sexta-feira, 24 de abril de 2015

EXTERMINADOS



O feito heróico conquistado na 1ª mão deu aos portistas o sentimento que era possível chegar às meias-finais e conseguir o inimaginável.

Deu ao mundo a curiosidade de saber se este Porto era mesmo capaz de atirar borda fora o colosso Bayern.
Deu ao Bayern o mesmo medo de ser eliminado que trouxeram o ano passado do Santiago Bernabéu.
Estas 3 realidades foram sendo cozinhadas e agitadas num cocktail que rebentou na nossa cara com estrondo.

O Porto cuidou-se, preparou-se e teve a audácia de pensar que mesmo sem Danilo e Alex podíamos repetir a tactica, a equipa e a estratégia e vergar o Bayern.

O Bayern observou bem a 1ª mão, o que falhou e entrou em campo com os niveis motivacionais em alta e a vontade de nos trocar as voltas e mudar tudo com a mesma equipa.

O Porto, ao contrário do que tenho lido e ouvido, foi exactamente o mesmo.
A estratégia foi a mesma, igualzinha.
A estratégia que nos deu o 3-1 foi a mesma que nos vergou com a humilhação do Allianz Arena.

Quem mudou não foi Lopetegui e o Porto. Foi Guardiola e o Bayern que deram uma lição de inteligência e humildade.

No Dragão o Porto foi casuistico na pressão. Não saltava em cima de Boateng, Rafinha e Bernat da mesma forma que atacava Xabi Alonso e Dante.

Guardiola resolveu esse problema. Tirou Dante da estrada e deu ao Bayern um central que não sendo a última Coca-Cola no deserto é claramente melhor que o brasileiro na qualidade de passe curto, longo e recepção da bola.

Quanto à Xabi Alonso deu-o à morte. Guardiola tirou Xabi da 1ª fase de construção voluntariamente deixando que Jackson o andasse a rondar mas sem possibilidades de o atacar.

Funcionava quase como a marcação individual no andebol. Xabi era dado à morte mas a pressão de Jackson inutilizada.

Quem saía a construir era Boateng e principalmente Badstuber. Recebiam bola e arrancavam com ela até chegarem à fronteira em que Herrera e Oliver os tivessem que pressionar.

Lá chegados o Bayern abandona mais uma das tradicionais armas do seu futebol. O tikitaka sem Plano B.
Badstuber avança e é bola longa e directa para as alas esquerda e direita. O Bayern a jogar da defesa para o ataque, sem grandes toques, nem redes de apoio.

Chegados à ala mais uma mudança face ao jogo do Dragão e ao habitual modelo Guardiola. Forçar a linha de fundo e cruzamentos para a área.

Após o cruzamento mais uma mudança. Estão 2 avançados na área fisicos e capazes de disputar com vigor e inteligência todas as bolas.

O  Bayern, no papel, jogou num estranho 4-4-2 à Inglesa.

Mudou a tactica, mudou a 1ª fase de construção, abdicou do monopólio do jogo interior intercalando-o com o jogo directo, cruzou muito mais do que o costume e apostou no jogo aéreo muito mais do que o costume.

O resultado do Dragão fez com que Guardiola estudasse o Porto ao pormenor, analisasse os pontos fracos do Bayern até à ultima gota e apostasse no efeito surpresa no jogo de volta.

Até nos deu o mesmo onze como forma de anestesia para o vendaval que estava planeado.

O Porto não estava preparado para nada disto.

Nos primeiros 10,15 minutos lá tentou o mesmo método de pressão do Dragão. Aquele que permitiu que o Bayern aplicasse a lição n.º1. Pressionem como de costume e descubram que Dante não está e enganem-se pensando que Xabi  vai estar.

Depois desse período não houve pressão alta porque para haver pressão alta há uma condição necessária e obrigatória. A bola tem que chegar ao ataque.

Dizer que o Porto errou ao não pressionar alto é o mesmo que dizer que o Neuer esteve fraco por não ter feito uma defesa.

Para pressionar alto é preciso conseguir esticar o jogo primeiro tal como para um redes defender é necessário que o adversário remate.

Quem leu a última crónica perceberá que o período mais dificil do Porto foi a 1ª parte do Dragão. 

Marcamos aqueles 2 golos de rajada mas não conseguimos sair do nosso meio-campo em posse como queríamos.

Recordar-se-ão também que elegi Alex Sandro como o que melhor soube conciliar a exigência do modelo de Lopetegui (sair em posse e com passes curtos) com a fabulosa pressão alta do Bayern.

No jogo do Dragão o Porto tinha Danilo, Alex e Oliver como membros técnicos, capazes e esclarecidos para sobreviver à faixa de gaza da pressão do Bayern.

