sexta-feira, 10 de abril de 2015

QUARESMA E O TERCEIRO TOQUE.




Finalmente deu para ver 90 minutos de bola de forma relaxada.

Nos últimos meses tem sido sempre uma luta para ir somando os 3 pontos seja pela dificuldade do adversário como pelas vicissitudes dos jogos contra equipas mais fracas como o Boavista e o Arouca.

Com os recursos disponíveis Lopetegui respeita o onze-tipo do Porto que tem feito a época substituindo as peças ausentes pelos directos suplentes.

Não há Maicon, Tello e Jackson avançam Indi, Quaresma e Aboubakar e toca a tentar apanhar a melhor dinâmica do FCP.

O Estoril parecia ter a estratégia correcta para abordar esta equipa do Porto. Jogadores rápidos na frente, pouca pressa em mexer o bloco baixo e paciência para assistir à troca de passes habitual do Porto.

A estratégia parecia boa mas ressuscitar o episódio David Luiz que Jorge Jesus protagonizou acabou por ser um rastilho para o que veio a suceder.

Emídio Rafael ficou no banco e Quaresma acabou por ter como marcador directo  Ruben Fenandes com quem podia pedir meças em velocidade.

O Porto entra como habitual. Parece faltar chispa a esta equipa e algo que a acenda de imediato e dispense o ram-ram habitual que gasta tempo próprio e poupa energias ao adversário.

Contudo, o erro de uma equipa que perdeu rasgo no banco e agora parece nem alma ter ajudou a disfarçar a falta de chispa do Porto.
Ter um jogador como o Quaresma em campo, que vive em permanente pensamento que é craque, que é injustiçado e que merecia jogar sempre também ajudou.

Oliver entrou bem, Brahimi benzinho e Casemiro estava a lavrar mas a ideia que os minutos iniciais transmitiram para os adeptos é que isso não chegaria e íamos ter mais uma daquelas noites longas, de sofrimento e de coração nas mãos.
A falta de alma canária e a chispa Quaresma acabou por nos roubar o conhecimento do final desse filme.
E foi por aí que o jogo se desatou. Quaresma recebia a bola e, como sempre, achava-se no direito de resolver.
Partia para cima do lateral que se limitava a defender com os olhos e a não meter o pé e depois de uma ou duas danças de anca cruzava.
Cruzava mal. Uma, duas, três vezes..

Mal mas cruzava. Quando não cruzava mal a equipa permanecia viciada naquele jogo de troca de passes em que toda a gente se posiciona para receber (inclusive Aboubakar) e quase ninguém para finalizar. 

A dada altura o Porto parece uma equipa de voleibol com distribuidores infinitos. Estamos sempre no 2.º toque e a adulterar o limite dos 3 toques até ao infinito.

O Estoril mansinho, mansinho estava confortável com a ausência de chispa colectiva, com a luta inglória de Quaresma e com os distribuidores infinitos vestidos de azul e branco.

De tanto partir para cima Quaresma fez questão de cruzar, cruzar e cruzar tentando convencer a equipa que isto pode ser voleibol e que ter 10 distribuidores é o caminho mais curto para ter uma mão cheia de nada.

Conseguiu. Distribuiu 2 cruzamentos bem juntinhos à rede (leia-se linha de fundo) obrigando Oliver e Aboubakar a dar corda aos calcantes para chegar a uma bola que era impossível de ser redistribuída. 

A partir daí a chispa colectiva saiu da hibernação e começamos a ver Danilo a galopar, Aboubakar a participar, Brahimi a mobilizar adversários o que perante uns amarelinhos sem rasgo e sem alma nos deu o descanso necessário.

A 2ª parte deu para tudo. Quaresma que já era herói pensou que podia marcar uma posição forte e foi à luta. Eu é que marco o penalti e deixa-me dar um encosto a este e uma chicuelina ao Wagner.

Pelo meio Lopetegui foi poupando os jogadores que parecem acusar maior desgaste físico e foi possível assistir à obra de arte que foi o golo de Danilo após brilhante triangulação com Hernâni e Aboubakar.

Toda a vitória é positiva mas esta não nos traz grandes ensinamentos. A ausência de chispa colectiva com que costumamos entrar em jogo parece estar para ficar.

O contributo de Quaresma pode ser repetível na atitude mas dificilmente encontrará um defesa tão pouco preparado para marcar um extremo seja na velocidade como no conceito de preenchimento de espaço que um lateral deve ter presente.


