a sua sorte nos testes dos grandes clubes cariocas. Começa pelo clube das Laranjeiras. O teste do Fluminense é superado com distinção, mas o centro de treinos do Fluminense, em Xérem, era distante demais para as possibilidades económicas da família. Helton experimenta a crueza da sua condição. Adia o sonho, mas não desiste.








De “flu” para “fla”, Helton ruma a testes no Flamengo, que tem um CT mais próxima da sua residência. Mais uma vez, Helton é aprovado. O CT da Vargem Grande é mais acessível, mas o destino volta a fintar a perseverança de Helton. Num momento de lazer, Helton cai de uma árvore e forma um coágulo no cérebro. A única forma de recuperar é repouso absoluto, o que implica abdicar da oportunidade que tinha conseguido no Flamengo.

Recuperado de mais um tropeço da vida, Helton volta à luta. Desta vez, o alvo escolhido é mais modesto. 

Helton tenta a sua sorte no São Cristóvão, um clube carioca situado logo na saída da ponte Rio-Niterói. É um clube com muita história na formação e Helton volta ao trilho do sucesso. Num jogo contra um dos gigantes do Rio, Helton brilha. No fim do jogo surge o convite desse clube: um teste no Vasco da Gama. Ao Vasco já tinham chegado as indicações de Dias, seu antigo colega de futsal, mas a exibição frente ao Vascão é decisiva. No clube de São Januário, Helton é, de novo, aprovado. À terceira seria de vez. Com a Cruz de Malta ao peito, Helton, aos 15 anos de idade, é integrado na equipa júnior de um dos gigantes do Rio de Janeiro. Finalmente, a baía de Guanabara já não é uma fronteira.

Helton continua a sua evolução no Vasco da Gama e em 1997 é convocado para representar a selecção brasileira no Mundial de Sub-20, onde foi suplente. A carreira de Helton já estava no trilho certo. Um ano depois, após uma brilhante campanha na Copa São Paulo (o mais prestigiado torneio Sub-20 interclubes brasileiros), onde leva o Vasco da Gama ao segundo posto, Helton é integrado em definitivo no plantel profissional.

Helton sobe ao escalão profissional do Vasco da Gama como quarta opção para a baliza. Debaixo do espectro de ser emprestado para ganhar tempo de competição, Helton vai aguentando-se no plantel do Vasco. O guarda-redes titular do Vasco – Carlos Germano – arrasta um problema contratual com a direcção do clube cruzmaltino e começa a ser afastado da equipa principal. As oportunidades dadas aos outros guarda-redes do plantel revelam-se desastrosas e Helton vai subindo na hierarquia. A meio da temporada, Helton que começara como quarta opção, era já suplente de Carlos Germano, que ainda mantinha o braço de ferro com a direcção vascaína. No fim da época e com o Mundial de Clubes da FIFA à porta, Carlos Germano é transferido para o Santos, abrindo a janela de oportunidade para Helton. Helton agarra a oportunidade e mostra personalidade e firmeza na baliza. Vasco é vice-campeão Mundial, mas ganha um guarda-redes.






Para enfrentar a temporada de 2000, já não existiam dúvidas de quem usaria a número um do Vasco. Na época de estreia com a responsabilidade da titularidade, Helton conquista a Brasileirão e a Copa Mercosul. Havia nascido um novo ídolo em São Januário! Como cereja no topo do bolo, Helton é convocado para os jogos Olímpicos e é titular.




Helton manteve a titularidade da baliza do Vasco por mais dois anos, até que, o não acordo de verbas na renovação do contracto levam-no a aventurar-se a atravessar o Atlântico. Helton chega a Leiria para representar o clube local. Na época de estreia, é peça fundamental na carreira do clube da cidade Lis na disputa da Taça de Portugal. A União de Leiria chega à final, onde enfrenta o FC Porto. Nem Helton parou os Dragões, mas o seu destino ficaria selado. 

Manteve-se em Leiria por mais duas épocas, sempre em grande nível, até que, finalmente, chega ao Dragão para pegar no ceptro de Vítor Baía.

A transição é suave e progressiva. Helton e Baía coincidem no FC Porto por duas temporadas. Na primeira, Helton é mais suplente que titular, mas na segunda temporada já é ele o dono da baliza. Com a chegada ao FC Porto, Helton começa a ser convocado para selecção principal brasileira. Em 2007, é um dos guarda-redes escolhidos pela canarinha para a Copa América. O Brasil é campeão e Helton soma mais um título. Ainda assim, Helton não consegue sedimentar um lugar na baliza brasileira, onde há um corrupio de guarda-redes a tentarem firmarem-se nessa posição. À selecção só voltará nas eliminatórias para o Mundial de 2010, mas ficará de fora da convocatória final para o torneio na África do Sul. Ao todo, soma 13 internacionalizações pela Selecção Brasileira.








No FC Porto, Helton conta já oito temporadas e com a excepção da primeira, sempre manteve a titularidade. Em oito anos, soma seis Campeonatos, quatro Taças de Portugal e cinco Supertaças. O ponto alto é em Dublin, onde conquista a Liga Europa frente ao Braga. Hoje, Helton é um dos esteios do clube e capitão. 









De violão na folia ou de luvas no ofício, sempre um sorriso do tamanho da baía de Guanabara.


A análise ao jogador:

Helton é um guarda-redes moderno. Hábil com a bola nos pés e incisivo na reposição da bola em jogo. Grande parte do destaque que ganhou quando subiu à titularidade no Vasco da Gama e no FC Porto deve-se à sua capacidade de lançar contra-ataques. Estas duas características tornam Helton um guarda-redes diferenciado dos demais e cativante para o espectador. É um guarda-redes que tem capacidade de participar nos momentos ofensivos da equipa. Uma raridade.

Autoritário quanto baste no jogo aéreo na sua área, Helton possui bons reflexos e uma técnica sólida. É raro vê-lo largar uma bola.

É um líder e sempre disponível para motivar e orientar a equipa. É um reflexo da pessoa alegre que é. Mas no outro lado da moeda, tem tendência a dispersar-se, o que já o levou a ter alguns dissabores em jogos decisivos, no FC Porto e na sua selecção.





Por: Breogán
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