Nessa 1ª parte o Porto nunca passou essa faixa de Gaza mas teve a inteligência de saber perder a bola e a de responder às dificuldades da posse do Bayern com uma boa organização defensiva.

Acontece que naquele jogo o Bayern pressionou muito e bem mas atacou como de costume. Muito passe, muita procura de espaço, muito jogo interior.

A nossa defesa respondeu bem mas o tipo de desafio foi mais no dominio do foco, da atenção e do preenchimento de todos os espaços entre-linhas.

No jogo de Munich tivemos uma dificuldade natural e que devia ser esperada. Já só havia Oliver como membro técnico, capaz e inteligente para tentar passar a faixa de Gaza. No lugar de Danilo e Alex estavam Reyes e Indi. Infelizmente Lopetegui pensou que se podia passar a Faixa de Gaza mesmo assim. Plano A sempre!!!!

Não saímos vivos uma única vez da faixa de Gaza. Não conseguimos sair sequer da 1ª zona de pressão do Bayern e aquela pressão alta que tinha sido tentada logo no inicio do jogo de Munich não pode ser replicada. Tudo morria em Gaza e nada chegava perto de Neuer.

A loucura de querer sair a jogar com jogadores mais fisicos do que técnicos (Herrera, Reyes, Casemiro, Indi, Centrais) e com jogadores muito técnicos mas pouco inteligentes (Brahimi) foi a 1ª pedra no nosso caixão. A responsabilidade objectiva é de quem acha que a forma de caça tem que ser sempre a mesma independentemente da arma com que se caça.


A partir dessa ideia peregrina só havia uma salvação. Confiar na organização defensiva que tão bem se tinha portado no Dragão.

A organização falhou mas foi exemplarmente forçada a falhar pelo adversário.

O Porto tinha 2 defesas centrais a jogar a laterais. Um era obrigatório e outro facultativo.

A escolha de Reyes em detrimento de Ricardo é compreensivel para quem esperava um Bayern comum. Muito jogo interior, algum corpo a corpo e pouco jogo de linha com cruzamentos.

Guardiola engana-nos e mete o Bayern a jogar à inglesa. Quando os centrais que cavalgavam para cima do nosso meio-campo, enquanto Xabi Alonso e Jackson estavam a namorar-se num metro quadrado de relvado, metiam a bola longa para os médios-ala (Lahm, Gotze) o posicionamento de Reyes e Indi era o de defender por dentro.

A partir daí a desmultiplicação de Rafinha e Bernat associada à incapacidade natural de Brahimi e Quaresma de serem 2.ºs defesas laterais construiram a 2ª pedra no caixão.

Reyes e Indi demasiado por dentro, Quaresma e Brahimi sem andamento e as bolas começaram a pinchar na área. Uma, duas, três vezes. Se roubavamos a bola tentavamos o modo de caça com fisga e perdiamo-la logo a seguir. Casemiro ficou perdido porque tinha que jogar 3 passos atrás para ajudar o 2 para 2 dentro da área.

O barco ficou à deriva. Laterais dentro, trinco a deixar de ser trinco para apagar o fogo na área, médios a terem que saltar nos defesas centrais adversários para logo de seguida verem uma bola a por eles  sobrevoar sem apelo nem agravo.

O Bayern com FULL GAS, lição estudada ao pormenor e espirito similar a de quem tinha perdido no Bernabéu na 1ª mão.

O Porto como um barco perdido no Mediterrâneo. A faixa de gaza em cada bola que conquistavamos e perdiámos. Neuer lá longeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

Num dos ping pongs continuos sobre a nossa grande área acontece o improvável. Thiago Alcantara marca de cabeça antecipando-se a Maicon.


Estava aberta a Caixa de Pandora para o total exterminio do Porto em escassos minutos. Perante a tremideira, a surpresa, a impotência e a burrice de quem responde sempre o mesmo a todo o tipo de perguntas juntou-se um redes incapaz de segurar a equipa e lhe devolver a tranquilidade perdida.
Titubeou no 2.º golo e foi outra vez pelo jogo aéreo que o Porto baqueou.

Como se não bastasse o nosso destempero e o FULL GAS do Bayern eles também estavam inspiradissimos marcando mais um golo de cabeça desta vez depois de uma jogada de sonho.
Muller remata, Ressalto em Indi e Fabiano com a flexibilidade de uma velha de 80 anos. QUATRO.
TIREM-NOS DAQUI!!!!

Antes do intervalo ainda havia tempo para o QUINTO.

Se futebol fosse boxe o arbitro tinha tido a delicadeza de interromper a partida antes dos 45 minutos. 1,2,3,4,5,6,7,8,9,....10 e o Porto no tapete.

Como o futebol só acaba ao minuto 45 o Porto foi-se arrastando pelo tapete, KO e à espera que o arbitro acabasse com a agonia.