Análises Individuais

Fabiano – O wrestler de serviço que varre toda a área com cotovelos, joelhos e ombros.
Esteve bem enquanto guarda-redes que defende bolas mas preocupa cada vez mais enquanto wrestler que leva ao tapete qualquer jogador que lhe apareça pela frente.

 Danilo – Grande jogo. Percebe que o peso do precoce anúncio de venda lhe dá mais responsabilidade. Isto, em cima de uma braçadeira de capitão que ele sabe ser outro sinal de comprometimento acrescido.
Jogou como sempre. Sprints pela linha só para dar uma alternativa adicional a Quaresma, carrinhos no limiar da agressividade e do risco para a sua própria integridade física e pormenores de classe e inteligentes que fazem de Danilo o mais completo defesa-direito do mercado. Pode não ser o melhor mas é o mais completo e será, porventura, dos mais sérios jogadores de futebol. Estoril ou Bayern? É-me igual! 

Indi – Como já não se sente titular nota-se que percebe a valia dos minutos que lhe são disponibilizados e faz por mostrar que é competente e merece o lugar.
Fez um óptimo jogo nunca se escondendo e dando o ar de ser o mais interessado em varrer qualquer mancha amarela que se aproximasse.

Marcano – Arrisco a dizer que a nível de projecto, de análise custo/rendimento foi a melhor contratação “espanhola” do Porto.
Um defesa-central deste nível, desta sobriedade e deste profissionalismo devia custar muito mais. Não há portista que não lamente aquela confusão no jogo com o Basileia porque já ninguém desvaloriza a relevância que tem para a segurança defensiva do Porto e do nosso sossego.
Foi derrubado pelo Fabiano Kung Fu e esteve no limiar do KO. Aí mais um pormenor delicioso.
Com o resultado feito, o corpo amassado e os ossos feitos num oito Marcano reentra em campo para fazer um sprint aparentemente desnecessário pela ala direita. A bola parecia que estaria controladapor Danilo mas Marcano mete a 6ª velocidade, vê adversário e Danilo pelo retrovisor e a bola será minha.
A recontagem dos ossos pode esperar.

Alex Sandro – Um jogo discreto mas sem sombras de um jogador que precisa de recarregar baterias para o que se avizinha. O Porto precisa de um Alex Sandro com gás para passar este terrível mês de Abril.

Casemiro – Depois do período fulgurante nos jogos com Sporting, Basileia e Braga que guindou a equipa para vitórias importantíssimas já se suspeitava que Casemiro era mais importante do que o que parecia visível.
Se a sua presença trouxe esses pensamentos a sua ausência na 2ª parte do jogo da Choupana deu certezas.
Este portento físico que morde, lavra e tem tanto de incultura tactica como de vontade indomável é fundamental no modelo de Lopetegui.
No castelo de cartas construído o brasileiro é um Ás que não pode ser mexido porque expõe as fragilidades físicas do resto da equipa.
Contra o Estoril vimos a melhor versão de Casemiro quer no Modo Tractor que no disparo de passes travestidos de misseis que chegavam ao destino com maior acerto do que o habitual.

Herrera – Está numa má fase. Este é o típico jogador que mais se ressente de maratonas de jogos ultra-competitivos porque se envolve muito, porque tenta defender, criar, finalizar e fazer tudo.
A poupança que Lopetegui fez do mexicano tem todo o sentido porque no meio dos 13 Kms de 4 em 4 dias e dos milhares de quilómetros em viagens de avião é preciso preservar o jogador mais vulnerável de todos.

Oliver - Bom jogo. Foi obrigado por Quaresma a dar o 3.º toque que desbloqueia o jogo mas já antes tinha tentado fazer a equipa respirar melhor com passes limpos e dar uma intensidade de jogo ofensivo sempre com o seu motorzinho a bombar.
Continuo a pensar que tem bola de menos no processo ofensivo e criativo do Porto. Deve jogar mais ao centro e ter mais bola porque tem olhos, cérebro e pés para dar sentido ao ataque do Porto.

Quaresma - Pelo que fez na 1ª parte merece o MVP de goleada. Sozinho derrotou a estratégia canarinha e praticamente sozinho obrigou os seus companheiros a perceberem o jogo de voleibol e a largarem o vício da distribuição infinita com aqueles passes para cima da rede que deram os golos decisivos.
Partiu para cima, cruzou, pressionou e mostrou que, por vezes, um indisciplinado tactico pode corrigir os defeitos de uma equipa.
A partir do 1-0 toda a equipa começou a jogar melhor. Distribuíram sempre mas o esforço do n.º 7 lembrou-os que há vida para lá do passe. Há baliza.