A ida para os balneários foi o fim da eliminatória e da humilhação.

Se Lopetegui tem toda a responsabilidade por não ter educado e preparado a equipa para dar respostas adequadas e flexiveis a cada contexto do jogo teve os cojones para em 15 minutos fazer mais alterações do que em 8 meses.

Bateu um flashback do Mundial, Lopes incorporou Van Gaal e vamos lá evitar levar 10.

Para não levar 10 é preciso responder (TARDE E A MÁS HORAS) à tactica do Bayern, distribuir os jogadores pelo terreno para fugir da Faixa de Gaza.

Casemiro desce para central não para apagar mas precaver fogos. Ricardo e Indi fazem as alas e o Porto volta a ter um trinco que só se tem que preocupar com o que se passa à sua frente.

O Bayern descansa daquele ritmo infernal, o Porto melhora e cresce e dividimos um jogo já morto.

À medida que Lopetegui vai fazendo substituições marcha-atrás a equipa vai conseguindo chegar cada vez mais à frente até ao momento em que o Porto faz o 5-1.

Quando Jackson cheira 5-2, os 4000 gritam PORTO a plenos pulmões e a cidade inteira salta frustrada com aquele falhanço, lembramo-nos que o morto podia ressuscitar.

A fase final é de uma equipa a correr atrás, com agressividade nos limites do permitido e a expulsão de Marcano acaba por ditar o fim da guerra, da humilhação e do exterminio.

Foram 6 dias de ilusão que acabaram com um terrivel choque de realidade.

O Bayern que errou e depois asfixiou o Porto nos primeiros 45 minutos do Dragão é muito forte para nós.

O Bayern que sucumbiu fisicamente e não conseguiu dar resposta nos segundos 45 minutos do Dragão estaria ao nosso alcance.

O Bayern que entrou com estudo, espirito, agressividade e talento para os primeiros 45 minutos do Allianz Arena é a melhor equipa do Mundo  e só quem seja capaz de o reconhecer é que os poderá travar como fez o Real Madrid o ano passado.

Esse Bayern é inacessivel para todas as equipas do Mundo que a ele não se adaptem.

Quando os apanhamos pela frente e vemos um Bayern preocupado em adaptar-se ao melhor Porto e um Porto fiel ao seu ADN mesmo sem Danilo e Alex a hecatombe está ao virar da esquina.

O choque de realidade diz-nos que o Bayern é, como dizia Lopetegui, o melhor Bayern da história.

O choque de realidade diz-nos que este Porto não é, como parece claro, nem o melhor, nem o 2.º melhor, nem o 3.º ou 4.º melhor Porto dos últimos 10 anos.

O choque de realidade diz-nos que nenhum desses melhores Portos seria capaz de se bater com o melhor Bayern da história.

O que é facto é que foram possíveis aqueles 6 saborosos dias de ilusão que infelizmente não deixarão saudades depois do exterminio.

Cabe a Lopetegui melhorar este Porto, aprender com a humildade e flexibilidade tactica demonstrada pelo melhor dos Treinadores e fazer subir na hierarquia da análise dos últimos 10 anos a qualidade do seu Porto.

 Só assim será possivel que num próximo reencontro se consiga competir sem exterminios nem humilhações.

 

ANÁLISES INDIVIDUAIS:

Fabiano -  Tem culpas no 2.º e no 4.º golo. Tudo isso seria ultrapassável se percebermos que a bitola do guarda-redes não foi muito diferente do resto da equipa mas o que não me sai da cabeça é a sensação “Tirem-me daqui” que ele transparece para todos.
Falta auto-confiança e carisma para dar o grito de guerra que o faça impôr e que lhe permita liderar a defesa e tranquiza-la na tempestade.

Reyes – Pobre Reyes. Foi o primeiro jogo que o vi fazer a defesa-direito na vida. Replicou os movimentos de Indi demasiado por dentro para uma equipa a jogar contra um 4-4-2 british.
Mostrou agressividade descontrolada e falta de serenidade mas não foi por ele que perdemos. Ele foi apenas mais um incapaz de impedir a avalanche bávara.

Maicon – Está ligado ao momento constrangedor da partida quando um adversário com menos 20 cm lhe marca um golo de cabeça nas barbas. Não dominou o espaço áereo, não conseguiu lidar com a dupla de avançados do Bayern e revelou uma estranha apatia sempre que tentava defender com os olhos e à zona situações em que Lewandowski estava na grande área já de perna engatilhada.

Marcano – Falhou onde seria de esperar que a dupla de centrais mostrasse a sua força. Bolas áereas. Vai ter pesadelos com quase todos os jogadores do Bayern que disputaram e ganharam bolas na grande área do Porto.
Na 2ª parte foi Defesa-Central / Defesa-Esquerdo no esquema de 3 defesas e gostei da personalidade e caracter com que acaba a partida. Eu via aquelas entradas agressivas mais como um sentimento de que era possível do que como uma forma de canalizar frustração.
O momento em que ao minuto 88 Marcano se porta como um menino a querer ver a sua equipa das escadas mesmo sabendo que o jogo estava feito comoveu-me. É até ao fim.

Indi – O que Reyes fez mal a Defesa Direito Indi não fez melhor a defesa esquerdo. O bayern marcou golos de um lado e de outro. Nenhum deles conseguiu construir nada de jeito. Nenhum deles foi capaz de fechar a linha.

Casemiro -  O mais sacrificado pela surpresa de Guardiola no 4-4-2. Quando um trinco tem o fogo à sua volta e não sabe para onde se deve virar temos o caldo entornado.
Foi incapaz de mandar onde devia e foi inútil ao tentar ajudar os defesas centrais na luta com Muller/Lewandowski.
Na 2ª parte Lopetegui deu-lhe o papel do Libero e safou-se mais ou menos bem num lugar que não é o seu.

Oliver –Sem fazer parte dum pelotão preparado para responder às adversidades não tem a tarimba para fazer valer a sua luz propria e guiar a equipa.
Tentou pressionar em vão. Tentou construir em vão e foi engolido pela  incapacidade colectiva da equipa que representa.

Herrera – Pensem numa equipa que tenha como modelo de jogo e paradigma o futebol vertical e directo e a pressão campo inteiro de jogadores com 3 pulmões.
Agora metam lá Mata, Gomaa, Xavi, Isco e Fabregas.
Pensem agora uma equipa que tenha como modelo de jogo a posse e paradigma a construção em passe apoiado.
Agora metam lá o Matuidi, o Herrera, o Sissoko, o Yaya Toure e o Vidal.
Não faz sentido querer construir em posse e em passe e pedir para Herrera protagonizar esse filme.
É como contratar o Sylvester Stallone para fazer o Encontro de Irmãos e o Dustin Hoffman para protagonizar o Rambo. Erro de casting.
Herrera é útil e tem nivel para jogar no Porto se não o puserem a fazer filmes em que tenha que decorar 200 paginas de guião.

Brahimi -  O que escrevi na 1ª mão vale para a 2ª. Brahimi é uma perfeita inutilidade para equipas obrigadas a jogar em bloco baixo. É o pior a pressionar alto, é o pior a ajudar o defesa do seu lado em tarefas defensivas, é o mais convencido quando toca a construir bem cá atrás.
Se o cerebro não acompanhar o talento único com os pés temo o pior.
A qualidade que ele tem permitir-lhe-á defender mal, pressionar menos e, mesmo assim, ser um jogador de eleição. Sem meter inteligência no jogo vai morrer rápido.

Quaresma – Tirando a altercação com Bernat a postura de Quaresma foi similar à da 1ª mão. Tentou pressionar quando a bola chegou acima, tentou ajudar quando a bola não saiu de baixo embora sem sucesso como se viu no 1.º golo.
Sai ao intervalo por questões tacticas mas teria sido mais util do que o argelino se ficasse ao lado de Jackson.

Jackson – Qualidade com e sem bola. Impotência para poder fazer algo quando o barco estava a deriva, o pugilista no tapete.
Na 2ª parte a equipa cresce e Jackson rega esse crescimento marcando um golo, fazendo jogo, remates e conseguindo o milagre de fazer renascer a esperança ao portismo.
Craque em todas as horas.

Ricardo – Deu a dinâmica, a entrega e a agressividade descontrolada como é costume contra Bayerns ou Penafieis. Apesar disso não estancou a derrocada porque entre aos 33 com 3-0 e aos 40 já lá estavam 5.
Na 2ª parte Lopetegui arma aquele 3-5-2 Van Gaal o que dá a Ricardo plenos poderes para mostrar a sua intensidade, flexibiildade e talento.
Dos melhores jogadores na 2ª parte e um guerreiro a sério.


Rúben Neves – É certo que o Bayern levantou o pé mas a entrada do miúdo oxigenou a equipa e deu sentido à revolução de Lopetegui ao intervalo.
O Porto teve um trinco preocupado só com o que estava à sua frente e um trinco com qualidade e certeza de passe. Conseguiu passar a sua luz para a equipa e transmite sempre serenidade e tranquilidade no que faz. Quando se está com 5-0 abaixo é fundamental que alguns dos 11 o consigam fazer.
 Excelente jogo.


Evandro – Outra substituição defensiva que fez a equipa atacar melhor pelo controle conquistado do meio-campo.


Por: Walter Casagrande
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