Brahimi – O argelino será tão mais importante quanto melhor a equipa o conhecer e souber jogar com ele.
Se a equipa souber quais os terrenos em que ele pode e não pode receber a bola e perceber que o seu perfil é mais desequilibrador do que de organizador vai forçar Brahimi a regressar aos patamares exibicionais do início do época.
O argelino é o outro lado da moeda de Oliver. Não tem que ter tanta bola e precisa de a ter mais à frente.
Não tem que estar no jogo pelo centro e deve envolver-se mais em movimentações pela faixa que transformem cada lance num factor de perigo para o adversário. Apenas para o adversário.
Este foi um jogo em que Brahimi não esteve em grande nível mas em que o seu rendimento beneficiou com o facto de a equipa o empurrar para o seu lugar. Mais à frente, mais descaído e com melhores condições para tentar o 1 vs 1. 

Aboubakar – Fez uma excelente partida. Começou mal dentro da linha do Quaresma + 9 distribuidores. Não faz sentido ter Brahimi e Alex a forçarem a ala esquerda e não ter Aboubakar na área. Não faz sentido ter um ponta de lança mais preocupado em dar uma linha de passe curto interior em vez de se posicionar para finalizar.
Quando esses 20/30 minutos de confusão foram quebrados vimos um Aboubakar a comportar-se como um 9 na área e como um Jackson fora dela. O Porto fez uma boa aquisição e tenho para mim que quando o camaronês for aposta e se sentir importante no 11 inicial teremos uma máquina de fazer golos e sempre candidato ao título de melhor marcador.


Rúben Neves – Entra quando o jogo está resolvido e tenta cumprir o papel que lhe estava destinado por Lopetegui.
A exibição é manchada por uma perda de bola que isola Leo Bonatini na cara de Fabiano.

Hernâni – A atitude de quem entra é a ideal porque o objectivo é o de não deixar morrer a chama da iniciativa e do ataque.
Nesse aspecto de atitude perante a competição e desejo de espremer cada jogada a nota é positiva porque a entrada de Hernâni não se dissolve no mar calmo do “Deixa Andar até ao minuto 90” .
Depois falta somar discernimento, classe e sangue-frio ao positivismo de quem entra e quer fazer. Aí falhou.
Quintero – Não transmite boas sensações. 

Está pesado e é verdade que parece tentar correr e demonstrar o contrário mas a ideia que fica é a de ver sempre uma formiga rechonchuda num jogo de elefantes.



Ficha do Jogo:
 
FC Porto-Estoril, 5-0
Primeira Liga, 27ª jornada
Segunda-feira, 6 Abril 2015 - 20:00
Estádio: Dragão, Porto
Assistência: 29.230


Árbitro: Bruno Esteves (Setúbal).
Assistentes: Venâncio Tomé e Mário Dionísio.
4º Árbitro: Hugo Pacheco.

FC Porto: Fabiano, Danilo, Martins Indi, Marcano, Alex Sandro, Casemiro, Óliver Torres, Herrera, Quaresma, Aboubakar, Brahimi.
Suplentes: Helton, Quintero (72' Óliver Torres), Reyes, Evandro, Hernâni (62' Brahimi), Rúben Neves (53' Herrera), Gonçalo Paciência.
Treinador: Julen Lopetegui.

Estoril: Vagner, Anderson Luís, Yohan Tavares, Rúben Fernandes, Bruno Miguel, Afonso Taira, Filipe Gonçalves, Diogo Amado, Sebá, Fernandinho, Balboa.
Suplentes: Kieszek, Mano, Matías Cabrera, Emídio Rafael, Mattheus (75' Filipe Gonçalves), Tozé (75' Fernandinho), Léo Bonatini (56' Afonso Taira).
Treinador: Fabiano Soares.

Ao intervalo: 0-1.
Marcadores: Óliver Torres (33'), Aboubakar (45+1'), Quaresma (52' pen), Danilo (70'), Quaresma (77').
Disciplina: Cartão amarelo a Rúben Fernandes (31'), Herrera (44'), Filipe Gonçalves (51'), Mattheus (78'), Rúben Neves (88').


Por: Walter Casagrande
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